28 abril 2011

falha trágica






Olívia está de volta. Chove forte no dia de sua chegada. Do aeroporto ao bairro onde mora, Olívia observa ruas de forma analítica como se quisesse aprender de novo uma lição antiga. Olívia mudou por dentro e por fora. Engraçado como ausências causam mudanças. Ela sorri displicente enquanto o carro passa veloz pelas praças e avenidas. Nada muda na cidade. Eu mudo, pensa Olívia. Feliz e abobalhada, louca para chegar a sua casa e ver suas coisas, seus objetos, seus móveis, seus pertences e, talvez, receba boas vindas. O corpo de Olívia vibra de excitação ao pensar que talvez receba visitas. Talvez alguém tenha preparado festa e terá vinho e amigos questionando novidades. Olívia contará tudo de sua viagem. Dirá da grande experiência e das pessoas que conheceu. Provavelmente irá inventar detalhes, colocar adjetivos em seus devidos lugares, soberba exibirá fotografias que ilustrem seus passeios e grande será o fingimento ao dizer que conheceu alguém que mudou sua vida para sempre. Olívia dirá que conheceu um mundo extraordinário enquanto esteve ausente. Mentir faz a gente viver mais contente. É como se a invenção acontecesse quando a despertamos de nossa imaginação. Eu crio um mundo diferente no qual eu possa andar indiscreta e ainda ser eloquente sem dar uma palavra. E agora chove e Olívia se encanta ao ver pessoas buscando abrigo sob portas de lojas, telhados, árvores. Todos buscam proteção. É impressionante como somos todos iguais. Pensativa, Olívia sequer percebe a água invadir as ruas deixando os carros mais lentos devido a um imenso engarrafamento. É tempo de pensar. Pensa tanto que acredita que terá mesmo festa e sabe que ao chegar ao seu prédio dará de cara com o porteiro ouvindo no rádio transmissão de jogo de futebol. Sabe que irá saudar o homem e dirá bom dia e encontrará crianças brincando no play e terá de cumprimentar senhores no elevador. A vida é contínua, curva sempre em linha reta e nunca sai da ordem rotineira de sua política. Olívia encolhe seu corpo no banco de trás porque sente ternura, afeto, vontade de viver infinito cada dia que virá. Ela tornou-se tão otimista que jura não mais entrar em combustão por seus pequenos problemas de tempos atrás. Sequer os relembra. Sabe apenas que sentiu necessidade de um tempo para si mesma e foi, de pé na estrada, buscar esquecimento. E agora está de volta. Olívia desce do carro em frente ao prédio onde mora. Malas estão sempre prontas para serem desfeitas. Ela observa a cena. Crianças brincam risonhas estridentes, o rádio do porteiro é impertinente, velhos capengam na porta do elevador e, do alto, no oitavo andar, seus amigos acenam da varanda para receber Olívia de portas abertas para sua vida. Mas algo corrompe o enunciado. Olívia entra no carro, pede ao motorista que a leve para longe daquela gente e some feito folha solta em água corrente. Ainda não estava pronta para ser a mesma mulher de ontem. E assim é a vida, confusa acrobata desinibida, muda itinerários, recria personagens e decide não mais remontar velhos cenários. 








27 abril 2011

the butter flies









Escolheu uma das unhas (grandes unhas pintadas coloridas). O Rato Roeu A Roupa Do Rei De Roma. Sentimentos nem sempre são garrafais. Ou controláveis. Há sempre uma ponte envelhecida entre nossos caminhos. E, um passo em falso, há o precipício, o particípio e o passado seguido de interjeições. E ela vai ao cinema. Nada faz de grande excesso. Ela come depressa que é pra dar tempo de ter tempo sobrando. E nada sobra. Talvez, quem sabe, se tivesse algumas polegadas a mais na medida de seus quadris, cílios mais alongados ou um perfil mais adequado para vestir toda estação. Mas os quadris são estreitos, o corredor é estreito, Gibraltar é oceânico e estreito também se torna o pensamento quando trabalha, ornamenta paisagens e observa imensas manadas viverem suas vidas à margem dos rios. Pobre Joguinho de Palavras. Um parafuso remoído que olha o mundo e, o que todos veem de belo em Copacabana, ela vê através de sua pequena janela com vista para o muro da casa ao lado. Quase tudo é espetáculo quando não se espera mais que isso, que a mão fechada ou o telefone mudo em pleno domingo. O mundo não é um moinho e cartola é comida do tempo de infância. E depois de se basear em fumaça, vestiu tralha de roupa antiga, pintou a cara feito palhaço e saiu. Baseada torcendo tecido ao contrário. Querendo mais que o trocado diário dos risos poupados, dos sorrisos laqueados, estéreis e dopados em creme dental. Sorrisos de antes de ontem, do mês passado, congelados ou enlatados, empacotados e prontos para a viagem. Pano sem graça que agora serve de consolo cobrindo os móveis de casa. Vida não vivida, sonhada apenas, é, sem dúvida, tempo gasto. E que se parta a história em mil cacos ou que se torne todo evento gravura de carta de baralho. Nosso tempo enfartou de cansaço. Baseia outro baseado e vai, certa de estar quase errada, marcando passo e checando o vencimento da conta d’água. Estranha como uma borboleta que se esqueceu de usar as asas.







