27 fevereiro 2011

a catedrática rotina do desperdício






Boicotaram a inocência das pequenas coisas. Será oculto ou indeterminado o sujeito que se afasta? E agora centenas de ratos cruzam calçadas perdidos e nunca encontrarão o caminho de casa. Será uma tromba d’água ou apenas mais um gracejo de um destino que escreve à pena a catedrática rotina do desperdício? Duas corujas espetam a noite com seus olhares de sabedoria. Elas parecem saber o que não diz a boca ao abrir-se e ao mover da língua. Confusa a musa escolhe anéis que escondam seus dedos calejados de apontar estrelas em um céu evacuado de perfeições. A hera já era e murchou. O calendário funde-se aos dias. Acompanha o lento correr das emoções. E o ventilador não traz vento. Apenas sacode a rede e bate a porta em fantasmagórica arritmia. Acordo. O galo canta desafinado e o homem entrega jornais. Qualquer dia, eu tenho certeza, ele irá tomar de violência e abandonar seu trabalho. Não há quem sustente tamanha indecência. Trabalhar esmiúça o corpo e faz adoecer a mente e, feito dementes, homens caminham evoluídos de acreditar. Abro os olhos de saudade e sei que você não existe mais. No entanto, para que você não exista, é preciso que eu telefone. Disco número de múltiplos erros acanhado. Do outro lado da linha, feito gado sem dono largado ao pasto, você diz alô ininterruptamente. Para dar fim ao que nos toca, é preciso certificado de que o coração não mais se apressa, que nada mais se enerva, que o mundo continua mesmo que você não exista. É Física ou Matemática ou apenas um fajuto surto de amnésia. É a vontade doida de evitar sofrimento. Em elegante movimento a cortina diz da chuva que virá. Mulheres catam seus filhos na rua, barrigudas e oleosas, as mulheres protegem suas crias do tempo. A beleza está nas arestas das coisas mais pobres e não há cobre ou ouro que a faça diminuta porque beleza é carne fresca ou açúcar em diabético paladar. Comida posta à mesa. A tentativa de adormecer é forte. A cama une o corpo ao sonho e, dez mil vozes falam de alegria, aproveitar a vida, dar colher de chá aos muitos dias que estão por vir. É futuro ainda. O tempo acontece presente e digo do sofrimento que arde a retina em descontentamento. Escrever não dói. O que mata um escritor é ter mutilada sua voz não por crítica ou razões perecíveis. A palavra escrita não se estraga feito alimento. No entanto, ela pode mofar, tornar-se corcunda, criar sulcos de traças em sua tragédia ortográfica. Mas não dói quando a mente bloqueia a história que já existe. É apenas questão de tempo e paciência para que ele tome vergonha de sua forma anônima e se entregue as mãos que moldarão a massa de grossa argila. Escrever é estúpido? É falar com as paredes? Vide resposta na estante que te enfrenta a cara quando não tomas coragem de ler a primeira página. E a existência só vem à prova pelo tato, beijo ainda é a véspera do mau trato e a vida trota em imensas colinas que se chocam vaidosas a espera de algo que nunca será encontrado. Pois a sede é muita, Meu Caro. E a água está escassa e já não há mais copos e a porta está fechada e a casa fora demolida tempos antes da palavra ser exposta.







