31 janeiro 2011

penduricalhos





Há tempos busco motivo para escrever. Não sei o que há. É um tipo de entupimento. Não seria melhor dizer bloqueio? O fato é que me sinto tal qual uma galinha entupida de um ovo que não sai. Estou feito cachorrinho com prisão de ventre. Já viu cãozinho na rua todo se espremendo e nada da coisa sair? A gente, quando criança, faz assim com a mão que é para o cãozinho ficar ainda mais agoniado. Quando eu era criança eu era tão ruim. Irmã Margarida sofria muito porque eu fazia cara de sonsa. Eu usava meias coloridas, brincos de argola e batom. A freira ficava pra morrer. Ajoelha, menina. Reza que tua alma está ardendo. Ela costumava dizer que eu vivia tomada por demônios. Eu soube que ela morreu e o colégio virou faculdade. Rá Rá. Grande merda. Faculdade particular é um saco de lixo e meio. É iniciativa privada. E o resto eu não preciso ditar. Chove direto desde ontem e eu estou vazia. É na chuva que a gente sabe se ama ou não. Repito vulgarizada pelo momento: Porque é na chuva que acendo um cigarro e vejo as gotas tombarem pelo telhado e elas fazem enormes clareiras na areia por onde passam as formigas. E todas as formigas morrem afogadas na lama. Isto sim é tristeza. A minha vida não é triste. Eu apenas sinto saudade. É uma saudade desconexa porque não tem objeto. É saudade que pede complemento. É regra da gramática normativa. Parou de chover e já não ouço sirenes há duas horas. Sinto falta dos bombeiros, dos loucos, das diaristas, dos taxistas, da cabeleireira colorida que fala pelos cotovelos e sinto falta do Ivan. Ele é que era homem de verdade. Feito Amélia que era mulher, o Ivan era homem. Pena que não está aqui. Mulher, quando inventa de escrever, ou escreve poesia ou só fala em homem. Tropeço em meu machismo. Não é isso. Não é falar de amor. Ivan não é amor apenas. Ivan é sexo. E amor. Mas, amor de verdade, só depois do sexo com o Ivan. Ele me pegava, me girava, 360º de umidade, e eu me desdobrava. Grito. Agora estou com saudade. Palavrões estardalhaçam o silêncio desta hora. Maldita hora. Última lembrança dele veio dentro de um envelope. Dois pontos.

Sei que gostas de penduricalhos:

- Dois Chaveiros;
- Um Pingente;
- Um botão que roubei da cortina do Hotel España, na Calle Cañoto, em Santa Cruz de La Sierra.

E assinou "Eu te amo. Para sempre, Ivan".

O único Ivan do mundo que começa com G e termina com Ave-Maria-Cheia-de-Graça. Vá se danar, homem desgraçado. Homemfilhodeumaputa. Coisa feia é falar mal. E horrível é falar com as paredes. Péssimo morar sozinha. Polissemia está na moda. E me enche a boca só de pensar no que poderíamos estar fazendo agora. O Ivan e eu. O Word não reconhece o verbo que acabo de digitar. Gramática escrota este computador me traz. Vou ao manuscrito. Agenda ao lado e risco o verbo. O papel reconhece o que sinto. Sem conflito, assino meu nome, salvo o escrito e suspiro enquanto tramita o sol escravo de seu próprio brilho.








