31 maio 2011

contrabandeados





Hormonais


Solange começou cedo a viver seus vícios. Ainda menina já treinava maternidade cuidando de suas sobrinhas. Um pouco mais adiante, Solange adquiriu sabedoria para entender o funcionamento de seu corpo e, intensa, Solange atendia rapazes em romaria para lhe comerem o ventre famintos em hormônios. E o tempo alongou-se e Solange descobriu licores, rumores e arrependimentos. Casou-se cedo com o filho do dono da loja de autopeças. Solange descobriu a cozinha e carregava sempre a grande barriga de acumular crianças. Seus filhos cresceram ao choro de Solange e ao silêncio de seu marido que, por ironia do destino, descobriu que também poderia romper outras meninas que, tal feito Solange, sonhavam com a liberdade de suas meninices. Solange hoje é viúva, tem netos batizados, reside à Rua Rodrigues de Aquino e, hora ou outra, ainda sente o gosto de licor entre seus lábios.





Ao vigor da lei


Dizem que o homem era muito generoso. Assim como todos os homens generosos são. E era muito organizado, sentia prazer ao estar limpo, sincronizado, sempre em tempo mediante suas obrigações. Sua mulher o servia, sua família o amava, tudo mais era glória em seu destino e nunca o generoso havia sofrido. Sempre impecável em seus trajes, viveu, trabalhou, ajudou parentes, comemorou seus planos benditos, pagou dívidas de amigos, e, no dia de seu enterro, algo saiu de trilho. Generoso fora enterrado com seu terno amassado, descalço e sozinho.





Urbanismos


A cidade cresceu e tomou formas de gente grande. Carnuda e arrogante com seus gigantes prédios fenomenais. Carros nas ruas, pessoas nas calçadas, menino fazendo trapézio ao estampido de balas, mulheres fazem as unhas, homens leem jornais, casais retratam figuras, outros vendem enxovais, e, no meio de tudo, do ruído de todo infernal, há sempre alguém que sonha ser feliz, timidamente, ao abrir e fechar do sinal.






Image by Aaron Jasinski

30 maio 2011

tântricos





Tomando distância para um salto maior. Mancando assim ninguém consegue sair do lugar. O orgulho impede o fluxo do beijo. E todos querem amar. Mas ninguém quer sair para comprar pão. E reclamamos quando chove e quando faz sol. Não há meio termo. É um desequilíbrio permanente. O cachorro sujou novamente o assoalho e isto é verdadeiro. Cogito demais quando leio e sinto fome de algo que não posso comer. Por que se interroga tanto? Há simplicidade em todas as coisas. Você é irritante em suas decisões pré-datadas e suas verdades simplórias. Tantos planos organizados e seus calendários me trazem a sensação de que tudo está em dia. Você nunca permite que o drama sustente minhas tragédias. E decide ir ao médico ou fazer coisas palpáveis. Tudo em seu indevido lugar. Você diz que precisa sair. Brusca eu me despeço. Mas, antes de ir, por favor, limpe o assoalho. Estou muito compenetrada lendo o jornal. Não me perturbe. Comprarei uma enorme placa e deixarei sempre ao meu lado: homens trabalhando. Só assim, talvez, você não me venha com suas roupas semi-abertas e suas vontades fora de hora. Há hora para ter vontade? Decerto que não. Mas não faça de mim aquela que sempre agrada. Digo isso ao perceber que dois sapos marcham nupciais, lado a lado, em busca da poça d’água. Parou de chover e tantos sofrem. Pense mais alto e logo nada mais perturbará. Você quer que eu pense alto ou demonstre meus pensamentos com alguns gestos ensaiados? É preciso esquecer um pouco de nós mesmos. Pense nos direitos dos outros, nos velhos, nos homossexuais, nos usuários de drogas ilícitas. Pense nas criancinhas. Você é sorrateiro em golpes baixos. Sempre consegue me fazer sentir um pouco de compaixão. Você se distancia com seu caminhar de gato manso e busca, incessantemente, salvar Sodoma do desespero. Comprei algo para você. Retorna com as mãos abertas e me oferece um livro de grande calibre. Você disse que gostava desta autora. Digo que sim. E você retribui minha assertiva com seu otimismo de quem acredita em feriados. Poderíamos viajar. O que acha de pegarmos de novo a estrada e irmos àquela praia? Poderíamos ficar no mesmo hotel. Você disse que havia gostado. Deixo que o ar escape de minha boca antes que eu seja tola demais para ser exata. Eu disse que havia gostado e isso não quer dizer que farei reprise. Há diferenças. Eu gosto das coisas de forma instantânea. Meu gostar é Polaroid. E, da mesma forma que gosto e aprecio, eu esqueço. Você ri de mim e diz que sou mentirosa e tento me enganar. Você diz que me privo de pensamentos comuns por ter medo de enfrentar o fato de ser tão simples quanto um caracol escondido em arbustos. Gosta de dizer que sempre me observa dormir e ainda enfatiza que meu sono é tranquilo como o sono dos felizes. Você me faz enfrentar a pior das sensações. Você diz que sou aquela que quer amar, que sempre troca a roupa de cama, que sente inveja de outros que caminham mais rápido e ainda se alegra ao dizer que minha carapuça apenas inflama um tanto mais meu ato de defesa. Te olho nos olhos porque é hora de uma verdade. Após desvendado o segredo, não há mais nada a fazer. Se você me desnuda arrancando de mim meus defeitos, chegamos ao fim. Eu não quero me enxergar. Nada quero saber de mim. Por isso me esquivo. Por isso falo tanto em realidades. Faço tudo isso para evitar que você me diga coisas que já sei. É por isso que permito que você esteja ao meu lado. Eu me escondo em você e em suas trivialidades. Faço de você o paradoxo do que não preciso ser. Porque somos iguais, entende? E me avaliar com tanta eficácia é o seu ato de vitória. Entenda sempre o quanto me é necessária a fuga. Você sorri, me beija o rosto e sai. Diz que eu deveria sorrir mais, que meu sorriso é bonito e que tenho tudo nas mãos. E eu acabo sorrindo sem que você perceba. Você é como uma criança que conserta brinquedos e me cria perfeita. Ouço o motor do carro, imagino seu olhar de fortaleza pensando em mim enquanto planeja o dia. Você irá comprar pão e tudo mais que preenche a vida. Cheia de contradições, permito que meu sorriso me ironize. Você é sensato e belo demais. Eu poderia fazer surpresa, um jantar à luz de velas, fazer sala e dizer que te amo até o fim. Mas não posso decepcioná-lo. Você me ama exatamente porque não trago sossego. São minhas falhas que o fazem existir. É a minha fome excessiva e minha indiferença que faz com que você permaneça forte. Você me ama porque sou pequena, arrogante e brutalmente indefesa. E você gosta de ter o controle. Adora me ver errada ou caminhando pela casa como quem não tem direção. Eu realizo suas vontades. Se eu te dissesse que sou simples, que organizo suas roupas, que marco teu passo acaso você esqueça algo, acredite, não estaríamos juntos. Vivemos de medir forças e ainda estou sorrindo ao imaginar você escolhendo frutas no supermercado. É sempre zero dividido por dois. Ou maçã partida à metade. E hoje não choverá como ontem, nem anteontem, nem dia algum.





