12 outubro 2011

a doce cólera de um beijo










A Ediney Santana
e ao brilhantismo poético das mulas.






Todo besta tem um palco. Este é o meu. Vesti-me de palhaço perante as multidões e acordo com o gosto hostil de seu beijo de inverno. Hoje nada mais me parece estar em seu lugar. A mesa, o liquidificador, o ventilador e suas pás ― tudo está em descompasso. Ela denunciou suas mudanças e eu, o tolo, não acreditei. Ela denunciou suas verdades e eu apenas disse que nada poderia me ferir. Sinto, nesse momento, uma imensa necessidade de estar só. Decidi que caminharia pela praia. Após me despedir da mulher, hoje cedo, preparei roupa de atleta, entornei suco pela goela e de nada adiantou. Não me dei à caminhada. Minha preguiça é repleta de compromissos. E eu tenho algo a pensar que me ocupa o dia inteiro. Ela precisa existir. É na total ausência de ação que vasto meu pensamento e percebo nuances nunca vistas em meu rosto, meu corpo e na mulher que me assume homem. Ela está assumidamente verdadeira em minha vida. Chego à praia e já é noite. Turistas passeiam. Percebo alguns casais se beijando exageradamente e isto me causa inveja. Conseguem ser felizes de forma simplória. Um beijo e o mundo deles se completa. O meu, não. Busco respostas em cada pensamento meu. Não consigo peneirar minha crise. Ela está aberta ao público. Acontecendo feito espetáculo de circo. Posto meu olhar no bruto espaço da rua. As casas me parecem iguais. E também o asfalto. A calçada traz sempre o mesmo ar exibicionista de aspecto urbano: lixo, gente, fedor de urina nos recantos e rachaduras. Tenho a súbita sensação de estar vivendo a mesma cena de tempos atrás. A solidão é o meu estado e território e faço disso meu estandarte. Caminho um pouco mais e chego a um bar. Tudo funcionando como de costume. Encontro uma mesa que me distancie das pessoas. Sento-me. Preciso estar só para pensar naquela cuja existência me causa um tipo de cólera adocicada que me faz querer sempre estar por perto. Porque ela existe e me corrompe de tal forma que mal posso respirar sem que a imagem daquela mulher me cruze o pensamento. Eu tento investigá-la para, um dia, quem sabe, conseguir entender o que tanto mais ela esconde. Não pode ser simplesmente o fato de sua vida comum de mulher comum. Ela possui mais que isso. Eu a conheço. Eu a vi. E ela recorre a mim em noites como esta. Deverá surgir novamente com seus ares elegantes de inocência. Imatura demais para se ver como é, ela recorre a mim para que eu diga o que vejo. Mas eu não digo. Eu não quero dizer porque, desta forma, estarei também me denunciando. Hoje não deixarei que sua amabilidade me consuma. Sua voz hoje não me fará efeito. Não quero saber de suas dores. Não quero seus anseios. Seus seios podem até me fartar. Mas eu busco mais que sua presença. Serei imbecil por querer daquela mulher sua total essência? Serei tolo ao deixar emergir de mim essa vontade de estar com ela não somente em palavra ou em noites salteadas de um calendário indócil? Eu quero a mulher. Mas ela é um luxo que não posso assumir e não tenho coragem para correr riscos. Eu já envelheci o bastante para saber que ela não estará por mim da mesma forma como sempre estive por ela. Bebo algo alcoolicamente aceitável ao meu paladar. Embriago-me. Sinto ainda o gosto de seu beijo de despedida. Ela sempre vai embora encardida de minhas forças. Eu deixo minhas marcas em seu corpo porque é disto que vivo e nada mais recebo. Eu a amo e não sei dizer. Já tentei diminuir a mulher e fazê-la sentir-se semelhante. Ela me diz que sou rude e sofro de auto piedade. Ela talvez esteja certa. Mas há algo que de mim ela nunca saberá. Porque, quando ela acorda, eu já estou desperto. Eu a observo antes de acordar e sei de seus olhos fechados, enquanto, outros, sequer podem tocá-la. Eu conheço a mulher em segredo e foi preciso que eu saísse de casa e perdesse meu olhar em ruas a enxergar a vastidão desse mundo, do mar e dos casais abraçados nesta praia para saber que não há fuga quando o sentimento é perpétuo e feito em silêncio. Talvez eu não ame aquela cuja existência me perturba. Talvez eu queira mais que amor. E não sou tão forte ao ponto de negar minha presença à mulher. Observo o mar escurecido pela noite e volto para casa a espera de um beijo hostil. Viverei de inverno se esta for a solução para o que sinto. Viverei secreto o pavor de minhas ânsias por sua presença. Debilmente eu aceito seu calendário em cujos dias eu não passo de um número inapropriado. Volto para casa e a recebo. Em nossa cólera furtiva de todos os sentidos passamos a noite e contamos o tempo esperando que o dia não nos atormente. E, ao amanhecer, outro inverno me assombra. Aceito o fardo. Toda realidade que vivo é indecente.





O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

(Gregório de Matos)








Image by taho

3 comentários:

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

Toda saudação sempre é bem vinda, alguém escreve um texto como esse cheio de linhas cortadas e verdades delicadas e me dedica só tenho a agradecer em meu nome e em nome das Mulas.

Marcelo R. Rezende disse...

A incerteza do que já se tem certeza é um trem muito complicado. É tanta coisa que ronda a cabeça que a gente nunca tem saúde plena pra tanta pergunta. Vai e volta e as teorias mudam, pulam ao fim e voltam ao começo. Mas a mulher, essa danada, é o motivo gostoso de viver.

Beijo.

Zélia disse...

Before reading the text.

I hope you find "the difference" whenever you come to my space (it makes me very proud). I haven't gone to other spaces either, except this one. I got happy when you go there and I get happy to be here. Just because it's you and it's me and nothing more. ;)

After reading the text.

Eu poderia aplaudir, se simples fosse. Poderia dizer que o texto é belo, profundo, bem escrito. Mas, isto se faz desnecessário a quem tem olhos para ver. Eu vejo. Vejo o trabalho de quem nasceu para alinhavar palavras e ser marca como linha.

Quisera eu dizer que a vida é simples, que amar não é difícil. Não posso. "Sento-me" e, para terminar, (?) um trecho do texto:

"Preciso estar só para pensar naquela cuja existência me causa um tipo de cólera adocicada que me faz querer sempre estar por perto." (Letícia Palmeira)

A solidão só existe porque algo/alguém nos falta. E sobre a "real essência dessa falta", ah! isso é outra história...

Luv!