Image by aletza

25 janeiro 2011

aluados






Ela é de lua e traz sagitário na casa do sol. Louca de dar com o pau. Todo mundo sabia que Luana não dava pra boa coisa. Mas ela é de sorrir. E se apaixonou. Ficou com tanta raiva quando o amor não ligou de volta. Amor não é telefonema, Luana. Diziam pra ela e ela não ligava. Fez pacto até com o diabo pra ter amor de volta. Foi quando passava de ônibus que teve a ideia. Trago teu amor de volta. Ela pensou que nem tinha o amor. Mas ele viria. Pela primeira vez e por completo a vereda em demasia. Ligou para um amigo que disse que conhecia alguém que poderia fazer o amor ser presa de Luana. E ela foi. Chegando ao lugar, viu casa simples em tinta azul, e, no quintal, logo atrás das goiabeiras, a casa da magia. Não é magia. É outra coisa. E não é branca. Magia branca não existe e deixa eu dizer que o que você fizer vai ter retorno. Talvez sete dias. Talvez mais. Luana não queria nem saber se era coisa ruim. Só queria o amor. O repleto. O sentimento inteiro que arde nos olhos feito cortar cebola. Foi pra casa a moça e voltou no dia seguinte carregando coisas que seriam usadas no ritual de trazer amor. O homem, um pai de santo, perguntava se era mesmo da vontade da moça fazer aquilo porque não tem volta, menina. E coisa feita eu não desfaço. O homem contou a vida inteira dele de fazer trabalho, de ajudar um monte de gente, de fazer o bem e o mal. Luana não aguentava mais ouvir. Eu só quero o homem pra mim. Vou trancafiar o homem entre as pernas e ele vai me amar até ficar torto de tanto querer. Começa o ritual. Arroz, vela, cigarro, cachaça, e vamos precisar de um coração, bonecos, e o homem inicia o serviço. Canta e fuma e as cantigas assustam, mas Luana de nada tem medo. Só teme morrer sozinha sem o homem para o qual o trabalho fora armado, óleo, unguento, mais cantiga, Iemanjá abençoa, costura tudo junto, nome dela, cabelo, e fuma o pai de santo e ri tão alto (será que alguém vai ouvir?, pergunta a menina) que também bebe e fuma e faz quatro horas que o feitiço fora armado e alguém traz as galinhas para matar. Luana assiste ao mordaz espetáculo com a boca cheia d’água pensando no homem por quem estava apaixonada e não pensava em mais nada porque teria o homem amarrado, atado, desgraçado, caído de quatro que de Luana não iria se separar. É amor pra vida toda, moça. Lembra disso. Não desfaço o que fiz, disse o homem feiticeiro que já vestia vermelho e dançava frente ao preparo de sangue, cachaça, cabelo e vela pra chamar o santo que não tardaria a fazer a vontade de Luana que amava e pagava até os olhos da cara pra ter seu homem por perto. Termina o dia e o pai de santo diz o que virá e Luana sorri tanto que está plena e se sente feiticeira por ter dons de sacrificar homem a uma só mulher. Agora é por tua conta, diz o pai de santo. E ele vai te seguir, ficar por perto e nem respirar você vai conseguir porque este feitiço é forte. Estás pronta para quando ele vir? Luana diz que sim. O homem diz o prazo, a menina paga o preço e vai pra casa acreditando que o amor seria seu belo desmantelo. E não é que vem mesmo o homem que amo? Veio amor, Luana provou, tomou abuso, largou, fez de novo feitiço, amou mais, deixou de mão e segue sempre fazendo despacho que eu desfaço que amo Luana desde a primeira vez em que ela veio me pedir pra amarrar amor da vida dela. Luana não sabe de mim. Ela me faz de conselheiro, diz que sou o melhor pai de santo do mundo inteiro e já faz 12 anos que a amo incessante, sem feitiço, hemorrágico, verdadeiro e, me perdoem as entidades, mas o que Luana pede eu ato ou desato e vivo de amar atordoado e não a deixo se desgarrar de mim.








Image by cidaq

24 janeiro 2011

vinil contrário










É claro ainda e acendo a luz para ver o óbvio. Você se espalha quando passo que te amasso com o olhar e te amo mais que morro. Você não entende de amor nem alpinismo. Nem cinismo você entende. Logo, nada sabe de mim. Outra noite, quando você chegou irado de trabalho e das ruas, eu pensei em consolar tua raiva com dose cavalar de mim. Aquela coisa de se abrir, salivar de vinho e encher a sala de palavra doce. Tudo adocicado pra não falhar. Mas você, esquivado feito bicho assustado, fugiu pro quarto, tomou banho e enfiou a cara no jornal. Leia e morra, pensei. Você não morreu. E eu odeio falar em casamento. Casar é morrer, morar junto é sufoco e quem te disse que eu queria envelhecer assim, com você e toda a parafernália que a gente acumula feito duas mulas carregando peso em excesso? Esta merda de sacramento que sufoca. E eu casei, jurei, abri as pernas e consolidei o fato com feto e fraldas de estandarte. Éramos livres antes disso? Acredito que, quando dissemos sim, o não nos afetou. A gente passou a viver de negação. Negando tudo: dia, noite, beijo na boca, passeio de mãos dadas, e eu daria tudo para ter nada de novo e ser tua como naquele dia que sentamos na areia, de violão e música na boca, e você disse que ficaria pra sempre. Mas não precisava ser assim. Meu vinil toca ao contrário. E, em outra vida, prometo que não te castro. De eterno, quero só a memória. Do amor, quero contar história. E, romântica, eu declaro fim.