Image by iskren

25 abril 2011

sequelas





Caetano ainda é chato, eu calço outros sapatos, acredito em luz no fim do túnel e bonança pós-temporal. Faço terapia, ioga, massagem, descanso em fina almofada em clínica de estética, depilo à cauterização o buço e ergo meu busto em farpado sutiã. E, vez por outra, sofro de amor. Mas não é amor o que me arde. Amor acontece em falsete como em voz de tenor. Amor lubrifica e depois resseca feito massa de modelar. É o intervalo de cigarros, de espasmos e de um orgasmo sentido em miúdos segundos consecutivos. Amor é o baldio. E eu ainda contento meu paladar ao ver pessoas como se olhasse vitrines. São bonitas silhuetas que passam por minha retina deixando marcas, ora deixam nada, ora se distraem. Eu trato bem os animais. Acasalo obrigatória enquanto a cortiça curte o vinho na geladeira, segunda prateleira, ao lado dos vegetais. Ao veneno de uma taça eu traço muitos planos em teus caminhos. Ao tarô edifico vidas vazias, necessitadas de uma dor maior, traídas e desoladas me despertam compaixão. A dor ensina. E não há meio termo ou lição de cartilha. É vida. É deus dará. Eu aposento agendas, diários, notas de um tempo outro, vago sem luz entre cômodos e nunca cedo à palmatória minha mão aberta de repulsa ao vislumbrar o que de mim é culpa e nunca será redentor. Acalmo vermes que, tão breves quanto a pele, irão contrair os dias e se tornarão relíquia de toda memória acumulada em solidão. Apago rastros de erros, meus enganos todos têm endereço e, no cartório, uma certidão pré-datada. Termino dias em linha reta, fecho portas e janelas e durmo intranquila de uma dor urbana, bruta de tão humana, e, aos trens e passarelas, vivo silenciada de uma sede indiscreta que logo me será vertigem, talvez assombros de uma aquarela, ou então se partirá aos prantos minha existência sucumbida por tantos prazeres, diversos azares e imensas sequelas adquiridas.







20 abril 2011

nero e afrodite



Hoje tudo não passa de um mero evento. Mera coincidência. Mero falar para preencher o tempo. E discutir relação. Enquanto narigudos falam que o mundo está acabando, pacifistas brigam por seus motivos, políticos são caçados e, meteorologicamente, estamos todos perdidos, nós discutimos relação. E eu estou com saudade. Talvez seja mera invencionice do meu inconsciente. Ou mera idiotice. Ou Nero apaixonado por Afrodite. Imagina se eu fosse uma dessas coisas que acontece de súbito? Uma onda gigante, uma escada atrapalhando o tráfego ou chuva forte em dia de fazer festa em jardim? Mas não sou. Formiga escondida atrás do botijão de gás. Estou errada? A verdade não é bem a verdade depois do quinto andar e fico estranhamente chateada quando esse torvelinho de imagens me cruza o caminho. Sua mãe vestindo roxo e eu divinamente dividida entre olhar minhas mãos e ficar tímida mesmo que risse. Eu ria. Eu estava nua de tanto rir. Ocasiões especiais merecem medidas extremas. E eu sempre escolho um bom vinho como companheiro. Bebi que me excedi. Família e uma fila de quadrúpedes bebendo água. Plantei essa imagem na minha cabeça e nunca mais esqueci. Assim demarco os dias. E não esqueço. E não consigo. Por Deus, por Nossa Senhora de Fátima, aquela outra santa das causas impossíveis, por todas as imagens que a Bíblia condena, não consigo esquecer você. Escancarada está a porta da rua, tenho comigo o velho trocado para dar garantia e dou de ombros e não choro na frente de estranhos. Eu faço coisas ao contrário e acabo dando meu corpo e alma e já vendi até meus discos de vinil para pagar dívida. Ando ruim esses dias. Novidade. Talvez seja manchete de jornal. Mas não é ruim da cabeça. É ruim de estar dormente, falando sozinha, vendo coisas, tomando excessivas doses de egoísmo e solidão não passa de dois pares de sapatos deixados no canto do quarto e uma escova de dente que logo me será esquisita. Vou olhar tanto a tal escova que vou começar a estranhar a existência dela em minha farmacinha. E quem inventou de chamar armário de banheiro de farmacinha? Que tanto há nessa gente que inventa nome em cima de nome e ninguém descobre uma cura para o que sinto, cura para os aflitos, cura para as pessoas que leem livros de auto-ajuda e ainda acreditam? É mera ocupação. Seria simples. Alguém chegaria e diria exatamente o que sinto, quem sou, o que devo fazer e que fim devo dar aos planos que não chegam a dar certo. Mas ninguém pode ter respostas assim, de forma tão fácil. É sempre a mesma regra. Duas quadras da rua onde moro, supermercado, sorriso falso e homem que chega elogiando quando, na verdade, ele sempre tem outro pensamento. Ou não. Talvez seja exagero meu. E estou lendo. Um monte de livro. Leio muitos para entender tudo ao mesmo tempo ou nada. Sou exagerada. E logo estou misturando ensaio, artigo, poema e prosa e falando de forma estranha que nenhum amigo meu consegue me entender. Um dia fiz uma síntese de Rubem Fonseca com Otto Lara Resende e ainda falei a respeito da abolição da escravatura. Resultado: Acabei dançando na rua e elogiando um amigo que me trouxe pra casa. E até beijei na boca. De língua e dente e tudo. Meus excessos são os grandes culpados. Rod Stewart tem culpa e também aquela tal Carly Simon. Todos eles me encheram de ilusões infantis, débeis, cor de rosa bebê. Sem falar nos filmes que destruíram minha visão racional das coisas. E vou declarar imposto de renda e declarar também total sanidade mental porque aguentar a vida é simples. São dois pra cá, um copo cheio de mágoa, mais uma dose e um cigarro por mês. E vou trocar os móveis de casa e esquecer que existi enquanto você existia, enquanto sonhava mais que vivia e vou contar a história até ficar cansativa e que eu não aguente mais uma palavra a seu respeito. Vai ficar feito quadro que se vê todo dia e perde a graça. Ou vai terminar como eu, que me embaralho repetida, dando uma de prosa e poesia quando, na verdade, não passo de uma mera alegoria.







