18 setembro 2011

devota feminina








Ele dorme. Após o ato, após trafegarmos por nossas ardentes formas e avenidas, ele adormece à luz do abajur. Capturo o momento tentando observá-lo de forma atenta. Não quero perder o momento de vê-lo entregue a minha cama, ressonando seu cansaço, vibrando em sonhos que jamais irei saber. Penso em acender um cigarro, sentar-me à janela e olhar o homem que dorme. Mas não posso me distanciar desta imagem. Amo a imagem que, à luz do abajur, me parece serena e ausente de conflitos. Observo o rosto. O formato. Sua cabeça descansa no travesseiro e eu me aproximo para sentir de perto todo o detalhe. Para que nada me escape, olho de perto. Nada pode me distrair deste agora. O rosto é retangular de pele alva aos claros dias. Seus olhos, embora cerrados, aparentam a febril leveza com que me adornam. E, mesmo em sua pouca idade, apresentam sulcos ao seu redor. São fundos e peculiarmente adultos em suas pálpebras os olhos. O nariz traz ares de europa ao que vejo. Reto, perfeito, decidido em suas narinas pequeninas de fazê-lo respirar. Nariz de escultura grega, eu diria. Não fossem tão mortas as esculturas eu diria que ele se assemelha a uma delas. Meu Apolo de musa única é o homem que adoro. A boca não é pequena. Por minhas vivências, digo ser esta a boca mais bela já beijada por mim que tantos beijei tempos afora. Os lábios se precipitam avermelhados. São carnudos e desejosos. São grandiosos os lábios do homem que possui o rosto que detenho em pensamentos diários e eróticos. Tanto me afeta este homem como a esbelta cruz da catedral afeta crentes em oração. Sequer parece humano agora que o vejo como entidade. A luz deixa ainda mais clara a pele e as maçãs do rosto são rosadas como as maçãs do rosto de uma criança em impulsos de vasta saúde. Lembro de seu sorriso quando desperto. É aberto, sereno e secreto a meu ver quando o observo. Uma de suas mãos repousa ao lado de seu rosto. Posso sentir o que há pouco fizeram ao meu corpo suas mãos. Nunca meu corpo fora tão investigado e harmoniosamente ferido de amor. Eu amo este homem de olhos fechados pelo sono que nasce do cansaço dos corpos unidos de horas antes? Decerto que sim. Eu o tenho lavrado em minhas palavras e ninguém neste mundo poderá dele saber como eu sei fazendo deste ser esculpido em minha desperta tentativa de capturá-lo como o fotógrafo captura ventanias a mover árvores na louca tentativa de capturar vida. Apolo me contamina de sono e me esvaio adormecida ao seu lado. Que ele saiba um dia que vaguei horas a verbalizar em mármore ou argila sua fisionomia e fiz deste homem a bela e viva escultura minha. Minha igreja, minha raça, minha devoção em obra prima.







Image by ecrah-angel

6 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Pensei em muita coisa pra te dizer aqui, depois de ler várias vezes o seu texto, mas só palavrões me vêm à cabeça, então prefiro dizer que te amo, você, tuas palavras. Se você existisse, certamente seria criada.

Léo disse...

Nossa, lindo texto, cada frase que eu ía lendo eu via a cena.

Zélia disse...

Falar de amor não é fácil nem difícil. É único. Vc diz e está certa:

"...e ninguém neste mundo poderá dele saber como eu sei..."

Só eu sei do amor que me cabe.

Gosto de ver vc escrever assim. ;)

Zélia disse...

Vôte! Comentários moderados. Esqueço sempre! /)

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

"São carnudos e desejosos."
é sempre o são, em sua solidão e sua verdade, nasce e morre na carne o resto é romantismo em letra de música sertaneja

Anônimo disse...

Vi o link do face do Ney e estou eu cá, como mulher digo-te que me vi nestas tuas linhas, mas é algo que não quero de pessoa que comigo fique, quero amor, só isso posto basta
Pricila Marinho
"Pri"