29 junho 2011

trapezistas







Pássaros alinhados em fios de alta tensão. São trapezistas. Malabaristas. Belos artistas. E tão serenos. E como caçoam de nós humanos que mal andamos de tão pesados que estamos cheios de nós mesmos. Um dos pássaros caça com os olhos sua presa e voa em adágios o pássaro liberto. Asas tão abertas quanto as asas das naves que criamos e caem em oceanos e levam tantos de nós. Pássaros não morrem artificiais. Outro se ergue e declina em voo rasante e toca o chão e volta ao céu sem que nada o faça olhar para trás. Nós humanos andamos ciclopes e enxergamos apenas um caminho quando tudo deveria ser amplo. Sofremos tanto e mal sabemos o motivo. Eram cinco pássaros alinhados em fios de eletricidade. A matemática que calcula nosso tempo não é usada por estes seres livres que não sentem pena porque não há motivos para compaixão entre eles. Não sofrem os pássaros alinhados nos fios de alta tensão. Mas sofrem os homens que andam em círculos com o pé no chão freando toda bruta essência e vivendo como se o dia de hoje fosse apenas o limo da estação. O tempo é mais espaço onde voam pássaros e não matemática de subtração. E mais pássaros voam. Quando voaremos nós?










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28 junho 2011

ao belo e sublime






moralista



Não é de amor que você precisa. E seus pensamentos possantes egoístas também não lhe servem de alimento. Sempre a busca fere como farpado arame corta o vento a soprar indagações. E não há pecado algum no egoísmo. É patrimônio nosso. E duvide daquele que muito compartilha. Há sempre maldade em doações. Não é disto que você precisa. E toda necessidade é uma dose imoral de vida.




mundo homem



Vá. Certifique-se na gramática. Nem todos os substantivos mudam de gênero. O mundo é homem e eu mulher não posso dar-me ao benefício de pernas abertas e muito riso porque de mim pensarão asneiras. Machismo contraído de senzalas, uma praga, infesta todas as bocas enquanto a minha fala.




lipoaspirados



Um grupo de amigos toma café, na beira da esquina, em lugar de requinte. Falam abobalhados de suas vidas, seus amores, mostram cor de unhas, fotos, seus temores diminutos propícios de quem não pensa. Pensar é absoluto. É mundo. É gameta. E falam os jovens de suas conclusões a respeito de tudo. Mas esquecidos estão seus receios dentro de suas gavetas. Há mais felicidade nos silenciosos do que nas bocas que vivem a exibir os dentes.






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25 junho 2011

adversa aos classificados







Procura-se com urgência alguém que saiba amar e consertar encanamento. E que use chapéu. É preferencial que use chapéu, jeans e camisas que combinem com as minhas. Fator primordial. Não sou muito exigente. Porém, deixo claro em anúncio, que procuro alguém decente. Alguém que traga flores. Sem flor eu não passo. Sem agrado me distraio. Aceito vagabundo, caso seja esta minha única opção. E que seja atento o vadio ao meu silêncio, ao meu espasmo de orgasmo violento e que seja cordial, sem exagero clichê, e me diga amo você duas vezes por dia. Nada além da conta. Enfatizo que busco alguém que, por questão de conveniência, saiba ganhar ninharia para encher a geladeira e conheça o labor da cozinha. Eu adoraria comer especiarias feitas por suas mãos. E que leia Dostoiévski e muita filosofia. Exijo viver de amor, literatura e discussão. Plena da vida. Um belo par de luvas seríamos. Ratifico: Busco vagabundo ou qualquer outro. E que tenha bicicleta. Talvez acrobata, mas nada atleta. Não quero competição. Há muitas ruas em meu mundo e seria bom andarmos juntos a sentir o vento no rosto e engolir das horas o que não se vê. E, depois de todo passeio, cairíamos na cama e dormiríamos ou nos engoliríamos ou sei lá o quê. Deixo este item a critério de quem lê. Em caixa alta, procura-se vagabundo. Ou que nem seja vagabundo. Aceito trabalhador. E que nem use chapéu. Melhor que eu diga precisa-se de alguém que saiba viver. Ou que nem saiba. E nem é preciso que traga flores. E que nem ame. Ou que nem exista. E já não exijo nada. Que eu viva sedenta esperando que toque a campainha, que o carteiro traga correspondência, que a máquina enxágue bem as roupas, que venha data de aniversário, que venha solidão, que me venha deus em oração e que eu receba somente o cobertor adequado para o frio. Que eu seja abençoada como aqueles que são precários e quase nada possuem na vida. Que eu seja a incompleta cena do capítulo seguinte. Que eu seja, antes de qualquer outro triunfo, humana acima de tudo, mulher em estado bruto e que eu viva à maestria de um trem que não se resume ao trilhar da estação.