Image by Joflor

25 fevereiro 2011

o imaginário






Foi morte de raspão. O homem quase que não morria. Como é isso, menino? Como que se morre de raspão? A mãe e o menino conversavam na fila do supermercado, e, enquanto a mãe colocava os produtos na esteira do caixa, o menino falava. Foi sim, mãe. Eu vi. Fiquei de pertinho olhando. Eu já disse pra você não inventar conversa, menino. Mãe, não é conversa não. O homem quase não morre. Foi tudo de raspão. E foi por causa de um sem querer que houve com a polícia. Como é isso, menino? Que é isso de sem querer? E, no meio da conversa, passa caixa de sabão, papel higiênico, pano de pia, escova de dente (quem botou esse chocolate, menino? Foi você? Já disse que não vou levar coisa cara. Isso não é comida). E o menino ia que ia falando da morte de raspão e do sem querer entre o homem e a polícia. A moça do caixa, muito bem humorada, dizia que o filho da mulher era esperto. Garoto esperto. Vai ser estudioso. Eu aposto. A mãe dizia que o menino gostava de inventar conversa. Se você der trela, ele inventa tua vida inteira. É mesmo? Foi dizendo a moça do caixa enquanto checava preço de pacote de macarrão. O menino saltou pra frente da mãe e da moça do caixa e continuou. Eu vi. Fiquei parado na esquina e vi tudo que aconteceu. Primeiro chegou a polícia, depois o homem saiu, aí começou uma conversa muito alta (como quando a senhora me manda tomar banho, mãe) e o homem disse que não ia. Eu acho que a polícia deveria ter esperado, mãe. Acho que o homem ia acabar tomando banho mesmo. Menino, polícia não manda ninguém tomar banho. Mãe, a polícia é igual à senhora. Gosta de dar ordem e com a mesma cara e o olhar brabo parado na gente. A senhora já foi polícia, mãe? A moça do caixa riu e apertou um botão e pediu pra um rapaz de patins checar o preço de um pote de doce de leite. A mãe do menino sempre compra doce de leite pro pai do menino. A senhora tem sorte. É bom ter filho que conversa com a mãe. A mulher retruca: tu já tem filho? A moça diz que não. A mulher continua: então você vai ver o que é bom quando tiver o seu. As duas riem cúmplices de uma piada sem graça. Mulher gosta de dizer que é fértil e que tem filho e marido. Principalmente quando encontra outra mulher que ainda não tem filho que é pra matar a outra de inveja. Esse menino aqui já me deu muito trabalho. A mulher passou a contar vantagem das noites não dormidas, do leite no peito, dos remédios e a moça do caixa ouvia e dizia Jesus Cristo e Ave-Marias. E o menino continuava falando. Foi lento, mãe. Ouvi um outro homem dizer. De raspão e lento. A polícia chegou e pá. Que é pá, menino? É barulho de arma, mãe. E você ainda com essa conversa, menino? Me passa aí o coador de café. O menino se estica no carrinho de feira e ajuda a mãe com os produtos. A moça do caixa vai passando a compra, a mãe finge que ouve o menino e o menino quer contar o sem querer de raspão. E teve gente gritando, mãe. Me pediram pra sair de perto. Que aquilo não era coisa pra criança não. Menino, pare com essa história de polícia. Eu não quero mais ouvir. Mas a senhora precisa ouvir, mãe. E a moça do caixa pedia pra mãe deixar o menino contar a história. Tadinho. A mãe ameaça permitir que o menino fale. E ele fala. Aí o homem levantou as mãos e a polícia perguntou coisa. Um monte de coisa. E pá. Pá e o homem morreu? Foi assim? Diz a mãe já alterada de olho na tela que diz o preço da compra e checa na bolsa pra ver se tem o dinheiro e ainda bem que hoje eu trouxe suficiente. A moça do caixa fica impaciente porque o rapaz de patins não vem com o preço do doce de leite e a fila aumenta e um mundaréu de gente começa a reclamar da demora e a mãe do menino diz que sem doce não pode ficar porque o marido adora aquele doce. O menino ainda fala do sem querer da polícia e mãe, a senhora foi entrando no ônibus e me chamando. Devia ter me deixado lá pra ver. Por que não me deixou lá pra ver? Menino, cala tua boca. Não vê que estou ocupada com a feira? E teu pai deve estar achando que estou batendo perna e moça, cadê o rapaz com o doce de leite? A moça aperta o botão de novo, vem gerente de supermercado, vem outra moça de uniforme (checa o preço na lista, menina). Mas o produto não está listado, diz a moça do caixa. E a mãe se impacienta e a gente da fila começa a dispersar, outra gente fala alto, reclama da demora e é quase uma multidão quando o menino puxa de leve a saia da mãe e diz que hoje ela não precisa levar doce de leite que o pai não vai comer. Foi de raspão, mãe. Eu disse pra senhora que a polícia matou o pai sem querer. Ele quase fica vivo. E a senhora não parou para ver. E, no meio disso, chega tranquilo o rapaz de patins com preço de doce e se alegra porque hoje fica de folga e não vê a hora de deitar na cama e murchar de preguiça seu corpo de trabalhador.









Image by Sayada Ramdial

24 fevereiro 2011

ao flagelo submerso





Há modesto apreço por seu olhar sem preço de olhar as coisas quando há vingar. Seu olhar cheio de tudo, imenso, profundo, navega à deriva a se desfigurar. De considerações é farto. Considera-se único, ao flagelo submerso, e, em seus desprezíveis mares alcança ereto o indigesto gozo amargurado dos inquietos. E, de tão vagos, quase escuros, não sei o que pretendem seus olhos quando silenciam. Eu não ouso caber dentro do sonho de quem cala. Decorei tão facilmente a estrada que se ergue de suas palavras que não tarda a rebelião de minha espécie. Lembra o primeiro dia? Sem nada a dizer, sentado na cama, você olhava o que via. Malas de quem ia e um sorriso de surpresa. Maturidade não havia. Não naqueles dias. E vieram outros tempos de recolhimento, outros amores, muitas dores e para que a gente vive senão para amar e causar dor a quem se entrega em demasia? Há sempre engatilhado um conflito em toda alma que não sabe se destroço ou calmaria. Lembra os passeios em que não se davam as mãos os dois que iam? Mãos dadas dizem nada. É imagem de fotografia. Combinei com o tempo que nunca deixaria o rio partir. Mas, se o rio de mim se afastasse, eu observaria da margem, da arquibancada, corada e escondida, suas águas tomarem caminhos que não os meus. E toda promessa é dívida. Cumpro o que havia dito certa noite sob velas. Amo agora, amo amanhã, outro dia e, sempre tardia, desvio borboletas que ora adoecem medrosas de entregar-se ao caos da ventania. E inquieta se aborrece a história e há discórdia no trepidar dos verbos. Amor e esquecimento rimam em belos sonetos. E hoje dizem as línguas que nunca será homem de forte acasalar aquele cujos olhos enxergam apenas o lhes é devido. Semeia o homem em bruta caça beijos de se fartar e não há de lhe faltar cama. Muito embora nem toda cama torne-se lar, o homem tolo ainda vive a se enganar.