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27 maio 2011

rosário dos delírios





As mãos repousam no colo de meu corpo que não se move. É tarde e o tempo verbaliza o sossego de todas as coisas vivas. O mundo, em aparente estado de luto, adormece indisponível. Cama imensa de me recolher os seios, o ventre, meus desejos e em breve recolherá minha voz. Meus olhos, rosário dos delírios, em retiro, recordam indiferenças. É preciso orar. Antes de qualquer outra fuga, antes que as horas se adiantem absurdas em diárias leituras de horóscopo, antes das obrigações que rompem os dias em surtos despertos de angústia, é preciso orar. Meu réquiem diante vida. Pois todas as noites de estrelas escurecidas eu parto distraída, subtraída dos cenários, anônima anoitecida, casta em substantiva túnica adversa aos sentidos. A modernidade, espetacular em suas desmemórias, anuncia em graves tons de comando que não há vagas para o furtivo lamentar de minha dor humana. Não pode haver dor quando tudo mais é disperso, loquaz, atributos de liquidação. Há planos de viagens, remédios diversos e geométricos sorrisos forçando revoltas em marés. Tudo no mundo é máquina. Sentimentos como este, que cessa água de enamorar gargantas, não é digno de ser dito. É infortúnio e maldição de cume lírico. Em suplicantes centelhas de lágrimas concluo, perante os modernos que vagueiam curiosos por seus futuros, que ainda semeia campos em pés descalços a camponesa que sou. Sofro, em belo cântico solitária, a perda de meu ar romântico. E o corpo se aninha ao frio a contragosto. Deito-me coagulada de lembranças em minhas sequiosas tramas de uma saudade morta e lacrada aos lábios de um tempo anterior. Meu cais partiu contrário aos navios e sou intrusa em casas, em olhares, em palavras e silencio ao desamor. Unidas minhas mãos religiosas clamam por misericórdia e rogo, missionária infame, que o presente me distraia e que de mim nada faça relembrar aquele cuja vaidade se alimenta de meu suplício. Se há o deus e, se este me ouve, suplico que me liberte desta licorosa vergonha de amar abandonada aquele cujo riso zomba de meu temor. Cura de mim a fome não saciada de imagens embaçadas de um passado nascido e malogrado ao ressoar das paixões. Que o deus me ajude, rogo definitiva. Livra-me do sofrimento desapontado, pois que tudo mais é graça e não há vagas para o meu querer demasiado passional de toda arte. Amiúde, mendigo ao deus em sigilo, meu rosto noturno coagido, e peço que esta dor se esvaia pelos caibros e telhados e pelas perversas flores que me lembram efêmeras que o tempo é veloz e tudo mais será esquecimento. Unidas mãos em piedosa sangria, rogo ao deus que eu consiga banir de meus dias as memórias de meu belo e deleitoso discípulo que tanto acariciava minha face com sua fina plumagem em tantas noites já vividas. Que eu o esqueça e que apodreçam suas penas ao desgosto onde nada mais é nascido e tudo mais é morto e violentamente esquecido.







