20 novembro 2011

entre jabutis e pererecas








O aspirante a escritor decide se expor. Cria um blogue e passa a escrever sua ficção (em prosa ou poesia). Recebe meia dúzia de elogios por dia porque seu trabalho é admiravelmente bom. Logo surge o conselho: publique. O blogueiro, aspirante a escritor, percebe que pode publicar. Há editoras que irão aceitar seu trabalho. Ou então, busca, incansavelmente, algum patrocínio para publicar seu primeiro livro. Ou banca a publicação de seu próprio bolso. E consegue. De livro publicado, o blogueiro torna-se escritor. Passa a ser visto de forma diferente: já não é apenas um blogueiro. É alguém que possui prefácio e ficha catalográfica. E, deste ponto em diante, surgem convites para eventos literários (saraus, palestras, chatices e tolices que em nada resultam). Mas é literatura, todos creem. O blogueiro escritor fica de igual para igual sentado à mesa ao lado de escritores de renome (reconhecidos por pares, ímpares, jabutis, pererecas e acadêmicas teses inclinadas à bajulação). Mas o blogueiro escritor percebe que há olhares de fajuta aceitação. Nunca será aceito entre os grandes, médios e pequenos autores que rezam suas barrigas cheias de genialidade e talento. O blogueiro corre contra o tempo e busca portais literários para que seu trabalho cresça e apareça. E chove publicação. Então o blogueiro começa a se sentir profissional. Já não pode mais exibir seu trabalho em um simples blogue perdido entre milhares de outros blogues. Agora é escritor de boca cheia. E precisa ser visto. Então seu blogue torna-se uma vitrine de seu trabalho: fotos em eventos, banners de vários sites voltados à literatura, muitas resenhas críticas a respeito de muitos livros. E assim o blogueiro torna-se, assumidamente, um escritor de peso (talvez pena ─ talvez pesado). Reconhecido e canonizado. Amém.

Não.

Isto não ocorre. É ilusão.

Publicar livros é parte do trabalho de quem escreve. Ter opinião crítica acerca de outros autores é parte do trabalho de quem escreve. Publicar um livro não eleva o escritor. Publicar mais de um livro também não. Ser citado em sites e periódicos literários é apenas reconhecimento ou febre do momento. Perdoem-me aqueles que talvez sintam-se tocados pelo que estou dizendo. Mas ando angustiada com o que vejo ao meu redor. Sempre li e acolhi blogues como se fossem minhas leituras diárias. Eu buscava ficção, novidade, palavras. Buscava poesia. Agora meus blogues favoritos parecem mais propaganda eleitoral. Acesso o blogue e vejo apenas uma enxurrada de links que, pomposamente, publicaram os blogueiros/escritores que eu costumava ler. Fico feliz que tenham sido reconhecidos. Eu os lia com o mesmo respeito e afinco que leio Machado de Assis ou qualquer um de igual tamanho. Eram escritores aqueles blogueiros que eu costumava ler. Mas acontece a fama (esta coisa pequenina que muda algumas vidas e morre seca com o passar dos dias). E o blogueiro torna-se profissional e não pode mais se rebaixar ao nível de publicar sua obra em blogues porque todos negam dizer, mas dizem aos cochichos: blogue não é literatura. Esta teria sido minha resposta a um professor que me ligou para saber mais a respeito da literatura virtual. Sim, ela existe. Foi o que respondi. Mas o meu pensamento era outro. Eu menti porque sinto muito quando vejo autores de blogues agindo da mesma forma elitista que agem muitos membros da academia. Altivos, cheios de grifos e tragicamente esnobes. Afinal de contas, escritor de verdade não perde tempo com blogues. O escritor de verdade escreve livros. E publica crônicas e resenhas em jornais. E recebe prêmios, dorme de bruços, arrota aforismos, autografa aos rabiscos e esquece a arte. Espero que voltemos ao tempo em que escrever era o primordial.









Image by Alex Clark