Image by pesare

21 fevereiro 2011

substantiva






É o belo que me substantiva. Amplas janelas, noites tranquilas e a poética verbal dos tagarelas. Espantosos homens e mulheres. Poetas de portas abertas e a noite a me equilibrar. À nascente oratória das horas floresce meu seio humano. O canto. O infinito. E de minha bélica coragem imprecisa, livre enlouquece minha outra margem de mim. Que sou eu, que ora tem sido a gentil feminina garoa que escoa dos telhados e ecoa das têmporas dos estilhaços de toda a minha bondade em ser premeditada nova ordem de me calar. É a haste que me adjetiva. O acerto digno das horas longínquas. O denso beijo que se precipita. Dos lábios. Da retina. E, ao abrir e fechar de olhos, adultos olhos do tempo, renasce a dor ausente e a extinta flor me aquece e me toma em mãos porque sou lasciva menina ingênua que chora em únicas lágrimas o poema por hora inexistente. E as tardes se estendem. E ainda falam de amor as bocas chorosas, esquecidas e sorridentes, imaculadas ao absurdo deste intervalo entre minutos de muitos nomes, de muitos verbos, em loucas vozes de todo o mundo, de toda a gente.







Image on Exzentrikerin

19 fevereiro 2011

ameaça de extinção




Carros bacanas cambaleiam nas avenidas do Cabo Branco enquanto o mar avança. Turistas caminham pelas feiras sorrindo artesanais suas novidades digitais. E o mar ainda avança a calçadinha com sua elegante tromba esverdeada de peixes e sargaço e o mormaço no asfalto causa vertigem em dias de verão. Descanso a cabeça nos joelhos, abraço o corpo inteiro e romantismo é coisa de soneto. Esfarrapada à farpa forçada, vislumbro o pássaro aninhado no telhado de casa. Mentiras abobalhadas transitam pela voz gasta de falar ao telefone. Nada se cumpre. Ele disse que viria. Mas não veio. Ainda inventou uma dor no olho. Tento outro número: Eu liguei errado. Meu telefone é uma bagunça. Mas fala. Já que te liguei, conta as novas. E a linha estica de conversa furada de estar bem, de estar fazendo sucesso, de ter dinheiro, trabalho, costume e santo padroeiro. 11 da noite e nenhuma alma penada narra história para boi dormir. Lavei meu pijama de flanela de imensas margaridas estampado. Eu não entendo as pessoas e ainda considero belo O ANUNCIAR DAS ILUSÕES. Você vai mesmo contar seus dramas ao telefone? Posso chegar aí em cinco minutos. Muito tempo. Em cinco minutos meu sol se põe, a lua tomba e eu desmonto feito jogo de xadrez. Boa noite, então. Desliguei e tomei meio copo de tédio, tomei vergonha e tomei no dito popular mais sacana. Ando fustigada e caio empacada no crivo do cravo do treco encrencado. Ligo de novo. Ocupado. Outra romaria de catar caco de cara que não ocupa canto no meu caçar. Alô. Um amigo me salva. Conta teu motivo que eu conto o meu. Deixa só eu pegar meus cigarros que a história é longa. Fumamos fumaça inflando fabulosas farsas. Então foi dor no olho? Isso não é desculpa. Já parou para pensar que é tudo culpa sua? Culpa é carga máxima para o meu paladar. Mas já pensei, penei e até bolei um dicionário de desculpas pra ver se caio em minha própria arapuca. Sua ingenuidade não tem cura, ele diz. Sensacional sabedoria sua que me sacia. Se eu fosse outro você sabe o que faria? Sei. Você chegaria em cinco minutos, antes do sol tombar e a lua do céu se expulsar. Meu amigo implica que sou cria de crendice antiga. Ele me chama de menina. Me manda dormir. Fecha os olhos, conta carneiros e descansa dessa ânsia de aflição fajuta. Saia à rebordosa e sofra calada ou sofra nada. Eu dito frase citada pra causar impacto. Meu amigo impaciente diz que não suporta citação que é citada por toda cidade por banais bocas que bobeiam agitadas pelo vento. Quanto você bebeu? Nada. Então é porre de quê? De mim. Da chuva. Do livro que ainda não li. Do cúmulo que cultuo sem motivo algum. E foram duas horas de conversa, alguns cigarros fumados pela metade, banho tomado às cinco da manhã e o sol nascente dizendo acorda que hora de outra romaria. E virão certeiros outro primeiro vigésimo orgasmo, outro caminho e atalho e, apaixonado, virá outro ducentésimo quadragésimo sexto primeiro amor. E, enquanto a vida vaga continuada, as casas do Cabo Branco permanecem intactas, mortas de medo, ameaçadas de extinção.