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25 maio 2011

menarca






Era sexta. Duas em ponto. Antes alarde do que muda. Saio para procurar emprego. Com pasta e currículo em mãos, sinto-me emblemática O anúncio mencionava currículo? Não importa. É sempre bom exibir nosso pedigree. Mas, que fique bem claro: para conseguir seu emprego, vista-se de acordo. Mas de acordo com o quê? Se eu for me levar pelo calor, saio pelada. Ou então, visto mini roupa que diz tudo e enche as caras de preconceito ou tesão. Enfim, preferi me vestir como de costume: Neutra feito guarda-chuva de carola. Quase sem cor. Maquiagem nenhuma. Otimismo saltando por toda parte. Minha única preocupação era o tal currículo. Não dormi desde que li o anúncio. Passei a manhã inteira imprimindo isto: 154 páginas de experiência. Acredito que a vaga será minha. Com este histórico não há como eu não ser escolhida. Negrito nas partes mais importantes. Enfatizo tudo em negrito. E segue o tempo ao meu destino. Prédio alto, homens trabalhando na esquina e gente comendo milho cozido em enormes panelas cheias de água impura. Ninguém mais se respeita. Água suja causa doença. Diversas. A vaga de emprego é algo ligado a telemarketing. Para impressionar, fiz exercícios de voz. Agudo, meio tom, respira pelo diafragma e vai: o mundo é seu. Chego ao escritório. Um homem de meia idade me atende: Pois não? Digo a que vim. Mostro o jornal. Sem pedir licença (não tenho paciência para sala de espera) sentei-me frente ao homem que me olhava indiferente. Apenas erguia uma de suas sobrancelhas como se estivesse em dúvida. Eu também tenho dúvidas, pensei. Será que chove hoje? Devo acreditar em tudo que vejo pela TV? E são realmente certeiros aqueles testes de gravidez vendidos em farmácia? Soube de uma amiga que fez o teste e o resultado foi positivo e ela passou dois meses comprando roupas de bebê e não era bem isso. A sirene não soou. Senti pena porque ela queria tanto um filho. Eu ainda aconselhei que ela buscasse um advogado e processasse o laboratório. Mas ela já havia perdido o ânimo e, querendo ou não, quase todo esforço só nos leva ao cansaço. Ela desistiu de ter um filho e eu não dou mais conselhos. Este é o meu currículo. Entrego minha vida nas mãos de um desconhecido. Nasci em fevereiro, parei de chupar chupeta aos 7, estudei em escola de freiras e aprendi a andar de bicicleta aos 9. Tanto tombo. Quase quebrei a cara aos 10. Primeira visita ao ginecologista foi aos 11. Foi terrível. Minha mãe me acompanhou. Ginecologistas são sempre tão frios. Ainda lembro o semblante do médico: é um cisto. Não me importei. Cisto e cisco ― tudo some com o tempo. E cursei inglês em beijo de língua. Esta parte toda em negrito. Algo de rubor invadiu o rosto do senhor que nada falava. E eu fui ditando. Fase fálica, menarca, namoro no portão, viagem às Cataratas, curso de primeiros socorros, vontade louca de ser aeromoça, festas de aniversário, fase imbecil de achar que o mundo era minha redoma, porres em tempos de escola, visitas de família e, aos 15, perda da auto-estima. Aos 17, primeiro emprego: secretária em escritório de engenharia. Fui demitida porque faltei três dias seguidos. Tem esse detalhe: eu falto. Bate uma revolta e eu não apareço. Que fique claro. Somos humanos e temos falhas e precisamos de folga. Saiba o senhor que eu falto. Hora ou outra, não dou as caras. Mas, quando venho, trabalho o dia inteiro. E sem pausa para refeição. Cito mais currículo. 18 anos, universidade. Aos 20 nada de importante me aconteceu. A vida parou nesse tempo. Há momentos de recolhimento e até os acontecimentos se esquecem de nós. Concorda? O homem nada falou. Julguei que, pelo silêncio, estava certo meu novo emprego. Pois, quem cala, consente. O silêncio é a maior prova de que a verdade floresce aos borbotões. Continuo leitura exaustiva de minhas qualificações: Aos 22 tentei o cristianismo, depois budismo, depois escapismo, e veio, então, ioga, um amor ou dois, curso de acupuntura, dança de salão e equitação. Veja que grifei, à esferográfica, minha fértil imaginação. Sou dada a momentos de dispersão e anômalos pensamentos rimados e intrusivos. E faço questão de deixar isso por escrito. Eu me defendo como posso. Enquanto falo mais a respeito de meus conhecimentos gerais, o homem olha seu relógio. O tempo é finito e corre mais veloz que lixo em córrego durante as cheias. O homem levanta de sua cadeira e, obviamente, a vaga já havia sido preenchida por outra pessoa. Sinto-me tão resignada quanto o pipoqueiro que chega após encerramento de quermesse. Então percebo que é um aviso. Chegar por último me fez rever minha vida inteira. E eu, que não sabia de mim, agora me conheço. Atravesso a rua certa de que fiz o que pude e ainda celebro mais um ensinamento. Algo mais para preencher meu currículo imenso. E a vida transita mesmo em face do sinal vermelho.