Image by MisOtrasCosas

17 abril 2011

ato primário






O corpo dele murcha após o ato. Velho teatro nosso. Eu aprendi a converter mentiras. Acredito que você me ame tanto quanto ama seus carros em miniatura. Vou à cozinha e estanco na frente da TV. Chico César diz que a indústria cobra do artista mais produção e menos qualidade. Lembro de seu corpo ainda impávido colosso sobre a cama. Será que ando cobrando demais? Cansada, ultrajada, apenas uma mulher beirando o limite da paciência. Farta. Estou farta e não me diga que sorri tranquilo seus dias comuns. Eu não acredito naquele que se diz feliz e relaxado, nunca estressado e também não acredito nos demais que defendem suas opiniões em tom de ironia. Não acredito na mulher que não trai. Mentirosas, em seus amores acuadas, são tão fulanas que me cansam. O retrato no criado mudo é gente de minha família. Você, murcho e ainda me querendo, fala de sua família também. Casei, descasei e não surto porque o tarja preta é tão forte que me fracassa. Você entende coisas pela metade porque vive tudo pela metade. Estou tentando viver a vida de outras pessoas há dias. Sou o vizinho, sou meu irmão, sou a cunhada e sou a simplista que ganha flores e acredita que o dia termine fechado em pacto de satisfação. Não há quem seja feliz sob efeito de rejeição. E o que rejeita? Meus medos, ansiedades e assisto Woody Allen para rir de minha própria cara. Sou vazia que nem me vejo no espelho. Trabalho em pleno sábado e chego em casa torta de tanto fingir alegria. Grande parte da população sofre sem motivo. Mulheres competem por homens em imensas filas de mão única. Eu não sou grande parte da população. Sou pequena. Nunca serei única. E dor maior é saber que igual a você há mais de milhares. Suas ideias geniais são as mesmas ideias geniais que passam pelas cabeças de todos os outros. Não ser novidade é ruim. Leio filosofia, leio jornal, sinto arrepios quando penso em sexo, mas calo. Ninguém gosta de compartilhar verdade. O bom é ter rede social e espalhar vitalidade, exibir fotos de passeios, sorrisos e ficar de lá pra cá vendo quem engordou, enfartou ou teve seu comentário difundido. Deito ao seu lado e assumo minha postura bestial. De boca calada, escancarada em pura vontade, aconteço ao ato primário. Eu acasalo enquanto pessoas gozam ao vazio manifesto de suas verdades cheias de defeitos de fabricação.






Image by Juan

15 abril 2011

ladainhas




E da violenta disputa entre o laço e o anzol,
Vence o verme de lábios pequenos.
Criatura de melancólica estatura,
Trajando singular feiura,
Que tanto ria de nós.



