16 agosto 2011

ao silêncio alinhavado dos dias









― Costure os botões de minha camisa.

― Costuro. Que mais posso fazer senão costurar seus botões?

Pergunta sem resposta. Leonora esperou que Augusto respondesse. Mas nada saiu de sua boca. Ele deu as costas em um gesto semelhante à indiferença com a qual são tratados os mendigos em porta de igreja. Como se nada mais existisse. Leonora permaneceu na sala. Lançou um breve olhar pela janela, respirou fundo e sentou-se na poltrona de estampa florida exibindo seu ato de resignação. Em suas mãos, a camisa de Augusto. Em seu pensamento, vastas questões que a fariam pregar aqueles botões e distrair-se. Percebeu que todos os botões precisam ser costurados novamente. Augusto não poderia usar aquela camisa com tantos botões soltos. A mulher inspecionou o relógio para certificar-se do tempo que levaria para costurar tudo. Ao lado da poltrona, no chão, sua caixa de material para costura. Agulhas, alfinetes, linhas de cores variadas, dedais e poeira. Há tempos não costuro nada, pensou. Com agulha e linha prontas para o trabalho Leonora passou a costurar. Começou no colarinho da camisa. Lembrou-se da primeira vez que vira Augusto. Ele costumava sorrir. Lembrou-se de seus dentes e da cor de seus lábios. Lembrou-se da primeira vez em que Augusto lhe dirigira a palavra. Era outono e folhas tombavam das árvores. Era outono e Augusto desabou em mim. Era amor como se vê em telas de pintura. As mesmas que Leonora vira quando esteve na exposição itinerante que visitou sua cidade. Todos os quadros eram belos. Pensava mais a cada golpe da agulha em casas de botões antigos. Lembrou-se de quando era jovem e impecável. De suas pernas cheias de vida prontas para correr o mundo acaso Augusto quisesse. Lembrou-se das mãos unidas em festas durante a dança que tanto agradavam aos dois. Leonora pensava de forma tão veloz que suas mãos corriam no tecido da camisa como se tivessem pressa de concluir o desígnio exigido pelo homem. Ele me encantou sem que precisasse exibir riquezas. Augusto não possuía nada além de sua pequena casa e alguns livros antigos. Sempre trabalhou como professor. Eu lembro como se fosse ontem. Leonora pensava em voz alta. Augusto ensinava tão bem quanto relinchava sobre o corpo de Leonora na pequena cama onde dormiam. Augusto sempre teve talento. Suspirou Leonora. Gesto que fez com que trespassasse o dedo indicador com a agulha. Uma gota de sangue brotou de Leonora. Sangue que a fez lembrar-se do filho que perdera. Augusto não sofreu. Ele aceitou. Leonora passou dias sem comer e noites sem conseguir dormir. Filho gerado em tão pobre leito. Eu me lembro de Augusto ter dito: "Melhor assim. Não temos condição para filho algum". Alguns parentes a visitaram enquanto esteve acamada. Era inverno e o tempo esfriou a simples casa que habitavam. Tudo se tornou gélido. Até mesmo o alimento recém-preparado não causava mais calor. Tudo era frio. Tornaram-se distantes. Leonora não mais obedecia a Augusto. Augusto não mais olhava Leonora. Eles habitavam uma arena ausente de sentimentos. Foi então que surgiram homens na vida da mulher e mulheres na vida do homem. E fingiam não saber. Fingiam não querer saber. A cidade inteira sabia dos passeios de Augusto e das visitas que Leonora recebia. Ela não amava ninguém. Augusto sequer perguntava a respeito de seus dias. Eram estranhos em pequena moradia, comendo juntos a letargia diária e a estranheza do tempo. As lembranças faziam com que Leonora costurasse com força cada botão como se fosse uma forma de consertar a vida passada à bruta cegueira de aceitar aquilo que não mais era amor. E quando havia sido? Costurava a perguntar e, quanto mais tentava entender, sentia raiva por ter sido conivente ao perder a juventude ao lado de Augusto que se tornou murcho com o passar das estações. Quando nos perdemos? Perguntava a mulher. Quando passamos a aceitar nossa mentira como se fosse verdade? Por que não o deixei partir? Costurava ferozmente como quem sente pressa de chegar ao ponto final. Costurava os botões e cogitava a respeito do tempo passado e, por fim, Leonora terminou seu trabalho. Botões presos que não mais se perderiam. Respirou forte como quem se vinga por ainda poder fazer algo pelo homem que, ao seu lado, deixou-se envelhecer sem perceber que poderiam ter escolhido a liberdade. Quarenta anos vividos ao lado de Augusto. E logo mais ele chegaria e sentariam à mesa, comeriam fartos o jantar feito por Leonora, e, mais tarde, dormiriam juntos na cama que os aprisionou ao silêncio alinhavado dos dias.






Image by August Macke

6 comentários:

Arth Silva disse...

Incrível como a autora é frequente mesmo com textos longos (ou minicontos, cronicas, o que for).
O mais incrível é a frequência da qualidade, que nunca falta a cada texto.

Zélia disse...

Vai e vem, eu me encontro aqui. Pregar botões é uma ótima atividade para trabalhar neurônios. Preguei um botão que insistiu em se soltar, um dia desses. Me vi quase Leonora em volta ao seu material de costura. E eu penso em liberdade todo o tempo. Repito que concordo com Foucault, no tocante ao que ele explica ser liberdade. Insisto em ter a minha liberdade mesmo que, para outros, eu possa não parecer livre. No final, tudo acaba virando uma questão de escolha. Só o botão não pode ser livre, pois, ele perderia o seu papel no mundo. E, digamos que assim, ele morreria.

A Escafandrista disse...

Tenho botões que não preguei...

Malu disse...

É mesmo assim, os dias nos alinhavam a situações que nos deixam como aqueles botões que querem despregar, mas não despregam... ficam presos por um leve fio.
É o caso de Leonora e seu companhiro.
Adorável narrativa esta tua.
escreve muito bem
Abraços

Evandro L. Mezadri disse...

Perfeito, retratou com sabedoria essa rotina mortal que domina a tantas pessoas. Como disse Oscar Wilde: "Viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe".
Grande abraço e sucesso!

Aparecida Ramos disse...

Ele deu as costas em um gesto semelhante à indiferença com a qual são tratados os mendigos em porta de igreja. Como se nada mais existisse. Leonora permaneceu na sala. Lançou um breve olhar pela janela, respirou fundo e sentou-se na poltrona de estampa florida exibindo seu ato de resignação. Em suas mãos, a camisa de Augusto. Em seu pensamento, vastas questões que a fariam pregar aqueles botões e distrair-se.
“Nossa, é muito forte, e real!... Quantas e quantas vezes fui Leonora pregando os mesmos botões nas camisas de Augusto, também resignada, e buscando forças para continuar justificando tal conformismo sem razão de ser, quando tudo poderia e, como pode ser bem diferente: em vez de obrigação, sentir-se mais prazer, mesmo pregando botões!... Parabéns por tua inteligência e talento como escritora!”