12 junho 2011

inventei de amar você






Inventei de amar você. Tateando entre ladrilhos, fazendo agrado ao inimigo e querendo me sufocar. Uma serra sofrendo de tão cega cortando tronco de baobá. E me acostumei a sua antipatia porque amantes nem sempre recebem as boas-vindas em elogios escritos em bilhetinhos ou presente que demonstre o exagero de amar. A vida engana ou nos enganamos e isto não é pergunta que se faça. É coisa que digo toda hora para ver se acredito em algo mais. Hoje estou romântica e arrastei a cama e a coloquei bem embaixo da janela. Deito e vejo estrelas e penso a respeito de coisas exclusivamente minhas. Horas pensativas em que me perco. E, se de tanto pensar, eu de repente me encontre de verdade? Será estranho saber de mim através do que espelho. Prefiro que os outros me saibam. Não suporto flashback de filme americano. E as estrelas estão por toda parte. Deixo que Adriana Calcanhotto cante e me espreguiço na cama e, lá fora, buzinas, ambulâncias e a cidade em urgência. Quem me dera eu pudesse levantar desta cama e agir como agem todas as pessoas e me esbaldar em falsa alegria. Devo estar doente de vontade própria. Só faço o que eu quero. Por isso prefiro ficar aqui. Meu quarto, um incenso, e o tic-tac do relógio ainda consegue ser mais alto que o som que vem da voz da Adriana. Me levanto e troco a música e é um esforço enorme sair da cama e pisar no chão. Cada passo é uma eternidade. E ouço mais música. De todo tipo, de toda cara. Traça cuidando do andor. O quarto quase às escuras e eu brinco com as mãos e faço aquela coisa de imitar imagens. Um avião com as mãos e a luminária é o spotlight e eu sou um coração feito de mãos. Veja só que mediocridade. O mundo imenso e eu aqui, figurante de uma solidão egoísta e vasta. Eu estendo a mão e pego o livro que não largo há dias. Leio poesia e tudo que leio é uma forma de auto-comoção. E há um texto de amor. E não sei por que quando se fica romântica como estou a gente perde o pedigree. E volto no tempo e fecho o livro. Você me desnuda e eu finjo que acredito que a sabedoria que você suporta é sua e de mais ninguém. Eu finjo porque quero agradar. E sabe aquela hora em que você comprou vinho e ficou feito idiota me procurando? Eu estava procurando taças. Só bebo vinho em taça. Mas acabei não comprando e acabei tomando vinho em um copo sem graça. Amor tem disso. A gente perde a identidade. E eu bebi que nem lembro e falei aquelas verdades que amargam o beijo. Eu caí no sono e você também dormiu. E não sei ao certo se você dormiu ou fugiu ou ficou me olhando. E ainda comi de um tacho de coisas que não gosto só para fazer o que achei que seria certo. E inventei de amar mais e, em silêncio, eu observava seus intervalos de fim de orgasmo e chama que acende cigarro. E me senti um poço de ingenuidade. Não consigo ser como dizem ser as outras pessoas que agem racionalizando tudo. Por mim, é verdade, não me importo muito com resultados. É o momento que importa e todo o resto. Você, eu e mais nada. E relembro a história toda como se pudesse trazer tudo de volta. Como quem comete crime e se arrepende afogado em culpa e quer de novo a vida inocente. É assim que me vem agora todo o tempo que houve um dia. A vida continua lá fora, outra música me amplifica, fumo dois cigarros e caminho ao banheiro e meu rosto é de sorriso. E ninguém nos sequestra a sensação de era uma vez, de chegar atrasado, de comprar ingresso ao término do espetáculo. Me pergunto por que a gente é assim tão vergonhosamente imbecil. Por que a gente transforma tudo em fim? Por que você sempre me esquece no dia seguinte? Por que você não me procura quando sabe que preciso viver um pouco mais de você dentro de mim?








Image by Pascal

7 comentários:

CARLA STOPA disse...

A gente desenha meninozinhos soltos no meio da página, depois fica inventando histórias de amar...E perde mesmo o pedigree...E amanhã... é claro que o sol vai voltar...

