23 novembro 2011

mestiço











Sinceridade te basta?
Ando precisando de uma dose de grosseria,
(com todo o prazer do palavrão).








A buganvília morreu. Ressecou o tronco, as folhas começaram a desaparecer e acabou. A buganvília morreu. Como não entendo nada de botânica, larguei-me a pesquisar o nome exato da planta. Entre trepadeiras, flores rosadas, roxas e o escambau, encontrei definição de porte científico:

Bougainvillea Spectabilis.

Então a bougainvillea spectabilis morreu. O muro agora está sem proteção. Porque os galhos eram cheios de espinhos e ninguém tentaria invadir a casa tendo tantos espinhos pela frente. E você me liga no meio de minhas abstrações para dizer que está tentando se equilibrar. Que está tentando, com todo esforço, ser feliz não sendo. Porque, segundo você, a felicidade interrompe nosso fluxo de conflitos, nos deixa patéticos, cegos, esquisitos. Você me disse que deseja apenas segurar a onda. Eu ri. Educada por fora, eufórica por dentro, molhada nas bordas. Senti vontade de dizer palavrão. Um palavrão bem grande de porte popular. Você me ligou para dizer que sua vida é pesada em fardo, mas, que você, expert em autodestruição, está sendo sensato e praticando exercícios, sorrindo quando acredita ser preciso e se alimentando de forma saudável. E disse também que muita coisa dói: obrigação, amigos, família, contas a pagar. Muita coisa dói. Eu sei tudo a respeito disso e concordei com a voz forçadamente calma e fisicamente rouca. Aí você veio perguntar se estou bem, me aconselhou a ir devagar, disse coisas harmonicamente combinadas com seu riso de mestiço. Mas a verdade é sempre outra. Você perdeu a direção. E agora me liga dizendo coisas. Coisas que você precisa dizer para si mesmo porque está aflito tentando acreditar em tudo que diz. Então liga (vez ou outra) para me dizer que está errando seus alvos de propósito. Diz que passa o dia tentando se certificar se é mesmo prova de insanidade tudo o que você pensa. Você tem medo de enlouquecer, de se deixar, de saltar sem rede de proteção. Mas o incêndio se alastrou. É isso. Crianças, quando saem para brincar, quase sempre voltam feridas para casa. E você está ferido, sozinho (e ainda diz que sente alívio), fuma seus cigarrinhos, frequenta festinhas e, durante a semana, quando a sede cansa, me liga dizendo que está foda levar adiante. Que mais eu posso dizer senão phoda-se (com ph ácido de raiva). Eu não me importo com a solidão dos outros. A não ser quando ela me atinge. E a sua solidão me aflige porque é detestável ver você caindo em más línguas, irradiando vaidade após sexo de mão única, quando, na verdade, seu caminho é dúbio. Desliguei o telefone com a boca cheia de vontade de dizer a verdade: A buganvília morreu. E meus espinhos ferem tanto quanto os seus.





Napoleon by Ani DiFranco on Grooveshark





Image by TESS.

4 comentários:

Sandrio cândido. disse...

Fez me recordar o belo romance a insustentável leveza do ser do Milan Kundera, onde ele nos coloca uma visão desta ideia de felicidade que tanto nos pesa hoje...

abraços

Marcelo R. Rezende disse...

Eu gosto de gente assim, de ambos. Gosto de quem não se importa e gosto da gente que se perde. Acho que sou um pouco dos dois.

Eder Asa disse...

A buganvília morreu. Luto pela buganvília. Visto preto e choro. Há que se redimir.

E você é phoda, mulher. Já o disse. Phoda com ph baixo, ácido.

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



Sabemos que a buganvília só precisa de umas podas de vez em quando.






Um beijo, querida.