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21 maio 2011

modernistas




Mariana vai ao shopping. Um ratinho vasculhando restos na bagaceira após feira pública. Ela olha as vitrines coloridas, confere a maquiagem, dilata as pupilas porque é tanta coisa bonita pela frente. Um mundo inteiro de valores e satisfação. Entra em uma loja, entra em outra, continua entrando e saindo (até quando ela ainda fará isso?) e, pertinho da escada rolante, um encontro. Olá. Tudo bem? Espera. Volta. Amigo de velhos tempos com gosto de chiclete ping pong dois sabores. Por que todo mundo responde tudo bem quando se pergunta tudo bem? Já reparou que é assim? São sempre duas perguntas. Eu olhei pra você e perguntei se estava tudo bem. Aí você respondeu me interrogando se está tudo bem comigo. Por que é assim, hein? Mariana, cabeça bagunçada, faz de um dia de nada, sua plena correlação entre fatos e justa causa. Após ricochetear seu olhar em busca de uma resposta, o amigo, com a boca cheia de gírias antigas, convida a menina para um evento inestimável: ― Que tal nós dois, cinema, sessão soirée? Mariana aceita o convite. Mas vai logo dizendo que paga sua própria entrada. Ando por conta própria. Modernizada. Resposta boa é exatamente aquela que não tem nada a ver. Os dois caminham entre os consumidores. Cada qual com sua sacola de bugigangas, de tédio, de mesmice. Os passantes. E segue uma conversa do tipo tira roupa que eu te explico. O cara é bonito. Sabe que você não mudou nadinha. Mariana se retrai. Como assim? Tanto tempo atrás? Mudei sim. Agora eu funciono. Antes eu apenas tencionava. E um putz grila salta do trampolim. Você cresceu, menina. Está mais condimentada. Do que ele está falando? Será daquilo? Guichê, deixa que eu pago pra você, Mariana aceita a gentileza (não custa nada ceder) e sorri. Cavalheirismo não rima com comício. É caretice braba viver assim. E entram no cinema, bacanas, Mariana e o cara, e a grande tela exibe trailler e já está escurinho. Só falta o drops de anis. Você reparou como a Rita Lee inchou? O cara diz que não. Sentam-se. Pipocam-se. Entreolham-se. E começa o filme. Paramount Pictures presents. O som tá alto, não? O quê? O som. Ela sorri de novo. Mariana fica romântica quando entra em cartaz. O som. O cara confirma que não consegue ouvir. Pipocas e mais pipocas, o filme vai passando. Já imaginou se ainda existisse pausa para ir ao banheiro ou fumar cigarro? Já. Maior corta barato. Mariana se assanha com o linguajar do cara. Não é possível que ele ainda fale como se falava antigamente. Deve ser do tipo que faz aquilo e depois puxa um baseado. Tão antigo. E o tempo passa e o cara deixa pousar seu braço nos ombros da menina. Que é isso? Que coisa mais Anos Dourados. Tão Grease. O cara se rebela. Agora ele invade o limite de espaço e um beijo sonoro atrapalha a plateia. Mariana queima de vontade. Filme chato, não? É. Na sua casa ou na minha? Mariana se agita e diz logo que prefere que seja na casa dela. Moro sozinha, pago minhas próprias contas e considero casamento um mero artifício para nos colocar em categorias de comuns indivíduos. O cara não entende patavinas. Seguem de ônibus, belos coletivos, roçando perna com perna e Mariana comanda o ritual fêmea engole macho estatuto universal. Chegamos. Despem-se. Olham-se. Tudo de igual pra igual. Feminista ardente, Mariana serve o vinho. Na garrafa. Os dois bebem da mesma fonte. Cazuza ao som, amor tranquilo, fruta mordida e, na hora do pagar ver, Mariana enlouquece de bunda pra cima, bovina, doando-se ao seu pastor.






