04 maio 2011

quinta da boa vista





Era terça-feira, manhã, mês de agosto. Não lembro o dia numérico. Cesta de piquenique e um amor. Você não queria me olhar na cara. Muita vergonha para uma conversa tão sacana. Por que nós pessoas não conseguimos ser o que somos de verdade? Seria tão fácil. Largar o teatro como se larga um vício. Pedrinhas unidas fazem espirais e formam uma estrada de tijolos para o meu amor passar. Eu de casaco e você sem grana. Que sentimento bacana. Mão em mão e um não sei o quê de sorrir ao olhar os macaquinhos magrinhos pulando de galho em galho. Olha lá o jacaré. Não pude acreditar quando você tomou coragem, arfou o peito, se agachou ao lado do réptil pra bater retrato. Que coisa doida. Reino animal e conquista. Andamos um pouco mais e o leão rugiu. Você desatou a falar dos bichos. Bicho isso, bicho mais, bicho versus bicho e eu de sorriso na máscara que dizia te amo sem pena. Eu só queria beijar. Encontramos um lugar reservado. Havia gente caminhando, criança berrando e um pipoqueiro fazendo sermão dizendo que deus havia criado tudo aquilo. A culpa é sempre de deus. Coitado. O lugar que escolhemos era estratégico. Uma árvore, grama felpuda, formigueiro e, de lá, a gente podia ver as tartarugas copulando. Corei ao som. Tartarugas são barulhentas quando copulam. E passam horas. Você partiu para o raciocínio: Tartarugas são lentas. Cágados também. Os jabutis, que são como as tartarugas, também são lentos. Não vejo diferença. Todos têm casco. Assim como navios e barcos. Meu pensamento é tão pueril. Sabe que gosto de ficar nua quando estou em casa? Estou sempre nua. E, quando vou às ruas, me sinto estranha vestindo roupa. Fico do avesso. O costume nos leva a cometer tantos erros. Seu olhar transbordou de graça. Sei que falo bobagem. Admito. Abro a cesta, pego a faca, pote de geleia e sirvo torrada melecada de framboesa. Nós comemos e bebemos em meio à natureza. Santa ceia. Uma joaninha caminha em seu braço. Não mato bichos pequenos. Tenho pena de coisas que não podem se proteger. Mas a joaninha, embora pequena, causa um enorme dano. Narro agora o que me ocorreu no último outono. A história foi longa. Contei o tempo no relógio solar que criei no chão. Um pequeno bastão de madeira e o sol nos informa a hora. Não seria mais fácil perguntar a alguém? Que horas são cai bem em conversa de amantes. Diminui distâncias. A busca por facilidade é o que destrói o mundo, você diz. Veja aquela formiga na pedra junto à jaula do elefante. Veja como ela dificulta seu caminho indo por aquele lado. Ela deveria ter seguido por ali e pronto: já teria chegado. Você gesticula enquanto explica a insensatez da criatura. Estou com a boca cheia de geleia de framboesa. O mundo é só geleia. Estou ouvindo o que você diz com destreza. Não é nosso primeiro encontro, mas eu preciso ouvir. Decorar suas falas, catalogar seus gestos, saber mais de sua espécie até consumir tudo que nunca conseguirei reter. Não perco detalhes. Pausa para o violão. Canção de sobreaviso de ataque animal. Você dedilha com arte e eu observo meiga sua altivez. Você canta e fala enquanto eu penso em Monteiro Lobato. Quando eu era criança eu não procurava motivos. Simplesmente fazia coisas, ouvia regras e me resignava. O clima me deturpou. Você enche o espaço entre nós ao cantar the fool on the hill. Acompanho seu refrão, canto conjunta, admiro suas mãos, seu corpo e seu par de tênis velhos. Admiro até seus poros abertos e as cicatrizes de outros tempos. Admiro tanto que me perco olhando você e sinto que preciso me proteger do combate. Há em mim tanto amor quanto há insanidade. Ao sol da tarde eu vou embora sem dizer nada. Saio de cena sem spot ou contraluz. De longe você acena, diz meu nome e eu fujo. Covarde ou absurda, saio ilesa, ao menos. Dizem que a culpa é de Netuno que entrou no sol e causou estardalhaço. Talvez seja culpa de algo ou alguém. Ou talvez não haja culpa. Estou apenas abreviando meu caminho assim como deveria ter feito a formiga que, confusa carregando peso, não viu o caminho mais fácil e ainda segue de lerdeza através das imensas barras de ferro que aprisionam os leões.











Image by Matthew

7 comentários:

Eder Asa disse...

Mas somos todos meio formigas (apesar de preferir ser cigarra), vivemos dificultando o que já não é tão fácil e cismamos em entrar na jaula do leão pelo caminho mais ingreme.
e você está certa, o mundo é só geléia!

Gostei demais desse, Letícia! É perfeito, como sempre...!

Beijo!

Flor com Espinhos disse...

eu vou reler e ler e reler mais algumas vezes...qdo eu me desencantar, eu comento...

Long Haired Lady disse...

por que fugir?

Alicia disse...

Se a Macabéa, da Clarice Lipector, fosse escritora, escreveria assim.

Não consigo me livrar da imagem mental que fiz dela ao ler esse texto.

Tão simples e tão bonito...doído.

Van disse...

Sempre um escrito lindo que me faz viajar e me perder por suas palavras , Lê ! Adoro tudo ! Me embriago e me completo por aqui. Grande Beijo.

www.vidainversoepoesia.blogspot.com

CARLA STOPA disse...

Também me sinto do avesso às vezes, com roupa ou nua ao vento...Em casa ou na rua...O avesso do avesso do avesso...

Don Mattos disse...

"Day after day..."

Há quem diga que prefira o Ringo, mas, não adianta, o Paul é o melhor!