08 setembro 2011

ao rebanho dos bandeirantes









Augusto resolveu se mudar. Comprou barco, muitas varas de pescar, diversos anzóis, iscas para todos os apetites e trilhou seu novo caminho. Mas, por ironia de todo milagre, Augusto se viu iludido e, um belo dia, acordou e nada havia para pescar. É preciso que se saiba: deserto nunca será mar.




Hospedada em um prédio no Recreio, bairro gentil da cidade do Rio de Janeiro, penso em pessoas que não estão aqui e acredito que não estejam em lugar algum. Penso nas pessoas que apenas ocupam espaço físico e se portam caladas e tristes e iludidas vivendo de ontem e meses a vir. Não sei fazer planos a longo prazo. Acho que este é um de meus maiores defeitos. Eu não sei contar com rebanhos senão me forem dados os carneiros. Eu rimo demais. Talvez eu seja o tipo de pessoa que combina cinto com sapato. Tudo na mesma cor. Eu vou sabendo de mim aos poucos. Ontem, antes de dormir, ouvi o arrastar de mobília dos vizinhos do andar de cima e pensei: é como adiantar futuro. Porque posso ouvir os passos destes vizinhos sem que me seja cobrado grande esforço. Talvez um breve esticar de pescoço e nada mais. Já os vizinhos de baixo eu os considero como se fossem o passado. Não os escuto. Mas, se me ataca a curiosidade, para ouvir seus ruídos é preciso que eu fique em total silêncio, me deite no chão, cole bem os ouvidos no piso e, só assim, talvez eu os escute. Mas, como tentei elaborar em minhas divagações, vizinhos de baixo são o passado em minha insone percepção. Eles representam minhas atitudes gastas, meus atropelos e beijos em tempos outros. Não tenho medo do passado. Ele existe em meu olhar e em quase todas as orações que verbalizo. E penso: rebanhos passados não alimentam pastores. Perdoa-me se falo bobagem nesta breve narrativa. Acredito que todos nós temos o direito de fazer serenata para surdo ouvir e eu faço. E todo canto meu será canto do mundo. Estou a serviço de tudo. Seja passado, presente ou futuro. O medo não mais estanca o vinho de minhas taças.





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6 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

É o uso do silêncio com que mais me identifico.

Cyelle disse...

Lindo! Quero o primeiro livro e um autógrafo para a fã. :)
Beijos

ediney disse...

Esse texto me deu certa saudade desmedida, melancolia e uma vontade de sumir pelo mundo

CARLA STOPA disse...

Nem das minhas amiga...Belo.Um brinde...

A Escafandrista disse...

Eu adorei a frase: "É preciso que se saiba: deserto nunca será mar".

Zélia disse...

O andar em que se vive é o presente. Não há porque se ter medo, nem vergonha, do passado. Ele já foi. Não há porque se ter medo do futuro. Ele ainda não chegou e pode ser que não chegue. Do presente, se tivermos medo, não vivemos.

Falando mais de mim, já não me importo tanto em combinar cinto com sapato...

E, o "deserto nunca será mar" porque já o foi um dia...