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18 maio 2011

drama à inglesa





Logo eles irão passar. Em seus carros cheios de adjetivos, irão falar de suas viagens e finanças. Quanto você ganha? Minha voz não acontece à revelia. À noite, talvez, ela aconteça. Sensata feito dama inglesa, eu falarei. Mas não agora. Iolanda canta enquanto cozinha. Ela gosta de Roberto Carlos e eu gosto de ouvir. Meu corpo contra a cama e um travesseiro entre as pernas. Deitada que nem criança, choro em canção de ninar. A maturidade ainda não aconteceu. Me sinto tão rebelde quanto um elefante cruzando a estrada. Os cartazes dizem para não sofrer. O noticiário diz que há inflação na Europa. Alguém toma banho e não percebe meus soluços. Melhor assim. Explicações nem sempre funcionam. E não somos tão mecânicos a ponto de acreditar que tudo que é dito é verdadeiro. Estou chorando porque falar cansa. Chorar é contar segredos. Eu guardo segredos de muitos anos e os protejo como quem protege as senhas de um cofre. Há um filete de luz de um sol insolente, curioso, prepotente este sol que invade o quarto. Iolanda vem e traz o chá. Digo que não estou doente. Ela insiste e diz que é preciso. Há vida lá fora e você aqui dentro trancada. Levanta. Iolanda abre a janela e o sol se debruça dentro do quarto. A luz é intensa e eu bebo o chá feito por Iolanda que, há poucos minutos, cantava. Iolanda me faz rir. Pergunta se quero conversar. Digo que não. Com a cabeça. Não estou tão mal assim, Iolanda. Conversar aumenta a penalidade de qualquer crime e tudo que digo pode ser usado contra mim. Iolanda sorri e diz que não sei nada da vida. Não sei da vida porque tudo que vivi foi de regra dosado. E, quando me veio o completo sopro de um amor inadiável, eu fali. Meu cofre arrebentou no estrondo. Perdi todos os segredos. Ou quase todos. Digo a Iolanda que é preciso nomear tudo senão a gente se perde no emaranhado das coisas. Tudo precisa de um nome, Iolanda. Tudo que existe precisa existir de forma que haja um nome. O som entre o tijolo e a queda tem um nome. O café fumegante na xícara também tem nome. Mostro a Iolanda um pequeno parafuso perdido entre o armário e a cômoda. Aquele espaço entre o parafuso e os móveis, ele tem um nome. Até o que eu sinto tem nome. Iolanda espera resposta. Sorrindo eu digo que este é meu último segredo. O que eu sinto só eu consigo entender. Só eu preciso saber do segredo que permanece forasteiro entre o passado e outro tempo que de meu calendário se perde. E agora a veste é curta e o relógio tem ponteiros. Antes eu me sentia como se fosse uma roupa apertada que em ninguém caberia. Um cordão de aço. Um nó. Um ponto final sem linha. Agora estou sabida. Porque o trem já é partido e, de mãos vazias, outro dia chega e refaz toda e qualquer vida. O fim, porém, é irremediável.








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16 maio 2011

cotidiana




Namorado mega-caprichado para dar uma volta. Malu arrumou um homem e está feliz que nem pinto no lixo. O namorado tem bigode, dois olhos lindos e o cabelo é lisinho feito cabelo de índio. Mas ele não é índio. Malu sabe disso. Ela diz que o namorado é brasileiro. O homem chega na hora marcada e no ponto para o abate. Lindo e cheiroso, de boca carnuda, tênis olímpicus e calça caqui. Malu não comenta a cor da calça. O que importa é o conteúdo. Diz ao namorado para esperar que ela precisa buscar sua bolsa. Faz carinho malicioso no rapaz. Malu entra no quarto e liga pras amigas: Ele chegou. Avisa às outras. Vou sair agora. Olha pela janela. Ele está de calça caqui. Cabelo lisinho. Após avisar ao bando Malu sai de mãos dadas com a amostra de sua vitória. Homem é pra quem phode. As amigas todas correm pras janelas de suas casas e olham invejosas Malu exibida sorrindo de boca escancarada. Suspiram as mulheres, Malu se incha toda, o namorado abre a porta do carro e os dois saem e somem no horizonte. As amigas desejam a mesma sorte na vida. Cena de filme romântico ou explícito caso de polícia? Depois deste dia Malu nunca mais fora vista. E, do namorado, ninguém sabe a pista.




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15 maio 2011

futuro do pretérito





― Padre, me perdoa porque pequei.

― Sozinha ou acompanhada, minha filha?

― Acho que foi em grupo, padre.

Frei Hermano sorriu e me passou uma lista contendo minha penitência. Peguei a lista, enfiei no bolso da calça e deixei a igreja sem bigorna alguma nos ombros. Decidi caminhar e pensar a respeito de minha decisão. Não poderia deixar passar de novo minha oportunidade. Eu precisava falar com ela, expor minha insatisfação. Não é sempre que acordo decidida a mudar a mobília. E fui caminhando pelas ruas. Olhava o céu e olhava também o meu reflexo nas janelas dos carros estacionados ao longo da avenida. Chegaria rápido em casa. Não apertei o passo. Eu queria vivenciar aquele momento: rua, carro, pavimento. Meninos jogavam bola em um terreno ao lado da padaria. Não havia mendigos. Mulheres guiavam seus antigos carrinhos de feira entulhados de frutas e verduras e um casal beijava romântico beirando o sexo perto do sinal. Que alegria. Volta e meia uma pedra surgia no caminho. Decidi pular as pedras. Se há algo na terra que me permito é não ter de enfrentar obstáculos. E também não aceito compromisso. Quero somente o dia servido em fatias. Mas quando chega a hora de fazer algo, é preciso que seja feito. E eu faria.

