26 julho 2011

deliberada








Ambulâncias em romaria, crianças sequestradas, assaltos à luz do dia. E você não precisa sair de casa para ver o grande evento. Ligue a TV e saiba: seu mundo é abelha pequena fornicando por mel. Há sempre mais a saber. E o telefone não para de tocar. Desde ontem. É um alerta de que o mundo existe. Meus olhos caçam borboletas enquanto, sem culpas adicionais, fumo um cigarro. Autodestrutiva é a mãe. Busco isolamento. Uma fita isolante que me proteja. Mas, se busco isolamento, por que tenho telefone, e-mail, caixa de correio? Se busco solidão, por que esse homem está deitado em minha cama? Sou mesmo paradoxal. Admito que não gosto muito desta palavra. Não gosto de coisas que caem em todas as bocas. Não gosto de homens usados demais. São calejados e cheios de manias. Sou autoritária e quero destruir meu homem com minhas próprias mãos. Faço estreia em tudo que amo. Ele me interroga a respeito da frieza do instante após termos praticado sexo. E diz que sou fria porque, ao invés de citar fazer amor, uso o verbo praticar. Explico que é prática tudo que nos guia cegos à perfeição. Ele sorri. E ainda afirma que paixão é necessidade. Concordo resiliente. Digo que paixão não surge apenas por contato romântico de suas mãos enfiadas em meu corpo. Você pode se apaixonar por uma causa, por um livro, por algo que não seja objeto único. O mundo pode ser sua grande paixão. E o estado apaixonado não é calculado em relógio. Pode durar anos. Ou pode morrer agora. É uma pilha de nervos que se esgota. Nós sabemos. E não falemos de amor. Deixemos o sentimento acontecer sem dissecá-lo. E bobagem é falar da mulher moderna. Não há tal espécie. O que existe agora é uma mulher que passa por processos de forma mais agressiva. Nascer, crescer, reproduzir e morrer. Ainda somos biológicas. A diferença está em nosso estado bélico. Mulheres não querem mais pedras no caminho. E, acaso elas surjam, nós as chutamos. E com raiva. E toda esta violência não passa de proteção. Medo de se ferir. Mulheres são como eu. Buscam isolamento embora carreguem o velho sonho que ainda não desbotou. Casa, comida e alguém que esteja sempre por perto. Estarei mentindo? Converso muito com uma amiga a respeito disto. Minha amiga ri muito ao telefone. Mas é um riso dolorido. Há dores quando ela ri. Eu não sei bem quais são. Não acredito que sejam dores amuadas de quem perde alguém que costumava mandar flores. Não posso acreditar que tudo seja apenas uma questão de sentir-se só. A história não pode ser tão simples. Então converso e não questiono. Deixo minha amiga esguichar suas risadas. Todo riso alargado demais traz algo de doloroso. Como se fosse uma dor anunciada. Uma dor ao contrário. Falo muito ao telefone e tento não julgar ninguém. Todo julgamento me denuncia. Quem sou eu para dar conselhos? Meu único desejo é seguir e aprender que toda soma não será eficaz. Aprender que não sou superior a você que me olha meigo de satisfação por me tocar. Eu não me tornei gato escaldado. Digo em voz alta. Ele sorri. Diz que sou ingênua. E, para mim, não há insulto maior. Ingenuidade é indecente. Corta a carne em filetes e por isso nos perdemos. Não sou ingênua. Ele se envolve em mim preparando seu acúmulo de vontade. Deixo-me servir. Nunca seremos um. Nunca seremos pertences de devolução perdidos em guarda-volumes. Minha paixão o envolve e praticamos o ato novamente. Às quatro deliberados. Abelhas ou não, estamos fornicando em nossas próprias flores. Tão libertos quanto aprisionados.








Image by Akumu-Kurai

10 comentários:

Eder Asa disse...

Ri melhor quem ri da dor. Quisera eu ser abelha virgem.

Zélia disse...

"Digo que paixão não surge apenas por contato romântico de suas mãos enfiadas em meu corpo." LP

E tudo está mais que perfeitamente certo. Segundo o psiquiatra e psicanalista argentino, Jorge Bucay, todos os nossos problemas estariam resolvidos se tivéssemos um amante. Isso mesmo: um amante. Amantes deixam os consultórios vazios e farmácias sem vender pílulas milagrosas. Ele concorda com o que já falaram os Beatles "All you is love". E esse amante, não representa "o(a) outro(a)" e, sim, "aquilo que se ama". É preciso ter a quem ou ao que amar para se viver em paz.

Sugestão de leitura complementar:

Quem é o seu amante? de Jorge Bucay ;)

Cyelle Carmem disse...

"nunca seremos um só"
Somos únicos perante Deus, mas só sobrevivemos juntos, lado a lado. A vida é mesmo uma contradição.
Suas palavras exploram uma camada da humanidade que nunca consegui atingir. Parabéns!

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

E se pela janela há o tal desfile em romaria das ambulâncias, dentro de casa, na cama mal dividida, mesmo em uma soma que pode não ser la grande coisa, pode se fabricar as próprias flores, destiladas talvez de amargos sentimentos.
E talvez o grande drama seja esse dissecar de sentimentos, tentar entender o que nasceu tão somente para ser sentido.
O texto da Letícia é seco, corta e nos bate a face o constrangimento de sabermos amantes mais que amados.

Be Fontana disse...

Amei o blog, simplesmente sensacional, seus textos trazem uma nova perspectiva, e nos faz pensar, pois eu adorei**-**
Continue assim, visitarei sempre.
Uma boa semana, te sigo.
Kisses&Kisses
Be Fontana*

Razek Seravhat disse...

Letícia Palmeira,

Não sei se é desesperança ou servidão, mas com certeza não ingenuidade. Mas, se fores ingênua, não se preocupe o leopardo devora suas presas com uma ingenuidade felina.

Ternura Sempre!

isaias carriço disse...

Como é gostoso sobrevoar este blog!!!!!Como se aprende!

C/c carinho

Isaías

Wander Shirukaya disse...

Junto às formigas, as abelhas são um grande simbolo de organização social; me parecem, pelo seu texto, organizarem a vida a dois, aquela microsociedade entre quatro paredes que, no fundo é bem mais complexa q aquela a q os estudiosos dedicam seu tempo. Interessante.

Ps: enquanto o cara qr deitar e rolar, a mulher divagando. Isso nunca muda. rsrsrsrs.

Grande abraço! ^^

Nara Sales disse...

A tua fala, tua narrativa nos convida a querer sempre mais. Um verdadeiro retrato falado.

Fanzine Episódio Cultural disse...

Que desenhos, filmes,séries de TV que você gostaria que fossem publicados nas edições do Fanzine Episódio Cultural?

Você pode (se quiser) enviar um pequeno texto dando sua opinião a respeito.
Envie sua sugestão para: machadocultural@gmail.com