30 maio 2011

tântricos





Tomando distância para um salto maior. Mancando assim ninguém consegue sair do lugar. O orgulho impede o fluxo do beijo. E todos querem amar. Mas ninguém quer sair para comprar pão. E reclamamos quando chove e quando faz sol. Não há meio termo. É um desequilíbrio permanente. O cachorro sujou novamente o assoalho e isto é verdadeiro. Cogito demais quando leio e sinto fome de algo que não posso comer. Por que se interroga tanto? Há simplicidade em todas as coisas. Você é irritante em suas decisões pré-datadas e suas verdades simplórias. Tantos planos organizados e seus calendários me trazem a sensação de que tudo está em dia. Você nunca permite que o drama sustente minhas tragédias. E decide ir ao médico ou fazer coisas palpáveis. Tudo em seu indevido lugar. Você diz que precisa sair. Brusca eu me despeço. Mas, antes de ir, por favor, limpe o assoalho. Estou muito compenetrada lendo o jornal. Não me perturbe. Comprarei uma enorme placa e deixarei sempre ao meu lado: homens trabalhando. Só assim, talvez, você não me venha com suas roupas semi-abertas e suas vontades fora de hora. Há hora para ter vontade? Decerto que não. Mas não faça de mim aquela que sempre agrada. Digo isso ao perceber que dois sapos marcham nupciais, lado a lado, em busca da poça d’água. Parou de chover e tantos sofrem. Pense mais alto e logo nada mais perturbará. Você quer que eu pense alto ou demonstre meus pensamentos com alguns gestos ensaiados? É preciso esquecer um pouco de nós mesmos. Pense nos direitos dos outros, nos velhos, nos homossexuais, nos usuários de drogas ilícitas. Pense nas criancinhas. Você é sorrateiro em golpes baixos. Sempre consegue me fazer sentir um pouco de compaixão. Você se distancia com seu caminhar de gato manso e busca, incessantemente, salvar Sodoma do desespero. Comprei algo para você. Retorna com as mãos abertas e me oferece um livro de grande calibre. Você disse que gostava desta autora. Digo que sim. E você retribui minha assertiva com seu otimismo de quem acredita em feriados. Poderíamos viajar. O que acha de pegarmos de novo a estrada e irmos àquela praia? Poderíamos ficar no mesmo hotel. Você disse que havia gostado. Deixo que o ar escape de minha boca antes que eu seja tola demais para ser exata. Eu disse que havia gostado e isso não quer dizer que farei reprise. Há diferenças. Eu gosto das coisas de forma instantânea. Meu gostar é Polaroid. E, da mesma forma que gosto e aprecio, eu esqueço. Você ri de mim e diz que sou mentirosa e tento me enganar. Você diz que me privo de pensamentos comuns por ter medo de enfrentar o fato de ser tão simples quanto um caracol escondido em arbustos. Gosta de dizer que sempre me observa dormir e ainda enfatiza que meu sono é tranquilo como o sono dos felizes. Você me faz enfrentar a pior das sensações. Você diz que sou aquela que quer amar, que sempre troca a roupa de cama, que sente inveja de outros que caminham mais rápido e ainda se alegra ao dizer que minha carapuça apenas inflama um tanto mais meu ato de defesa. Te olho nos olhos porque é hora de uma verdade. Após desvendado o segredo, não há mais nada a fazer. Se você me desnuda arrancando de mim meus defeitos, chegamos ao fim. Eu não quero me enxergar. Nada quero saber de mim. Por isso me esquivo. Por isso falo tanto em realidades. Faço tudo isso para evitar que você me diga coisas que já sei. É por isso que permito que você esteja ao meu lado. Eu me escondo em você e em suas trivialidades. Faço de você o paradoxo do que não preciso ser. Porque somos iguais, entende? E me avaliar com tanta eficácia é o seu ato de vitória. Entenda sempre o quanto me é necessária a fuga. Você sorri, me beija o rosto e sai. Diz que eu deveria sorrir mais, que meu sorriso é bonito e que tenho tudo nas mãos. E eu acabo sorrindo sem que você perceba. Você é como uma criança que conserta brinquedos e me cria perfeita. Ouço o motor do carro, imagino seu olhar de fortaleza pensando em mim enquanto planeja o dia. Você irá comprar pão e tudo mais que preenche a vida. Cheia de contradições, permito que meu sorriso me ironize. Você é sensato e belo demais. Eu poderia fazer surpresa, um jantar à luz de velas, fazer sala e dizer que te amo até o fim. Mas não posso decepcioná-lo. Você me ama exatamente porque não trago sossego. São minhas falhas que o fazem existir. É a minha fome excessiva e minha indiferença que faz com que você permaneça forte. Você me ama porque sou pequena, arrogante e brutalmente indefesa. E você gosta de ter o controle. Adora me ver errada ou caminhando pela casa como quem não tem direção. Eu realizo suas vontades. Se eu te dissesse que sou simples, que organizo suas roupas, que marco teu passo acaso você esqueça algo, acredite, não estaríamos juntos. Vivemos de medir forças e ainda estou sorrindo ao imaginar você escolhendo frutas no supermercado. É sempre zero dividido por dois. Ou maçã partida à metade. E hoje não choverá como ontem, nem anteontem, nem dia algum.





Image by yaldIz

9 comentários:

Sonhadora disse...

tudo verdade.

Às vezes quero acreditar em feriados, reprisar as quarta-feiras, o cheiro de amaciante de roupas, o farelo do pão sobre a toalha na mesa...

a realidade nunca coube em meus sonhos...

e hoje estou tão triste, coolmadre.

=/

Letícia Palmeira disse...

Don't be sad. I'll write u later. Or write me instead. I'll read you.

A Escafandrista disse...

gostei.

A. Reiffer disse...

Muito bem escrito, bastante expressivo. Abraços!

Flor com Espinhos disse...

'Eu poderia fazer surpresa, um jantar à luz de velas, fazer sala e dizer que te amo até o fim. Mas não posso decepcioná-lo.'...saber manuseiar o que sustenta uma relação deve ser o segredo...

asombradomar disse...

"Não há meio termo. É um desequilíbrio permanente".


Letícia, eu diria que tenho uma grande sorte, por ter encontrado teu blog, e tuas lindissimas palavras....
Caramba, como gostei de ler isto, e de descobrir alguem que gosta de uma mulher tão simples e cheia de coisinhas* bonitas.... me senti aqui. Gostei demais, parabéns!


Um beijo


Cáh

CARLA STOPA disse...

"Me escondo em você..."Perfeito isso, amiga.

Zélia disse...

Eu poderia escrever outro texto aqui. Quem sabe um livro...

Mas vou ficar com uma das coisas que batem com algo que, entre outras coisas, estou pensando esses dias. É uma pena que tantas pessoas insistam em viver em mentiras mesmo quando sabem que estão se enganando. Disse Renato Russo: "Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira." Ele estava certo. Pois, se minto para o outro e ele não conhece a verdade, a mentira passa a ser verdade. Mas ao mentir para nós mesmos, sabendo que o estamos fazendo, a mentira fica ainda maior...

Eder Asa disse...

Depois de dois dias pensando (e relendo), ainda não sei o que dizer.
Mas você prova que a poesia está a cima da filosofia (que me desculpem os filosofos), apesar de uma ser inerente a outra. E nem eu sei o que quero dizer com isso, mas se filosofos sabem, poetas não!

Beijo, Letícia!