01 novembro 2011

jornal roubado
















Hoje fui à Pasárgada. Mesmo sem ter amigo algum (que dirá um rei), estive em Pasárgada. Vi o que não se deve ver. Eu não me vendo. Estou sempre de olhos nus. E encontrei coisas indizíveis. Um homem esperando ônibus, uma menina pedalando sua bicicleta e um engraxate. Decidi não falar com ninguém. Eu apenas queria estar em outro lugar. E estive. Vi o mundo comum dos vadios e pessoas que vivem contentes. Vi os loucos e dezenas de carros parados porque não havia pressa. Eu estive em Pasárgada. Fumei, bebi, não fiz amor porque não quis (ah, que bom ter liberdade) e agora estou aqui. De volta a minha casa. De volta ao mundo prático. Outro dia voltarei à Pasárgada. Porque, uma vez estando fora de si, difícil é aceitar a vida como fim. O melhor é viver de descobrimentos.








Dois passos curtos e alastrou-se diante de mim a Avenida Pedro II. Gosto de ruas com seus nomes imponentes. Parecem mais fortes. Caminhei rápido antes de pegar a chuva. Cheguei ao consultório. Abri a porta e me deparei com a longa fila de pessoas que seriam atendidas antes de mim. Nunca me adaptei a médicos por ordem de chegada. Eu gostava da hora marcada, porque, dessa forma, ninguém se perdia. Mas o homem reinventa tudo e retira a ordem das coisas. Por isso me tornei paciente. Não que eu viva em consultórios. Mas, de vez em quando, vou ao médico. A recepcionista me atendeu como se estivesse cansada. A mulher usava camisa azul, uniforme azul, sapato azul e batom vermelho. Muito gentilmente, assinei meu nome em uma ficha e encontrei um lugar agradável para me sentar. Era preciso, já que a tarde seria longa. Após me sentir confortavelmente sentada, bolsa no colo e pernas cruzadas, dei uma olhada nas pessoas que estavam no consultório. Uma mulher e um velho, outra mulher e uma menina adolescente, um homem e uma mulher calçando tamancos e um representante de medicamentos. Ninguém conversava. Todos olhavam a tevê. Mas era um olhar perdido na cara de todo mundo porque estavam esperando e isto causa ansiedade. Não há tempo para tevê. Colhi uma revista que estava no sofá ao meu lado e passei a folhear. Atriz, modelo, Madonna, atriz, ator, cantora, política e horóscopo. Li. Engraçado é que meu signo diz muito de mim. É uma grande coincidência. Logo eu, que em pouca coisa acredito, tenho um signo que me revela. E o tempo foi passando. Decidi fazer palavras cruzadas. Saquei uma caneta da bolsa e comecei a rabiscar a revista do consultório. Pensei nas mãos que haviam tocado aquela revista. Pensei nos olhos que por ela haviam se largado. Pensei em sexo. Intrusivamente me veio este pensamento. Sexo + sexo + sexo = pernas doídas e dor nas costas e sorriso de fazer gosto brilhando no espelho. Ou nem sempre isso. Muitas vezes o sorriso é fingido, o orgasmo é tímido e o gemido não desemboca em combustão. Rabisco espirais na revista. Largo a revista. Alcanço folhas de jornal. Caderno Literário. Agora sim eu estava em casa. Li crítica, poesia lambuzada de chatice, escritor ralhando sobre si e decidi roubar o caderno literário. Meti na bolsa o jornal. Ninguém viu. E, se viu, que mal tem roubar jornal? Conheço gente que rouba vida, rouba amor, rouba tempo. Eu roubei apenas este jornal. Apenas este caderno de um vasto jornal cheio de notícia de hoje cedo, de morte, de atropelamento, de medo, de gente acontecendo. Apenas um caderno. Sorri por roubar. E logo chegou minha vez de ser atendida (estou correndo contra a narrativa). Entrei no consultório, respondi algumas perguntas, disse sim para ganhar tempo e saí de mãos dadas com a consciência limpa por ter ido ao médico, por ter sido discreta, por ter conseguido a receita para permanecer quieta. Andei pela Avenida Pedro II olhando o sol se pôr. Eu e meu jornal roubado. Mal nenhum.







Image by pedraxas

5 comentários:

Sandrio cândido. disse...

Uma riqueza de detalhes e uma ironia penetrante...

abraços

Bruna Assagra disse...

Ma-ra-vi-lho-so.

Zélia disse...

Valha-me Cristo!!!

Mal nenhum / todo mal.

Eu estou no texto. Já me perdi em horas e em lugares. Não me recordo de ter sido paciente. Sempre lembro de um eu impaciente. Tormei-me paciente, mas, ainda continuo impaciente.

Belo trabalho o seu. Já o meu...

I feel my work is gone through trash. Behave yourself, girl! 8)

Lilian A. Mello disse...

Oie!

Sigo seu blog pelo reader no meu celular e adoro.

Leio geralmente à noite, e chamo gentilmente esse horário de "retiro espiritual".

Obrigada!

Lilian
www.doce-borboleta.blogspot.com

Marcelo Novaes disse...

Letícia,




São tão estranhas as tais salas de espera...



Um beijo, amiga.