17 fevereiro 2011

gato e sapato





Trejeitosa e com sorriso de malícia, lá vai Marli de novo, de cá pra lá, num pé e noutro, num leva e traz de bandeja que deus a livre. Ela fez o jantar e está servindo a entrada. Marli trabalha todo dia na casa de Dona B. que tem amigas que só falam porcaria, jura Marli. De pé junto ela agradece pelo trabalho que tem. Foi por causa deste trabalho que comprei minha casa. Só tenho que agradecer. Marli é mulher nova, acorda cedo e pega ônibus e sempre chega na hora. Nunca se atrasa. E nunca mete a boca em conversa alheia. Não assim, que todo mundo veja. Mas, quando ela se entristece, eu a deixo alegrinha. Feliz e tontinha, pensa Marli. Aqui na casa eu não falo nada. Mas isso não quer dizer que eu não escute. Eu sei de tudo. Cada conversa, cada pontapé de vento, cada porta batida na cara. Sei de cada detalhe. Marli sai com outra bandeja. Dessa vez serve uns bolinhos que mais parecem sequilhos. Gente rica não sabe comer. Eu já vi a Dona B. comendo escondido. Ela vem aqui na cozinha, pontinha de pé, abre a geladeira e come tudo com a mão. Já vi a mulher pegar coxa de galinha, comida que só é servida aos empregados, e engolir a galinha inteira e lavar a boca aqui na pia da cozinha. Foi a primeira vez, eu lembro. Ela vinha tombando sem saber quem era, dei banho e dei beijo e era tanta vontade. Mas ela não lembra. Marli pensa. Ela só vivia de passar fome. Hoje até que anda melhorzinha. Mas ela não sabe o motivo. Ou vai saber? Eu acredito que seja fingimento. Marli serve o jantar e tem quase certeza que as mulheres, amigas de Dona B., só vão comer um grão de cada coisa e dizer que estão cheias de barriga grande. Essas mulheres não comem. Pelo menos, não na frente das outras. Elas ficam de falar termo técnico, palavra de elegância, uma vira a cara pra outra e é tudo magrela, esticada, repuxada de tanta plástica. E, o que mais me deixa incrível, é que todas são tão tristes e solitárias. Marli, você está falando demais, ela pensa. Na verdade, palavra alguma saiu da boca de Marli. Era só pensamento. Ela vai e vem da sala e pensa sem parar. Mas nunca abre boca. Dona B. muito elogia Marli dizendo que Marli é discreta, que Marli é boa de culinária, que Marli é de respeito. Marli observa Dona B. elogiando e lembra das cores de seus jeitos na cama. Ela não lembra das noites que não vou pra casa, que não me largo do corpo dela, que me faço de gato e sapato enquanto ela, toda cheia de remédio, nem sabe quem eu sou. Dona B. toma comprimidos e adora fazer shopping. Vive dizendo que adora compras e sempre me traz presente. Sempre me compra coisa de mulher. Gargantilha, brincos, lingerie. E o marido dela gosta de fazer coisa que não me atrevo. Marli volta pra sala e as mulheres agora tagarelam a respeito de sexo. Marli ri por dentro. As mulheres dizem que sexo é isso e aquilo. E falam um monte de palavra de médico. Nem parece coisa de gente. Só usam palavra ordinária pra falar de algo tão feito por deus. Marli pensa: deus fez assim ó: "Homem com aquilo e mulher com isso e todo mundo se recheia". Marli explica para si mesma a simplicidade do ato de ficar de quatro, de cinco, de nó ou ao contrário. Marli adora sexo e nunca passa fome. Porque é mulher aberta. Sabe se dar. Mulher nasceu para se abrir. Feito Flor. E nem precisa de jardim. Eu me abro rechonchuda e dou tudo o que tenho e faço o diabo a quatro pra deixar gente feliz. Marli se esvai de alegria quando lembra de cena que já passou. Era tanta mão e tanta boca que a casa parecia nua e Marli era dona de tudo que comia. Ela e a mulher Dona B. fazem girar o mundo. E, enquanto Marli pensa, as mulheres argumentam, como se fossem políticos em tempo de eleição, que fazem de tudo para estarem lindas e esbeltas. Falam como se fosse tudo verdade. Mas sei que não é. Dona B. quando chora de solidão é de dar pena. Ela chora em tudo que é canto. E bebe. A mulher fica bêbada com saudade do marido. Chora sem parar. Eu ajudo no que posso. E sempre quero. Levo chá, ajeito banho e Dona B. chora de morrer quando o marido some dizendo que viaja a trabalho. Ela é uma besta. Devia se olhar mais. Ao invés disso, Dona B. se estica magra e medicada pra não ficar com depressão. Mas tenho fé que Dona B. tome jeito. Ela está mudada. Vai saber entender que basta se deixar. Já me olha diferente sem saber o que fala. Meu cheiro está dentro dela e ela está em mim tão bem aninhada. E é nessa hora, de pensar calada, que Marli percebe Dona B. de olho cheio olhando pra ela como se soubesse. Um minuto e as duas são únicas, ali na sala, na casa, no meio da gente. Ela sabe, pensa Marli. Ela sente que sou eu. E as mulheres seguem falando alto e Marli fica ali, de pé, entre a cozinha e a sala de jantar, parada desejosa sabendo que, mais tarde, quando bater a fome que comida não mata, Dona B. vai chorar (de fingimento, talvez) e Marli, toda indiscreta e planejada, vai lá e alimenta Bethânia como se fosse flor aberta com outra flor aberta fazendo com que ela tome consciência de que sou sua mulher.









