20 junho 2011

herança contraída






A verdade estava escondida sob os olhos de Ester que observava sua mãe deixar a casa todos os dias para doar-se à caridade. Ester sabia dos motivos que levavam a mulher a cumprir tamanha penitência. Eram duas criaturas arrastando o mesmo segredo silenciado pela culpa.

Quando seu marido adoecera, a mulher o abandonou em uma clínica de repouso. Dizia sempre aos parentes que não possuía mais forças para cuidar de seu marido e, com a ajuda de alguns familiares, conseguira o suficiente para jogar o homem em uma vala de esquecimento. Quanto mais distante de suas vistas, mas poderia viver a mulher sua vida. E viver era sempre violar condutas. Sem que outros mais soubessem, ela se vestia cafetina durante as noites e recebia homens em sua casa. Ester, ainda miúda para entender as necessidades que levavam sua mãe à libertinagem, apenas observava do vão da porta de seu quarto o que fazia a mulher na ausência de seu pai.

Sua mãe era uma bela mulher em dada época. Alta, convincente, alva e avermelhada de querências. Não posso viver sozinha, dizia a mulher no dia seguinte às orgias. Ela falava com Ester como se esta a interrogasse. Mas a filha nada dizia. Apenas calava e juntas saboreavam o café da manhã. Quando um de seus parentes a visitava, a mulher se transmutava em viuvez. Embora o marido ainda não estivesse morto, ela representava bem o papel de uma dor não sentida. Mas ela ria de todos em sua vitória por ter conseguido tirar o verme de sua casa. Que ele morresse. Ela não o queria. Nunca o quis. Casou-se apenas para fazer reverência à sociedade. Engravidou por descuido de ingenuidade. Casou-se por medo de morrer sozinha. Mas, quando percebeu sua força e destreza para lidar com o mundo, a mulher rezava para que o marido morresse e fosse de uma vez por todas liberta de sua obrigação. Criava Ester aos solavancos. Não se preocupava com filha que crescia esquecida de qualquer cuidado.

História já vista não fosse tão bela em maldade.

A mulher não acreditava em nada mais a não ser em si mesma e seus prazeres e assim cresceu Ester que se tornara exímia na arte de observar sua mãe de forma que conseguia saber exatamente o que pensava a mulher. E quando ocorreu a desejada morte de seu marido, tempos após seu confinamento, a mulher chorou amargamente durante o funeral para que todos soubessem de sua dor. Ester sabia que havia um riso dentro do ensaiado sofrimento de sua criadora. Ester enxergava o que mais lhe doía.

Após o funeral, mais bebidas, mais homens e mais doses de celebração de uma liberdade já pungida como coisa gasta. Ester odiava o que celebrava a mãe e sofria a perda de seu pai. Mas era em silêncio. E se armava de ódio como se arma o tempo em vistas de uma tempestade. A mãe não percebia que a filha estava se tornando a criatura que um dia iria derrotá-la e fazê-la cativa de seus pecados.

Dias após a morte do homem, surge à porta um dos irmãos de seu marido. E veio então a soma de toda a desgraça que ela buscou evitar ao deixar o pai de Ester morrer apaixonado em solidão. Havia um testamento. Havia assinaturas. Documento reconhecido em cartório e datado anos após o nascimento de sua filha. Foi então que a mulher soube que o marido a conhecia mais do que ela poderia conceber. Ele sempre soube que ficaria doente. Temia morrer e não confiava à esposa os bens que acumulara em segredo. O homem nunca havia declarado sua fortuna àquela mulher que sempre julgou falsa e traidora de seu amor. Ele considerava apenas sua filha e para ela deixou tudo que possuía. Casas, terrenos, rebanhos. A fortuna que escondera por anos agora estava declarada. Ester era a única beneficiária. Havia também uma carta culposa a respeito da esposa e assinada por testemunhas. A mulher o traia desde os primeiros instantes de vida a dois. A mulher sentiu-se ultrajada e posta sob juízo por um crime que tinha por direito de cometer. A indiferença voltou-se contra a mulher que desdenhou de seu marido, de sua filha, de um mundo inteiro de benefícios. Jurou ódio ao homem morto e à filha fez promessas de obediência. Mas não era preciso. Ester, crescida a jovem e adulta, tornou-se gigante diante da mãe e passou a comandar àquela a quem culpava pela morte de seu pai. E, por ordens de sua filha, a mulher tornou-se peregrina de asilos e confortava doentes e os aninhava nos braços e doava palavras e lágrimas de sofrimento ao contentamento de Ester que obrigava sua mãe a vestir-se modesta e fulana em troca de comida e um teto para se recolher. E as duas viviam juntas. Ester não suportava viver com sua mãe, mas deixou que ela permanecesse em sua grande casa de muitas escadas herdada de seu pai. E à noite Ester obrigava a mulher a assistir o que ela fora vítima por tantos anos. Homens recebiam de Ester o que seu pai nunca recebera de sua mãe. O afeto negado fez de Ester a justa vingança por herança contraída. E ela não descansaria até ver no rosto de sua mãe o mesmo espanto que a torturou desde seus tempos de menina.







Image by Peter Matthews

6 comentários:

Felipe disse...

Mais uma vez incrivel, Lê!

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

afetos negados, traições, sexo, piedade, nojo e desespero ...alguém mais para o café neste conto feito para vidas em sempre pesar?

Zélia disse...

Eu leio e fico pensando... Ontem, sem que tivéssemos a intenção, fizemos uma espécie de "terapia familiar" eu, meu irmão e uma de minhas irmãs. Falamos de nosso pai, de mortes e do que fica quando pessoas partem. O que chamar de herança? De que vale tudo isso diante da ausência de quem se ama?

Eu leio o texto e me confundo, por vezes. Esqueço, mesmo que por segundos, da questão ficção x realidade. Não acho que valha a vingança de Ester. Não acho que obrigar alguém à caridade signifique obter caridade. Mas um dos problemas da vida é esse. Nós interferimos na formação de um ser como pessoa mas não controlamos como as coisas são absorvidas por eles. Por isso, cada um "é o que é". :D

Jean Almeida disse...

Mais do que incrível. Acho que sou meio psicopata, gosto de textos que desenvolvam o psíquico dos personagens. Isso foi muito gosto de ler, um texto que traz toda sua complexidade em meio a tanta leveza.
Parabéns!

Camilla Tebet disse...

Uma saga em poucas linhas. Assim, Leticia. Os sentimentos estao todos emaranhados dentro da gente. Uns tem coragem de assumi-los e viver uma vida "ma'", outros reprimem e vivem uma vida de louco. O que 'e certo?

Letícia Palmeira disse...

Camilla,

Não sei o que é certo. Mas escrever histórias é a melhor parte do questionamento.

Beijo.