22 janeiro 2011

migratórios





Acordei com a molesta dos cachorros. A mulher despenteada virou de lado. Pensou no que acabara de fazer. Orgasmo violento acaba com o corpo e a gente fica molinha. O homem virou de lado e respirou fundo. Era tanto suor na cama que era um encharque danado. Que você vai fazer agora? Ela perguntou. Mas não esperava resposta. Às vezes a gente pergunta só pra dizer alguma coisa. Se bem que, com a barulheira da rua, ninguém aqui precisa de conversa. Falar pra quê? O cigarro esquentou ainda mais o começo do dia que ainda era noite. 5 da manhã, avenida esbelta de árvores, carros passando e gente que passa e olha. Não sei o que tanto esse povo vê. O homem magro de barba por fazer esfregava a cabeça careca com uma das mãos. A outra mão segurava o cigarro. Fedida demais essa fumaça. Fazer o quê? Ainda reclama? Fuma logo aí que a gente tem o que fazer. O homem pensava no dia pela frente. Dia de um monte de obrigação, de fazer isso e mais aquilo e dar de cara com o cão. Conseguiu o que te pedi? A mulher fala com o homem que já está quase seco de suor. Deu não. Como assim deu não? Era só entrar e pegar e trazer pra mim. Mas deu não. O homem replicava, a mulher implicava, e ainda sentia moleza no corpo depois de fazer o que Deus permite. Você sabe que tem coisa estranha em você, não sabe? O homem abanou a cabeça dizendo que sim. E esta coisa estranha vai me pegar também. Quero ver nós dois doentes. Que a gente faz? O homem fuma solene. Deixa eu fumar, mulher. Eu preciso fumar com calma senão fico nervoso o dia todo. A mulher riu. Não aguentava a catinga do fumo, mas amava o marido. E desde quando a gente é casado? Ela pensava. Já vi casamento em igreja. Pessoas ficam sérias em casamentos. Eu não quero ficar séria. Não mesmo. Virou o corpo de banda. O cabelo grudava nas costas dela e ele terminou o cigarro e levantou-se. Vai pra onde? Vou mijar. E cagar também. Posso? Pode. A mulher não queria que o homem fosse pra longe dela. Ainda era noite. Não tinha sol. E noite é noite pra qualquer um. No escuro todo mundo é nada. O homem saiu andando lento e foi fazer o que precisava. O cheiro não era nada bom. O cheiro não. Era fedor. E você ainda diz que eu sou suja. O homem grita lá de longe. Você não é suja, não. Não sabe que adoro teu cheiro? A mulher riu ainda deitada na poça de suor da mistura de sexo e orvalho. Noite tem orvalho e dia tem o diabo. Que vamos fazer hoje? Sei não. Mas a gente se ajeita. Tudo mais se ajeita. Tá com fome? Tô meio mal desde ontem. Foi o pernil. Que você esperava? Pernil de três dias só dá nisso. E, quando o homem já fazia sua higiene matinal, a mulher arregala o olho e grita pro homem correr e os dois saem que não levam nem a cama feita de caixote e papelão. Os outros também acordam. Era gente demais na praça dormindo de graça e chega a polícia que alguém ligou dizendo de sexo em via pública. E é nesta hora que corpo magro e faminto fica saudável pra dar com o pé e viver mais um dia como se fosse uma vida em vias de continuar. E lá vai o bando correndo, o homem mais a mulher, carregando seus trapos, atravessam a rua que nem bala pega e vão longe buscar outro lugar. Deixa, diz o polícia. A gente já cumpriu a ordem. Limpamos a praça. Entram os dois uniformizados na viatura, avisam pelo rádio que o trabalho foi feito e se bolam de rir da cambada de mendigos correndo em desespero. Em seguida, os dois policiais se dirigem ao boteco da esquina e saboreiam aromatizados o primeiro café do dia.










