Sai para encontrar uma amiga.
Volto tarde. Não precisa me esperar.
Eu te amo.
Deixei o bilhete na porta da geladeira preso por um imã em formato de margarida. Tão bonito. Mas não foi tão simples assim. Para escrever o bilhete precisei de muita coragem, olhei a foto de Marco Antonio muitas vezes e lembrei de suas pernas grossas e de sua boca carnuda. Foi o necessário para que eu inventasse uma mentira e escrevesse o tal bilhete. Me arrumei e sai. Dirigi por 30 minutos até chegar à loja de lingerie. Eu encontraria Marco Antonio e não poderia estar simplesmente vestida. Eu precisava estar linda (muito embora eu nunca tivesse vestido lingerie em minha vida). Tenho apenas calcinhas enormes e sutiãs que seguram meus grandes seios. Nada mais que isso. Não gosto de apelar para artifícios. Mas, por Marco Antonio, faço. Entrei na loja e fui recebida por uma vendedora que esboçava sorriso falso na cara. Olá. Em que posso ajudar? Eu disse apenas que estava olhando. Percebi, neste instante, o quanto sou recatada. Eu sou uma revolucionária de anáguas. Senti vergonha por estar ali em busca de roupas apelativas que salientassem peito, bunda e quadris. Disse à vendedora que buscava algo diferente. Ela sorriu. Sei exatamente o que procura, ela disse. Despejou, em uma mesa de tampo de vidro, diversas peças com estampa de oncinha, pretas, brancas, corselets, cintas-ligas, sutiãs extravagantes e calcinhas minúsculas. Corei. Eu não vestiria aquilo. Deve ser desconfortável, falei. A vendedora riu. Querida, desconfortável é ver seu homem com outra, não acha? E a vendedora disse isso e ainda sorriu. Eu odiei aquela mulher. Quadrúpede imbecil. Eu já estava pensando em ir embora quando ela me mostrou um tipo de penhoar e um belo conjunto de corpete e calcinha em tons de pérola. Que tal? Gostou? Perguntou a mulher. E eu sorria discreta olhando a peça. Realmente eu havia gostado. Posso provar? Mas é claro. Com a roupa de baixo, salientou. Entre ali naquele provador. Apontou para o canto esquerdo da loja. Tudo era muito exageradamente cor de rosa. Desde o uniforme das vendedoras às cortinas e tapetes do lugar. Senti náuseas. O mundo não é cor de rosa, pensei. Mas era tudo por Marco Antonio. Eu poderia fazer tudo por ele. Entrei no provador e fiquei nua. Só de calcinha. Comecei a provar as peças. Meti a calcinha pelas pernas, enfiei o corpete pelo pescoço e me senti estufada. Algo estava errado. A vendedora vociferou do lado de fora do provador:
― Querida, quando vestir o corselet me avise para que eu possa ajudá-la.
Me senti burra. Eu não sabia vestir aquilo. Tirei o corpete e abri a porta do provador para que a vendedora me ajudasse. Sorri de forma tímida, mas não deixei que meu embaraço fosse percebido. Ela sorriu e me ajudou puxando um laço que envolvia todo o corpete. Olhe. Ficou lindo em você. Eu estava pérola. E realmente me senti bonita. A vendedora ainda me bajulou falando de meu corpo. Eu apenas me olhava no espelho. Enquanto a mulher falava, eu me observava atentamente. Soltei os cabelos para me ver melhor. Meus quadris estavam delicadamente pecaminosos e curvilíneos. Minhas coxas me surgiram simétricas e fortes e grossas. Assim como minhas pernas que pareciam mais longas, tão lisas e atrevidas. Minha pele estava macia. Eu me senti carne de ovelha, deliciosa quando se mastiga. Meus seios estavam belos e arredondados. Minha forma estava completa e meu rosto iluminado de mim mesma. Meus cabelos me pareceram mais negros e emolduravam meu rosto corado e secreto. Minha beleza estava ali, em mim. Comprei a lingerie e voltei para casa, rasguei o bilhete e esperei que meu marido chegasse para minha nova estreia. Marco Antonio que se danasse. Ele não merecia a mulher que eu havia me tornado de forma tão veloz após ver meu corpo vestido em tons de pérola. Me esbaldei no corpo de meu marido, enquanto Marco Antonio me esperava em um quarto de motel coberto de mofo e vazio.

5 comentários:
Surpreendente. Adorei que o Marco Antonio ficou esperando. Mas que venham mais Marcos Antonios!
E FIZESTE MUITO BEM!IMAGINO A CRA DO MARCO ANTONIO CURTINDO A ESPERA! KKKK
ADOREI!
SEGUINDO EU BLOG!
FELIZ NATAL !
FELIZ 2012!
Muito bom!
A linguística, a psiquiatria e a filosofia tentam explicar quando escrevemos ou falamos algo como reação. Eu falei, após ler esse texto,: 'Muito bom (exclamei!)'Mas, linguística, não era isso que queria falar... psiquê, não percebes que não foi apenas isso que senti ao ler esse texto? Um pequeno 'Muito bom' exclamado?! Não, não percebes. Pois bem, filosofia, você me salvou, pois realmente algumas artes mexem com a gente, e se não mexer, qual seria o valor da arte?... mas muitas delas tem o poder de não concluir o processo de dizer (em palavras) o que se sentiu.
Parabéns, moça.
Eu gostei do lance Pérola. Não sei, mas me senti assim.
Beijo.
Ah, menina, é como eu já disse antes, você está cada vez melhor. Gostei muito do "Eu sou uma revolucionária de anáguas". Disse tudo! E o final, surpreendente! Você conseguiu prender a atenção do leitor, que acreditava saber onde pisava, para ter uma surpresa no final. Muito bom!
Valeu a pena dar uma parada na minha dissertação para vir aqui. (Sempre vale!)
Um beijo!
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