27 dezembro 2011

amadores













Drifters by Patrick Watson on Grooveshark








Vou falar de amor. Em um minuto ou dois. Tudo depende da velocidade do beijo, do medo, da ríspida indiferença em disfarce. Tudo depende da mordida em bela fruta, seus dentes, minha boca, a tensão. Fala-me ao ouvido. Gorjeia o pássaro sombrio homem em minha fala de mulher. Treme ao ouvir meu canto, rasga meu recato, aflora meus espaços e, em breve, tudo mais será nós dois.





― Como se escreve uma carta de amor?

― Toda carta se inicia pela data.

― Não gosto de datas.

― Você não gosta de nada.

― Gosto de falar baixo, gosto de gente perversa e de ver, diluídos ao sol, imensos cubos de gelo.

― Como quer começar?

― Que tal dizer um Olá?

― Olá? Isso não se diz em carta de amor?

― E o que se diz em carta de amor?

― Não sei. Menos olá. E a carta é sua. Escreva. O amor é seu.

― Vou começar pela data.

(Dezembro, mês cara de pau, vem atropelando o tempo...)

― Muito metafórico isso, não?

― É. Meu amor é burro. Ele nunca vai entender.

― Vai. Tenta de novo.

― Dezembro. Sinto vontade.

― Bom.

― Gato.

― Gato? Quem, neste mundo, gostaria de ser chamado de gato?

― Que tal felino? Que tal Meu Querido Thunder Cat?

(Risada. Risada. Risada)

― Escreve. Vou ditar.

― Dita.

― Meu bem...

― Meu bem? Meu amor não é meu bem. Meu amor é outra coisa.

― E o que é então?

― Meu amor é tudo (exceto aqueles cartõezinhos com aquele casal de bonecos pelados). Meu amor não é brincadeira. Está mais para bandidagem. Ele me fere, volta, me esnoba, eu entro em revolta, a gente morre de ciúme e briga feio. Um dia a gente ainda cai na cama. Dragão engolindo dragão.

― Vai. Escreve isso tudo que você me falou.

― Já era. Não consigo repetir. Perdeu o sentido após ser dito.

― Você é louca.

― Sou.

― A carta. Escreve.

― P.

― P?

― É a inicial.

― Mas o nome não começa com G?

― Não. G é coisa do mês passado. Agora é P de pavio, de prego, de palavra. P de pirata. P de pato.

― Como se pode amar assim tão rápido em tão pouco tempo?

― Um mês não é pouco tempo. São trinta dias, divididos em horas, minutos, segundos, outras bocas e outros olhos.

― Você é louca.

― Sou.

― Então inicia com p (de porra). E o que mais vai escrever?

 (Pausa para o pensamento vagar mais)

― Não sei.

― Já é tarde. Vou embora. Fica aí com essa merda de carta. Você é neurótica e metódica. Era só escrever um poema, uma citação... Qualquer coisa. Já que você ama tanto e todo mundo, não faria diferença.

― Faria.

― Faria?

― Fica mais um pouco.

― Não posso. Amanhã acordo cedo.

― Então vai. Mas leva a carta.

― O quê?

― Eu já disse tudo mesmo.

― Não entendi.

― Eu te falei que meu amor era burro.


Corado o rosto de surpresa e, contentes entre dentes, se beijaram no quarto andar. Descobriram que palavra fica em segundo plano. Amor é carta em branco. De toda cor, espécie e tamanho. Acordaram lado a lado no dia seguinte. Cúmplices. Pedintes. Similares medindo pesos e quantidades. Passaram seis meses juntos. Fizeram muitos planos. E depois terminaram o que era romance. Um mudou de prédio para não olhar mais na cara. O outro encontrou amor novo em folha. Hoje mal se esbarram. Mas passaram a trocar cartas. Datadas, cheias de palavras e, de amores, silenciosamente nostálgicas.










6 comentários:

André Salviano disse...

E o amor pode até ser folha em branco, mas que os sorrisos e olhares preencham essa folha sedenta de quereres.

baci,
@paraquenomes

claudio rodrigues disse...

Letícia, fiquei imaginando isso filmado, encenado, um misto de diálogo e imagens. Um puta filme. Vc consegue dar vida ao diálogo. Parece simples e sei que não é. Bj e otimo ano.

Zélia disse...

Amor... é o que é para cada um. Claro que há considerações a serem levadas em conta para se dizer o que é amor. O mundo é assim. E deve ser. Senão, como saberíamos o que é preto e o que é branco? Entretanto, tenho tentado acreditar que as pessoas (em certos momentos) sabem o que estão falando. Por exemplo: quando fulana diz "agora que eu sou mãe, eu sei isso, eu sei aquilo." É verdade. No mundo dela aquilo é verdade. E assim é o amor. Amor é Amor. Mas, é, também, amor no mundo de cada um.

;)

Marcelo R. Rezende disse...

Estou apaixonado pelo texto, pela cena criei aqui na cabeça. É tudo tão lindo, tão calmo, tão denso. Sabe quando você lê e pensa: porra!!!

Você sabe como fazer.
Beijo gostoso.

Jean Almeida disse...

Como gostei. :]

Marcelo Novaes disse...

Letícia,


Ora, a boa e velha nostalgia: "saudade do que poderia ter sido".







Um beijo, querida.