Image by Ben Heine

15 janeiro 2011

holocausto teatral



Acelerada. Um trem que arromba o dia. Holocausto teatral. Enquanto tremem as veias do corpo que teima resistir feito teia de aranha sacudida ao vento, repenso atitudes em meu asilo de poucas idades. Mil anteparos e não encontro asfalto dentro do tempo ruim. Tempo que não é meu somente. Vejo aqueles que sofrem. O vizinho sofre. Vive a esticar sua casa fazendo reparos e logo a casa será um edifício e o que fará da vida o vizinho depois de tudo construído? Provavelmente, feito caçador faminto, irá procurar rachaduras minúsculas em sua sala de jantar e seu trabalho nunca irá terminar. Tenho dó. E um nó na garganta que também se agita ao veloz efeito de um pavio. Temos vivido tempos absurdos de violência. Tempos de negligência e sexo conjugal. A chuva, que antes não afogava casas, agora traz à praia o manancial de coisas que nos garantem a justa e indigna existência divina. Dói mais a tua dor ou a dor do outro? Pensamento agitado fora de rima porque a vida poderia ser menos corrosiva e não bombardear finas cortinas que sentem mais fome que alegria. Mas ela não tem culpa. É o homem o culpado. Há tantos homens e quem devo culpar? Devo me culpar? Penso, sentindo arritmia e discordância entre morte e vida e, ao olhar o atravessar de ruas e esquinas, uma menina demonstra alegria em sua bicicleta de cestinha. Será culpada também esta lúdica aparição descontextualizada que nada sabe de nada e anda entre calçadas mostrando seus dentes de sorrir? Opções escassas. Culpo deus, políticos, forças armadas e, esquecida a dor primária, lavo as mãos e faço nada. Mudo o canal ao sorriso calada e finjo não saber do fim.




Image by Linnea Strid

13 janeiro 2011

amor à sombra?




Como dizer de amor sem que tudo pareça gasto? São tantas palavras repetidas. O vocabulário de quem ama é curto. Mas o sentimento é vasto. É estrada acidentada confusa de atalhos. É prédio íngreme solitário de morador. E, quanto a mim, ao que sinto, é explosão. De absinto e vinho bordô. Amo tanto que termino o dia de mau humor, visto pijama e passa filme na TV e vejo você. O cara mais belo da banda de rock. O mocinho e o vilão. A criança contente no comercial de pasta de dente e até em anúncio de loja de departamento, homem te amo. Lá na televisão. E nas ruas você é o mendigo, o buraco onde piso e torço o tornozelo. A cerveja que engulo na sede, a comida que me faz engordar, a salada sem graça na dieta e o metabolismo que não reage. O relógio da torre que trava o tempo das vésperas. Até o japonês vendendo pastel é você. Parece perseguição. Ponto turístico, estrangeiro pedindo informação e nem sou daqui, mas explico. O senhor segue em frente (go ahead, turn right and left and you'll see it). Sei lá o que digo. Mas é amor ou indício de doença mental. Alucinógeno do meu ritmo é teu beijo e tua língua em curvas traçando em céu da boca minha prisão. E quando me abraça a cintura sou criada muda e digo nada porque sei do próximo ato. De quatro em quatro sigo amor. E o deus perfura a derme, epiderme, a escarlate febre que me reveste. Mas dessa parte nem falo que me acabo de saudade. É verdade. Dia desses, no trem, vi casal beijando e vi você e eu e éramos nós na cena entupida de paixão. Que louca me tornei. E quando? E é engano dizer que não te vejo toda hora do dia. Na gente, nas avenidas, nas janelas de casas que não conheço cômodos e aplausos no teatro ecoam teu nome que é este que me consome. Então? Há satisfação no amor que é dito? Agora começa filme do Carlitos. Desligo à controle remoto. Amor e Carlitos é super dosagem de remédio amargo. Tombo na cama. Deitada de bruços quase sinto teu pulso, teu peso, teu corpo de me ancorar. Mas você não está. Choro? Não sei. Imagino cena na cabeça até adormecer? Talvez. Tudo é dúvida. E certeza só há uma. Esta que te abusa a vida, te assusta e te faz escravo meu até que a vida nos acabe. Ou que a loucura nos arraste. E que seja mesmo arte o desvencilhar das traições. Mas o que vale, que é fato e documento registrado, é que te amo. Feito trato, não desato e adormeço com o fardo de saber que acordo e amanhã será de novo tua imagem refletida em toda cidade. De parte a parte vejo você até quando não reparo. Perdi vontade própria? E amor o que é? Carro que invade contramão ou coisa que se inventa por distração? Eu não me atrevo a saber.





