17 julho 2011

bagagem de mão





Estou novamente no aeroporto. Observo minha bagagem. O cadeado da mala é dourado. Assim como sol de hoje que se esconde da chuva. Espero que não ocorram tantas turbulências como em minha última viagem. Turbulências me fazem tocar o chão e o contato com a realidade é olhar-se no espelho: sem truque ─ sem maquiagem. Enfrento uma fila. Pessoas não muito diferentes de mim também aguardam sua vez. Estamos todos esperançosos porque viajar é mudar. E mudança é não deixar estagnar a água, o tempo. Há receio. Sempre haverá. Não quero me desperdiçar tentando não sentir medo. E chega minha vez de apresentar documentos. No balcão sou interrogada: grávida? objetos cortantes? Sou cautelosa em minhas respostas e sorridente ao dizer não. Deixo o balcão e procuro algum rosto conhecido. Todos os rostos esboçam a mesma expressão. Ansiedade, felicidade, sede? Que poço será este que tanto cavamos? E que busca é esta? Não quero questionar. No saguão encontro uma livraria. Preciso de um livro para ler durante a viagem. Eu poderia ter trazido qualquer livro. Eu tenho muitos livros. Mas eu preciso de palavras novas. De nova história. Escolho a leitura, pago o preço e sigo ao café. Expresso. Sentada observo as mulheres que se encarregam da limpeza. Elas usam botas. Parecem soldados. Estão lutando. Assim como nós que estamos sempre mudando. Ou permanecendo. Mudar é prova de caminhar. Permanecer é questão de acreditar ainda. Estou sorrindo com os olhos. Penso ao engolir a última gota de café. Pensar é uma forma de vida ainda não aceita porque pensar é enfrentar o alvo, munir-se para uma guerra e não permitir-se à resignação. Uma voz anuncia a hora da partida. Há sempre uma hora de partida, de chegada, de despedida. Me dirijo ao portão de embarque. Sempre sou a última a chegar. Deixo que todos passem em minha frente porque, desta forma, me sinto mais livre. Estou familiarizada com o detector de metal. Conheço as palavras das pessoas que fiscalizam nossas vidas a raios-X. Não tenho munição bélica. Minhas armas ficaram no passado e, leve, passo pela máquina de revistar gente. Faltam cinco minutos para a decolagem. Alguém diz para eu me apressar, alguém anuncia meu nome em alto-falante. Sou eu, penso. E estou sorrindo. Embarco. Finalmente o passo. Conheço este futuro que agora desejo. Eu já o quis. Eu já vivi o suficiente para sabê-lo. Por sorte sentarei à janela. Poderei ver o céu mudar quando cruzarmos meus limites. Estou calma após a decolagem. E a viagem não começa agora. Ela fora iniciada desde o dia em que planejei tudo. Deixo um mundo para trás e tenho um mundo pela frente. Acima das nuvens o sol brilha em cor de cadeado. Uma turbulência me faz tocar a realidade. Não foi tão ruim me olhar nos olhos. Agora abro o livro e inicio o capítulo. Sozinha não me sinto. Trago, em bagagem de mão, meus amores, meus desperdícios, meus indícios de estar viva alimentando vontades. E nunca será tarde. Viajarei de novo acaso o plano se desgaste. Qualquer um, estando vivo e pleno de suas faculdades, tem o direito de permitir-se. Eu me permito. Se um dia retorno? Claro que sim. Toda partida eterniza algo. E se parto é para sempre permanecer dentro de mim.






Image by bluewingnara

9 comentários:

Felipe disse...

"Permanecer é questão de acreditar ainda."

Genial, Lê!

Beijo...Fê

Por que você faz poema? disse...

Às vezes me sinto meio
"Up In The Air",
em busca de um porto qualquer
para acreditar.

Anônimo disse...

bueno


;o)


n.

CARLA STOPA disse...

Sagradas viagens.Eternamente memoriais...

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

Nunca fui muito longe da minha aldeia, em verdade vivi minha vida toda estanque,se tive a segurança da rotina, perdi não bagagens em uma rodoviária qualquer, perdi chances de novos e pessoas caminho, mas para sobreviver ao tédio aprendi a exercitar ao máximo minha imaginação...aos menos isso.
PS-vi na TV que chove muito na Paraíba, cuide-se vc e os seus

Rosa Mattos disse...

Tens uma habilidade pra narrar que deixa a gente querendo ler mais, depois do ponto final.

NDORETTO disse...

É assim. Exatamente assim estar no aeroporto com você.
Com os seus olhos de poesia a visão é essa.
A sua sensibilidade transporta a gente daqui de Campinas pra qualquer lugar do mundo. Que seja doce, cheio de esperança e atencioso para com a alma.
Para com as botas dos mais pobres.

Crônica poética, cheia de encantos, detalhes. Coração ávido. Lindo,menina.
Comovente, escritora.
Adorei.

abr\a/ço \a/\a/\a/

Neusa

Zélia disse...

As palavras novas são requisitadas porque em toda mudança há algo novo. Até que o novo se torne velho e precise nascer de novo.

E o detector de metal (brasileiro) tem "pobrema" comigo. 8)

Cyelle Carmem disse...

Sou fascinada por esse ideia de viagem, estamos sempre de passagem. Sua crônica é muito bem escrita, lembra-me muito de Clarice L.