Se a poesia vingará, decerto que também vingarei. Pois que de poesia sou feita, de mel e madeira, e das sementes de um baobá. Sou peça de colecionar. Obra parideira cujo ventre sofre ao nascer de acordes e há em mim o suspiro de deus. Venho em mar aberto, em decretos despertos, e pernoito em cada casa por onde passo e deixo meu desembaraço que um dia me fez mulher. O que antes fora menina, agora ensina que da letra vem a voz ou o reverso, a ladainha ou o deserto, a oração ou o cálice de amargo remédio. O silêncio de uma borboleta que se aninha em lâmpada acesa e que, ingênua, sonha em caminhar. Sou alma violenta quando silencio e sou morte ao dobrar dos sinos que boquiabertos se espantam à pálida nudez da fêmea errante que me tornei. Ordenhada pelas horas, busco a palavra exata que encerre a rima de verso armada, a vida de sorte anulada, a deusa sem mistificação. E ainda interrogam-me se vingará o minúsculo fruto que sou. Coro ultrajada, boneca de volta à caixa, e sangro pelos meus botões. Pois nada em mim é de minha autoria. Criminosa embarco na poesia e o intertexto me denunciará. Sou sujeitada de outro discurso e, plantada em morna terra, onde bate o sol e arqueja o vento, interpreto o dia de hoje e celebro atenta meu humano vislumbramento.