Image by kangaroo

12 janeiro 2011

entusiástica





"Escrevo feito estouro de manada
Minha boca fala de amor e mais nada."



Gargalhadas entusiastas e eu no meio, querendo ser vergonha, querendo esmola e brota de minha cara amarela de mestiça esbranquiçada a tríplica sorte dos mendigos. Porque poderíamos morrer. De imediato, de asma, de querências. Mas não morremos. E somos felizes. Do contrário, acredite, já teríamos partido. E partir não tem graça. O bom é ficar. Fincar os pés entre as memórias e enfrentar o tempo que é injusto, mas é pleno e já dizia toda voz que é infinito. Então nós temos tempo. Não o tempo quadrado do relógio. Falo do tempo do beijo, tempo das passeatas estudantis e da fumacinha engraçada que nos fazia rir. E você não riu. Problema seu porque eu me diverti e nem disse adeus e de que me adianta dizer adeus se ainda estou aqui, dentro da casa, aninhada em seus caminhos, parte da linha que envolve seus botões? E sou desarticulada e falo um monte de palavra e vou dar com a fé barata de quem rasteja. E você me deixou e não ouvi lamento. Lembro que voltou e eu achei bonita a vingança. Vamos abrir mão das mesmices. Vingança é a melhor coisa que existe e não o amor, como dizia o poeta compositor. Melhor coisa é tripudiar, esticar meu corpo sobre o seu, deixar você comandar e fingir que sou a isca quando, na verdade, você é a vítima. E ajo meu amor e arco a flecha em outra direção. E serei bem sincera. Vou amar você até morrer histérica tateando por sexo e faminta por confusão. E dizem que todos os homens são iguais. Duvido. Tenho o meu comigo. Longe de mim, mas dentro. Pontilhado desenho cubista que se arrisca a me abandonar. Deixa não, amor da minha vida. Segue comigo que eu sigo o sentido da malícia de meu riso de agora. Sou toda amor e desatino. Vivo às margens da antítese e o amor existe distraído e cresce em nós dos sentidos. Um gigante estrondo de notas musicais. Amor que nasce, cresce, adormece, acorda e retorna e eu larguei a mania de acenar nos cais. Hoje digo adeus ao telefone. Me consome, mas faço como de costume. Se há fogo, eu desmantelo tudo e deixo queimar. E a vingança de hoje é ver você me mastigar, lento e completo entre minhas pernas de mulher, liberta clara acorrentada, entregue ao deus dará.






