09 julho 2011

ipsis literis










Augusto morreu. E do pior tipo de morte. Tornou-se comum. Agora ele não passa de um cidadão que, muito provavelmente, sentirá tédio, apatia, talvez venha a sofrer de depressão, terá filhos e engordará feito um rinoceronte sedento observando as águas da savana. Mas é o destino. Ou não.

Não penso mais no assunto.

Desejo sorte ao falecido.

Eu continuo aqui. Leonora intacta. Ou não estarei intacta? Talvez me falte muita coisa. Tenho compaixão de todos que se sentem completos. Porque se cansam da busca. Acomodam-se e sentem-se felizes de forma simplória. Como formigas economizando para o inverno. E logo morrem. Assim como Augusto. Que Deus o tenha.

Mas, antes do desfecho de toda a história de amor e ovos mexidos, deixe-me contar alguns detalhes. Nunca acreditei em encontro marcado. Alma gêmea, em minha opinião, é definição para bebês nascidos da mesma gestação, univitelinos ou siameses. Minha história com Augusto sempre fora diferente.

Nos vimos, nos falamos, nos amamos e comemos o pão que o diabo amassou.

Se alguém espera do amor simplicidade, ame seus familiares. Ame seus pais. Ame seus irmãos. Entre um homem e uma mulher é preciso que haja raiva, paixão, necessidade. E não falo da necessidade como se fosse uma simples troca de declarações padronizadas. Falo da fome que faz roncar a barriga, salivar a boca quando desejamos o prato. Falo da necessidade viciosa de ter aquela substância em nosso corpo. Não irei mais explicar. Está dito o tipo de amor que me unia a Augusto. Eu precisava dele em todos os vãos de meu corpo. Em todos os poros. Eu poderia respirar Augusto e nada mais ter por dias. Éramos amantes completos. Entre nós havia muito sexo. E não falo de sexo comum. Era mais uma troca de fluidos. Eu me doava a Augusto em sangue. E ele tinha manias que haviam se tornado nossas. Não direi mais nada a respeito disto. Mas, caso a curiosidade aqueça a vontade de ir mais adiante, aconselho: para saber de Augusto e Leonora observe animais e sinta seus instintos mais primitivos. Aconselho também que inspecione células através de um microscópio. Veja como elas se unem, se reproduzem, se coagulam, se engolem. Veja como se unem de forma a se tornarem uma só. Veja como morrem.

Havia um silêncio entre nós. Havia também um sentimento necessário para que a paixão não adoecesse de velhice. Nós competíamos. O tempo todo. Medíamos forças. Augusto gostava de me reduzir, para, logo depois, catar meus cacos. Eu sempre calei porque a fêmea obedece ao macho. Mas Augusto não entendia e eu não sabia explicar minhas posições. Então, ao invés de gastar palavras, eu andava nua pela casa e Augusto me devorava como se fosse um leão. Não havia tempo ruim. Mas há algo que precisa ser dito. Amor, por mais forte que seja, torna-se um cobrador infame. Então começamos a cobrar um do outro. Cobranças miúdas que sequer me darei ao desperdício de dizê-las. E, através destas cobranças, houve um tempo em que enlouqueci. Tornei-me neurótica. Mas era a necessidade me fazendo salivar. Augusto não entendia. Ele me queria e também queria o universo inteiro. Admito ter sido tola. Eu não poderia ter cobrado algo que eu mesma nunca fui capaz de dar. Fui egoísta. Talvez tenha sido minha forma de encontrar uma saída. Porque havíamos nos desgastado. Estávamos esgotados. Era tanto amor e eram tantos desejos ilimitados que o corpo não aguentou e a mente passou a rejeitar o que sentíamos como se fossemos intrusos, um na vida do outro. Daí o amor se transforma e chega ao fim. Daí começa uma nova busca por outro amor que não faça cobranças, que seja novo, radiante, controlado, embora exploda em paixão. Mas eis o nosso engano. Amor nunca será seguro ou satisfeito por todo. E, terminada a paixão, voltaremos à televisão e aos dias de obrigações eternas.

É preciso que se entenda:

Não há busca por amor. Porque ele é a própria busca.

Não entrarei em questões psicológicas. Tampouco falarei de magia. Mas isto talvez seja importante. Soube que Augusto me enfeitiçava. E era sempre. Nunca acreditei nisto e nunca irei acreditar. Mas ele acreditou e fez. Como acreditar em tamanha tolice se eu estava ali, ao lado dele? Senão ao lado dele, eu estava sempre ao alcance das mãos. Mas há crenças e há quem as respeite.

Agora penso em Augusto como quem relembra um antepassado. As imagens fogem. Memórias se apagam. A vida vai se montando como um novo retrato de outra paisagem. Outras árvores nascem e casas são removidas do cenário. Minha atitude é outra e lembro-me da Leonora que um dia fui.

Arrependimento nunca haverá. Talvez, no futuro, por questão de moral e respeito, eu chegue a dizer que nunca conheci tal homem. Nunca em minha vida. Eu desconhecerei Augusto por completo. Nada falarei. Calo. E agora estou bem. Não há mais saudade. Nem raiva. Nem nada. Tudo está em formação como acontece às partículas que formam a água. 





Image by Milos Milosevic

8 comentários:

Felipe disse...

Genial, Lê!!!!!!!!

"É preciso que se entenda: Não há busca por amor. Porque ele é a própria busca."

Beijo...Fê

NDORETTO disse...

Entrei em transe: texto e música. Pensei amor. Pensei espólio. Pensei vida e morte. Uma novidade que sempre assusta. Forte, Letícia,muito forte.

********************

beijos
da Neusa

Antonio Siqueira disse...

Eu passei horas refletindo sobre Augusto e me enquadrei bem na história. essa carapuça é minha e ninguém tasca. "É preciso que se entenda: Não há busca por amor. Porque ele é a própria busca."
Eu quero a chave deste entendimento.

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

Meu primeiro emprego como professor foi em um curso chamado ipsis-literis.
Amor sempre é assim? Da alegria aos cacos expostos em dor? Então é melhor evitar amar? mas a tal doação que o texto diz não supera a dor?

Camilla Tebet disse...

E' amor. Por isso acaba.O que chamamos de cobranca, sao os ultimos passos de uma corrida que ja comecou perdida. E terminamos exaustas. Haja'agua. De todos os poros e a'gua a dentro.
Clarice Lispector dizia que para se matar a saudade de uma pessoa 'e preciso come-la.
Uma hora comeca a fazer mal e 'e preciso vomitar.

Belvier disse...

Oi, Letícia. BOM DIA! Minha escritora favorita dos mais recentes dias. Eu queria tomar um porre de genialidade para poder escrever como você. Sou um abutre pensativo, mas que não vai muito ao papel. Ora, Ora. Nem preciso pensar de onde você tira a força para escrever coisas como essa. Eu li seus textos e estou me inteirando de tudo. Beijo!

Flor com Espinhos disse...

só quem sente p espelir tanta veracidade...

Zélia disse...

Há dias eu penso em escrever um texto sobre um homem que morre feliz. A gente sempre acha que o morto é triste, coitadinho. Outras vezes, a conversa é "descansou". Mas será que descansou mesmo? Engraçado. Eu, agora, penso no lado do morto. Será que foi para o céu? Para o inferno? Sinto por Lulu. Preferia que tivesse sido de outro jeito. Não deu e seu que, neste caso, foi melhor para ela mesmo.

E minha cabeça está cheia de formiguinhas...