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22 junho 2011

pluviométricos







canto de afeto



Ontem percebi o amor. Sentimento que se ergue diante de todas as coisas e nos transforma em tolos papéis vulgares. Era cama e descobri, no compasso de um timbre, uma felicidade que anseia o infinito. Sempre me disseram do amor como açoite que fere e nos envolve em vaidade. Mas não fora esta a sensação que me acometeu em descobertas. Recebi algo puro em castidade. Estava completa minha esfera de flor. O amor estava nos olhos e na voz de ontem que me disse de forma suave: Mãe, cante uma música para eu dormir. E nunca meu canto fora tão completo. Nunca fora tão vasta minha lágrima de afeto.





casa de sol e pedra



Meu sonho é bem simples se comparado à vastidão do mundo. Queria apenas encontrá-la, sentar-me ao seu lado e tocar suas mãos. Queria apenas ouvir seu riso irônico e talvez ela me contasse de Túlio que habita seus poemas. Talvez ela me permitisse saber de seu segredo. Ela fumaria seus cigarros, falaria mística de suas vidas e eu apenas ouviria atenta cada parte de um novelo que leio todo dia. Queria poder encontrá-la e dizer de meu entendimento. Talvez a poesia me surgisse. Meu sonho é mais simples que a vastidão do mundo. Encontrar Hilda Hilst em sua casa de sol e pedra e seríamos duas a contar histórias. Mas Hilda é partida e eu ainda fabrico vida e recordo meus sonhos pela manhã.





desatentos



Ainda vejo gente se enganando, caçando lebre de vulgar tamanho, engolindo vento, mordendo a língua e morrendo de fome. Quando irá o tempo saciar a vontade dos desatentos que incorporam ansiedades? Quando nos calaremos à fortuna de nossa felicidade? Onde mais nos habitamos senão dentro de nós mesmos? A luz do dia responde minha queixa quando passa pela rua um menino de pouca idade buscando pedras para munir seu estilingue e com ele derrubar pássaros.









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20 junho 2011

herança contraída






A verdade estava escondida sob os olhos de Ester que observava sua mãe deixar a casa todos os dias para doar-se à caridade. Ester sabia dos motivos que levavam a mulher a cumprir tamanha penitência. Eram duas criaturas arrastando o mesmo segredo silenciado pela culpa.

Quando seu marido adoecera, a mulher o abandonou em uma clínica de repouso. Dizia sempre aos parentes que não possuía mais forças para cuidar de seu marido e, com a ajuda de alguns familiares, conseguira o suficiente para jogar o homem em uma vala de esquecimento. Quanto mais distante de suas vistas, mas poderia viver a mulher sua vida. E viver era sempre violar condutas. Sem que outros mais soubessem, ela se vestia cafetina durante as noites e recebia homens em sua casa. Ester, ainda miúda para entender as necessidades que levavam sua mãe à libertinagem, apenas observava do vão da porta de seu quarto o que fazia a mulher na ausência de seu pai.

Sua mãe era uma bela mulher em dada época. Alta, convincente, alva e avermelhada de querências. Não posso viver sozinha, dizia a mulher no dia seguinte às orgias. Ela falava com Ester como se esta a interrogasse. Mas a filha nada dizia. Apenas calava e juntas saboreavam o café da manhã. Quando um de seus parentes a visitava, a mulher se transmutava em viuvez. Embora o marido ainda não estivesse morto, ela representava bem o papel de uma dor não sentida. Mas ela ria de todos em sua vitória por ter conseguido tirar o verme de sua casa. Que ele morresse. Ela não o queria. Nunca o quis. Casou-se apenas para fazer reverência à sociedade. Engravidou por descuido de ingenuidade. Casou-se por medo de morrer sozinha. Mas, quando percebeu sua força e destreza para lidar com o mundo, a mulher rezava para que o marido morresse e fosse de uma vez por todas liberta de sua obrigação. Criava Ester aos solavancos. Não se preocupava com filha que crescia esquecida de qualquer cuidado.