Image by Shyvo

12 abril 2011

desatinada





O papagaio de minha vizinha ainda não morreu. Ele acorda cedo e me assombra com seu modo de falar. Na verdade, acredito que ele esteja treinando para se tornar um pato. Ele, sem dúvida, não é um papagaio comum. Dia desses pensei em olhar por cima do muro e encarar o papagaio. Tentar deixá-lo envergonhado ou mudo de vez. Mas desisti. Por que aperrear a pobre ave? Deixo que ele resmungue. E chove como nunca. O terraço está todo molhado e as plantas nunca estiveram tão aliviadas quanto agora. Passa um homem vendendo cuscuz. Ele tem um apito. Deve ser bom cuscuz no café da manhã. Mas eu não como pela manhã. Encho minha cara de café e planos. Não chego a resolver nada, mas, pelo menos, faço planos. Já é metade da caminhada. Dia desses, enfezada que estava, decidi ir à igreja. Nossa Senhora do Rosário fica a dois quarteirões de casa. Fui caminhando para respirar melhor com meus pensamentos. Eu estava decidida a fazer confissão do tipo que se fazia antigamente. Eu preciso me confessar. Estou abarrotada de coisas para dizer. Eu preciso falar. Chegando ao templo, uma igreja enorme repleta de belas pinturas barrocas no teto e diversas imagens douradas e coloridas em altares, percebi que ainda havia a antiga cabine para se confessar. Será que ainda se usa isso? Minha avó é católica, minha mãe também e eu não sei fazer o ato de genuflexão. Entrei na igreja e fiz o sinal da cruz mais vagabundo que já se viu. Olhei ao redor para ver se alguém tinha visto meu desacato religioso. Mas ninguém me notou. Percebi que algumas pessoas conversavam perto do altar e pedi informação. O padre está? Uma senhora com cara de ranzinza foi logo dizendo que sim, que o padre estava, mas era hora do café da manhã e o padre estava comendo. Tudo bem. Eu espero. Sentei em um grande banco de madeira e esperei. Enquanto esperava fiquei observando as imagens e são todas muito tristes. Por que as imagens não podem sorrir? É isso que afasta os seguidores, entende? É preciso ter mais graça, mais sorriso, mais comédia. Porque a vida anda pesada em excesso. Suspirei sabendo que as imagens sempre serão tristes. E entra o padre. Olá seu padre. O homem, mais ou menos 60 anos, cabelo branco, calça marrom e um par de franciscanas nos pés, toma um susto ao me ver. Cabelo preso no topo da cabeça, calça jeans e uma camisa com os dizeres "Woodstock 4 ever". Me senti patética com aquela camisa. O padre me olhou de cima a baixo, fez um gesto para que eu o esperasse, falou uma ou duas coisas com a senhora que ornamentava o altar e, só então, veio ao meu encontro. Pois não? Bom dia, seu padre. Bom dia. Entrei de sola no assunto. Preciso me confessar. O padre aparentou surpresa. Ninguém mais se confessa, minha filha. A confissão é feita só em datas especiais. Mas venha à missa do domingo. Nós sempre fazemos a confissão comunitária. Mas eu estou cansada de comunhão, seu padre. Eu quero me confessar só para mim mesma, entende? Eu sei que não é hora de confissão. São apenas 8 da manhã, mas sou filha de Deus e preciso de ajuda. O padre, sentindo-se culpado (acredito eu), mandou que eu o esperasse, entrou por uma porta gigante, saiu vestindo sua batina e apontou para o confessionário e me mandou segui-lo. Fiquei feliz por ter um padre só para mim. Ele entrou, fechou a cortina e eu também. Estar, lado a lado com Deus é uma dádiva, pensei. O homem disse algumas falas protocolares e eu não sabia o que dizer. O padre ficou esperando e, finalmente, disse: em que posso lhe ajudar, minha filha? Era cena de filme. Finalmente eu poderia tirar o peso que carrego nas costas. Seu padre, eu não sei se é pecado, mas sinto vontade de mandar todo mundo às favas. Claro que não é bem assim. Eu penso em mandar todo mundo tomar no cu. O padre pigarreou e me pediu para moderar o vocabulário. Afinal de contas, eu estava em uma igreja, na presença de Deus e de seu sacerdote. Modere-se, minha filha. Tudo bem, seu padre. Mas há algo de errado com o que sinto? Você sente essa vontade muitas vezes por dia, minha filha? Sinto, respondi. Agora mesmo estou sentindo. Mas por que tanta raiva, minha filha? Seu padre, acontece que sou ruim. Um amigo me disse que sou o diabo de ruim. Não respeito família, não gosto de trabalhar, penso muito em sexo e tenho medo de amar. E o padre só pigarreava. Percebi que ele estava esperando que eu falasse mais. Falei desatinada. Olha, seu padre, eu me envolvi com um cara que fez isso e mais aquilo. Mas eu também não sou flor que se cheire. Acredita que este homem encaminhou uma mensagem enviada a mim para diversas mulheres, seu padre? Ele encaminhou a mensagem e eu descobri da pior forma possível. Descobri através da internet, seu padre. Ele usou as mesmas palavras com outras mulheres. Estava lá o dito "Abril aberto em tons, nuvens macias ditando a música dos raios e etc e etc". Acompanhe meu raciocínio, seu padre. O cara encaminhou a mensagem que era de amor para várias outras mulheres e me senti estranha como se ele tivesse encaminhado uma carta escrita só para mim que, no fundo, não foi só para mim. Isso é como encaminhar um orgasmo, seu padre. É uma puta sacanagem, entende? O padre pigarreou forte e pediu novamente moderação em meus comentários. Minha filha, modere-se. Tudo bem, seu padre. Estou moderada. Mas não aguento sacanagem. Não sei conviver com isso. Adoro pornografia, foto de gente pelada fazendo coisa, amo beijar na boca e choro muito ao ver pessoas sofrendo. Dou até minha casa para abrigar pessoas que não têm onde morar. Mas não aguento sacanagem, seu padre. Entende? Entendo, minha filha. Você deveria ler mais as escrituras. Conhece as escrituras? Busque salvação. A hora está chegando e virá o juízo. Continuar agindo dessa forma apenas a distancia de Seu Criador. Seu padre, eu rezo. Rezo muito. Mesmo depois do sexo, eu rezo. Rezo e peço perdão por não ter contribuído com instituições de caridade, por ter desligado o telefone quando percebi que era minha mãe, por não conseguir ser gentil o tempo todo, por mentir, por desejar o homem da próxima, por não pagar os 10% do garçom, por aniquilar pessoas mais fracas que eu, por enganar, por comprar quinquilharias que não preciso, por fumar, por querer mandar todo mundo tomar no cu, por querer que todo mundo morra. Eu peço perdão o tempo todo. E ainda peço a Deus que me livre de gente idiota. Eu não suporto viver com gente idiota. E eu admito que já pensei em matar o papagaio da vizinha. Fiz todo o plano. Pensei em dar estricnina para ele comer e babau. E depois pediria perdão a Deus por ter matado o pobre coitado do papagaio que tem dupla personalidade. Ele pensa que é um pato. O padre disse que entendia. Só isso, minha filha? Que eu me lembre, seu padre, por hoje é só isso. O padre pigarreou como se limpasse a garganta para fazer algum discurso. Prendi o fôlego a espera de minha penitência. Aquele minuto durou uma eternidade. Foi então que o padre me mandou pensar mais na vida, ler mais a bíblia e perguntou, em tom de ironia, se eu não sentia vontade de compartilhar minhas questões com outras pessoas. Escreva um blog, minha filha. Assim como você, há muitas almas que sofrem sem motivo algum. Compartilhe sua vida porque o mundo está cheio de pessoas vazias como você. E procure um analista. Há profissionais para o seu caso. Eu não sou psicólogo e igreja não é hospício. Aqui é a morada de Deus. Tenha mais respeito para com Seu Criador. O padre abriu a cortina do confessionário e, antes de me largar ali sozinha a ver imagens, me passou um folheto com o endereço do site da igreja e me pediu para contribuir com causas humanitárias. Você se cadastra no site, entra na sessão Doações e faz sua parte. Aceitamos cartão de crédito. E saiu. Mas será que nem um padre consegue ser humano neste mundo? Nem Deus? Saí da igreja ainda mais entojada do que entrei e, ao chegar em casa, fiz a tal doação, peguei uma escada e escalei o muro para olhar aquela desgraça de papagaio na cara e pagar por minha boca suja de quem vive caindo em tentação.








