07 agosto 2011

palavra de conserva







A busca pela palavra exata pode dar com os burros n’água. Exaustiva eu penso. A sensação é simples: uma sinfonia não muito organizada de todos os dias que vivi. E ainda vivo. Para a sorte de deus, ainda estou aqui, entre os viventes. Surge outro pensamento. Ecoa minha sede feito planador sobre a folha estacionada em mesa de carvalho. Agrupados estão o papel e o lápis. Como se fossem amantes eles me olham desejosos. Todos à espera. O relógio balbucia tempo, ganhos, perdas, necessidades. O homem que amola tesouras não veio. Choveu muito nos últimos dias e o homem que amola tesouras não veio. Pego o lápis. Como se diz em minha terra: "Um lápis comum para escrever". Grafite e borracha. Quero tudo manuscrito. Rufem os tambores porque estou a ponto de escrever uma carta. Inicio com o nome a que se destina. Penso que dizer o nome já é dizer tudo. Não escrevo mais a carta. No jornal falam de um sujeito perverso que arruinou crianças. Sinto falta de um tempo inocente que nunca iremos viver. Sempre alguém sentirá mais dor, comerá menos, sorrirá mais. Sinto falta do momento seguinte, da tocha nas mãos do atleta, do refrigerante sem pressa e do café exageradamente adoçado. Sinto falta de tantos atos. O papel ainda em branco sobre a mesa de carvalho e o dia é claro feito sorriso de dentista. O mundo está sério com suas apoteosas deslumbrantes. E o homem que amola tesouras não virá hoje. O que incide agora é a brutal ausência de rotina. Penso em ir à padaria, ouvir música, falar com estranhos. Penso em sexo, oração, viver muito, viver pouco. Viver em tom agudo e ser gigante em terra de formigas. Ou o contrário de tudo isto. Preciso organizar meu tempo livre. Ou aprisionar de vez meu tempo livre. Estou em busca de um sentimento platônico. Que seja charlatão. Em minha igreja todos os santos fazem milagres. E surge a primeira sílaba. Sem Sucesso. Nasce falha como bebês que não nascem. Rabisco rigorosamente o risco. É quase fatal escrever. Um crime de mão cheia. Ajusto o foco da lente. Multifocal é minha cegueira. Necessário é dizer. Dizer escrevendo como crianças ensaiando jogral. Uma sílaba adequada me traduz. O silêncio é a própria voz. Agonia sem pressa e o amolador de tesouras não traz o homem. Escrevo com tamanha força e meu excesso rasga a folha de papel sobre a mesa de carvalho. Escrevo à trágica. Medo de ser falho o ato escrito feito orgasmo fingido. Denso suicídio de não ser compreendido. O escrito sente medo de ser visto. Revisto a palavra como quem a vê pela primeira vez. Singela gritante na folha em branco. Uma palavra sozinha. Assim como uma mulher esperando um táxi. De bolsa em mãos. De garganta seca a palavra nasce. Um javali de imenso tamanho em zona de caça. Leio em voz alta: (...). A palavra diz nada. Apago com força o que havia escrito e o atrito da borracha contra o papel causa um enorme furo. Elevo a folha à altura dos olhos e, para a surpresa deste vulgar absurdo, eu vejo apenas o mundo, um jogo de cadeiras, plantas displicentes a favor do vento e nuvens cortando o céu cor de fim de tarde. Guardo o papel ciclope entre outros vários papéis e penso: chegou o tempo de começar outra vez. Outra folha, outra palavra, e constato: toda zona é cega. Será sempre segredo esta palavra lida, rasgada, fugidia. A fula da vida nunca se deixará ver. E platônica a palavra me vem turva de amor e plena em seu distanciamento. Toda palavra é arbítrio declarando emancipação.





Image by amoxes

5 comentários:

Jefferson disse...

"Toda palavra é arbítrio declarando emancipação"...Como eu coloco aqui um bonequinho batendo palmas Letícia?

Visito sempre esse lugar aqui, é delicioso.

Abraços.

Marcelo R. Rezende disse...

Eu senti isso agora mesmo, enquanto escrevia para o blog. Mas, diferente da moça, de você, desse gênero feminino confuso e delicioso descrito acima, nasceu algo.

Tem dias em que a folha fica branca, outros em que se enche e em outros, só o computador presencia.


Eu amo o que você escreve, você tem me confortado muito, mesmo que eu não responda aqui.

Um beijo
e obrigado!

Ana SS disse...

Que estilo mais Letícia de escrever.
Poderia localizar um texto seu em qualquer lugar do mundo.

renata.ferri disse...

Adorei seu blog! Adorei a forma como a riqueza das suas palavras contradiz coma busca por uma palavra exata.

abraços.

Suspiros da alma - Akiw disse...

Olha, não consegui ler tudo que já escreveu aqui, mas o pouco que li me é muito bom!
Obrigada por expor sua graça, e permitir criaturas como eu, amantes da leitura, degustarem de seu sabor literário, é quase existencial!
Grata desde já; Akiw.