27 maio 2011

rosário dos delírios





As mãos repousam no colo de meu corpo que não se move. É tarde e o tempo verbaliza o sossego de todas as coisas vivas. O mundo, em aparente estado de luto, adormece indisponível. Cama imensa de me recolher os seios, o ventre, meus desejos e em breve recolherá minha voz. Meus olhos, rosário dos delírios, em retiro, recordam indiferenças. É preciso orar. Antes de qualquer outra fuga, antes que as horas se adiantem absurdas em diárias leituras de horóscopo, antes das obrigações que rompem os dias em surtos despertos de angústia, é preciso orar. Meu réquiem diante vida. Pois todas as noites de estrelas escurecidas eu parto distraída, subtraída dos cenários, anônima anoitecida, casta em substantiva túnica adversa aos sentidos. A modernidade, espetacular em suas desmemórias, anuncia em graves tons de comando que não há vagas para o furtivo lamentar de minha dor humana. Não pode haver dor quando tudo mais é disperso, loquaz, atributos de liquidação. Há planos de viagens, remédios diversos e geométricos sorrisos forçando revoltas em marés. Tudo no mundo é máquina. Sentimentos como este, que cessa água de enamorar gargantas, não é digno de ser dito. É infortúnio e maldição de cume lírico. Em suplicantes centelhas de lágrimas concluo, perante os modernos que vagueiam curiosos por seus futuros, que ainda semeia campos em pés descalços a camponesa que sou. Sofro, em belo cântico solitária, a perda de meu ar romântico. E o corpo se aninha ao frio a contragosto. Deito-me coagulada de lembranças em minhas sequiosas tramas de uma saudade morta e lacrada aos lábios de um tempo anterior. Meu cais partiu contrário aos navios e sou intrusa em casas, em olhares, em palavras e silencio ao desamor. Unidas minhas mãos religiosas clamam por misericórdia e rogo, missionária infame, que o presente me distraia e que de mim nada faça relembrar aquele cuja vaidade se alimenta de meu suplício. Se há o deus e, se este me ouve, suplico que me liberte desta licorosa vergonha de amar abandonada aquele cujo riso zomba de meu temor. Cura de mim a fome não saciada de imagens embaçadas de um passado nascido e malogrado ao ressoar das paixões. Que o deus me ajude, rogo definitiva. Livra-me do sofrimento desapontado, pois que tudo mais é graça e não há vagas para o meu querer demasiado passional de toda arte. Amiúde, mendigo ao deus em sigilo, meu rosto noturno coagido, e peço que esta dor se esvaia pelos caibros e telhados e pelas perversas flores que me lembram efêmeras que o tempo é veloz e tudo mais será esquecimento. Unidas mãos em piedosa sangria, rogo ao deus que eu consiga banir de meus dias as memórias de meu belo e deleitoso discípulo que tanto acariciava minha face com sua fina plumagem em tantas noites já vividas. Que eu o esqueça e que apodreçam suas penas ao desgosto onde nada mais é nascido e tudo mais é morto e violentamente esquecido.







Image by spivakart

9 comentários:

A Escafandrista disse...

achei diferente da forma como geralmente escreves, mas continuas forte e com uma escrita incrível. bela maestria das palavras.

Letícia Palmeira disse...

E sumiu a imagem, eu troquei, sumiram seguidores. Só espero não sumir também. =)

NDORETTO disse...

Nossa! Emocionante!!!

Amei isso : "que eu o esqueça e que apodreçam suas penas ao desgosto onde nada mais é nascido e tudo mais é morto e violentamente esquecido.____________________

Você é perfeita na tragédia e na comédia. Bom de ler. Orar,tão bom quanto,ainda mais quando somos ouvidas. Violentamente esquecido...aiii....

Beijão,escritora

Da
Atrizora...kkkkkk

Marcos Satoru Kawanami disse...

Letícia é um nome incomum, minha irmã caçula chama-se Letícia; dizem que é um nome grego ligado à beleza da primavera. Mas não tenho nenhuma prima Vera.

=D
Satoru

Will Coelho disse...

Simplesmente belo! ...O prazer da leitura de texto bem escrito. Parabéns!!

Eder Asa disse...

"Livra-me do sofrimento desapontado, pois que tudo mais é graça e não há vagas para o meu querer demasiado passional de toda arte."
Poxa! Poxa! Poxa!, como diz um personagem...
Precisei ler várias vezes, porque (h)oração boa, é a repetida.

É lindo, Letícia.
Beijo, porque de palavras você deve estar cheia.

Zélia disse...

Orar é sempre belo. E, para mim, orar é mais que segurar artefatos ou repetir palavras. Orar é, antes de qualquer coisa, Sentir, Transcender, Ultrapassar limites, vontades, sensações. Ao orarmos chegamos mais perto de Deus porque chegamos mais perto de nós mesmos. Eu vivo em oração (ainda pouco!). Não tenho vergonha em dizer. Minha oração é íntima, intensa, constante. Minha fé, ainda peca mas a minha oração permanece.

Achei parecido com o que está no texto:

"Escreve-me que rezou com dedicação e se acalmou, recebendo uma certeza interior de que vai ser livre daquilo que a maçava; e depois, na verdade tudo se resolveu."

A Ciência da Oração - Carta 15

Vontando - sempre!

Letícia Palmeira disse...

Que perfeito isso, Zeliawski. Gosto quando faz comparações.

E eu rezo. E principalmente quando estou pecando. =)

Come and go and feel free to be back whenever you want. This is your writing too.

E Eder,

Palavras nunca me enchem.
Bring them on. =)

Antonio Siqueira disse...

O tempo é, de fato, tão veloz qto a chuva. Mas abrir os olhos e velar o bom astral, pode formar um arco-íris em vales antes tão sombrios.

Você escreve muito bem, menina! :)