Image by Vegas Vixen

07 abril 2011

retroativa




Penso em escrever uma carta de amor clichê vagabundo de quinta categoria. Tenho em mãos as tais fotografias que causam raiva, rancor e ciúme só de pensar que o seu sorriso escancarado está agora em outros hemisférios. Para escrever preciso de uma folha de papel, ousadia, ou talvez eu me parta ao meio em covardia para medir forças quando, na verdade, sofro da mesma saudade que sentem as almas mal dormidas no absurdo de um quarto andar. Sei que já deveria ter escrito tempos atrás. Mas é sempre assim. Bateu preguiça, bateu outra cara na minha e passei a tentar viver do que me existia. Tentei fazer minha vida em traço opaco de tinta. É que a gente odeia sofrer. E esta é a perigosa travessia de quem ama. A gente ama tanto que parece sentir outra coisa. Como se amor fosse relíquia ou coisa de se lembrar em dias de chuva ou companhia de se andar quando a solidão fere um pouco mais que de costume. Amor nunca é só amor. Amor é conversa jogada fora, dia de trabalho e uma invenção de fazer curvar-se o outro de vexame que morre de amor. Eu preciso escrever porque você me afeta mais do que posso suportar. Talvez eu use um papel de carta decorado com flores e margens coloridas. Ou talvez escreva em tom de sépia para dar nós de nostalgia. Posso também escrever em guardanapo ou no saco de papel que veio da padaria. Sei que escrevo e certamente não causará efeito meu bote-salva-vidas disfarçado de vocabulário metrificado de medo de dar com a língua na mágoa que sinto por não ter mais você ao meu lado. E, feroz como um carro ultrapassando sinal vermelho, eu escrevo. Mas o impulso me envolve em receio e agora sou pedestre em grande avenida contando pausas para atravessar o tráfego de minha atitude desesperada como quem decide recomeçar a vida após ler auto-ajuda. Quando o medo inunda a fala, que antes estava fluida de coragem, toda palavra pode gastar o que ainda permanece. Ainda? Será erro dizer o que não se deve? Aguardo a primeira palavra e a caneta nada diz que seja verdade. Queria poder dizer tudo que não digo. Não me permito dizer que sofro angústias sempre que vou ao supermercado e me deparo com os produtos que a gente costumava comprar. Era tanto vício, chocolate e sempre um vinho para as horas de mais tarde, depois do jornal. Eu não posso deixar você saber que mendigo por sua presença como um cão esquecido ao relento. E eu me lembro de tudo como se fosse testemunha ocular. Porque, quando a gente vive algo, sei lá, costuma esquecer detalhes. A memória de quem ama é passo em falso. Engana mais que alivia. Eu quero ser simples ao escrever. E não me abuso em metáforas. Prefiro ir direto ao ponto, ao tombo, à moral da história. Mas sinto medo de dizer que calculei riscos quando fizemos planos que me pareciam enganos e eu não sabia se eu queria ilha ou pavimento. Era sempre um gigantesco receio de me perder, ou perder você, ou sei lá o que mais eu faria com você tão perto de minhas vistas. Sempre achei que não conseguiríamos viver juntos mais que 54 dias. Extrapolamos a meta? Você é uma criatura esquisita, um acúmulo malcriado de manias e sempre sorri retardado à minha ironia. Será que nunca me entendeu? Lembro que não havia motivos para brigas e eu os caçava na agonia do silêncio que entre nós se prolongava. Você nunca me obrigou a fazer nada. Nem sexo. Eu queria força, você queria apostilas, eu queria chaminé, você queria ventilador e sem falar que me ardia em ódio quando você olhava outros ares enquanto eu focava alvo único. Eu sempre fingi nada sentir, e, com tanto talento, tanto zelo, que você se aborrecia. Que mal eu te fazia? Você nunca admitiu, eu nunca usei claro discurso, e nunca foram concretos nossos verbos de compartilhar. Eram sempre subjetivas nossas conversas francas de entrelinhas. Sei que você me aguentou doente, fez chá, fez mesa e eu evaporava sempre que você evocava a voz da razão. Nunca fui racional. Eu fugia enquanto você fincava e você se perdia enquanto eu me tornava sensatez. É mesmo complicado aceitar o fato de que sempre fomos ridiculamente opostos e iguais. Éramos tão iguais que não suportávamos pessoas e criamos um mundo só feito de nós dois que sempre acabava em sexo que era amor que era pornográfico. Eu devorava unhas e logo devorava sua nudez em cama de solteiro e acabávamos exaustos, corados e cheios de orgulho. Mas como dizer tudo em palavra escrita se vivemos tão à carne viva? Desisto. Rasgo o papel ainda não escrito e largo tudo para outro dia. Provavelmente você não pensa mais em mim, não pena, não despenca ao telefone querendo ouvir minha voz. Talvez, quem sabe, me reconheça qualquer dia caminhando pelas ruas ou avenidas. Talvez lembre. Talvez tenha se mudado, talvez tenha se casado, talvez siga outra doutrina ou talvez tenha se tornado ativista e nossa causa provavelmente não importa mais. Talvez você tenha morrido e eu perdi a chance de fazer cena em seu funeral. Ou talvez esteja vivendo outro tempo enquanto eu ando a aquecer o passado com lenha dormida na chuva de se arrepender. É mal de quem arde ou de quem se acaba sozinho em fins de domingo? Percebo agora que o passado será sempre infinito até que outra esquina provoque nossas vidas e sejamos apenas imagens em fotografia ou um comentário ameno entre amigos do tipo que se faz a respeito de um livro. E a dúvida pondera as palavras, modera a vontade, silencia o alarde e já é tarde. Talvez eu escreva mesmo uma carta. Ou talvez seja melhor esquecer tudo sem que nada mais seja dito. Pois que já me aflora a pele o gosto e o afeto de outro inimigo.





