21 maio 2011

modernistas




Mariana vai ao shopping. Um ratinho vasculhando restos na bagaceira após feira pública. Ela olha as vitrines coloridas, confere a maquiagem, dilata as pupilas porque é tanta coisa bonita pela frente. Um mundo inteiro de valores e satisfação. Entra em uma loja, entra em outra, continua entrando e saindo (até quando ela ainda fará isso?) e, pertinho da escada rolante, um encontro. Olá. Tudo bem? Espera. Volta. Amigo de velhos tempos com gosto de chiclete ping pong dois sabores. Por que todo mundo responde tudo bem quando se pergunta tudo bem? Já reparou que é assim? São sempre duas perguntas. Eu olhei pra você e perguntei se estava tudo bem. Aí você respondeu me interrogando se está tudo bem comigo. Por que é assim, hein? Mariana, cabeça bagunçada, faz de um dia de nada, sua plena correlação entre fatos e justa causa. Após ricochetear seu olhar em busca de uma resposta, o amigo, com a boca cheia de gírias antigas, convida a menina para um evento inestimável: ― Que tal nós dois, cinema, sessão soirée? Mariana aceita o convite. Mas vai logo dizendo que paga sua própria entrada. Ando por conta própria. Modernizada. Resposta boa é exatamente aquela que não tem nada a ver. Os dois caminham entre os consumidores. Cada qual com sua sacola de bugigangas, de tédio, de mesmice. Os passantes. E segue uma conversa do tipo tira roupa que eu te explico. O cara é bonito. Sabe que você não mudou nadinha. Mariana se retrai. Como assim? Tanto tempo atrás? Mudei sim. Agora eu funciono. Antes eu apenas tencionava. E um putz grila salta do trampolim. Você cresceu, menina. Está mais condimentada. Do que ele está falando? Será daquilo? Guichê, deixa que eu pago pra você, Mariana aceita a gentileza (não custa nada ceder) e sorri. Cavalheirismo não rima com comício. É caretice braba viver assim. E entram no cinema, bacanas, Mariana e o cara, e a grande tela exibe trailler e já está escurinho. Só falta o drops de anis. Você reparou como a Rita Lee inchou? O cara diz que não. Sentam-se. Pipocam-se. Entreolham-se. E começa o filme. Paramount Pictures presents. O som tá alto, não? O quê? O som. Ela sorri de novo. Mariana fica romântica quando entra em cartaz. O som. O cara confirma que não consegue ouvir. Pipocas e mais pipocas, o filme vai passando. Já imaginou se ainda existisse pausa para ir ao banheiro ou fumar cigarro? Já. Maior corta barato. Mariana se assanha com o linguajar do cara. Não é possível que ele ainda fale como se falava antigamente. Deve ser do tipo que faz aquilo e depois puxa um baseado. Tão antigo. E o tempo passa e o cara deixa pousar seu braço nos ombros da menina. Que é isso? Que coisa mais Anos Dourados. Tão Grease. O cara se rebela. Agora ele invade o limite de espaço e um beijo sonoro atrapalha a plateia. Mariana queima de vontade. Filme chato, não? É. Na sua casa ou na minha? Mariana se agita e diz logo que prefere que seja na casa dela. Moro sozinha, pago minhas próprias contas e considero casamento um mero artifício para nos colocar em categorias de comuns indivíduos. O cara não entende patavinas. Seguem de ônibus, belos coletivos, roçando perna com perna e Mariana comanda o ritual fêmea engole macho estatuto universal. Chegamos. Despem-se. Olham-se. Tudo de igual pra igual. Feminista ardente, Mariana serve o vinho. Na garrafa. Os dois bebem da mesma fonte. Cazuza ao som, amor tranquilo, fruta mordida e, na hora do pagar ver, Mariana enlouquece de bunda pra cima, bovina, doando-se ao seu pastor.






Image by MisOtrasCosas

7 comentários:

Ana SS disse...

Ai, que escrita genial!

Ayanne Sobral disse...

Muito bom teu texto. Muito bom mesmo.

Primeira vez que passo por aqui e, confesso, vou ficar.

Adorei tua escrita.

Eder Asa disse...

Ah, toda ideologia tem um limite. Várias terminam na cama, vejam só. Que bom HAHAHA'

É sempre uma delícia te ler. Como dizem no twitter: Todos ama!

CARLA STOPA disse...

Sua escrita é surpreendentemente fascinante...

Sonhadora disse...

Ah...que saudade, Coolmadre!
E adoro essas indecências que você escreve...

8)

Thomaz Ribeiro disse...

Belo texto. Uma poesia que se insinua no cotidiano.

Antonio Siqueira disse...

Menina, além de ser uma excelente escritora, ilustras muito bem este blog. Parabéns!