Futuro meu pretérito na ponta da língua.

Parece que pensar a respeito do problema me fez andar mais rápido e chegar antes do previsto. Fiquei feliz. Admito. Giro a chave na fechadura da porta principal, entro em casa, entorno água pela garganta. Estou ansiosa que faz pena. Mas é preciso. Fito-me ao espelho.

Pálida feito Jocasta ― Santa feito Jordão.

O coração parece querer saltar pela boca. Sinto vontade de fazer xixi. Agora não, violão. Contenho o fluxo. Chego ao jardim de casa permitida a falar. Ensaio duas ou três palavras. Básica para não assustar. Me aproximo do muro que divide nossas casas e ela, em sua cadeira de plástico, frigindo pensamentos, sopra as unhas para o esmalte secar. Em seu colo, uma revista que exibe fotos de homens sem trajes sumários. Que tipo de pessoa lê estas revistas? Espanto minhas questões preconceituosas para me focar somente em meu objetivo. Segundo ensaio para travar comunicação. Ciranda – cirandinha. Encontro cara a cara o objeto de meu conflito. Ela está vestida de forma esquisita: pantalonas e uma boina enfeitando a cabeça. Eu nunca havia reparado em sua forma de vestir. Minha cegueira me delata e meus crimes são todos primários. Ela percebe minha presença. Eu me encolho feito caramujo. Ela levanta de sua cadeira. Eu já não sei o motivo de estar ali, parada, patética, peremptória congelada por tão miudo objetivo. Decido enfrentar o fato que segue. Uma vez escolhendo a guerra o soldado não deve recuar. Ela se debruça por cima do muro. Nos olhamos. Já é hora, penso armada. E é então que dou com os burros n’água. A mulher abre sua boca enlatada de boa convivência, diz que sempre sentiu vontade de conhecer meu jardim e elogia minhas flores de forma que me sinto comum feito um rádio de pilha. E ela se desmancha a falar de sua vida, de seus dias, fala a respeito do vigia da rua, das últimas fofocas entre os moradores e era exatamente isto que eu buscava evitar. Não queria amizade ou troca de conhecimentos gerais. Eu a buscava somente para dizer da infiltração de sua cozinha que já se espalhava pela parede de minha área de serviço. Era tudo muito simples. Sem rodeios eu alcançaria o alvo. Talvez ela cuidasse de consertar a infiltração e logo estaríamos novamente distantes sem a obrigação de todo dia cozinhar ovos de futilidades. E, enquanto fala a vizinha, enfio a mão no bolso da calça, pego a lista de penitência dada por Frei Hermano e penso, em alto e bom som, que todas as minhas dívidas estão quitadas. Ao ouvir aquela mulher ouriçada por suas ocupações mundanas percebo que não cometo pecado algum. E a tarde durou o dia inteiro de conversa a respeito do que não creio e de um mundo do qual me esquivo para que não haja atrito entre o que não sou e o que por direito me permito.





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08 maio 2011

homérico






Ora isto que preciso mudar de vida. Mariposa que era triste, agora muda e, insistente, se apavora ao ver os caminhões. Tombadilhos dessa vida e há mudanças inesperadas. Onde mora a mulher exata? Aquela que xinga em pensamento, usa anágua e, recalcada, sabe seu lugar? Mulher assim não existe. Vê a imensidão. Isto que se sente ao deslizar da noite e durante filme reprisado? Cruza as mãos e reza. Pede pela moeda, pelas roupas do rei e aproveita um tiquinho de tempo e pede por mim também. Ando baqueado, me sinto enjaulado e falo alto que é pra todo mundo ouvir. Mas tenho é medo. O Freitas disse que medo é coisa de repressão. Sou auto-repressivo então e, garanto, não valho mais que outro. Não valho mais que a mentira enxuta dos velhos jogando xadrez. E foi nesse dia que acordei tentando mudar meu destino. Água e terno, beijei minha cara no espelho e rezei mais que obreira e pagador de promessa. Lembrei do filme. Ator bronzeado, com cara de sofrimento, cruz no lombo e lá se foi. Fez sucesso, mas não me fez exaltar. Preferi o livro. É sempre assim. Queremos o edifício e não isto. Isto é coisa de todo dia e é fácil que nem morar em casa com vista pro mar. Saí por aí a ir e insistir. Algo que faço questão é manter minha insistência. O mundo não é nada contra mim já que sou todo mundo e ainda trago mudo no peito e na boca a voz de toda a família do país. Café sem açúcar no botequim, mais passos, calçadas e chove. Molha o terno a chuva e vou. Isto é que é acreditar em vão. Vou feito louco cantando música de cantor americano e, por volta do corpo, roupa nova com marca falsa de grife francesa. Isto sou eu, sem bigode na cara e alma lavada olhando o turbilhão de mentirosos passando num trem. Ainda ontem recebi visita. Freitas e família foram pregar lá em casa. Disse o Freitas que o diabo andava por lá, me rondando. Disse eu que o diabo tinha mais o que fazer. Eu ri. A mulher do Freitas franziu a testa e tapou os ouvidos da filha. Menina bonita. Quase mulher. Freitas se sentou comigo e passou a ler o evangelho. Assenti. Você tá certo, amigo. Deus anda de mal comigo e isto é verdade comprovada. Vou rezar por você. Freitas tem mania de ajudar e eu tenho mania de ir contra. Logo, presumo que nos completemos. E hoje Freitas me arranja algo pra fazer. Chego, subo escada e penso em Deus que é bom. Entro e não marco hora, nem nada e vejo Freitas fazendo sacanagem com a secretária. Óbvio? Creio que não. Óbvio seria encontrar o Freitas rezando, a secretária trabalhando e o mundo prático obedecendo. A gente só aprende vivendo. E eu sorri.