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05 abril 2011

mimético




"─ A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante."

(Machado de Assis)






A voz quer contar história. Mas cala. Ainda é de café da manhã o dia. Caminham os pés em direção à máquina. De lavar é a hora. De gozar é a tara. De esquecimento é a fera enlatada que sufoca a humana face que enfrenta a linha branca ainda vazia de língua. Atrasa um pouco a história. Mas há pressa. Urgência de falar. Mas não é a voz que conta. São as mãos, os olhos, a fome. São estes os elementos que narram. A voz está muda de medo, sem nome, sem credo e sem lar. Vasculho trágica o dramático estado em que repousam as letras. Meio copo d’água para enganar o berro imoral que sangra por restos. Meto as mãos em meu rosto cansado e a fome lateja o ferimento intacto de ainda não dizer. Já não sei se é arte ou flagelo. Escondo-me do vão de cada mistério que invento. Ou reinvento. Não há novidade. É só vaidade, é só validade, à sova da idade. É tudo parte de livro que li, de gente que passa e do excesso de observação. E fere a anestesia para depois anestesiar. Estou imensamente inchada de autores, de passagens, de críticos e minha prole sobrevive aos cacos ao passo que meus pares são imensamente certeiros. Há regras, há farpas, há bocas em demasia falando em romaria que assim é a arte e nada mais é liberdade. Conversa inútil e do que se faz a vida? Há tempos não sei. Bocejo languidamente e não recordo se acordo ou se amorteço quando abro os olhos. Chove e, antes que se exponha a chuva ao meu olhar em demonstração, antes que os homens amanheçam certos em suas marchas, não admito que me despertem as pálpebras ao calor do dia que ainda nasce. É preciso, antes de seguir vivendo em aritmética rima, encontrar um lugar em que nada mais aconteça. Um lugar silencioso onde somente eu me veja, me contemple ou me assombre. É preciso encontrar este lugar dentro de mim onde eu seja somente quem verdadeiramente sou e que se destaque, sem cálculos adestrados, minha prima essência. É preciso ser simples. Cavalgo entre as mudanças temáticas do produzir absoluto. Há várias cores, no entanto, há limitações. Chove ainda e já me desperta de meu sono consciente o pássaro que não dorme, o despertador de timbre áspero, as palpitações que emitem o coração. É preciso mais tranquilidade para que se viva por completo a loucura da cidade repleta de incertezas e crueldades. Hoje é moda a morte, a fadiga intensa, o tom cosmopolita dos metrôs, o mau humor das senhoras que se preparam robóticas ao lampejo de suas obrigações e o sexo sem preliminares é tão veloz quanto o raio que o parta nossos dias santos. Há mais necessidade de artigos e gêneros e tudo despenca específico para que seja cada ponto compreendido. Porém, há várias cores e nos devastam as limitações. Eu tento me enquadrar aos círculos dos influentes que absorvem da arte apenas o que é superfície. Tão triste ver um cisne caducando de velhice. É preciso encontrar um lugar que neutralize efeitos e que nada mais seja dito além do que é sentido. Um estado natural que se erga de mim ao soluçar do silêncio das origens como se nada ainda transpirasse criação. Como se nada estivesse por vir à tona. Um lugar onde homem não fosse nada mais que homem, nada mais que ser, nada mais que um e tantos. Um lugar remoto onde nada mais possa influenciar o diverso encontro entre o tema e a voz que o intensifica a cada desvio de pensamento. Sento-me à mesa e, desiludida, eu escrevo. O mundo é todo torto, todo errado e há gente demais para pouco espaço. E não há bicho mais medonho do que este disfarce ao qual me retrato quando sou tantos e nunca sou eu o que sou de fato.






Image by pesare

02 abril 2011

pornográfica





"Talvez tivesse desejado confiar todas aquelas coisas a alguém. Mas como contar um mal-estar inacessível, que muda de aspecto como as nuvens, que redemoinha como o vento? Faltavam-lhe as palavras, a ocasião e a ousadia."

