25 junho 2011

adversa aos classificados







Procura-se com urgência alguém que saiba amar e consertar encanamento. E que use chapéu. É preferencial que use chapéu, jeans e camisas que combinem com as minhas. Fator primordial. Não sou muito exigente. Porém, deixo claro em anúncio, que procuro alguém decente. Alguém que traga flores. Sem flor eu não passo. Sem agrado me distraio. Aceito vagabundo, caso seja esta minha única opção. E que seja atento o vadio ao meu silêncio, ao meu espasmo de orgasmo violento e que seja cordial, sem exagero clichê, e me diga amo você duas vezes por dia. Nada além da conta. Enfatizo que busco alguém que, por questão de conveniência, saiba ganhar ninharia para encher a geladeira e conheça o labor da cozinha. Eu adoraria comer especiarias feitas por suas mãos. E que leia Dostoiévski e muita filosofia. Exijo viver de amor, literatura e discussão. Plena da vida. Um belo par de luvas seríamos. Ratifico: Busco vagabundo ou qualquer outro. E que tenha bicicleta. Talvez acrobata, mas nada atleta. Não quero competição. Há muitas ruas em meu mundo e seria bom andarmos juntos a sentir o vento no rosto e engolir das horas o que não se vê. E, depois de todo passeio, cairíamos na cama e dormiríamos ou nos engoliríamos ou sei lá o quê. Deixo este item a critério de quem lê. Em caixa alta, procura-se vagabundo. Ou que nem seja vagabundo. Aceito trabalhador. E que nem use chapéu. Melhor que eu diga precisa-se de alguém que saiba viver. Ou que nem saiba. E nem é preciso que traga flores. E que nem ame. Ou que nem exista. E já não exijo nada. Que eu viva sedenta esperando que toque a campainha, que o carteiro traga correspondência, que a máquina enxágue bem as roupas, que venha data de aniversário, que venha solidão, que me venha deus em oração e que eu receba somente o cobertor adequado para o frio. Que eu seja abençoada como aqueles que são precários e quase nada possuem na vida. Que eu seja a incompleta cena do capítulo seguinte. Que eu seja, antes de qualquer outro triunfo, humana acima de tudo, mulher em estado bruto e que eu viva à maestria de um trem que não se resume ao trilhar da estação.







Image by Holly

11 comentários:

Felipe disse...

Texto perfeito, Lê! Tua compulsividade é genial, sempre incrivel, sempre genial!

Um brinde à isso!

Celso Lins disse...

Eu sou o vagabundo perfeito então, Lê!

NDORETTO disse...

Você foi perfeita !!!
Anunciou por TODAS nós!
Alguém que me ame não me aborreça.
Um amor que desça redondo como as crônicas de LPalmeira.
(A demanda " Todos" eu deixo pra você!..eheheh)
Da Leitora e fã ( aaaaeeeee!!!!)

Neusa :)



F
Beijos

Zélia disse...

kkkkkkkkkk Adorei! E nada de "exigências"! ;)

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

Serve quem lê Graciliano Ramos no lugar de Dostoiévski? Esse nunca li.

Antonio Siqueira disse...

Então..Eu amei esse texto demais rs...
"Procura-se alguém que me ame", simplesmente...

Letícia Palmeira disse...

Compatriotas,

A coisa é mais eu-lírica-profética do que física. Este texto surgiu de uma das milhares de conversas telefônicas que tenho com a Neusa Doretto que é poeta, minha amiga e sabe me fazer rir.

Beijo pra vocês todos.

E não vou me explicar senão acabo contando todos os segredos que não tenho. =)

Anônimo disse...

Letícia, fantástico! É sempre um prazer ler seus textos. Comecei a semana bem. Abs. Roberto.

Por que você faz poema? disse...

Taí um anúncio que não ficaria sem resposta.

Diego Sena disse...

Que coisa mais linda!
Incrível com as palavras! Perfeita com os sentimentos!

Parabéns!

Franck disse...

Que ele venha!