13 dezembro 2011

tarja preta










Que fique claro como o sol refletido em poça d’água: não tenho medo de tanta coisa assim. A não ser de barata, de gente afetada e de homem que me cumprimenta sem saber quem sou. Boa educação não me aquece. E seu corpo também não. Após nos esbaldarmos mendigos morrendo de sede, direi, enfim, o que desejo. Talvez um disco do Paul McCartney. Talvez eu queira terminar de dizer aquela frase. Ou talvez eu me permita ficar calada. Em boca fechada não entra nada. Nem língua, nem mosca, nem sobra de vontade requentada. Não suporto resto. Nem foto recortada que é para doer menos o que tanto ameaça. Já reparou que estamos sempre em temporada de caça? Queremos, caçamos, usamos, partimos e mais egoístas nos tornamos. Sequer respeitamos restos mortais. E ainda reclamamos de tudo dizendo que sofremos, que morremos, que somos vítimas, que poderíamos ser felizes. Mas como ser feliz? Quem nos diz? Como ser algo sem saber que é este o momento, que está acontecendo, que estamos conseguindo? Não há receita. Ou pista. Não estamos jogando Detetive na mesa da sala de jantar da casa de nossos pais. Coronel Mostarda deixou a biblioteca trancada. Não houve crime. Houve nada. Estamos em nossas próprias casas, valorizando pessoas sem graça, alimentando sonho comido de traça e forjando riso para dizer em voz alta o quanto é satisfatória a vida que levamos. Somos hipócritas? Somos humanos. E conheço gente que evita cocaína, mas se entope de tarja preta. Somos humanos e contraditórios. Loucos pela vitória cultuamos a derrota para que possamos chorar nossos minguados e adoramos fazer sofrer o próximo para que valha a pena nossa esmola. E sobre o que eu falava? Já não lembro. Minha boca fechada se abriu e agora beija a sua que reclama o tempo todo porque você está sempre faminto por excessos e me devora farto de barriga cheia.










Image by Reggie Mace

5 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Cada qual com a sua droga preferida: a minha, a indiferença.

Sandrio cândido. disse...

a mentira da felicidade

Rafael Castellar das Neves disse...

Ótimo isso, hein? Intenso!!

[]s

FelisJunior disse...

Olá! É, verdade! Excessivo!
Intenso!
Boa quinta!

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



Talvez a tarja que mais assuste seja a seguinte: "Está suspensa a temporada de caça". Haverá uma crise de abstinência, anterior [ou subjacente] às outras tantas. Talvez, a decisiva.





Um beijo, querida.