08 outubro 2011

solace verberato










Que há de errado na melancolia? Que há de errado no tom das vozes iludidas? Que há de errado no pesar, na perda, no instante da partida? Nada há de errado na tristeza humana. Nada há de errado em sentir-se só o narciso ressecado em meio ao rio. Nada há de errado no vazio que preenche o precipício. Parte de nós o suplício para que nos venha celebrar a face o riso. Nada há de errado ao narciso. Nada há de errado em mim. E se me implica martírio e isolamento meu timbre, por deus, deixa-me sentir. Deixa-me, por deus, meu sentir. Pois varre da janela o vento da rotina. Que é isto que me queima em febre a carne por tempos amortecida? Que é isto que subtrai de mim sentimentos que eram somente meus? Nunca em vida eu me deixei abater. Era soldado. Era deus. Eu costumava ser de minha propriedade até este momento que previsto crime de mim furtou o olhar, a fala, a palavra que sólida arquejava sensatez e equilíbrio. É quando visto a cama em lençol de seu aroma inebriado que sinto o amor finalmente enlaçando-me com seus artifícios bélicos e eu me distraio de mim. Tenho apenas a febre. A inflamação. A bruta combinação em pele que ouso tocar para depois saber que não há outra identidade senão esta. De amor tenho vivido. De amor serei precisa ao dizer a todos que me deixem viver os dias sem que horas me corrompam. Que se cale a margarida repetida de alegrias. Que se cale o modernista que arquiteta mínimo poema. Que se calem todos. Eu insisto em existir. E se causa cólera minha palavra em forma de vida, silencie sua voz o prático racional festivo. É de amor que vibra meu timbre. E tudo que é amor me dói em vasto sentido.







Image by Pygar

5 comentários:

Alicia disse...

Maldita mania moderna de ferrar com nossas dores, de patologizar o natural...

Pra mim, pejorativo é felicidade em demasia.

Por que você faz poema? disse...

Não há nada de errado na melancolia,
no pesar, na perda,
na tristeza humana,
no vazio.

Em sentir-se só,
em gostar de sentir-se só.

É a alegria exagerada,
a gargalhada desnecessária,
o "de bem com a vida",
o "alto-astral"
que incomoda
(embora eu também nada saiba sobre o que é certo ou o que é errado).

Quero apenas caminhar com minha dor
e ignorar os sorrisos da estrada.

Mai disse...

Opa!
Você voltou.

Lindo, Let, lindo.

Não há nada de errado porque somos esses tudos e esses nadas.

bjos.
lov u

Zélia disse...

Bom...

Quando começo assim eu tenho muito a dizer. Mas, talvez, não o faça. Tenho pensado muito nisso esses dias. Tenho pensado em liberdade. Teu texto fala de liberdade. Sempre ouve quem nos quizesse tirá-la. Mas, agora, com toda a abertura e exposição que temos, foi criada a ditadura do próximo. Aquele que esquece de viver a vida dele e vem se "preocupar" com a tua (sujeito indeterminado). Não há nada errado com a melancolia. Muito menos com a alegria. Se há algum problema é no tempo que esses sentimentos duram ou na forma como os usamos. Chorar depois de uma piada não condiz. Assim como gargalhar em uma entrevista de emprego. Diz-se que quem ri demais é doido. Já quem chora demais, no mínimo vai ficar desidratado. 8)

Seguindo o conselho de Hemingway, direi que odiei seu texto. Pela segunda razão, claro! :D

Marcelo R. Rezende disse...

Eu não me recordo de qual livro é, creio que de "Múltipla Escolha", mas Lya Luft tem um trecho que diz que dor e recolhimento são mui importantes pra gente se entender. Que a dor é um trem chato e que deve ser pouco usado, mas que, quando vem, que se embebede da dor, que a deixe agir e que tudo nasça de novo. Tou nesses tempos e adorei ler teu texto. Fez-me um bem danado!