06 dezembro 2011

legítima











Os casais desesperados da Praça Pedro Américo parecem canibais. Percebo o quanto é flor o amor que sinto e sorrio ao pensar que amo mais que o tinto ardente em gargantas. E ríspido o vinho me amortece porque amar é abismo e, entre meus ofícios, está o maior: amar de sinal aberto e tomar café sem açúcar e amar todos e muitos, um de cada vez. Outrora traí. Meu homem de face escarlate não valia mais que um súbito ataque de euforia. E este me fez nascer de um inferno porque vi demônios e cavalos nas verdes colinas e doente era o amor. Traí e não padeço de arrependimento. Aprendi que todo crime cometido com êxito não traz lástimas e dizer que há perdão é desfazer a perfeita obra que me deixou o amor. E bebi devota de sentidos. Cavalguei e escrevi poemas. Grande amor de fazer tremer o canto da boca, eu o torno legítimo sempre que me largo e descansa minha língua em sua língua e nos devoramos. E os casais ainda se beijam. Em detritos da Praça Pedro Américo mulheres fazem escambo de seus corpos e eu sou a favor do zelo de tais mulheres porque alimentam seus homens e não deixam rastro de fome que os faça fustigar por outras esquinas. Amor é morte ou será que morro de amor e culpo minha própria sede? Afetada, fumo um cigarro. Traída, amo mais e, se me escapa das mãos o amor que tenho, sou voluntária e rastejo sem vergonha ou pudor porque é este o transtorno que causo. Eu amo sádica, intransigente, pornográfica e me rasgo e não me deixe viver doente salivando ao ver os casais da Praça Pedro Américo. Eu sou legítima culpada e dou de ombros aos que fingem não saber nada e aos que bebem em regras quando tudo é libertino. Amor é prova perfeita de diversas mortes quando se movem pele e músculos ao caos do mesmo ritmo.








Image by Tigress66

3 comentários:

A Escafandrista disse...

Adoro quando você escreve assim, Lê. Bjs.

Ana SS disse...

Amor é ler palavras e ter vontade de comê-las, misturadas com café sem açúcar e esmalte da cor escarlate.

Que comentário maluco, mas é assim que me sinto ao ler seus textos.

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



A Praça Pedro Américo parece garantir o equilíbrio do ecossistema.






Um beijo, querida.