Image by nsca

14 fevereiro 2011

onisciência




Quantos anos você tem? Tudo isso? Ou nada disso? Já parou para pensar no tempo? Sim, este tempo. O tempo que você aponta com o dedo. Feito lápis quando perde a cor. Então sou lápis de cor? Não. Entenda isso. Você é a soma do tempo que sente saudade, tempo que agora é alarde e um futuro que só deus sabe. E você, pelo que sei, não é deus. Ou será? O que é deus? Não me venha dizer que deus é tudo que está ao meu redor. Lembro da escola e da professora que dizia que deus era tudo que existia. Não é possível que deus seja uma lata de cerveja vazia. Tampouco um assalto a banco. Deus não pode ser tudo. Porque, se for, deus perdeu a cor feito o lápis que você mencionou. Não me leve ao pé da letra. E esqueça sua professora do primário. Deus é. E ele está. E você pode dizer maiúsculo ou minúsculo, pois deus não é gramática. Ele é apenas a fé que o sustenta. Eu, por exemplo, falo em deus, mas não acredito que ele exista. Mas é preciso que eu fale. Porque muita gente acredita. Então, por lógica, se muitos acreditam, logo existe. Quem criou tal teoria? Está nos livros. Nunca vistes? Já dei de cara com alguns livros. Alguns poucos, admito. Mas já li. O Pequeno Príncipe é um deles. Nunca diria ser um chapéu. Nem jibóia. Para mim não passa de um desenho mal feito. E muita gente lê este livro e diz que se trata de um clássico. Vertente filosófica. Vê? Agora entende a teoria da existência de deus? Se muitos falam, logo há. Mas não se pode comparar isso e aquilo. E por que não? Mas espera. Quem está sendo interrogado aqui? Você ou eu? Não sei. Talvez seja deus.







10 fevereiro 2011

lado b





Todas furadas. Todas elas. O conhaque transborda no copo de geleia. Tão maltratado vive um homem, assim, desmantelado. Sobe e desce de escada em busca da melhor cara pra ir dar com ela. Ruim de tudo isso é ter que ir. Ela vai inventar conversa e ele, sem falsete algum na voz, vai discutir com ela. É sempre assim. Briga em cima de briga e nada se resolve. E, irritante, ela vai pedir aquele café. Ele odeia a forma como ela diz: Um latte, please. Ele percorre os lábios dela enquanto ela fala. Toda sinfônica. Harmônica a boquinha dela se curvando pra fazer discurso. Vai dizer que ele não se cuida. Tenho certeza. Vai dizer, com aquela boca que não sei por onde anda, que não me cuido, que minha barba mal feita é sinal de abandono ou de sujeira. E, assim que ela disser toda a bobagem a respeito de tomar cuidado com a saúde, de prontidão, feito soldado, ele vai acender um baita de um cigarro e baforar bem na cara dela. Vou deixar-te esta lembrança, minha querida. Teus cabelos coloridos de vermelho, a ruiva imaculada, tu vais engolir fumaça. Que tanto ela espera? Já dei tudo. Doei paciência e amor. Era pouco? Que mais tu queres, mulher? Ele observa as roupas já escolhidas em cima da cama. Camisa azul e jeans. Ele bebe do conhaque e sente a roupa dizer: Eu não sirvo para ela. O quarto parece ecoar: Que receio é este de não querer vê-la? As mãos trêmulas do homem o amparam de uma queda. Pior é esta realidade que me ausculta. Feito médico. Não importa o quanto eu finja, que eu demonstre ódio ou indiferença, que eu a encontre apenas para desfazer-me de sua imagem ao dizer que ela engorda e se torna velha. Amor é como inveja. Cega o olhos, mas não adianta a fuga. Ele está. Feito médico. Ele sabe. Feito câncer. Ele cresce. Mesmo no silêncio da solidão que aprecia um homem. Por tantos anos eu desejei pisar no chão sem que os pés daquela mulher me seguissem. Eu quis todas as outras e não a quis. Mas é feito médico. Sabe o que sinto. O que escondo. Ela foi embora porque eu a decepcionei. Seria o auge de nossa conversa. Mas ela não diz. Só me culpa e me chuta em palavras com aquela boca de batom vermelho que não sei por onde anda. Mas é imenso o desejo ainda. Agora que se distancia a mulher que fora minha, eu a desejo. Veste suas roupas, homem. O mundo diz. Vai de encontro a ela, covarde. Toma coragem ao conhaque e diz que sem ela não se faz feliz o solitário que despenca em toda cama em busca da mesma mulher e nunca a encontra. O idiota está vestido. Eu estou vestido. Meias furadas?, ela dirá. Hoje iremos nos deitar. Deitarei ao lado dela em cama de qualquer hotel e faremos sexo. Do que sinto falta? Ela tem sorriso de arfante. Perde o ar. Ela dança sobre meu corpo e eu a decepcionei quando? Não tocarei no assunto. Hoje não tocarei no ponto. Hoje farei contragosto de minha vontade externa e direi que a amo. Meus músculos todos a desejam. No entanto, minha mente diz que não. Sigo sem raciocínio rua abaixo. Compro flores? Fumo cigarros? Que faço? Serei feliz? Coração parece saltar. Porque sou tolo. E ela estará de riso em brasa querendo vingança. Em pensamento, ela já está desarmada de suas palavras de mulher berrante e certa de tudo. Eu calo tua fala com o que beijo, mulher. O homem sabe o que quer. Caminha veloz, arfa o peito de coragem, hálito forte de conhaque e ele chega. Mas nem tudo sai como se planeja. Por minha sorte, ela não veio.