História já vista não fosse tão bela em maldade.

A mulher não acreditava em nada mais a não ser em si mesma e seus prazeres e assim cresceu Ester que se tornara exímia na arte de observar sua mãe de forma que conseguia saber exatamente o que pensava a mulher. E quando ocorreu a desejada morte de seu marido, tempos após seu confinamento, a mulher chorou amargamente durante o funeral para que todos soubessem de sua dor. Ester sabia que havia um riso dentro do ensaiado sofrimento de sua criadora. Ester enxergava o que mais lhe doía.

Após o funeral, mais bebidas, mais homens e mais doses de celebração de uma liberdade já pungida como coisa gasta. Ester odiava o que celebrava a mãe e sofria a perda de seu pai. Mas era em silêncio. E se armava de ódio como se arma o tempo em vistas de uma tempestade. A mãe não percebia que a filha estava se tornando a criatura que um dia iria derrotá-la e fazê-la cativa de seus pecados.

Dias após a morte do homem, surge à porta um dos irmãos de seu marido. E veio então a soma de toda a desgraça que ela buscou evitar ao deixar o pai de Ester morrer apaixonado em solidão. Havia um testamento. Havia assinaturas. Documento reconhecido em cartório e datado anos após o nascimento de sua filha. Foi então que a mulher soube que o marido a conhecia mais do que ela poderia conceber. Ele sempre soube que ficaria doente. Temia morrer e não confiava à esposa os bens que acumulara em segredo. O homem nunca havia declarado sua fortuna àquela mulher que sempre julgou falsa e traidora de seu amor. Ele considerava apenas sua filha e para ela deixou tudo que possuía. Casas, terrenos, rebanhos. A fortuna que escondera por anos agora estava declarada. Ester era a única beneficiária. Havia também uma carta culposa a respeito da esposa e assinada por testemunhas. A mulher o traia desde os primeiros instantes de vida a dois. A mulher sentiu-se ultrajada e posta sob juízo por um crime que tinha por direito de cometer. A indiferença voltou-se contra a mulher que desdenhou de seu marido, de sua filha, de um mundo inteiro de benefícios. Jurou ódio ao homem morto e à filha fez promessas de obediência. Mas não era preciso. Ester, crescida a jovem e adulta, tornou-se gigante diante da mãe e passou a comandar àquela a quem culpava pela morte de seu pai. E, por ordens de sua filha, a mulher tornou-se peregrina de asilos e confortava doentes e os aninhava nos braços e doava palavras e lágrimas de sofrimento ao contentamento de Ester que obrigava sua mãe a vestir-se modesta e fulana em troca de comida e um teto para se recolher. E as duas viviam juntas. Ester não suportava viver com sua mãe, mas deixou que ela permanecesse em sua grande casa de muitas escadas herdada de seu pai. E à noite Ester obrigava a mulher a assistir o que ela fora vítima por tantos anos. Homens recebiam de Ester o que seu pai nunca recebera de sua mãe. O afeto negado fez de Ester a justa vingança por herança contraída. E ela não descansaria até ver no rosto de sua mãe o mesmo espanto que a torturou desde seus tempos de menina.







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16 junho 2011

permissiva




"O amor que não se sente capaz de um sacrifício não é amor; será, quando muito, desejo grosseiro, expressão bestial dos instintos, incontinência desvairada dos sentidos, que morre com o objetivar-se, sem lograr atingir aquela altura onde a vida se torna um enlevo, um doce arrebatamento, a transfiguração estética da realidade."


(Anayde Beiriz)




