15 novembro 2011

areia e tempo









Eram felizes juntos. Em uma pequena casa no campo. Não havia cercas ao redor de nada. Tampouco bichinhos ou paisagem bucólica. Era apenas uma casa cercada de areia e tempo. Nunca reclamavam ou brigavam ou discutiam. Não havia motivo. Faziam amor e sentiam-se contentes. Juntos estavam completos. Mas, ao chegar o asfalto e outras casas maiores e mais reluzentes, perceberam que não eram felizes. Sentiram-se incompletos. Ao chegar o asfalto e a cidade cheia de suas novidades, pereceram infelizes e civilizadamente doentes. E tornaram-se, com o passar dos dias, invejosos.








Augusto chegou às nove. Abri o portão. Eu o recebi timidamente. Não houve abraço. Apenas um sorriso de pertencimento. Percebi que ele havia engordado. Não comentei. Sou elegante e discreta: gato com rato escondido entre os lábios. Augusto entrou em minha casa. Percebi que ele estava sem jeito. Tentei fazer com que se sentisse bem. Livre, talvez. Tomamos café juntos. Sentados à mesa, conversamos amenidades. Ele deve ter notado diferenças em mim. No entanto, também não comentou. Augusto é quieto: leão com a presa entre os dentes. Ele trouxe apenas uma mala com poucas roupas. Eu realmente não esperava que ele passasse mais que o suficiente para termos de nós o que o corpo necessita. Augusto guardou suas coisas em meu guarda-roupa. Arrumei um quarto para que Augusto dormisse sem que as horas o incomodassem. Será que Augusto percebeu o quanto tentei ser gentil? Minha gentileza: lebre fugindo da seca. Chegou a noite e Augusto adormeceu. Encolhia-se de medo como criança sem mãe ou apego. Dormi ao seu lado. Encolhi-me obediente: cubo de gelo que não derrete ao sol. No dia seguinte, Augusto saiu. Augusto saiu por dias seguidos e retornava à noite. Era preciso que ele saísse para que ninguém o visse em minhas salas. Aproveitei o tempo e arrumei a casa. À espera de Augusto, arrumei a morada. E, quando ele voltava, era o soldado derrotado que eu recebia. Eu o acolhi em meus braços, em meus beijos, em meu afeto: serpente protegendo seus genes. Dormimos e acordamos unidos e separados por pensamentos. Percebi outras mudanças em Augusto. Seu corpo não era mais tão preciso quanto em outros tempos nossos. Ele estava cansado, triste, morto de olhar vivo: caçador vítima de seu próprio extermínio. Em nossos corpos, outras marcas. Em nossas bocas, outras falas. O tempo fora imenso entre nós desde nosso último encontro: mutantes silenciados por outros seres. Foram quatro dias de muito tempo. Tomei de Augusto um pouco de seu ar, de suas vidas, de seus azares. Ouvi suas histórias como ouve o sermão a mulher que deseja o perdão. Segui seu sorriso pelos poros de seu rosto inconfundivelmente mudado. Bebi de suas águas, deixei que ele tocasse meus segredos, meus cabelos, meus receios de ser vista: era lebre o gato comovido ao ver a beleza do leão de faro extinto pelo exagerado uso de seus instintos. Augusto partiu em um domingo. Após um beijo, de nosso amor gasto pelo tempo, Augusto partiu para viver seus recreios. Hoje ele é poeta. E eu escrevo em prosa. Não há mais drama em nossa tragédia. E todo verso chega ao fim.











Image by raphael perez

2 comentários:

Sandrio cândido. disse...

augusto dos anjos...

tom forte em sua prosa.

Marcelo Novaes disse...

Letícia,




O afã a si se esgota.




Um beijo, amiga.