22 setembro 2011

extinto








Hoje é meu aniversário. No entanto, não comemoro. Há razões dentro de um homem que o levam mais ao infortúnio do que às parcas celebrações em vida. Entre os presentes, minha família e amigos. Organizaram um almoço a todo meu benefício. Estou sorrindo para um retrato que, assim como outros, não terá mais valor depois de passado o efeito do uísque. Ou talvez tenha. Poderei ver todos que estão ao meu lado nesta altura de meus dias. Meus irmãos (dois — um homem e uma mulher) estão felizes. Aparentam estar. A consciência deles ainda não fora afetada como a minha tem sido desde o dia em que me tornei adulto, adubo de obrigações. Estamos todos conversando, trocando absurdas risadas sobre acontecimentos passados. Minha irmã fala de sua vida e todos riem enquanto malta a cerveja na barriga dos beberrões. Seus filhos já estão crescidos o suficiente para não estarem aqui. Minha irmã, muito solenemente, disse que seus filhos mandaram-me beijos e que precisavam estudar para provas. Eu assenti e recebi os falsos beijos e pensei que, acaso estivesse na idade de meus sobrinhos, eu também não estaria em minha festa de aniversário. Por que alguém perderia tempo (que é precioso e preciso feito cálculo físico) participando de almoço em família onde somente o álcool pode facilitar um pouco mais a vida? Eu não perderia meu tempo comigo mesmo. No estado em que me encontro, naufragado beirando crises, eu não iria querer estar perto de mim. Desce o uísque mais forte agora que me contraio em um abraço solidário entre amigos. Amigos são prósperos inimigos porque adoram assistir nossas quedas. E ainda nos consolam dizendo que a idade matura o que a mente não pôde digerir em tempos de nova idade. Eu queria estar longe daqui. E não há um lugar específico. Poderia ser qualquer lugar que me trouxesse uma sensação que nunca tive de estar vivendo pleno de meus sentidos sem que esta falsa regalia de vida em família me assaltasse. Pessoas acreditam que ser feliz é isto: emprego, carro, contas pagas e uma boa discussão sobre política, economia e futebol. Eu não quero falar sobre felicidade. Meu emprego é uma mancha em minha existência. Todos os dias saio do trabalho mais pesado do que um rinoceronte carregando um búfalo. Entro em meu carro e me dirijo para casa onde encontro esposa e filhos adestrados em frente à tevê. Sou todo sorriso quando volto para casa. Não há mais o que fazer quando tudo mais já está acertado. O destino é eficaz quando o caso é vida de homem comum. Até um mendigo deve viver mais aventuras do que eu. A cada dia um lugar diferente para dormir. E não menciono mulheres. Não as quero. Um dia eu as tive em minhas mãos. Professoras, amigas, namoradas, putas. Todas eram o que eu precisava ter em dado momento. Hoje não largo meu uísque por uma mulher. Não quero seus conflitos aleijados e ultrapassados de mesmices cavalgando em cima de mim. Prefiro a minha mulher que já está castrada como um gato e vive ancorada e dispersa em suas preocupações. O que me dói é a consciência. Me ferem o peso desta mesa farta e meus filhos que ainda não cresceram o suficiente para se sentirem nauseados por todas as horas que permeiam dias corridos. Minha vida é uma baldeação de fatos irrisórios que me determinam cidadão vulgarmente conhecido como João. Este é meu nome. Poderia ser o seu. Poderia ser o de qualquer um. Afinal de contas, não passo de um homem sentado à mesa, tentando forçosamente me embriagar para conseguir digerir tudo isto. E, entre os presentes e passados, um dado estatístico: hoje é meu aniversário e a vida jocosamente me enfarta de cansaço. Outro retrato e a celebração chega ao fim.







Image by DiChan

7 comentários:

Glitz# disse...

Nossa, garota
como voce é cansativa!
Sua familia so tem heroi.

Zélia disse...

Mais um texto que dá pano pra manga. Falar da vida dá muito pano pra manga. Eu nunca entendi essa coisa da beber para esquecer, para aguentar, para suportar... Acho que há muita acomodação na bebida. Quando se bebe descomedidamente perde-se a medida que devemos ocupar no mundo, em nosso país, em nossa cidade, em nosso trabalho, em nossa família, em nossa casa e dentro de nós mesmos. Os caminhos são vários. A maioria de estradas sinuosas, cheias de obstáculos. Mas o poder de por onde ir e como seguir é de cada um. ;)

Sandrio cândido. disse...

O conto tem sabor de estoicismo que gosto muito e fala de algo que eu também acho verdade: esta louca procura da felicidade que fazemos nas coisas exteriores, nas vitrines, naquilo que só nos engana-porque os vemos pelos sentidos-
gostei muito deste texto,bem reflexivo.
abraços

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

também sou eu nesta fez aqui no meu canto, apenas um hoemem sentado a mesa

Belvier disse...

Minha cabeça anda bagunçada ultimamente. Por isso andei ausente, Letícia. Vejo que sua força continua firme. Isso te engrandece sempre mais. Esses retratos que você constrói são mini-romances que poderiam se tornar fantásticos.

Um conselho, se me permite. O primeiro comentário não é condizente com o conteúdo do seu sítio. Percebe-se que o sujeito ou sujeita sequer leu seu texto. Você não precisa disso. Conselho de amigo. Eu apagaria de boa.
Beijo. E estou voltando aos poucos.

Evandro L. Mezadri disse...

Que texto maravilhoso, Leticia!
Você escreve com uma consistência crítica invejável. Mostra o cotidiano de forma franca, poética e reflexiva.
Sou um grande fã!
Grande abraço e sucesso!

NDORETTO disse...

Dirigindo sua prosa para o amargo. Mesmo assim, tragicamente belo.!!!

(cadê a moça do então?...quero ela...rsrsr)