(Flaubert, in Madame Bovary)






Estou lúcida, limiar, plebeia de refinados modos e recito ao falo que me preserva à sede intacta ainda que me fuja o desejo esganiçado por amor. Preciso conversar a respeito de qualquer assunto que não seja o superficial objeto que gira estrangulado na boca dos comuns. Preciso respirar outro ar que não seja o ar das ruas trafegadas por pés que sobem e descem escadas ou morrem atropelados pelas horas destinadas a nos matar. Preciso me comunicar de forma instantânea, mas que o instante perdure por mais de uma semana, visto que eu preciso sobreviver a mim. Estou sufocada pelo falso calor humano despejado em minha caixa de e-mails. Preciso de uma bebida forte que não aquela do bar de ontem que me fez tombar aquática e nua na imperfeição de um corpo masculino que não me atingiu de orgasmos e sequer chegou perto de me penetrar de abuso, se fosse estupro, ah, se fosse paixão. Preciso me politizar e saber mais a respeito das mortes que parecem não existir enquanto arqueja seu pequeno esqueleto o grilo que botei de castigo dentro de minha cabeça desde que nasci. Preciso de emergência, de urgências, de pressa nas coisas mais calmas e, por favor, não me atraque o navio de minhas dúvidas com citações retiradas de livros que eu já li. Farte-me em nova atitude que nada seja semelhante a minha, tão século vinte, tão antepassado algum. Farte-me de senhoras palavras que, ora dizem tudo, ora escondem-se subjetivas de tão tímidas que estão. Eu ando sempre equilibrada em bandos e sofro de pavor de ir à cozinha porque há ratos até mesmo nas casas mais limpas. Farte-me o umbigo de meu rei que move a cabeça negativamente sempre que dizem amém os crentes fajutos vestidos de cetim em porta de templos. Farte-me de decência para que eu possa trabalhar e entender que é preciso que eu continue porque, sem mim, o mundo estanca e convença-me disto, pois, do contrário, serei a mais puta das viventes e serei decadente em clara fisionomia caminhando por este mundo sem nome próprio, sem reservas e sem proteção que não seja a borracha que rompe o que já fora rasgado desde os primeiros anos que me vivenciei. Seja meu ouvinte ou hóspede leitor ou amante e venha à minha cama e faça-me de quatro o que por anos pratiquei de forma romântica escondendo gritos em furos de lençóis. Faça-me pornográfica já que não posso sibilar ingenuidade, pois minha alma não fora castrada ao tempo certo e hoje desejo incendiar cidades inteiras em busca de alguém que não seja o fraco que abandona a febre para unir-se à mulher que pensa em flores e veste adequadamente sua vida raquítica de sensações. Que morra o homem que não ouviu o estampido de meus gritos e partia minha vida em centenas de necessidades que agora me enfartam extraordinária fêmea cheia de contemplações. Farte-me a vida, a ida e a sorte de minhas rainhas invertidas e despreocupadas amaldiçoando leituras de tarô. Faça algo estúpido ou escandalosamente sujo ou impróprio ou pecaminoso que já não posso viver com esse gosto humano de quem goza dias vivendo uma vida que não se sabe regida ou se entregue às perseguições. Farte-me até os talos de minha seiva que desejo o contrário do clássico rubor das meninas que desistem da guerra, casam-se e tornam-se estéreis de qualquer vontade e, abobalhadas, fazem compras ou classificam seus filhos de acordo com a família que as degenerou. Não me faça humana. Construa-me monstruosa, Afrodite Escatológica, e me faça amar de grosso afeto qualquer mísero inseto que sobrevoe minhas marcas de um futuro que está por tempos incerto. Faça-me sangrar e devora-me em dor ou então abandone-me aos vícios para que eu me transforme em qualquer outra espécie que arca mentiras, defende hipocrisias e chora silenciosa encalacrada de rancor.








Image by mattresses

01 abril 2011

mísero eloquente







Não sou fidalgo. Sou de outro algo. Talvez um alaúde, talvez ostentação. Plangente palhaço sem riso, sem brilho e remota cidade sem civilização. Perco o passo a saltar entre as vielas de curioso que trago entre tantas cenas o meu olhar inquisidor. O mundo não me cala e as senhoras de enormes olhares não me amedrontam. Eu as afasto com meu nobre erotismo porque de meu caminho arranco todas as culpas e fardo algum trago comigo. E todos verbalizam suas soluções como se fora eu um fantoche posto para recriação. Renego todos que me tocam porque crio minhas curas, minhas denúncias e medo só existe se houver outro ser ao meu lado porque me divirto estando só. Pescador de rede tamanha de todos os peixes e, de todos os mares, sou herói. E Helena me traiu burra menina. E de quimeras é feita a vida assim como o pedestal de onde ergo minha fonte em todo o horizonte e minhas ilhas são vistas a olho nu. Engraçado é esse traço de invenção que me fora dado. Embora fantoche me denominem as vozes humanas, liberta está minha primeira condição. Viver de cara livre e ser alegre ao modo de ser triste escrevendo lábaros livros e fazer crescente minha criação. Sem mim não há mundo e carrego entre as palavras a prova de meu talento que é único, singular e adjetivo. Vadios são os outros. Eu sou é escritor de livros e recrio o que do lixo se esvai. Na verdade, invento misérias para alegrar a triste sorte dos ingênuos e a vergonhosa malícia dos mortais. Não sou fidalgo. É fato. Sou trapo rasgado e remendado arfando vento a caçar buracos e de alma despudorada prometo causar desgraça aos que muito falam e da vida sabem nada.









Image by luisa m. kelle