14 junho 2011

adoráveis filhos de eva





7:03 da manhã. O telefone declama humanidade. Alô. Bom dia. Aqui é Malvina da Instituição de Apoio aos Portadores de Câncer. Onomatopeia declarativa de fim de linha. Instituições de caridade sempre me causam medo, estranhamento, assombro. Penso sempre que estou sendo enganada. Não me dói desligar o telefone. E a dor do outro não me apraz sentimento de ternura. Não sou mineiro. Tampouco solidária no câncer. Calço os pés e revejo afazeres do dia. Sexo ao amanhecer, beijo de bom trabalho e larga-me para que eu possa ser sozinha. Não gosto de companhia. Não gosto de ninguém. Muito me causa ojeriza estar sendo observada, estudada, revisada feito tabela química. Não sou quimera alucinada. Sou mulher e gosto de meus recantos anônimos de solidão. Gosto de estar só. Passeio pelas ruas e vejo pessoas que acreditam no futuro. A Avenida Pedro II está cheia delas. Pessoas que fazem curso de informática, que fazem dança de salão, que acreditam na loteria. Pessoas que desejam terminarem o dia tão mal preenchidas quanto se sentiam ao saírem de suas camas. Passam por mim e eu passo por elas e caminho meu rumo de aprumo para viver ainda o que acredito ser vida. Não há nada mais degradante do que enxergar as pessoas. Tanto me cansam seus ares de felicidade. Dizem o nome de deus, dizem que estão sempre ajudando o outro, mas nada fazem. São todas hipócritas cheias de mentiras. Idiossincráticas flores mal nascidas. Bem melhor ser como sou. Egoísta, maldosa e realista. Bem melhor afagar o demônio a fazer de deus um servo de ponta de língua. Sinto-me bonita. Mas estou subnutrida. Hoje busco mais existência. Tenho encontro marcado com um homem. Sigo desígnios de telenovelas e traio o marido. O alto prédio me encara. Estou serenamente inadequada e vou ter com aquele que de nada serve a não ser arrancar sangue de minha veia doméstica e honrada. E o homem está bonito. Me recebe de forma como nunca seria recebida por outro ser e me sufoca as ancas com sua petulância de erotismo. Nos despimos, nos devoramos e nos degradamos adoráveis filhos de eva. Declaro todos os meus pecados, tudo que vivo maquiada em silencioso drama, e nua bebo do vinho da boca de um homem que ao fim do sexo sempre me será estranho. Volto para casa e ainda encontro pessoas. As mesmas que acreditam em seus sonhos, que viajam de férias e exibem fotos de alguns momentos de serenidade. Um estampado velho é este mundo de gente que de nada reclama. Caminho rente e satisfeita de orgias. Mas sei que não será assim pela manhã. Acordarei como se nunca tivesse vivido e sentirei ainda a fome dos subversivos. E voltarei a me deitar com aquele cuja face não me alegra um vintém de minha estirpe. Em minha casa tomo banho e me entrego ao sacrifício e sento à mesa com o marido que, amavelmente, me pergunta a respeito de meu dia. Franzindo o cenho abocanho o pão divino e sonorizo talentosa minha orgânica onomatopeia do riso.









Image by NomeEdonna

9 comentários:

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

"serenidade" tuda prosa é cheia de poesia e tem um leve humor, citações...me senti meloso diante de vc, que escreve com aguda certeza do que diz

Ana SS disse...

Felicidade e ingnorância é por um triz.
Felicidade e hipocrisia por um outro triz.

E de triz em triz a vida passa e eu gasto os meus batimentos cardíacos.

Eder Asa disse...

O que mais dói e ler e me ver parecido. Me ver egoísta, maldoso e realista. Desligando o telefone, indolor. Me dói me sentir bonito, não gostar de ninguém e passar pelos outros.
É, viver dói.

É fanstástico, Letícia!

A Escafandrista disse...

realista, intensa, forte. é aquela sua receita que sempre me agrada... bjs.

dri dezotti disse...

eu tb mulher, compartilho de sua intensidade
bjs

Du disse...

PQP que texto!!!! \o/

Sonhadora disse...

Eu já li esse texto?
Em todo caso, é sempre bom ler de novo!

Texto fatal, visceral e lúcido. Amo a temática, vou lendo e corando com as coincidências, rs.

Great Coolmadre!

Lara Amaral disse...

Uau! Demais!

Beijo.

Zélia disse...

Gênero textual: álbum de figurinhas. Adoro!

Hoje, para quem não quer servir de tabela química, nada pior que fazer parte do mundo da internet...

Quanto a caridade, é difícil mesmo fazê-la. Há quem diga que devemos fazê-la. Se formos enganados, não seremos nós que prestaremos contas com Deus (imagine o tamanho da fila!!!).

Sabe o tal curso? Pensei em prestar os meus serviços como caridade mesmo - o dinheiro não vale o trabalho, muito menos, a responsabilidade. No caso, o deficiente visual precisa de um orientador, sem dúvida! No entanto, não é dada a ele a igualdade de chances, como dito pelo sistema educacional. Portanto, decidi não fazer parte da hipocrisia deste sistema (pelo menos, com relação a concursos. Já que, com relação a outros detalhes, não posso fugir - ainda!).

Bueno, pelo menos, tenho tentado ser um flor bem nascida... ;)