Eu amo você porque assim eu o quis. Construí, de fronteiriças artimanhas, nossa história começada em datada hora e terminada nunca. Imenso adorno para meu corpo é o que sinto e demanda solidão o amor para que este possa existir. Não sou peixe furtado de mar algum. Não houve maior arrebatamento do que aquele momento em que vi, de olhar inédito, o meu amor que era homem e tão ingênuo por acreditar estar conquistando territórios com suas guerras de inefável aspecto infantil. Homem criança que acolhi em meu ventre negando minha presença a outros seres que nunca me causaram estrondo ao ressoarem em meu ouvido palavras de não sentir. Eu não os desejava viver. E o avistei diferente de todos porque era minha vontade enxergá-lo e possuir a alma desassossegada deste pastor que condena rebanhos e nunca sabe de si. Se você pudesse, por um breve minuto, enxergar-lhe a imagem sua como eu a vejo, saberia de meu canto, da razão pela qual o amo, criatura de centelha incendiada, eu o escolhi. E não me vulgarize a existência dizendo de amor como quem declara rimas matemáticas. Sua poesia me absorveu a palavra. Porém, não foram seus versos que me fizeram o calvário de amar desenfreada e escandalosa. Fui tomada por sua imagem, seus gestos, seus olhos dignos de compaixão e sua brutalidade mesquinha ao negar-me a posição de mulher. Amo intensa a meu próprio gosto. De erótica necessidade envergonhei meu nome, meu rosto e adulterei meu caminho porque era esta a minha escolha. Disto sempre me alimento. Se amor é mesmo algo que nos destrói a estrutura, desejei que fosse você o feitor desta maldade. Mas que fique tão claro quanto em asfalto o risco de giz. Eu amo você porque assim eu o quis.







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14 junho 2011

adoráveis filhos de eva





7:03 da manhã. O telefone declama humanidade. Alô. Bom dia. Aqui é Malvina da Instituição de Apoio aos Portadores de Câncer. Onomatopeia declarativa de fim de linha. Instituições de caridade sempre me causam medo, estranhamento, assombro. Penso sempre que estou sendo enganada. Não me dói desligar o telefone. E a dor do outro não me apraz sentimento de ternura. Não sou mineiro. Tampouco solidária no câncer. Calço os pés e revejo afazeres do dia. Sexo ao amanhecer, beijo de bom trabalho e larga-me para que eu possa ser sozinha. Não gosto de companhia. Não gosto de ninguém. Muito me causa ojeriza estar sendo observada, estudada, revisada feito tabela química. Não sou quimera alucinada. Sou mulher e gosto de meus recantos anônimos de solidão. Gosto de estar só. Passeio pelas ruas e vejo pessoas que acreditam no futuro. A Avenida Pedro II está cheia delas. Pessoas que fazem curso de informática, que fazem dança de salão, que acreditam na loteria. Pessoas que desejam terminarem o dia tão mal preenchidas quanto se sentiam ao saírem de suas camas. Passam por mim e eu passo por elas e caminho meu rumo de aprumo para viver ainda o que acredito ser vida. Não há nada mais degradante do que enxergar as pessoas. Tanto me cansam seus ares de felicidade. Dizem o nome de deus, dizem que estão sempre ajudando o outro, mas nada fazem. São todas hipócritas cheias de mentiras. Idiossincráticas flores mal nascidas. Bem melhor ser como sou. Egoísta, maldosa e realista. Bem melhor afagar o demônio a fazer de deus um servo de ponta de língua. Sinto-me bonita. Mas estou subnutrida. Hoje busco mais existência. Tenho encontro marcado com um homem. Sigo desígnios de telenovelas e traio o marido. O alto prédio me encara. Estou serenamente inadequada e vou ter com aquele que de nada serve a não ser arrancar sangue de minha veia doméstica e honrada. E o homem está bonito. Me recebe de forma como nunca seria recebida por outro ser e me sufoca as ancas com sua petulância de erotismo. Nos despimos, nos devoramos e nos degradamos adoráveis filhos de eva. Declaro todos os meus pecados, tudo que vivo maquiada em silencioso drama, e nua bebo do vinho da boca de um homem que ao fim do sexo sempre me será estranho. Volto para casa e ainda encontro pessoas. As mesmas que acreditam em seus sonhos, que viajam de férias e exibem fotos de alguns momentos de serenidade. Um estampado velho é este mundo de gente que de nada reclama. Caminho rente e satisfeita de orgias. Mas sei que não será assim pela manhã. Acordarei como se nunca tivesse vivido e sentirei ainda a fome dos subversivos. E voltarei a me deitar com aquele cuja face não me alegra um vintém de minha estirpe. Em minha casa tomo banho e me entrego ao sacrifício e sento à mesa com o marido que, amavelmente, me pergunta a respeito de meu dia. Franzindo o cenho abocanho o pão divino e sonorizo talentosa minha orgânica onomatopeia do riso.