Antonio Siqueira disse...

A mais bela das invenções. Belíssimo e apaixonado texto, Leticia!

Zélia disse...

Não respondo perguntas porque sou retórica demais, nestes casos.

É! O homem, realmente, é capaz de grannnnnnnndes invenções.

Ontem, descobri que a tristeza era um dos "sete pecados capitais". Reformularam a lista e ela foi retirada. Talvez, porque o sentimento de um nunca foi de interesse do outro, mesmo. Mas achei interessante o fato de a tristeza compor a lista, originalmente. Não que essa lista tenha alguma importancia de fato. Mas, pensando na questão religiosa, Deus não nos criou para sermos (diferente de estarmos) tristes. My belief!

A foto ficou perfeita! - Tenho que falar!

Letícia Palmeira disse...

Acredito em literatura. E Deus existe. Há muitos pecados escondidos em listas. Ser triste ou feliz é parte do contrato. Felicidade é instante, assim como tristeza também é. As mais clássicas histórias de amor terminaram de forma triste. Parece que não gostamos do amor feliz. E qualquer dia, Zeliawski, acho que vou te encontrar com roupa de missionária ou carmelita. E você não precisa se desculpar por sua crença. É sua e já é tudo.

Sacerdotisa. =)

Um brasileiro disse...

Oi. Estive navegando pela blogosfera e me deparei aqui. Parei, espiei. li e gostei. Muito lindo e legal. Apareça por lá. Beijos e abraços.

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

essa tal amor, adora a não racionalização das coisas

Hindy disse...

“Prefiro que os outros me saibam”.

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Em Letícia, as palavras e as coisas...

Têm natureza diferente.

Reza a Tradição Arcana que todo o Cosmos é mental, nada além. Nós, que somos um amálgama de imagens projetadas pela consciência, filhos e filhas da necessidade e do desejo, precisamos desesperadamente legitimar o nosso ser, estar e fazer. Dialogar com a nossa mortalidade intrínseca exige fazer concessões diversas às nossas subjetividades. É meio vexatório admitir que nós somos [Pausa: O Word insiste na conjugação “sejamos”. Reivindico o meu direito de escrever mal.] um conceito e que, por conseguinte, toda a “solidez” à nossa volta também é conceitual. À luz da digressão escolástica acima, chega-se à inquirição lógica: a gente é signo, fonema, verbo, texto, pretexto ou coisa que o valha?! Que o outro nos saiba, pois!


“E há um texto de amor”.

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Em Letícia, as palavras e as coisas...

Têm natureza diferente.

Sir Isaac Newton, em meados do século XVII, figura prometeica, arrancou da natureza um dos seus segredos mais bem guardados. Princípio de Gravitação Universal. Aquela “coisa” que sustentava a paixão entre os corpos que têm massa, variando conforme o quadrado da distância. Deve ser esse tal de amor. Na vastidão cósmica há tudo, exceto solidão. Amor é janela, porta, cama, taça, livro, disco, vinho, orgasmo, identidade, beijo, sonos, fingimento, cigarro, orgasmo... fingimento...

“É o momento que importa e todo o resto”.

[...]

Em Letícia, as palavras e as coisas...

Têm natureza diferente...

É preciso buscar primeiro o Reino e a Sua Justiça. A questão do “mal” vem desafiando o pensamento ocidental, desde a velha Suméria. Somente apreendemos as coisas a partir do jogo de luz e sombras. Sem contrastes não há cenário. Assim como sem palavras, não há coisas, sem “eu” não há “tu”, etc. Comete-se crime, para que abunde a graça. Dói tanto esse tal de amor. Mais amor, mais dor. Vida é dor. O Budha asseverara lá atrás. Abrem-se as cortinas, desnudam-se as vísceras do ser-conceito. Que grande espetáculo de... Conceitos. A vida continua lá dentro e lá fora. O outro É aqui dentro. Não há nada “lá fora”. Amor é assim, inexoravelmente sujeito e indefinido. Por que você sempre me esquece no dia seguinte?

Em Letícia, as palavras e as coisas...


[...]


Yours

Hindy