04 maio 2011

quinta da boa vista





Era terça-feira, manhã, mês de agosto. Não lembro o dia numérico. Cesta de piquenique e um amor. Você não queria me olhar na cara. Muita vergonha para uma conversa tão sacana. Por que nós pessoas não conseguimos ser o que somos de verdade? Seria tão fácil. Largar o teatro como se larga um vício. Pedrinhas unidas fazem espirais e formam uma estrada de tijolos para o meu amor passar. Eu de casaco e você sem grana. Que sentimento bacana. Mão em mão e um não sei o quê de sorrir ao olhar os macaquinhos magrinhos pulando de galho em galho. Olha lá o jacaré. Não pude acreditar quando você tomou coragem, arfou o peito, se agachou ao lado do réptil pra bater retrato. Que coisa doida. Reino animal e conquista. Andamos um pouco mais e o leão rugiu. Você desatou a falar dos bichos. Bicho isso, bicho mais, bicho versus bicho e eu de sorriso na máscara que dizia te amo sem pena. Eu só queria beijar. Encontramos um lugar reservado. Havia gente caminhando, criança berrando e um pipoqueiro fazendo sermão dizendo que deus havia criado tudo aquilo. A culpa é sempre de deus. Coitado. O lugar que escolhemos era estratégico. Uma árvore, grama felpuda, formigueiro e, de lá, a gente podia ver as tartarugas copulando. Corei ao som. Tartarugas são barulhentas quando copulam. E passam horas. Você partiu para o raciocínio: Tartarugas são lentas. Cágados também. Os jabutis, que são como as tartarugas, também são lentos. Não vejo diferença. Todos têm casco. Assim como navios e barcos. Meu pensamento é tão pueril. Sabe que gosto de ficar nua quando estou em casa? Estou sempre nua. E, quando vou às ruas, me sinto estranha vestindo roupa. Fico do avesso. O costume nos leva a cometer tantos erros. Seu olhar transbordou de graça. Sei que falo bobagem. Admito. Abro a cesta, pego a faca, pote de geleia e sirvo torrada melecada de framboesa. Nós comemos e bebemos em meio à natureza. Santa ceia. Uma joaninha caminha em seu braço. Não mato bichos pequenos. Tenho pena de coisas que não podem se proteger. Mas a joaninha, embora pequena, causa um enorme dano. Narro agora o que me ocorreu no último outono. A história foi longa. Contei o tempo no relógio solar que criei no chão. Um pequeno bastão de madeira e o sol nos informa a hora. Não seria mais fácil perguntar a alguém? Que horas são cai bem em conversa de amantes. Diminui distâncias. A busca por facilidade é o que destrói o mundo, você diz. Veja aquela formiga na pedra junto à jaula do elefante. Veja como ela dificulta seu caminho indo por aquele lado. Ela deveria ter seguido por ali e pronto: já teria chegado. Você gesticula enquanto explica a insensatez da criatura. Estou com a boca cheia de geleia de framboesa. O mundo é só geleia. Estou ouvindo o que você diz com destreza. Não é nosso primeiro encontro, mas eu preciso ouvir. Decorar suas falas, catalogar seus gestos, saber mais de sua espécie até consumir tudo que nunca conseguirei reter. Não perco detalhes. Pausa para o violão. Canção de sobreaviso de ataque animal. Você dedilha com arte e eu observo meiga sua altivez. Você canta e fala enquanto eu penso em Monteiro Lobato. Quando eu era criança eu não procurava motivos. Simplesmente fazia coisas, ouvia regras e me resignava. O clima me deturpou. Você enche o espaço entre nós ao cantar the fool on the hill. Acompanho seu refrão, canto conjunta, admiro suas mãos, seu corpo e seu par de tênis velhos. Admiro até seus poros abertos e as cicatrizes de outros tempos. Admiro tanto que me perco olhando você e sinto que preciso me proteger do combate. Há em mim tanto amor quanto há insanidade. Ao sol da tarde eu vou embora sem dizer nada. Saio de cena sem spot ou contraluz. De longe você acena, diz meu nome e eu fujo. Covarde ou absurda, saio ilesa, ao menos. Dizem que a culpa é de Netuno que entrou no sol e causou estardalhaço. Talvez seja culpa de algo ou alguém. Ou talvez não haja culpa. Estou apenas abreviando meu caminho assim como deveria ter feito a formiga que, confusa carregando peso, não viu o caminho mais fácil e ainda segue de lerdeza através das imensas barras de ferro que aprisionam os leões.