Image by Luis Serrano

10 janeiro 2011

adamastor





Frenético corre-corre, mulher louca com a cabeça cheia de bob, homem nervoso suando chaleiras, criança de colo, criança de chão, criança grande e velho a dar com o pau que é dia de casamento e a casa está abarrotada de parentes porque casamento ninguém perde que é festa grande, comida muita e é bom exibir roupa pra parentada toda. E que se danem os noivos. Dois imbecis que de nada sabem. O povo quer festa. A noiva bonita de cara rouge angelical se arruma com as primas que elogiam e aconselham a respeito de sexo. Engraçado é que em certas ocasiões todo mundo vira expert em comida, dicas sexuais e etiqueta. É tanta gentileza e sabedoria e tanta nojenteza que não há quem diga. Mas vamos que é dia. O noivo, que mora duas quadras acima, se arruma descansado pensando na vida de solteiro. Mal sabe ele que vida de solteiro só começa após casamento quando você deseja outras frutas que não cabem no cesto. E a noiva se arruma toda se tremendo e não é mais virgem e faz seis meses, gente, e foi bom. Basta a gente gemer um pouco, fazer cara e fazer boca, dar umas tremelicadas e, quando fico seca, dano creme que é pra ele pensar que estou de amor melecada. As primas todas dão risada das artimanhas da noiva que ficou bonita de verdade, branco perolado, véu e grinalda e buquê de flor natural. As primas, que são damas, vestem-se de lilás. Os tios e tias, tudo de barriga roncando, tudo doido pra matar a fome, correm todos e haja carro, táxi ou van. Parece até cortejo. A noiva vem logo atrás, beija mãe e pai e entra no carro alugado para a ocasião. As primas solidárias ajudam a noiva a entrar no carro e, cuidado, senão ela despenca o penteado. A noiva senta e vai nervosinha de feliz seguindo pra igreja a moça que vai deixar de ser solteira e o mundo inteiro diz amém. Enquanto isso, ao volante contratado, Adamastor sorri pensando no vencedor do campeonato, e não vê a hora de chegar em casa, entupir o tonel de cachaça, encher de sopapo a mulher e bolinar com desmesura sua linda, jovem e silenciosa enteada.





Image by Mica

07 janeiro 2011

a enganosa superfície das coisas







O céu nubla. Ouviu-se uma trovoada seguida do raio que o parta. É deste calor filho de uma puta a culpa que não chove de uma vez. Elisa olha pela janela. Agora fodeu. Ficou tudo nublado pro lado de lá também. E não chove. Só nubla. Guilherme vem lá de dentro com um castiçal em mãos. Não temos velas em casa, Elisa. Agora a merda toda explode. Nada de chuva, céu filho da puta, ranger de dentes, falta luz e você ainda me vem falar em velas, Gui. É que vai escurecer, Elisa. Vai ficar tudo escuro. E você com seu péssimo humor só fala em chuva e xinga tudo que é coisa. Você não resolve nada, Elisa. Cala tua boca, Guilherme. O céu nubla. Eu odeio pessoas, Gui. Todas elas. Céu nublado e sem luz. Porra de vida. Olha essa gente na calçada, Guilherme. Parece que todo mundo foge. Olha aquela velha pelancuda. Imagina essa velha toda pelada, Gui. E vai andando devagar porque se anda rápido cai e quebra tudo. Osteoporose, Gui. Doença de velho. E pra onde vai uma velha com uma porra de céu nublado carregando uma sacola? Dá vontade de gritar VAI MORRER, VELHA. MORRE DE UMA VEZ. Deve ser do tipo de gente que faz tudo miúdo. Banho miúdo, comida vagarosa, e os pés ressecados morrendo enfiados nos chinelos. Gente desgraçada. Guilherme sai em busca de velas. Elisa permanece. E nada de chuva, Guilherme. Olha. Lá vem aquela lá que você diz que é bonita, Gui. De capa de chuva não é bonita, Gui. Você devia olhar. Dá uma olhada nela agora, Gui. Não é bonita de capa de chuva. Você deveria vê-la assim, feia, com cara de gente comum. Guilherme só vê as coisas como ele quer. Diz que a mulher é bonita. Mas é preciso olhar de perto, Gui. Olhar de perto até que se possa ver os poros abertos e cheios de sujeira. De ver os vincos. O óleo. O que é podre, Gui. E ver a boca bem de perto. Os dentes separados. Ver tudo. A vagina suja. A genitália suja e fedida. Você vê beleza que não é a beleza, Gui. Você tem de olhar de perto. Não de soslaio. De lupas. Como se teus olhos fossem gigantes lupas e você pudesse ver através de teu olho o inferno de cada um. Olha com a lupa, Gui. Como eu te olhei. Vi teu sangue insosso atravessando veias. Vi teu pênis tão de perto que me tornei teu pênis. O canal, a uretra, o esguicho de urina e a ereção e depois o gozo branco, amargo, rangendo dentes eu olhava tudo através de lupas. Tuas coxas, as pernas, e tuas varizes, tuas estrias, Gui. Eu vi tuas estrias arroxeadas sulcando tua pele e teu umbigo peludo imerso em esperma que eu lambia. Eu engoli tuas doenças, Gui. A sujeira do teu corpo, tua alma besta, a voz de arroto, a insensatez de teus vômitos trêmulos. Teus infernos, Guilherme. Eu os vi todos. Porque eu te olhei de perto. Vi teu musgo e teu esqueleto enfurnado em mim. Deveria olhar mais de perto, Guilherme. Olhar de lupa. Ver o que é incandescente. Elisa murmurava perto da janela enquanto não chovia. Pessoas iam e vinham e a moça de capa de chuva cruzou a rua e sumiu como coisa que se esvai. Guilherme voltou com vela acesa. Achei, Elisa. Uma vela ao menos. Será que demora a luz a voltar? Elisa suspira e olha Guilherme. Olha-o de lupas e vê seu sorriso vulgar por encontrar uma vela. Há feliz de toda sorte, pensa Elisa. São felizes porque não veem de perto. Aceitam a enganosa superfície das coisas. Não mergulham nos infernos, nas imundícies. E não chove. Elisa fita o tempo e pensa. A vida sempre insiste.





