31 julho 2011

rascunho diminuto







Luta em tréguas


O passado está na sala. No roupeiro. Nos pijamas. Nos quartéis de coisas guardadas para que a vida não seja tímida em acontecimentos. Trava luta imensa com o presente o passado descontente porque agora é luto. Uma criança talvez dissesse: O passado passou. Mas, na voz de um adulto, adulador de momentos, passado é aprendizagem. Mas a verdade é feto indecente. O que era tanto em significado, agora é pote de geleia, memória cega, cúmulo de amnésias, montante de nada que restou.



Peixes de aquário


Olhando peixes no aquário. São dois. Percebo seus olhos colados no vidro. Nadam entediados. Valsam aquáticos em uma prisão com vista para um teto branco. Alimento os peixes. Um punhado de grãos minúsculos em uma de minhas mãos. Os peixes se unem para receber alimento. Sorrindo eu os sirvo o que pode ser sua única fonte de prazer. Comem apressados. Ou será apenas minha forma de ver? Peixes não têm pressa. A não ser quando fogem de seu predador.



Diário acostumado


Trafegam voluntárias a menina e sua amiga pela rua de casa. De mãos dadas seguem como imãs magnetizadas. Bem intencionadas criaturas dobram esquinas, brincam de amarelinha em calçadas e somem de repente como se fossem nada. Dias depois: Jornal Alardeia Falta. O mundo só percebe acontecimentos quando já não há mais volta. O tempo é cúmplice de todo crime.



Cidadania


Agrade à família. Mas antes agrade ao vizinho e ao vizinho de seu vizinho. Ande em linha reta e não seja tagarela. Nunca fale de boca cheia. Não reclame. Não ame à luz do dia. Não seja louco. Não afronte a vontade dos outros. Faça sua vida de acordo com a regra distinta de ser feliz à custa da vaga cama de seus pais. Seja estátua. Figura de porta-retrato. Silenciosa repetição de fatos. Nunca olhe para trás. Agrade. Não seja aquele que você é no escuro combate das vontades. Viva como rege o mandamento. Espere do trigo a dose contada. Não queira o excesso. Não sonhe em voz alta. Faça parte do círculo. Não seja vício. Seja apenas cíclico, peste em bandos, sujeito datado de fim desde o início.






Image by MaxHierro

4 comentários:

CARLA STOPA disse...

O último me fascinou.Vou postar no meu face...Com os devidos créditos.Beijos.

Rodolfo Rios disse...

Você escreve simples e de forma sábia, querendo o bem d'outro. É gostoso lê-la! E sempre! É de bom gosto a arte das capas de seus dois livros. Lindos!... exalam recados...sentimentos!!! Espero ter o tempo esperado para lê-la mais!

Beijos
Isaias

Cyelle Carmem disse...

Caraca, o último é bem o que estou tendo de viver: me adequar às regras, ditadas por alguns idiotas. Pra não ser presa, demitida ou expluída, vamos sendo iguais a todo mundo e a vida segue "falsamente" normal.

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

"Silenciosa repetição de fatos" e assim noites e dias em variação sem tom algum, como peixes em rotina de pesca...e fome que nunca se vai