10 junho 2011

insólito






Começou a fazer lista. Coisas para levar durante a viagem. Abre guarda-roupa. Tanta coisa. Muita vontade em copo vazio. Escolhe peças, uma a uma, decretando para si em qual ocasião usaria aquele par de luvas, as calças largas, outras justas, montantes de vestidos, pretos, chamativos, discretos, decotados, em todas as letras do alfabeto estampados. Sorria ao dobrar e organizar, por tons, suas roupas em sua imensa mala de viagem. Azul turquesa para que todo mundo veja. Escolheu lenços, echarpes, badulaques para enfeitar-se e meditava a respeito de lugares. Agora os sapatos. Diversos tipos. Quadrados, redondos, sapatilhas, altos, quebra galhos e pontiagudos saltos para trottoir. Depois a maquiagem. Pó de arroz, base, provocações, algo que esconda rugas, algo que aumente os cílios, algo que grite EU CONSIGO, algo mais que fale por mim. E jóias saltavam pelas galerias de sua imaginação furtiva pela excitação de ir a algum lugar com sua bagagem entupida de roupas e certezas. Tudo pronto. Mala sobre a cama. Táxi a espera no portão. Mas para onde devo ir? Percebeu que, ao arrumar a mala, tudo mais se concretizou. Fazer planos era o seu contentamento. Tudo mais era secundário. E desfez a mala, e despachou o táxi, e dormiu pelada descoberta de ilusão.












Image by icynra

7 comentários:

Hellen disse...

Adorei Let, sempre me pego assim mesmo, fazendo planos e malas e me enchendo de ilusões...muito lindo seu texto, me vi nele. bjs

Letícia Palmeira disse...

Hellen,

Fico feliz quando você dá as caras, sua maluca. Beijos.

Eder Asa disse...

Quem não faz suas próprias malas? Me vejo, planejo, e alçar voo mesmo...
Mas o pior é quando o táxi não vem!

Beijo Letícia! Você é pura inspiração...

Roberto Borati disse...

bueno, bueno, bueno!


obrigado sempre pelas palavras e visitas! amanhã terá uma boa surpresa, afinal 2 anos de gambiarra, veja o post que botei e apareça para a festa!

beijão!

Maíra da Fonseca Ramos disse...

Às vezes o caminho é mais importante que o destino... E nem sempre se sabe para onde se vai. Adorei!

Zélia disse...

Não ensinamos nossas crianças a perder. Tenho um sobrinho que, quando criança, não suportava perder. A mãe dele, então, queria que todo mundo que jogasse com ele deixasse ele ganhar para ele não chorar. Resultado: Hoje, ele é adolescente e não sabe perder. Às vezes, chega a ser uma "resenha" jogar com ele. Mesmo sendo em jogos, é assim que se aprende a perder (no melhor dos sentidos) na vida.

Acredito que a vida me ensinou e me ensina a perder sem me perder. Não gosto de perder. Ninguém gosta! No entanto, mais que o medo de perder eu tenho medo de desistir antes da hora. Não desisto fácil mesmo. Se eu não ganhar, paciência. Eu continuo seguindo.

Esses dias, eu perdi, talvez, a minha maior vontade. A de ter filhos. Sem mistério, sem dó, nem piedade. Perder é, também, uma escolha.

No teu texto, Letícia, não há o medo de seguir o mito de Sísifo. Representado, no texto, como o fazer e desfazer planos. Portanto, a personagem se apresenta como mestre na "arte do perder", considerando que, para o inconsciente coletivo, desfazer planos significa perder.

Bela combinação! ;)

PS: Acho que estou voltando a minha melhor forma como comentarista. :D

Letícia Palmeira disse...

Está sim, Zeliawski. Seus comentários dizem muito. E complementam. É a visão além do alcance.