19 julho 2011

sísmicos





De que nos vale a insensata tristeza das miúdas horas? Ela, a vida, zomba de nós e, atroz, anda a nos envergonhar. E todos os dias carregamos do passado essa bruta ferrugem destilada. E nos matamos — ora por tudo, ora por nada. São terríveis e assombrosas as marcas que deixas quando entorpeces as veias e respiras devagar o ar que eliminas quando não queres mais desejar. É o trajeto curto do beijo da garota e do menino no beco, alheios, violentos em inocência, perversos em pura ingenuidade, rompendo a pele que as vestes protegem e assumem a humana voz de cada espécie. E olha o carro comendo a rua, a ave que adestra o canto em comunhão aos olhos de deus. Ah, terra glorificada que me aborrece ao sair de casa e me fere os olhos quando enxergo a palidez de tudo que é triste. Mas há alegria no extremo e aqui estou portando a iniquidade de meu falar breve e do medo que me faz delirar. Veloz delírio de amedrontar palavras tal como se fosse trem quando se aproxima e não é ilusão. É realidade. O trem quando adentra a cidade vem com força e arranca a poeira das eternas dúvidas do ser. A cidade hermética, o homem duvidoso e estalido de um vidro que se parte ao tocar de mãos. Somos de toda forma tão sensíveis e nem ao menos sabemos. Não entendemos. Não nos enxergamos. A mão apóia o queixo que, por ventura, possa vir ao chão. E a morte é o contrário de tudo. Fina roupa do avesso, feito moça sem jeito, feito o mar que dignifica a imensidão.





Image by seanmetcalf

10 comentários:

CARLA STOPA disse...

Nem ao menos sabemos...É verdade...

Evandro L. Mezadri disse...

Que texto lindo, escrito de uma maneira poética, feroz, reflexiva, você escreve muito!!!
Grande abraço e sucesso!

A Escafandrista disse...

Saudades que estava deste espaço.

Belvier disse...

"A morte é o contrário de tudo".
Você se expressa de uma forma nova e impactante. Suas palavras batem fundo na alma. Dizem tudo de forma inusitada e cheia de metáforas. Você consegue me sensibilizar sempre. Até mesmo quando mistura inglês com português, Lelê.

Zélia disse...

Concordo com todos os pontos. E digo que tenho (s)isma de mim mesma...

Alê Crol disse...

Lindo.lindo e lindo!
Feliz dia do amigo, minha amiga virtual!
Que alegra a minha vida

Eder Asa disse...

Uma vez a Neusa disse e agora re-digo: Aqui há porrada!

Anônimo disse...

poema lindo


n.

NDORETTO disse...

Ás vezes temos sede de poesia e não percebemos. Poesia á flor da pele!!!!

Beijo,dona querida!

Andressa disse...

feito o mar que dignifica a imensidão.