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02 maio 2011

hortaliças





Rufem os tambores, senhoras e senhores. A cena é a mesma de anteontem. Ele sai do banheiro equilibrando o peso de seu objeto identificado causador de belos males. Homem pelado é um traste. Olha quanto pêlo. Olha a simetria descombinada. Elvira pensa enquanto o homem caminha em sua direção. Lingerie apropriado para ocasiões, abajur meia luz, palpita o coração e lá está Elvira deitada esperando seu pepino. Mulher templo divino. E começa a jornada. Um-contra-um-igual-a-poucos. Ele deita sobre a mulher que sorri envaidecida. Obrigada, meu deus. Este homem é meu. Elvira se movimenta que é uma beleza. De lado, de cabeça pra baixo, escoando pelo ladrão. Olhe para mim, Elvira. Isso, Elvira, você acertou. Aplausos para Elvira que, após tanto treinamento, finalmente conseguiu engolir a melancia. Um sobe e desce, entra e sai e nada de música porque música vicia, Elvira. Gire os quadris, Elvira. Isso. Elvira se arrebenta de raiva quando ouve pronome demonstrativo empregado em tão simples contexto. É demonstrativo ou interjeição a comando de voz? Vamos, amor. Amor? Elvira conspira contra palavra. Desde quando sou amor? Elvira cogita razões e pensa em sua irmã Marília que está com problemas hormonais. Preciso ajudar Marília. Hormônios podem destruir alguém. Marília tem 50 anos e se diz feliz. Marília tem bigode. Eu já aconselhei Marília a fazer depilação a laser. Marília não ouve ninguém. Marília cansativa que adora anunciar seus aumentativos insuportáveis: lindérrima, gostosérrima, chiquérrimo e belíssimo. Eu odeio Marília. Irmã desgraçada. É sempre o mesmo abacaxi. 45 minutos e segue o torneio. Ele acerta a caçapa, mede o peso do taco e se apavora. Ele não pode chegar antes de mim. Respira forte no ouvido de Elvira que já nem sente mais seu corpo. Tanto fogo para pouca palha. De quatro agora, meu bem. Vamos. Rema remador. Elvira lembra de ter esquecido de comprar panos para suas mangas. E agora o homem é bailarino. O que é isso que ele está fazendo? O homem agita o corpo de forma que Elvira não sabe se chora ou se tenta ajudar o marinheiro a retirar a âncora presa ao chão. Uma posição eclética. Homem sábio é aquele que fomenta algo e responde com decisão. Um golpe de esquerda, um de direita, chave de braço, depressa, Elvira, estou quase lá. Lá aonde? Irá o homem descobrir o segredo do universo? Elvira conseguirá abrir as pernas sem rasgar-se feito papel? O homem realmente foi à lua ou terá sido montagem para enganar a população? Elvira está rubra de tão descascada. Uma flor. Esfolada, mal passada e, feminina, consegue arrancar gemidos de seu apicultor. Elvira, tente outra posição. Vamos, Elvira. Não quero ainda, Elvira Amor. Ele está romântico. É uma benção. 57 minutos de vai e vem, esconde e mostra, morde e assopra e Elvira está contente porque, de tão cansada de quebrar a lei da gravidade, decide usar a manobra final. Ela sabe que ele não se manterá firme. Planejada a vencer, ela sabe os caminhos para o precipício. Elvira beija o homem apaixonada, diz tudo falando nada, e cede o corpo acelerado e úmido em sua última tentativa de vitória. E o juiz apita o final da partida, senhoras e senhores. O homem ejaculou feito louco, rosnou feito cachorro e tombou seu corpo ao lado de Elvira. E, dias depois, o mesmo homem arruma as malas e vai embora dizendo que precisa de mais espaço, de mais vida, de alguém que o ajude, de alguém que se mostre mais companheira. Elvira sofre seus lamentos. Chora por alguns dias, ajuda sua irmã com seus problemas hormonais, conhece outro homem na fila do caixa eletrônico, namora fruta vaidosa, se afoba romântica e segue sua rotina cega de chorar pitangas e ninharias em meio às imensas plantações de hortaliças.





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