Image by Boyko Kolev

09 fevereiro 2011

poema enlatado









Poema enlatado de vasto vinhedo amotinado armazenado em barril de carvalho sempre perde o sabor. E envelhece o sentimento que ardia e não mais haveremos de ter. Diante dos olhos fere a bela estrada que teima em reconciliar os lábios que não mais se encontram, e, confusas, nossas mãos buscam o rosto em outro gosto que talvez seja similar. Amor não há de se igualar. Conto dias na ponta dos dedos. Fevereiros, páscoas, cortes de luz. E conto segredos. No entanto, calo a boca das imagens da TV e nem ao menos sei o que fazer quando visto pijamas e penso, sou louca varrida, mas não irei causar rebelião. O parapeito é estreito e faz tempo que não abuso de minha insanidade. De defeituosa alquimia nossos gênios crescem em quinas de outras moradas e nossas vozes engolem tímidas outras palavras. Eu falaria de amor. Imitaria a senhora cansativa que conta a mesma vida que somente ela viveu. Talvez eu devesse usar um período mais fúnebre e declarar ponto final. Mas sinto a necessidade de dizer que imbecil é a gente quando acredita que beijo e cama desarrumada enganam a fome de um século. Vênus Versus Nada. Dentro de nós, intacta em datas perdidas, esconde-se a esquizofrênica beleza hermafrodita do amor que timbre e sente pudor ao despir-se diante de outros tons. Tenho vergonha de ser vista. Outra noite, eu recebi convite e saí do purgatório. Sinto-me sufocada por viver entre tantas paredes e vejo vultos ocupando espaços. Era preciso sair. Organizada, tratei de deixar as coisas em ordem: Contas empilhadas de acordo com o valor, lençóis dobrados e tirei o pó da maldita estante de alvenaria. Tanto pó, tanta relíquia. Para quê, meu deus? Pois que nada silencia o quanto amo e, da mesma sorte, almejo a morte do objeto que abandono. Efêmero está em pólo negativo ao meu. A cidade é feia. As pessoas também. Nada faz graça. Nem compras. E não me basta preencher quadrado com formato de outro valor. Eu pensava em você todo o tempo enquanto alguém tocava meu corpo. Senti desprezo ao fingir sentir prazer. E, durante as horas que estive fora de casa, continuei contando o tempo de sua distância. E agora sou seletiva. Desde que conheci sua elegante estupidez de ser único, engano a todos dizendo que não estou. Pois meu sexo em chaga ofendida despreza agora minha fêmea carnívora, e por ti, solitária, silenciosa e devastada, torno-me herbívora. E deixo uma vingança antes de desligar o telefone: Você era mais forte quando estava comigo. Detesto admitir. Você me roubou de mim e eu o roubei de você. É a velha história repetida. Você agora não passa de um poema em rimas e eu, definitivamente, termino meus dias feito crônica vazia escrita para ilustrar revista de moda feminina.









