30 Dezembro 2011

passado a limpo











Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.


(Maiakóvski)







Mudei? Meu endereço é o mesmo de anos atrás: rua tal, número 449, bairro e CEP. Tudo igual. Este ano renovei meu RG. A foto estava tão antiga que quase não me deixaram embarcar na última viagem que fiz. Eu ri para o cara do balcão da companhia aérea. Ri porque é assim que passo os dias: rindo. Sou a verdadeira boba alegre. O mundo inteiro entrando em combustão, e eu, bestamente, rindo. Mas eu preciso dizer que mudei. O chip de meu celular, ao menos. O número. Eu precisei mudar de número para fugir de algumas vozes que eu não precisava mais ouvir. Mas as vozes voltaram. Tolas, mentirosas, amavelmente mentirosas, elas voltaram. Mas o ano está acabando e devo mudar algo. Mas o quê?

Não.

Não é o ano que está acabando. Somos nós que estamos atravessando o tempo (como uma quilha corta as ondas). Sempre gostei desse trecho na voz do João Bosco. Eu costumava ouvir essa música deitada no chão de meu quarto, no escuro, olhando as estrelas pela janela. Hoje não ouço mais. Mas ainda deito no chão. Gosto de fazer as coisas mais simples do mundo: observar criança andando de bicicleta, ver meu filho assistir tevê e rir dos desenhos animados e gosto muito de ver o pôr-do-sol. Tão simples e tão belo o sol se encondendo para a chegada da noite. Gosto de ouvir música com meus headphones comprados em um supermercado em Maceió. E adoro reprisar filmes. Sou quase a mesma de antigamente. E a diferença não está em meus cabelos (lembrei de uma propaganda antiga). A mudança não está somente em mim. Vejo que mudei através das pessoas com quem convivo. Meu pai mudou. Está mais envelhecido e mais gentil. Minha mãe está cada vez mais avó (Sempre a andar com seus netos, a ir à igreja, sempre a fazer bolos). Meus irmãos agora conversam a respeito de remédios e melhores formas de investir dinheiro. Antes brincávamos soltos no quintal. Meu filho chorava em meu colo quando tinha pesadelos. Hoje ele acorda e vai sozinho à cozinha, toma seu copo d’água e volta a dormir. A rua onde moro não era pavimentada quando cheguei aqui. Mas agora há enormes paralelepípedos ao longo do caminho. E minha casa está menor. Quando me mudei eu não tinha tantos móveis. Agora que o tempo está passando, acumulo coisas. Algumas completamente inúteis. Mas é preciso ter coisas inúteis para que nossa existência tenha do que reclamar. Já imaginou fazer uma faxina de fim de ano em casa e não ter nada para jogar fora? Nem um móvel antigo para doação? Por isso nos entupimos de coisas? Para nos desfazermos delas? Antes não havia samambaia, penduricalhos, e eu não sentia medo de ladrões. Comprei cadeado e durmo trancafiada acreditando estar segura. Ainda me iludo. Quanto a isto, não mudei. E continuo me apaixonando por causas e pessoas. Neste ano que já está se despedindo de nós, ajudei pessoas, aniquilei outras e publiquei um livro. Esqueci de fazer agradecimento a quem mais merecia (sou egoísta e incrivelmente mal agradecida). Fiz festa, chorei perdas, reclamei da vida, vivi um amor às escondidas e paguei altos preços por minha débil mania de ser humana. Há que se aprender a lidar com isso. Eu preciso. Conheci pessoas. Algumas chatas, muito chatas, assumidamente achatadas. Conheci também pessoas quadradas, retangulares e arredondadas nas bordas. E, entre todas, ainda prefiro as que se moldam aos formatos. São as melhores. São como água. Escrevi algumas histórias. Inventei algumas mentiras, trai muitas vezes e percebo agora: Meu deus, eu mudei. Não sei quando. Não sei como. A que horas ocorreu tal evento? Eu mudei. E não é a mudança de dígitos em um calendário que me diz isto: é o olhar de fruto amadurecido que me fita ao espelho cada vez que penteio meus cabelos. Sou eu quem digo: menina, você é uma mulher. Agora é por sua conta. Então nós todos mudamos. Alguns mudaram de casa, de plano, de amor, de faixa etária, de vida, alguns morreram, outros continuam famintos, e muitos ainda não perceberam suas mudanças. Mas elas acontecem. E, como ouvi certa vez, mudanças ocorrem sem impedimentos. São obrigatórias, subcutâneas, sanguíneas, submarinas e subterrâneas.





