29 novembro 2011

anseio filosófico












Eu queria muito ser comum. Comum feito gente que come maçã. Gente que anda a pé, que odeia domingo, que sente depressão, que mata barata, que lê jornal, que assiste televisão, que paga conta, que deixa cair xícara, que ri dos outros, que vai à missa, que sente vergonha, que usa roupa do avesso, que gosta de aniversário de criança, que viaja de mala e cuia, que gosta de laranja, que conversa na calçada, que mal enxerga e, quando vê, quase nada. Gente que compra bicicleta, que faz dieta, que fecha porta e abre janela, que faz comida, que toma café, que fica doente, que acha graça, que não vê tristeza na miséria, que guarda garrafa de vinho e enche de água pra enfeitar geladeira. Eu queria guardar rancor. Queria caminhar pelo centro da cidade, visitar amigo durante o dia, cuspir no chão, brigar no trânsito, achar que poesia é bobagem e, livros, simples pesos de papel. Queria não sentir rubor. Eu só queria seguir a regra. Ser gente feita de perfeita matéria e homem feliz com a vida milimetrado feito régua. E, se possível, saber exatamente o que sou.








Image by WaldekBorowski

5 comentários:

Sandrio cândido. disse...

é exatamente o ultimo desejo que parece-me ser o mais difícil
abraços

Cyelle Carmem disse...

Ser comum é cansativo, concorda?
Algumas coisas boas, outras piores...
Coloca esse texto na sua próxima postagem do Caixa Baixa.

Zélia disse...

Seremos duas. Ou mais?! Queria ser comum. Como um lápis grafite e só.

Eder Asa disse...

Mas esse prazer da pluralidade só é conferido aos, ainda que minimamente, boçais. Só é feliz quem ignora. Saber quem se é, é informação demais.

Marcelo Novaes disse...

Letícia,


Este protocolo é o da "doença média socialmente aceita", ou seja da "normalidade"?! Isso é ser comum?!

Huuummm...


Okeio.




Um beijo, querida.