12 agosto 2011

afeto minguante





Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada.

(Cazuza)




Ontem, depois que nos falamos, senti que não poderia dormir sem dizer que entendo sua dor. Falar de amor e insônia e ainda dar conselhos: meu regime lunar. E tudo me parece tão conversa de comadre. Mas preciso dizer que conheço a dor que machuca sem descanso. Parece até martelo em prego torto. Ficamos tão concentrados naquilo que nos fere que o mundo parece diluir por falta de sentido. E a gente fica naquela de olhar foto, reler rabisco escrito em guardanapo e lembrar das horas de um tempo que insiste. Perfeito seria sofrer um surto de amnésia. Porque esta dor chega a ser prepotente. Uma dor de nariz em pé. Uma mágoa que é nódoa e demora a largar de nós. Parece até que a dor nos faz ficar viciados em sofrer mais. É como se não houvesse saída. Daí partimos para o desespero: telefonemas no meio da noite, andar pelas ruas sentindo peso nas costas, não conseguir sorrir e, televisão, nem pensar. Tudo parece nos assombrar. Dor dilacera o ser. E amor completa. Há quem discorde. O amor que se perde é o amor exato para nossos dias? É uma pergunta que precisa de resposta. O que amamos? O outro ou a sensação de estar com o outro? O que nos faz felizes? A pessoa ou a sensação de possuir a pessoa? O que nos completa? O que realmente queremos? Já faz tempo que aprendi algo e, embora não consiga colocar em prática, não paro de repetir aqui, dentro de mim: A dor é necessária. Porém, isto não faz dela um acessório permanente em nossas vidas. É aprendizagem para outros voos. Ou quedas. E, se este amor partido não é recíproco, que não seja de forma alguma. Ninguém precisa viver de retalhos. Você não precisa viver de lua minguante quando há outras luas pelo mundo. Então está doendo? Mas é claro que dói. Somos humanos e não conseguimos ainda entender nossos complicados mecanismos de funcionamento. E, por sermos todo sentimento, não sabemos coordenar isto. Não sabemos racionalizar, fazer soma exata e calcular resultados. Mas eu preciso que me escute com atenção: Você vai chorar por dias. Noites inteiras. Talvez emagreça e queira, por desespero, de volta o amor que é minguante. Mas há um segredo nítido: Tudo irá passar. Quando você menos esperar, pronto, passou. E, muito provavelmente, virão outros amores, outras histórias e outro riso. É fato. O futuro vai trazer tudo. Mas não se comprometa em esperar na porta de casa. O futuro não é imediato. É tartaruga. Mas ele virá. E pode ser que venha no próximo mês, amanhã, ou depois que você chorar tanto até explodir rindo de sua própria cara. Porque a dor também perde o sentido. O mundo continua e você também. E o dia ensina em clara sinfonia: Há lutos necessários e despedidas que não podemos adiar. Perder não é sinônimo de desperdício. É caminho aberto para outro estágio, outro cenário, outra véspera de nova fome que alimento algum irá saciar. Afinal de contas, somos incuráveis. Viciados na arte de amar minguantes mesmo que luas inteiras de amor por nós se declarem. Mas há cura para todo mal. Amor acontece. De repente. Demorado. E quase sempre.








Image by pesare

11 comentários:

ediney santana disse...

Ninguém precisa mesmo de viver amores retalhos. Os personagens do texto sofrem por se desejarem mas por mil motivos e alguns tolos se deixam em distãncia e como vc disse : tudo passa, passa e nunca saberemos se estavamos certos ou não nos amores minguantes que nos impomos, belo texto para falar de corações dramaticamente românticos e tão solitários...mas fica o alento outros amores virão...

Anônimo disse...

Algumas mágoas são nódoas que molho nenhum faz largar, mas depois de um tempo a gente acaba escolhendo se fica com a roupa manchada ou troca por uma nova, mesmo que seja num futuro com passos de tartaruga. Adorei, Lê. :)

Marcelo R. Rezende disse...

Dói demais, dói muito, mas porque, de fato, é viciante. Quando mais novo, eu percebi que a gente sofre pra provar pro outro que ele magoa, que ele é um safado e que deixou a melhor pessoa do mundo. Coisas de adolescente apaixonado. Hoje já vejo a dor como catarse mesmo, acho de um bem necessário. Mortifica a gente a ponto de deixar em transe e fazer com que a gente pense o que se está fazendo dessa danada vida. Não encontrei respostas ainda, mas ler o teu texto foi reconfortante. Ver que mais gente compartilha do mesmo ponto de vista, faz que a gente tenha companhia mesmo no escuro.

Um beijo em você.

Edilson Cravo disse...

Querida Letícia:

Que texto maravilhoso hein...me culpo por nem sempre ter tempo de vir lê-la porque você dá verdadeiras aulas de bons textos mesmo. Realmente depois que se aprende a viver de banquete não se quer mais migalhas porque descobrimos que o outro pode nos doar (e nós podemos tb) muito mais do que imaginávamos. Infelizmente o mundo anda muito carente de amor e as pessoas estão parcelando sentimentos em 10, 12x assim como roupas de uma loja de departamento.
Lindo fim de semana. Beijoos.

Malu Machado disse...

O bom da lua é que ela passa de fase. Adorei o texto.

Abs,

Belvier disse...

Letícia, você é show em qualquer assunto. Como li na resenha do Silas, não se sabe ao certo o que você escreve. Mas escreve e dá banho de lição na gente que lê. Eu vou levar teu afeto minguante pra casa, mulher. Beijo.

Thomaz Ribeiro disse...

O que é a dor? Quem é que neste largo mundo pode dar uma resposta sensata? Só sabemos que as coisas doem, porque elas doem mesmo. de resto, a única coisa que cura mesmo é o tempo.
Abraços.

Marcello disse...

Oi querida,adoro seus textos, eles são a minha principal inspiração para aqueles novos textos que estão aparecendo no meu blog. Beijos

Malu disse...

Sim, as eternas complexidades das relações.
E temos tanta propensão de nos enrodilhar em névoas e tornar o complexo ainda mais complexo.
Um texto sentido e real ao extremo, pois personagens se encaixam numa descrição típica das relações humanas.
Você descreve muito bem.
Abraços

nydia bonetti disse...

Ótimo texto,como sempre Letícia. Que a palavra não passe... E que o amor que temos por ela também não passe. abraços, nydia.

Zélia disse...

Tanta coisa...

Você - o eu do texto - faz as perguntas e você mesmo responde. Eu - leitora do texto - quero falar e falar...

Entendo. Já vivi o que se passa em "Afeto minguante". Já tive minha dose de afeto minguado. Aprendi muita coisa. Como por exemplo, quando
ficamos concentrados no que não mais sentido tem, sentimento se perde, nos perdemos. Lembro outra vez: "Tudo passa, tudo passará". Praguejar o causador do afeto minguado, é desespero, faz parte, se parte. Só não vale mesmo é insistir na dor que não mais sentido tem e que, portanto, não mais sentida é.