Feliz Ano Que Chega
E adeus ano que atravessamos.











Image by Slawek Gruca

9 comentários:

ediney santana disse...

"certa vez, mudanças ocorrem sem impedimentos."
elas chegam e se fazem donas da festa. Muito obrigado pelo texto...Foi bom esse ano conhecer você, sobre tudo seus livros e sua literatura

Marcantonio disse...

Letícia, conheço o seu blog há um bom tempo, mas (não me pergunte o porquê, nem eu mesmo sei) sempre me senti algo intimidado em postar algum comentário, ou mesmo em colocá-lo na minha lista de blogs, embora tivesse vontade de fazê-lo. Sua escrite sempre me pareceu de personalidade extremamente forte, independente. Talvez fosse isso, sei lá.
Mas o Facebook tem ao menos isso de bom, favorece a aproximação a partir de um simples e compacto 'curtir', revelador de alguma atenção.
Pois é, e hoje estou muito satisfeito e honrado de ser citado entre aqueles que fazem parte dos seus dias. Sabe que a recíproca é verdadeira, né?

Delícia de texto. Que venham para você a surpresa de muitas mudanças favoráveis em 2012.

Obrigado e tudo de bom!

Elcio Tuiribepi disse...

Ahh...sem comentários...sua escrita vai além...não ligo de ser repetitivo aqui...rs

Deixo um texto de quem também admiro...

"Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo, eu tiro um arco-íris da cartola. E refaço. Colo. Pinto e bordo. Porque a força de dentro é maior. Maior que todo mal que existe no mundo. Maior que todos os ventos contrários. É maior porque é do bem. E nisso, sim, acredito até o fim. "

Caio F. Abreu

Feliz Ano Novo ao lado dos seus...um abraço na alma...bjo

Camilla Tebet disse...

Como vc bem disse, agora é uma mulher, agora é com vc!!MOntanhas mais virão em 2012, mas sorria e leve água. Por que o resto vc tem. Esvrever é única coisa que vc precisa. E eu não sei de nada!
um beijo, love u e boa virada de mesa.

Zélia disse...

You know what I feel/how I fell. Among other things, a little bit tired but happy waiting for the end of the world. :D

My thought for this moment:

"World serves its own needs,
Listen to your heart beat"

And a song:

http://www.youtube.com/watch?v=jVmB3lRjCmc&feature=related

"I feel fine"!!! :))

Beto Canales disse...

PLAC, PLAC, PLAC, PLAC, PLAC...

Marcelo R. Rezende disse...

E a gente muda mesmo, sempre. Pra melhor ou pra pior, mas é impossível passar sem resvalos os 365 dias do ano. E que ano que vem (ainda faltam algumas horas) você mude mais, conheça mais gente, seja mais e mais atacada por gente, informação e humanidade.

Foi uma grata surpresa "conhecer" você e seu blog.


Um beijo gostoso e paz!

Monday disse...

Eu fico longe, às vezes, mas volto e tem sempre uma coisa que não muda: o prazer em te ler!a

Ano já foi, ano já começou. Esse, creio eu, com um pouco mais de tempo livre pra curtir os escritos, tanto leitura quanto grafia.

E, de quebra, acho que esse ano sai o CD.

Brinde a ti!

Mai disse...

Letícia,

simples assim, continuo sua fã.