Image by amirajuli

07 fevereiro 2011

dias ao vento






Sempre que uma dessas pessoas é internada ou morre e ninguém diz o motivo, pode ir atrás: é o mesmo que fazer propaganda de cigarro. Porque todas elas fumam. São intelectuais ou escritores ou jornalistas. E essas pessoas fumam. Não é preconceito. É costume de ver. Sempre que vejo um escritor, ou tem dente amarelado de nicotina ou fala de voz aguda. Ou grave demais. Coisa causada pelo cigarro. E cigarro faz mal, há de se admitir. Mas ninguém morre por fumar. Muitas vezes, essas pessoas não praticam esportes, não se alimentam bem e dormem fora de hora. É isso que mata. O cigarro não. Indefeso que é, só faz fumaça. Quanta mediocridade pode sair de uma boca como a minha. Calo. O sol bate feito sino e canso. Abre e fecha de janela e alguém ouve tango. Tão cedo para um tango. E isso é coisa antiga. Lembro-me de uma tia. Já morreu. Ela era muito baixa. Parecia uma anã. Cabelo louro encaracolado e curtinho. E usava muita maquiagem. Agora sei que era para encalacrar a velhice. Pessoas não querem envelhecer. Ficam todas se repuxando e fazendo papel de deus e desejam imortalidade. Pergunto-me o que alguém pode fazer nessa terra caso viva para sempre. Esse negócio de viver para sempre é entediante. A gente deve ficar tão gasto na eternidade. Vendo só repetição na vida. Uma canseira que nem o sol pode causar ao meio-dia. E a minha tia, que era baixinha mesmo, eu via a mulher do corredor de casa. Ela costumava ficar no quintal fazendo ginástica. Bem cedinho. Erguia os braços, fazia respiração profunda que a barriga subia e descia e ela, minha tia, ainda ficava de cabeça pra baixo fazendo estrela. Era estranho. E eu ficava olhando. A casa, que minha não era, era de minha avó, tinha muita porta esquisita. Porta que abria só a parte de cima. As portas eram cortadas ao meio. Então eu achava que, além de portas, também poderiam ser janelas. Era estranho ver aquelas portas todas pintadas de cinza e cheias de ferrolhos. Da terra de onde eu vim, não havia porta como aquela. As portas eram inteiras. Não eram semi-janelas. As ruas não eram cheias de árvores. E ninguém sorria. Porque era sempre hora de correr e, na pressa, ninguém para. Ninguém se atreve à ilusão de uma tranquilidade. E a casa, que não era minha, era de minha avó, sempre foi tranquila. Casa branca, mangueira no quintal e meu pai urrava de bêbado. Lembro-me do guarda-roupa onde eu me escondia. O melhor de tudo, quando a gente é criança, é fazer paz na guerra e não entender nada. Eu entrava no guarda-roupa, naquele escuro, e dava de cara com um irmão ou irmã. Os olhos grandiosos de medo. Mas, para não dizer fraqueza, a gente começava a brincar, lá dentro mesmo, do guarda-roupa. Por isso gosto de tanto de guarda-roupa. É algo que não me deixo faltar. Sempre que posso, imagino se meu tamanho ainda cabe em algum espaço do móvel. Sinto vontade de me trancar no guarda-roupa na ingênua esperança de poder brincar de novo. De ser criança mesmo e fingir não ter medo. A gente cresce e o medo fica estampado feito manchete de jornal. E sobe muro da casa, cerca elétrica, alarme, bolsa pequena pra não chamar atenção e camisinha pra não pegar doença. Sinto-me tão escrava do medo. E, nessas horas de lembrar de tias e portas que imitavam janelas, consigo ouvir os berros de meu pai. A diferença é que agora não tenho mais tempo para me trancar no guarda-roupa. Preciso sair e trabalhar. Amar e desfrutar do mundo. E, quando estou participando da vida, fabricando o que um dia será história, ninguém vê que sinto medo e daria tudo para estar lá, dentro da memória, vendo minha tia fazendo estrela e soprando vento através da porta.











Image by AvarielGirl

05 fevereiro 2011

afetadas.com





a nódoa


Era apenas uma mancha sem importância. Assim como se fosse um tapete de porta. Um capacho. Estaria ali, no entanto, poderíamos passar por ela e não fazer dela sentido. Eu não dei importância. E, estes não ligares amaldiçoaram o janeiro daqueles dias. Poderia ser sangue. Uma aberração seu ato de voltar para casa com mancha de sangue em camisa pólo comprada em dia de amores. Nem me dei conta. Havia muito no que se pensar. Filhos, trabalho, depressão, ginecologista, celulite, anormais tentativas de regressar aos estudos, carro, colégio, suas roupas, minhas falas frente aos outros, Os Outros, planos de viagem, organizar a vida dos filhos (ainda pequenos e desprotegidos) e eu não poderia deixar de ser quem sou para lidar com uma mancha em sua camisa. Nada mais indigno e antigo do que se deixar ser visto. Fechei os olhos. Hoje, anos passados, o que era mancha torna-se nódoa. Ela berra ao telefone, questiona a respeito do inventário, fala de suas vontades, diz que há cartas escritas guardadas em uma escrivaninha e, insolente, diz que era dela a vida do homem que apenas eu sabia. Agora, no reparte dos bens e dos males que você deixou, sinto amargurada intensa culpa por ter me negado a ver a nódoa que me derrotou.



boicote


Sorridentes homens bebem no bar da esquina. Quanta gente. Quanta alegria. Meus olhos passam pelos homens, carros passam por mim, e o ponto de ônibus está deserto. Passa vendedor de garrafinhas. Passa menina mendiga pedindo um trocado e eu espero ônibus, desocupada que estou com as horas, observo pessoas elaborando seus dias. Por fim, chega o 517. Subo, mostro carteirinha, motorista me sorri e vejo os homens celebrando bêbados no bar da rua. Quieta em aversão minha criatura, entregue o ônibus está às ruas, segue a vida às escuras e eu padeço dias sem saber de mim.



