12 dezembro 2011

abigail




 








Abigail me encontrou nos classificados. Eu já estava cansado de namorar meninas cheias de conversinhas e ideias implicantes de ciúme e asneiras que envolvem relacionamentos românticos. Decidi que teria ao meu lado uma mulher independente, dona de si, que pagasse suas próprias contas e que fizesse sexo oral sem que eu tivesse de implorar. Liguei para o jornal e pedi que colocassem a seguinte nota nos classificados:

Homem. 32 anos. Procuro mulher independente, gostosa, inteligente e boa de cama. Uma mulher que trabalhe por si mesma, que não reclame da barba mal feita, dos respingos de urina ao redor do vaso sanitário e que tenha coragem para viver relação sem cobrança ou discussão. Procuro mulher que esteja pronta para amar a dois.

O cara do jornal, do outro lado da linha, disse que minha nota precisaria de alguns cortes. Nada de gostosa. Nada de urina. Nem boa de cama. Paguei mais caro pela nota para que fosse publicada ipsis litteris. Recebi dezenas de telefonemas após a nota ser publicada. Noite e dia. Marquei encontros, tive várias conversas que terminaram somente em sexo comum (cheio de trivialidades e beijo sem gosto de novidade). Mas, enfim, entre todas que me ligaram, surgiu Abigail. Jovem, bonita, cabelo curtinho. Foda à primeira vista. Nos encontramos em um bistrô. Após o café, percebi que, finalmente havia encontrado a mulher certa para os meus fins. Levei Abigail para casa e trepamos de forma excelente. Foram muitos dias de amor e sexo da forma como eu esperava viver. Abigail e eu éramos o par perfeito. Ela trabalhava e eu não precisava lhe comprar presentes para provar o meu amor. Ela não reclamava. Ela sorria muito. Ela não me ligava a cada instante para saber se eu estava pensando nela. Eu a amei. Mas tudo acabou quando, um dia, Abigail chegou em casa bêbada às três da manhã. Eu não suportei vê-la embriagada, semi despida e cheia de riso na boca. Brigamos. Abigail ficou furiosa e partiu no dia seguinte. Senti saudade. Muita falta de Abigail. Um dia a encontrei para uma conversa de acerto de contas e perguntei por que ela havia respondido ao meu anúncio no jornal. Foi então que descobri. Abigail queria o mesmo que eu. Amor sem cobrança, sem drama, sem responsabilidades. Ela me beijou o rosto e foi embora. E eu suspirei profundo, tratei de viver meus dias e nunca mais coloquei anúncio em jornal algum.











Image by kimberliepee

4 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Nossa,, ótimo texto.
Verdade seja dita: adoramos cobrar nos outros aquilo que não gostamos que nos cobrem. Sofri com isso, de minha parte e de outras. E nem anúncio coloquei. Será que funcionaria?

Beijo, Letícia.

ediney santana disse...

"Foram muitos dias de amor e sexo da forma como eu esperava viver."
boa ideia vou colocar minha notinha no jornal

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



Classificados podem ser práticos, como pedir comida chinesa pelo telefone. Não muito além disso.



Abigail sabia melhor o texto do que quem o redigiu. Ipsis litteris sai mais caro, mesmo.




Um beijo, querida.

Luis Eme disse...

como tens estado "ausente" apeteceu-me ler coisas antigas, Letícia.

acabei por parar aqui.

e sim, cobramos sempre nas relações que temos. penso que sem cobrança é outra coisa...