21 agosto 2011

o disciplinado aborígene








O homem de férias vai ao supermercado e, despreocupado por não ter afazeres, vaga em busca de cerveja para beber sem anseio, receio, sem maiores razões. E, para sua grande surpresa, encontrou, dentre os vários tipos de bebida vendidos em tal estabelecimento, uma de suas marcas favoritas de uísque americano. O homem não pensou duas vezes. Comprou a bebida, voltou para casa, buscou um copo e o preencheu com o líquido destilado. Seus planos estavam concretos: passaria suas férias a beber, receber amigos, sairia a passeio em sua bicicleta e assim tudo mais estaria completo. O homem e suas garrafas de uísque. Mas a cortina desta narrativa tende a romper-se e desmascara o que não era apenas um homem a beber uísque sentado em sua poltrona a observar pássaros da janela de seu apartamento. Trata-se de um ser solitário, que, por muitas vezes, arrisca sua vida tombando ébrio em corpos de mulheres que poderiam deixá-lo ou amá-lo ou ainda trazer o risco ao homem de ser traído. E isto ele não suportaria. O homem sentia-se contraído feto como se a vida ainda não tivesse dado início aos atos e saía em busca de sua forma primitiva de liberdade fazendo longos passeios em sua bicicleta. Era então que encontrava o ar puro em campos, observava javalis e admirava a natureza ausente da notória crueldade que vigia a vida urbana. Bêbado, ereto e ciclista. E retornava para casa sedento de algo mais e lidava com seus instintos se deixando esvair sozinho em orgasmos tão ocos quanto um copo vazio. Mas deixemos a narrativa estática sem detalhes que humanizem a simples figura de um homem que saiu de casa, comprou uísque, bebeu por dias, trilhou estradas, distraiu-se, e, por fim, percebeu que sua barba havia tomado conta de seu rosto fazendo o parecer um obstinado e disciplinado aborígene.






Image by carts

6 comentários:

Eder Asa disse...

A solidão é embriagante. No fim, somos todos aborígenes e invasores. Mais que paradoxo, enigma.

Anônimo disse...

Não percebemos que a solidão ela é a nossa companheira, e ela nos leva a esse processo de sermos aborígenes.

Belvier disse...

Você me toca de várias maneiras. Parece até uma vidente [perdoa meu clichê vagabundo, Letícia]. Hoje me acertou em cheio. Como você mesma pontua em suas histórias, de arco e flecha. Beijos.

ediney santana disse...

Se não fosse o uísque, e sim cerveja e se não fosse a bicicleta e sim andar a pé, diria que aqui está minha pequena biografia desses meus dias em profunda solidão e orgasmos ocos e secos

Zélia disse...

Texto que trava.

Meu copo está vazio...

Marcello disse...

Já passei muito por isso :

"arrisca sua vida tombando ébrio em corpos de mulheres"

Como o Ediney disse, se não fosse a bebida, seria apenas a minha micro-biografia..rs

Beijos