04 janeiro 2011

em espécie




Será outubro ou novembro? Ainda é janeiro. Respaldo-me a esperar mais tempo. Aquieto-me lenta ouvindo ziguezague de insetos e penso no homem que amo e não tenho. Li num livro. O cachorro que não tenho. Desde o dia que li este conto fiquei com pulgas atrás da orelha. Assionara Souza. Ela é boa. Deveria ganhar o jabuti. Mas penso: O que diabos uma escritora faria com uma tartaruga? Tamborilo meus dedos no teclado. Tamborilar é uma palavra da moda. Em quase todos os livros que leio, até os traduzidos, lá está o verbo, tamborilando fonemas e letras. Letras unidas tamborilando gramáticas. Já chega de tamborilar. Preciso telefonar a uma amiga e contar a história desde o fim. E, no arrancar da locomotiva, espero a hora para telefonar. Daqui a 5 minutos eu ligo. Ou mais. Ou menos. E, ainda pensando no homem que não tenho, nos encontramos faz tempo. Anos atrás. Ele estava de casaco e eu estava sorrindo. Contente ao grau máximo da palavra. Eu não estava errada. Quase não erro. E quem se importa? E, quando erro, é sempre milimetricamente a cada dia. Hoje ainda não errei. A não ser por ter dito ao cara da luz os números errados no relógio que conta quantos watts gasto para viver. O homem gritou lá de fora dona moça, diz aí a numeração e eu gritei de dentro é um monte de zero, tem 8 e mais alguns números. Aí o cara foi embora. Agora vejo que errei. Poderia ter dito a coisa direito. Provavelmente a conta de luz virá um absurdo e vou pagar com cara de tacho. Eaindapensonohomemquenãovejo. Mas será que preciso ver para amar? Eu não vejo meu dinheiro em carne viva. Sei apenas que ele está em minha conta. Ou não está. É mais ou menos assim. Você sabe que o dinheiro talvez exista e você não o vê. Cheque não é dinheiro. Cartão de crédito também não. Dinheiro é papel sujo e cheio de rabisco. Certa vez peguei uma nota de 10 reais com a seguinte citação: Quem desdenha quer comprar. E estava assinado. Joaquim. Passei um dia inteiro de minha vida pensando quem diabos era Joaquim. Até hoje não sei. Nem faço questão de saber. Nunca rabisquei nada em dinheiro. Perco tantas oportunidades em vida. Assim como perco você. E você é o homem que não vejo. Mas amo. E ainda acredito. Faço até poema. Mando dizer que limpei casa, ornamentei altar e pago pato de maluca. Mas digo logo que eu nunca espero trocado. Embora me contente com o breve e alucinante acreditar que um dia você vai existir e, finalmente, poderei dizer louvores ao homem que não tenho, eu espero (gravemente) o desnorteio de uma vida de amor e cobrança e ciúme e ainda acordar bem no dia seguinte. Eu me dou de amor aos quatro ventos e se me vem à graça, aceito de bom grado e fujo de mala e cuia e pensamento. Mas quero em espécie. Porque, como já fora dito, cheque não é dinheiro. Só aceito amor se for por inteiro.










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