16 junho 2011

permissiva




"O amor que não se sente capaz de um sacrifício não é amor; será, quando muito, desejo grosseiro, expressão bestial dos instintos, incontinência desvairada dos sentidos, que morre com o objetivar-se, sem lograr atingir aquela altura onde a vida se torna um enlevo, um doce arrebatamento, a transfiguração estética da realidade."


(Anayde Beiriz)




Eu amo você porque assim eu o quis. Construí, de fronteiriças artimanhas, nossa história começada em datada hora e terminada nunca. Imenso adorno para meu corpo é o que sinto e demanda solidão o amor para que este possa existir. Não sou peixe furtado de mar algum. Não houve maior arrebatamento do que aquele momento em que vi, de olhar inédito, o meu amor que era homem e tão ingênuo por acreditar estar conquistando territórios com suas guerras de inefável aspecto infantil. Homem criança que acolhi em meu ventre negando minha presença a outros seres que nunca me causaram estrondo ao ressoarem em meu ouvido palavras de não sentir. Eu não os desejava viver. E o avistei diferente de todos porque era minha vontade enxergá-lo e possuir a alma desassossegada deste pastor que condena rebanhos e nunca sabe de si. Se você pudesse, por um breve minuto, enxergar-lhe a imagem sua como eu a vejo, saberia de meu canto, da razão pela qual o amo, criatura de centelha incendiada, eu o escolhi. E não me vulgarize a existência dizendo de amor como quem declara rimas matemáticas. Sua poesia me absorveu a palavra. Porém, não foram seus versos que me fizeram o calvário de amar desenfreada e escandalosa. Fui tomada por sua imagem, seus gestos, seus olhos dignos de compaixão e sua brutalidade mesquinha ao negar-me a posição de mulher. Amo intensa a meu próprio gosto. De erótica necessidade envergonhei meu nome, meu rosto e adulterei meu caminho porque era esta a minha escolha. Disto sempre me alimento. Se amor é mesmo algo que nos destrói a estrutura, desejei que fosse você o feitor desta maldade. Mas que fique tão claro quanto em asfalto o risco de giz. Eu amo você porque assim eu o quis.







Image by dearestapathy

12 comentários:

Roberto Borati disse...

uma prosa daquelas cortantes.

Felipe disse...

Perfeito, Lê! Perfeito!

CARLA STOPA disse...

Vou usá-lo...e dar os devidos créditos, é claro...Amei, amiga...

Rui Sora Rodriguez disse...

Muito bonito e, como disse Roberto Borati, cortante.

Eder Asa disse...

Será mesmo? Sorte a sua então! Benditos sejam os que amam por sua própria vontade, ao menos esses estão munidos de culpa. Opção é opção. Maldito é o destino.

Fantástico Letícia. "esse canto torto feito faca" que corta a carne, mesmo...

Beijo!

Ana SS disse...

Seria o amor permitir que o outro nos esfaqueie a alma?

Sandrio cândido. disse...

Amor, tema forte e bem descrito
beijos

Paloma disse...

E tem um tipo de mulher que se entrega até onde quer. No caminho entre o primeiro sim e esse limite, até pensa que enlouquece, que perdeu os sentidos de tanto aguçá-los, que desfalece. E pode ser que não saiba o quanto pode doer, o tamanho dos sacrifícios que cada escolha demanda, mas uma certa desmedida estava prevista, não adianta dizer que não. Todos os sete pecados até a hora do jantar, sem atrasos. Este tipo de mulher deve ser O+ porque sou eu. Escolho a quem vou amar, escolho consciente ainda que seja naqueles dez segundos cruciais entre o prelúdio e a primeira consequência - que pode ser o tédio, pode ser a lâmina afiada na pele, pode ser ter que viver na ponta da lâmina, torcendo para não cair no tédio mais uma vez.
Texto incrível você fez, me vi nele de um jeito, Lê! Lindo.

Anônimo disse...

Letícia e seu jeito inconfundível de tocar as palavras, toca em mim, os milhões de sentimentos que experimento quando leio o que você escreve. Fiquei apaixonantemente aflita, pelo ritmo, pelas palavras, bem postas, frenéticas, doces, ardidas.

Adorei!

A Escafandrista disse...

Muito forte e bonito Letícia. parabéns.

Evanir disse...

Olá!!
Encontrei seu blog nessa imensidão
que é a blogosfera suas poesias são excelentes amei conhecer você.
Já estou seguindo seu blog espero você para conhecer e seguir o meu.
Um feliz Domingo beijos meus,,Evanir.

Zélia disse...

Como diria um amigo, "por que tanto amor?!" :D

Há quem diga que o amor é coisa do Destino. Daquele não criado por Deus, mas, pelos deuses. Quando a quem amamos não corresponde ao nosso amor, a culpa é de Eros que atirou em um a flecha do amor e, no outro, a flecha da repulssa.

Seja como for, mais que acreditar que amar alguém foi escolha do Destino ou minha, eu prefiro dizer que DEIXEI DE AMAR VOCÊ POR ESCOLHA MINHA.

Amar requer sacrifícios, sim. Porém, eu me amo mais a que qualquer um. Egoísmo? Não sei... Sei apenas que, quando amo, amo intensamente. E que meu amor é valioso demais para ser jogado ao vento.

Não preciso dizer que o texto preenche os requisitos para um bom texto. ;)