23 dezembro 2011

o diário de anton













Try A Little Tenderness by Otis Redding on Grooveshark







Não recebi cartões de Natal. Tampouco presentes. Mas estou feliz. O ano foi bom. Embora eu tenha perdido dois amores, me sinto completa. Um deles morreu de infarto e, o outro, eu mesma matei. Com minhas próprias mãos. Otávio era gentil e leal. Um homem sui generis. Tínhamos um relacionamento perfeito. Ele estava sempre a minha disposição. Costumávamos caminhar todas as manhãs, mesmo antes do café, cheios de fome, nós caminhávamos. E conversávamos a respeito de tudo. Desde assuntos familiares as nossas horas de cama, mesa e montar a fêmea do rebanho. Eu o amava de verdade. Mas ele morreu. Certo dia ele não apareceu para o nosso passeio e liguei para sua casa. Como ele não atendia, decidi passar por lá e ver o que havia de errado. Bati três vezes e ninguém respondeu. Apenas o cachorro latia e grunhia a minha presença. Uma senhora, vizinha de Otávio, percebeu meu ar de preocupação e chamou seu filho para pular o muro e certificar-se de que Otávio não estava em casa. Mas o carro estava na garagem. Mas a casa estava trancada por dentro. Mas o corpo estava imóvel na cama. Foi então que chamamos o corpo de bombeiros, polícia e, logo, a casa estava cheia de gente estranha que não conhecia Otávio e eu, no canto, calada sem acreditar em nada, ouvia alguém ressoar o laudo: infarto. Chorei. Enterrei meu namorado e parti pra outra. Ou outro. Anton, escrito assim mesmo, era alemão. Homem culto, bonito e cheio de desembaraço. Fui arrebatada por ele desde que o vi pela primeira vez. No enterro de Otávio, ele chorava por seu amigo brasileiro. Senti tanta compaixão por ver aquele homem chorar que me encantei. É bonito ver homem chorar. Meu instinto materno berrava por aquele homem. Meu corpo queimava por ele. Anton veio me dar condolências. Ele sabia de meu relacionamento com Otávio. Aproveitou para me convidar para tomarmos um café (eu estava abatida, segundo Anton). Precisava respirar. Enterramos Otávio e saímos juntos. Bebemos e fumamos. E Anton fumava lindamente. Nunca vi um homem fumar de maneira tão perfeita. A fumaça dançava ao seu redor e ele falava e mais fumaça saia de suas narinas e eu me embriagava com a sua voz e eu o queria tanto. Quatro horas após o enterro de Otávio estávamos, Anton e eu, fazendo amor. O corpo do homem era uma verdadeira escultura. Tão belo vestido. Tão belo despido. Suas costas eram claras, assim como o resto de seu corpo, sua boca avermelhada e sua barba lhe davam ares de deus. Eu estava fazendo amor com deus. Era sempre assim. Anton não caminhava, não estava a minha disposição noite e dia e costumava desaparecer de vez em quando. Descobri que Anton mantinha família na Alemanha e outras mulheres por todas as cidades que havia passado. Descobri tudo lendo seu diário amarrotado de tantas vezes que ele escrevia a respeito de sua vida. Anton havia saído para comprar jornal e fiquei sozinha em seu apartamento. Vi o diário e não hesitei: eu li. A cólera me tomou o corpo inteiro. Ele me citou apenas uma vez em seu diário. Li um trecho em que ele dizia quase sentir amor por mim. Eu chorava ao ler isto. Ele quase me ama? Não consegui parar de ler. Cólera, ódio, desespero. Cai em pranto quando li uma página datada do dia do enterro de Otávio, em fortes palavras escritas por Anton, que sabia que me teria facilmente. Sublinhou-se ao dizer que mulher sem homem é sempre a mais faminta. E falava de outras mulheres. Falava e guardava fotos entre as páginas. Mulheres nuas, mulheres baixas, feias, lindas, velhas, moças. Anton não tinha limites. E, para todas as mulheres, um nome apelativo: Flor, Sueca Curvilínea, Deusa da Argentina e outros nomes. Mas um me fez sofrer profundamente. Havia uma mulher que ele costumava chamar de Amor Meu. Enlouqueci ao ler aquilo. Eram páginas inteiras devotas a esta mulher. Havia citações, poemas, fotos de meu Anton. Cólera, ciúme, eu o mataria. E, enquanto eu me tornava mais furiosa, Anton entrou em seu quarto sorrindo. Veio em minha direção e eu, sentindo-me traída, o apunhalei com uma tesoura. Enfiei a tesoura muitas vezes no corpo de Anton. Ele sangrou muito. Eu chorei. Ainda me deram o direito de ir a seu enterro. E agora estou na prisão. Ainda amo Anton. Mais que antes. E principalmente após ler o seu diário até o fim. Descobri a quem ele se referia quando escrevia Amor Meu. Ele se referia a mim. Havia fotos minhas nas páginas seguintes. Fotos tiradas enquanto eu dormia. Fotos de nossas mãos unidas na cama. E sempre que adormecia ele tirava fotos minhas. E também havia uma lista de planos. Anton iria me dizer de sua vida na Alemanha. De sua família. Ele iria me pedir em casamento e ficaríamos juntos. Eu li tudo após, tranquilamente, ligar para a polícia e dizer de meu crime. Sentei-me na cama e terminei de ler seu diário. Anton estava morto no chão banhado em sangue e eu não mais chorava. Eu sorria enquanto ele sangrava. Afinal de contas, Anton me amava.








6 comentários:

ediney santana disse...

matar amores, renascer paixões...e o que queremos

Du disse...

O objetivo de um ano novo não é que nós deveríamos ter um ano novo. É que nós deveríamos ter uma alma nova - [Gilbert Keith Chesterton]

Feliz Natal :D

Zélia disse...

I've told u. There's no way to came here and say "so beautiful".

I don't go away I just need more time just make things right. ;)

Carlos disse...

Sempre leio e nunca comento, mas esse eu tinha que dizer: achei muito muito bom!!

Cyelle Carmem disse...

Surpreendente... Não mais chorar a morte do amor e sorrir por ter sido amada, mesmo assim. É contraditório e absolutamente normal. Gostei muito!

Marcelo Novaes disse...

Letícia,




De amor passional também se vive. Ou se morre.



Um beijo, amiga.