yakisoba SOS


Super fã de Caio F., supra sumo da internet, à vapor ela escreve. Um texto após o outro. São narrativas, muitas vezes todas iguaizinhas, talvez um plágio lhe caísse bem. Veja que os morangos mofam, as epifanias cessam e do escarro nasce o tédio. Seus cabelos crescem (excessivamente longos), ela sai com amigos, fortuna adquirida em conversas, "text me when you're back", São Paulo a plano de voo, não namora que é ocupada, uma beleza a desajeitada cult organizada. Yakisoba SOS, coleciona florzinhas, cortiça de vinhos e fala mal da vidinha de seus humanos queridinhos. Poética clemente toma para si o que é dos outros e vive aniquilada de inveja em seu mundo pequeno de apartamento com varanda, cigarros mentolados e leituras de cita dor. Muitas noites ela dorme intranquila porque sua vida não é vivida como nos romances que resume, que analisa, que vulgariza seu intelecto devastador. Vida sem requinte, ela pensa, e ostenta arrogante sua imagem que há anos desbotou.









Image by Linnea Strid

02 fevereiro 2011

catarina caricata





Catarina caricata, salve beleza idolatrada, curvilínea aveludada, boca carnuda de espécie rara cavalga seu namorado vertebrado que jaz logo abaixo da menina perfeita mimo do céu um amor. Cansada da marcha, Catarina interrompe o ato e diz ao namorado que sossegue. É hora de fumar um. Cruza as longas pernas, felinas inquietas, e a menina enrola o cigarro curtinho e sorri corada e nua. Alcança o isqueiro com a mão esquerda e derruba, sem cuidado, o porta-retratos que estampa mãe, pai e irmã. Sorri mais. O namorado, ainda faminto, permanece deitado, olho fixo no teto, na teta, na cara bonita de Catarina que faz careta ao queimar a ervinha que sobe à cabeça. Sorri bonito o cara. Menos de vinte, auge da fome, brinca de passa anel com Catarina. Mas, ao contrário de, passam cigarrinho que deixa a cabeça bem melhor: suspensa, suave, sonora. Catarina não gosta de falar do ato. Fala durante. Mas, depois que acaba, não sente a menor vontade de dizer o que sentiu, como foi, se era daquele jeito ou se deveria enfurecer mais o dragão para que ele soprasse seu fogo dentro de seu alçapão. Ela diz que não gosta dos apelidos que ele usa. Ele dá de ombros. Mas eu gosto. E você está linda assim nua em pessoa. Conversam baixinho porque há gente em casa. O aroma no quarto é de carne, incenso, coisa que queima e afeto. Que é sexo. Mesmo quando não há amor. Catarina nunca amou. Só de leve, de longe, de repente. Tive uns quatro antes de você e amei todos. Mentira. Ela mente tão doce, pensa o rapaz que fuma com força para que a fumacinha cause mais impacto no corpo que ousa possuir Catarina de novo. Um dos dois, já dormentes, liga a TV. Não se sabe dizer quem. Maconha causa perda de memória. E, depois que começa a zunir na cabeça o efeito, a gente perde o caminho. Risos envaidecidos por ser tão linda e se saber perfeita a moça de seios erguidos. Crise mundial. Não é legal? Saber que estivemos aqui, no mundo, no caos? Só é legal. Catarina acreditava que Egito fosse lugar de tapete mágico, pirâmide e camelos nas areias escaldantes. Pensei que todo mundo fosse feito de Aladim. Muita risada no ar. Você confunde Egito e Arábia, Catarina. A menina rindo mais lindo que nunca. O rapaz aproveita a algazarra e vai tentando o que Catarina já não quer fazer agora. Ela ri e joga o corpo pra longe do alcance da mão do cara que diz: Vamos pra lua. Algo mais rápido. A fumaça é lenta. Catarina ri, discorda, concorda e cheira a poeira branca que o namorado separou com tanta devoção no vidro do porta-retratos que à família enquadrou. Nunca misturei. Aliás, nunca cheirei. Acho barra pesada. Mas a moça não sabe nada de barra pesada. O rapaz a diverte explicando a evolução das drogas desde os anos 70. Ou bem antes disso. O cara sabe de tudo. E ainda tenho pílulas. Catarina sempre achou que pílula fosse coisa de sua mãe emburrada com raiva de ser chifrada pela centésima vez. Que nada tem a ver. Os dois cheiram estradas, Catarina já sente euforia e desce pela garganta um comprimido que fará milagres. O homem quer o excesso da moça que, nua, fala maluquices e diz que as nuvens parecem de cera e mel. Recomeça então o balé de orquídeas. Flores afetadas anestesiadas de química se envolvem e haja beijo e promessa e nenhuma palavra é compreendida. Um sobe e desce de montanha russa, cavalo marinho gigante, Catarina cata com a boca o que o namorado rígido oferece e seguem os dois, gametas compenetrados, abraçados, traficados, e há mais força que não sente Catarina. Há mais boca que não sente o namorado. E há tanta sede que há palpitação e olhar expulso de vida. Morre de overdose Catarina enquanto risonho, maluco, amoroso, o namorado a entope de paixão.






Image by alifann