02 junho 2011

humanístico






Flores de toda idade é a infância e não há, em tão breve mundo, alguém que não se lembre ou se apegue e não queira novamente o vento de uma tarde que o tempo esconde. Pois a memória traz inquieta aos olhos que enxergam o passado de forma a fazer saudade de nós. Minha mãe a lavar roupas, tão atarefada franzindo o cenho e quase se esquecendo de ser bonita enquanto olhava distraída a brancura das vestes de suas crias. Varais atravessavam sua imagem e era de um olhar perdido que ela se portava e carros passavam em todas as avenidas e nós brincávamos no quintal de casa e as roupas cheiravam a sabão em pedra e minha mãe parecia máquina de afazeres enquanto manisfetava notícias nosso antigo rádio de pilha. E eu, desbravador de meu jardim, brincava com formigas. Procurava nomes, as humanizava, as colocava no caminho das hortaliças e fazia, das tais pequenas criaturas, inseparáveis amigas e, quando uma delas se desfazia em minhas mãos, de tão sensível corpo minhas meninas, eu chorava desconsolado e minha mãe deixava seu sono aberto de esquecer o dia e corria a me acudir. Aninhava seu menino em seu colo, em seu terno amor sem outro que a faça esquecida e eu me sentia salvo de minhas dores infantis. Por que chora? E eu que tinha meu enorme mundo em casa, protegido nos braços maternos, hoje sou filho da pressa, das vertigens, do calor e do asfalto que me enterra e vivo de minha tragédia. Alimento-me de trabalho, tenho filhos, mulher que de mim se distancia e, em passos falsos, piso em formigas que antes eram amigas e me faço de tolo sorrindo mesmo certo de que o mundo não saberá de minhas horas vazias de comer passado e entornar a vida.









Image by Piotr Olech

3 comentários:

A Escafandrista disse...

ô, Letícia, que coisa boa de ler!!! adorei e lembrou-me uma cena da infância, quando chorei porque alguém matou uma formiga que eu havia adotado. hehehehe
a imagem que vc usou pra ilustrar o texto tbm é muito boa, parece-me com um traço impressionista.. eu adoro. bjs.

Zélia disse...

Beautiful... A saudade deve trazer alento e não dor. Deve (no sentido de DEVER) ser bom pensar no que passou e deixar o sorriso de satisfação tomar conta dos nossos lábios. O problema é que a maioria das pessoas não sabe viver a saudade. Isso porque elas a confundem com o passado e, normalmente aí, vem o desejo de viver o que já passou. Acontece que, quando agimos assim, esquecemos que só podemos viver, hoje, o agora. Então, não vivemos uma coisa nem outra. E o tempo, corre...

Nayara Borato disse...

Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog ponto final. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs


Narroterapia:
Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.

Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.
http://narroterapia.blogspot.com/