08 dezembro 2011

irônica funerária











Lícia de Albuquerque Queiroga gostava muito de limpeza. A mulher estava sempre limpando a casa, espanando móveis, lustrando faqueiros e varrendo a calçada. Era noite e dia varrendo a calçada. De vestido florido e avental cobrindo o corpo, Lícia corria com a vassoura na mão e não deixava uma folha sequer em frente de sua casa. Dizem os vizinhos que ela vivia reclamando das folhas da árvore da casa ao lado. Porque a árvore infestava sua casa de folhas, de sujeira, de imundície. Lícia morreu faz dois meses. Visitei ontem seu túmulo no cemitério da Boa Sentença. E o mais engraçado de tudo é que ela fora enterrada sob um pé de graviola que suja seu jazigo inteiro.









Image by gzilbalodis

3 comentários:

Renata Cunha disse...

A vida imita a poesia, ou a poesia imita a vida?

ediney disse...

lembrei do um ex-governador da Bahia que mandou fazer sobre sua sepultura uma armação para que as ramagens não deixassem o sol cair sobre seu tumulo, queria ficar a sombra, nunca nasceu ramagem alguma sobre a tal armação de ferro

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



Até o cisco no olho pode ser irônico, dependendo da hora. A paisagem [urbana, rural, física, humana] é cheia de ironias.





Um beijo, amiga.