30 agosto 2011

epígrafe ao sol









Usada
 Cartucho de arma automática
Mas o crime maior teria sido
Se eu me deixasse ser recarregada.






Ontem fez sol e decidi caminhar. Sair de casa, da casca, da gaveta com cheiro de roupa mofada. Dei cara às ruas. Trafegavam senhoras duas mulheres vestidas de forma adequada. Não as conheço e não as cumprimentei. Penso: conhecerão as mulheres o peso da indiferença? Porque eu realmente me importei com elas. Mas passei. Como passa o ferro em roupa amassada. Deslizei pela avenida porque apenas me importava o caminhar e não o que me assaltava a atenção naquele instante. Casas e carros quebravam a metafísica de meus sentidos. Tudo era físico, táctil, verdadeiramente prático. Não há poesia quando as ruas nos são conhecidas. Ou haverá. Andei mais adiante e este camuflado pleonasmo pesa no sangue ao escrever. Um motoqueiro rasgou o asfalto ao cair. Acudam o homem, alguém gritou. Mas ele mesmo disse que não precisava de ajuda. Levantou-se e, sorridente como o palhaço após graça que não faz rir, saiu ronronando em seu veículo. Moto é feito gato atrás do mato esperando o rato para deglutir. Deixei fluir meu pensamento e segui. Ainda pensando no homem caído lembrei-me de meus pecados. Faz tempo que não rezo. Fico tímida diante de deus. Vai que ele realmente existe: é flagrante no ato. Por isso não rezo. Prefiro pecar sem desculpas. Caminhando observei janelas de todo formato. Redondas, ovais, curvas, quadradas. Eu gosto de ver o que escondem as janelas: gente comendo, assistindo tevê, mãe dando banho em filho e amor. Há um tipo de amor autêntico dentro destes esconderijos. O amor que não se estampa. É vívido. Está no prato comido e na água que desce pelo corpo. Este amor não é visível a olho nu. É preciso estar cego para ver. Deixei o amor passar. Atravessei a rua correndo feito menina buscando sonho. Um grupo de gente passa ao lado e homem assobia um gostosa fora do ritmo. Quando eles irão parar com isto? Homens não mudam, zero novidade, algumas obras nunca chegam ao fim e, de meia em meia hora, o 203 passa por aqui. Digo que não espero ônibus. Não espero nada. Mas esta mentira é lavada. Há sempre uma espera na culatra. Desvio de uma bicicleta, dois cães passeiam como se fossem amigos, o sorveteiro anuncia novo sabor e a padaria exala minha vontade. O pão da tarde será servido. Chego à padaria distinta, de chapéu e sapatilhas. Cumprimento as senhoras que encontrei minutos atrás, sento-me ao balcão, peço café e pão, e, por mais estúpidas que tenham sido a caminhada e minhas observações, estou completa. Por um momento estou sendo quem sou. Mulher de faca e queijo na mão. Sinto a felicidade de quem aos poucos perde o medo de tocar com os pés o chão.














Image by Lexi

10 comentários:

Mai disse...

"Mas é claro que o sol vai voltar amanhã"...Ao que parece um sonoro fim - o caminhar, os passos, o passar dos dias.

Texto melodioso, Let.

bjo

Antonio Siqueira disse...

Passeio macio, olhos mirando o que está em volta e envolto... Epígrafe e sol perfeitos...Somos um grão de açucar pronto para ser lambidos rs.

Belvier disse...

Poesia do cotidiano. De quem tem olhos de ver em janelas tanta coisa, e se lembrar de pecados, e amor sem estampa. A sensibilidade aguçada o tempo todo para ver o supra-natural no meio do caminho e do homem no asfalto quente por trás da capa do cotidiano. E a música completou tua narrativa. Muito bonito, muito sincero, muito sutil e visceral, sem ser barulhento. Em meras palavras, belo.

A Escafandrista disse...

Adoro ler você.

Marcelo R. Rezende disse...

Lindo, lindo!
Eu gosto tanto de textos assim e nem sei o nome da modalidade, mas acho a coisa mais rara esse pincel que desenha um cotidiano real, sem extrapolar o que a gente vive. Você muito feliz em tudo, o ritmo, a personagem, a música fechando o post.

Nossa...

01 beijo.

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

Perder o medo de toca os pés no chão sem a Imprudência de um motoqueiro suicida,talvez seja isso mesmo um amor que não se estampa pode ser deliciosamente vivido, eu quero sempre o chão e espero que meu corpo não seja um motoqueiro louco e me deixe ver o amor, a estampa e claro sempre há o medo da indiferença. Leituras da Senhora Letícia Palmeira.

Leo Mandoki, Jr. disse...

...sabe qnd nós caminhamos pelas ruas, fezendo exactamente isso que a personagem faz, observando e deixando o pensamento fluir, sentimos (eu sinto) que o passeio não é sozinho...que existe alguém imaginário ao nosso lado...
Nesse texto, dá pra sentir que a personagem está a caminhar com alguém imaginário ao lado dela..
um beijo!

Jean Almeida disse...

Impressionante, eu acho que você estava presente na cena, pois texto mais rico me detalhes não existe.

Zélia disse...

Eu repito o que, há muito, não dizia por ser coisa que se vê com olhos de cego: Texto perfeito! Adriana grita e me atrapalha. Preciso de silêncio para falar. Para! Não há nada melhor que se estar com "a faca e o queijo" na mão. Todo o sabor do sorvete é bom e o Amor e, verdadeiramente, cego. Adriana, segue!

;)

Zélia disse...

Sim, eu diria que pecado seria deixarmos ser recarregados. Bagunça, Adriana! kkkkkkk