20 agosto 2011

novela no ar







A dona do mercadinho é crente fervorosa e adoradora de deus. Diz que novela é coisa do diabo, perniciosa, imoral. Mas não desgruda os olhos da tevê. Presumo, então, que o diabo está em alta. Ou sempre esteve. Não irei pesquisar na Bíblia. Tampouco preciso ler livros antigos ou livros que retratem o caráter psicológico do indivíduo para dizer que o famigerado diabo é quem dita as regras. É nítido. Adoramos assistir aos espetáculos que mais criticamos. Não assisto a novelas. Não por me considerar superior e dizer que novelas são produzidas para prender a população a um tipo de cegueira generalizada em que o cidadão não faz nada (não lava pratos, não cuida dos filhos, não pensa a respeito de questões sociais e não cuida de seu próprio umbigo). Jamais diria isso. O povo precisa de recreação em canal aberto. Por isso, as novelas. Mas já não existe futebol? Lembro-me bem: Sempre diziam que o povo precisava de algo para sorrir. O povo precisa de um motivo para continuar acreditando. Eu sempre ouvi isso em tempos de Copa do Mundo. Nunca entendi esta afirmação. Em minha opinião, futebol era apenas um jogo, assim como tantos outros. Mas, por questões culturais, percebi que o Brasil respira futebol. E novelas. Ontem (19 de agosto de 2011) presenciei uma das noites mais silenciosas desde a morte de Lady Diana. Ao menos aqui, na cidade onde moro. Nenhuma voz a raios de quilômetros. Novela no ar, meus amigos. Todos estavam vidrados na tela que o diabo, segundo a dona do mercadinho, tomou para si. E as grandes questões eram: Quem matou, quem traiu, quem roubou e quem irá se dar bem? Mas como você pode saber disso senão assiste a novelas? Simples. Eu tenho acesso à internet. E, em meio a discussões diversas, a novela das oito se tornou o grande assunto. Me senti como se sente um pato em banheira vazia. Solitária. Mas será que tenho problemas? Não entrarei neste assunto porque não quero falar de mim. Deixemos o meu umbigo quieto. Nossa sociedade brasileira, que vive ao nó dos padrões e bons costumes, adora uma sacanagem. Novela é sacanagem. Ficção baseada em fatos que ocorrem em muitas vidas. Senão em todas. Eu senti necessidade de saber do que se tratava todo aquele frenesi. Muita gente em silêncio é sinal de fumaça. É preciso dar atenção. Então eu soube que se tratava de assassinato, boas lições de moral (como um homem promíscuo que descobre ter câncer nas partes baixas e passa por uma séria análise de sua vida e suas atitudes, mulher traidora jogada na sarjeta e os bons sempre vencem). Breve resumo. E não quero nem saber o que o Senhor Gilberto Braga estava praticando. Deus me livre e guarde. Muitas pessoas adiaram suas baladas, mulheres economizaram suas maquiagens, senhoras respeitáveis esboçaram seus 'aqui se faz, aqui se paga' e outra novela termina. O Brasil pode sorrir porque a Rede Globo fez o povo feliz mais uma vez. Novela imita a vida? Acho que não. No passo em que estamos, novela é a própria vida. Há mortos, feridos, gente que beija na boca, meninas bonitas sensuais suffragettes e muito sexo que é pra dar água na boca e sonhar depois. Livro é chato, dizem muitas línguas. Ler pra quê? Novela é bom porque a história vem fácil. Então, na soma do que fora dito, não era somente a parte empobrecida da população que assistia ao último capítulo de mais uma vontade não vivida. Ricos de toda elite também deram boas risadas na noite de ontem. E o melhor de tudo: há reprise. Hoje terá silêncio de novo. E, em breve, Christiane Torloni e Lília Cabral estarão na casa de vocês. E O Astro reprisado dirá da sorte. E a pergunta permanece: Quem estará enganando quem?






Image by Elisa Phillips

06 agosto 2011

duque de caxias, 402, centro








Enquanto tem gente que pensa em aparelhos telefônicos, penso em minhas sombrinhas que são modernas bailarinas e tomam Prozac. Minha preguiça acordou de mau humor e me mandou pastar. E já estou pastando nos verdes campos olhando o tempo e pensando em minhas sombrinhas. Ativamente passiva. Desnorteada não. Apenas pensativa. Já pela manhã, bem cedinho mesmo, pastei entre minhas plantas e vi dois pássaros no fio de alta tensão. Pensei de novo nas tais sombrinhas e, desta vez, meu pensamento efusivo colorido me trouxe a sensação de que ando cortando linhas da versão atemporal das coisas. Sinto muito, Tempo, mas a solidão invade o excesso de ser natureza e ainda sair para comprar pão. Vida simples? Não diria isso. Diria apenas que simplicidade é um trajeto curto através da cidade e ainda um disco antigo. E inventei de limpar armários. Os tais armários embutidos que parecem aprisionar nosso corpo à nossa casa e às memórias e já esqueci as sombrinhas. Embutida em meu apartamento na longa rua que segue em direção ao grande centro, decidi arrumar coisas. Porque elas precisam de mim ou eu preciso delas. Posso ser negligente, mas nunca com as minhas posses. E segui limpando cada canto escondido e as traças, que são tropas de elegantes soldados que não portam armas, tão singelas e tão ingênuas larvas, fugiram de mim e de minha incansável vontade de ficar só. Enfrentei as tropas. Flanela na mão e litro de querosene. Dizem que elas morrem assim. Uma tristeza tipicamente humana me veio à boca, mas eram as traças ou eu e minhas coisinhas. Lembrei logo daquele dito sobre ovos e omelete. É triste, mas devo ser firme. Limpar armários exige de mim uma firmeza intermitente. Aí me deparo com minhas histórias. Gosto de sofrer. Caixas cheias de coisas que não uso. Minha existência me trouxe tudo em demasia. Roupas, viagens, perfumes, fotografias e tudo o que me prende ainda aos embutidos. E agora me perco em fotografias. Pedindo perdão, dia de missa, batizado de sobrinhos, festas em que fiquei tão alta e minha embriaguez era um alarde. Alguém sempre me trazia pra casa e acabava embutido também. E outras fotografias. Liquidações, sorrisos, primeiros tempos, lógica em dia de domingo. E minha vida me encheu os olhos. Até então estava calma e até poderia deixar em paz as traças. Mas depois de rever minhas glórias, decidi acabar com todas. Uma a uma. Decerto que vivi e vivo meio engasgada, levando tapa na cara ou enchendo o embutido de remendos, mas sou feliz que nem reparo. Chega um dia em que a gente sente que é feliz ou abrasivo ou um candelabro antigo e de certo valor e é um tal de amor reflexivo que tudo recebe sentido. Até fotografias. E pensar que tudo começou em sombrinhas, traças e termina o dia e eu aqui, contando em pares, meus afetos e prefácios. 








Image by Thalweg