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12 junho 2011

inventei de amar você






Inventei de amar você. Tateando entre ladrilhos, fazendo agrado ao inimigo e querendo me sufocar. Uma serra sofrendo de tão cega cortando tronco de baobá. E me acostumei a sua antipatia porque amantes nem sempre recebem as boas-vindas em elogios escritos em bilhetinhos ou presente que demonstre o exagero de amar. A vida engana ou nos enganamos e isto não é pergunta que se faça. É coisa que digo toda hora para ver se acredito em algo mais. Hoje estou romântica e arrastei a cama e a coloquei bem embaixo da janela. Deito e vejo estrelas e penso a respeito de coisas exclusivamente minhas. Horas pensativas em que me perco. E, se de tanto pensar, eu de repente me encontre de verdade? Será estranho saber de mim através do que espelho. Prefiro que os outros me saibam. Não suporto flashback de filme americano. E as estrelas estão por toda parte. Deixo que Adriana Calcanhotto cante e me espreguiço na cama e, lá fora, buzinas, ambulâncias e a cidade em urgência. Quem me dera eu pudesse levantar desta cama e agir como agem todas as pessoas e me esbaldar em falsa alegria. Devo estar doente de vontade própria. Só faço o que eu quero. Por isso prefiro ficar aqui. Meu quarto, um incenso, e o tic-tac do relógio ainda consegue ser mais alto que o som que vem da voz da Adriana. Me levanto e troco a música e é um esforço enorme sair da cama e pisar no chão. Cada passo é uma eternidade. E ouço mais música. De todo tipo, de toda cara. Traça cuidando do andor. O quarto quase às escuras e eu brinco com as mãos e faço aquela coisa de imitar imagens. Um avião com as mãos e a luminária é o spotlight e eu sou um coração feito de mãos. Veja só que mediocridade. O mundo imenso e eu aqui, figurante de uma solidão egoísta e vasta. Eu estendo a mão e pego o livro que não largo há dias. Leio poesia e tudo que leio é uma forma de auto-comoção. E há um texto de amor. E não sei por que quando se fica romântica como estou a gente perde o pedigree. E volto no tempo e fecho o livro. Você me desnuda e eu finjo que acredito que a sabedoria que você suporta é sua e de mais ninguém. Eu finjo porque quero agradar. E sabe aquela hora em que você comprou vinho e ficou feito idiota me procurando? Eu estava procurando taças. Só bebo vinho em taça. Mas acabei não comprando e acabei tomando vinho em um copo sem graça. Amor tem disso. A gente perde a identidade. E eu bebi que nem lembro e falei aquelas verdades que amargam o beijo. Eu caí no sono e você também dormiu. E não sei ao certo se você dormiu ou fugiu ou ficou me olhando. E ainda comi de um tacho de coisas que não gosto só para fazer o que achei que seria certo. E inventei de amar mais e, em silêncio, eu observava seus intervalos de fim de orgasmo e chama que acende cigarro. E me senti um poço de ingenuidade. Não consigo ser como dizem ser as outras pessoas que agem racionalizando tudo. Por mim, é verdade, não me importo muito com resultados. É o momento que importa e todo o resto. Você, eu e mais nada. E relembro a história toda como se pudesse trazer tudo de volta. Como quem comete crime e se arrepende afogado em culpa e quer de novo a vida inocente. É assim que me vem agora todo o tempo que houve um dia. A vida continua lá fora, outra música me amplifica, fumo dois cigarros e caminho ao banheiro e meu rosto é de sorriso. E ninguém nos sequestra a sensação de era uma vez, de chegar atrasado, de comprar ingresso ao término do espetáculo. Me pergunto por que a gente é assim tão vergonhosamente imbecil. Por que a gente transforma tudo em fim? Por que você sempre me esquece no dia seguinte? Por que você não me procura quando sabe que preciso viver um pouco mais de você dentro de mim?








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10 junho 2011

insólito






Começou a fazer lista. Coisas para levar durante a viagem. Abre guarda-roupa. Tanta coisa. Muita vontade em copo vazio. Escolhe peças, uma a uma, decretando para si em qual ocasião usaria aquele par de luvas, as calças largas, outras justas, montantes de vestidos, pretos, chamativos, discretos, decotados, em todas as letras do alfabeto estampados. Sorria ao dobrar e organizar, por tons, suas roupas em sua imensa mala de viagem. Azul turquesa para que todo mundo veja. Escolheu lenços, echarpes, badulaques para enfeitar-se e meditava a respeito de lugares. Agora os sapatos. Diversos tipos. Quadrados, redondos, sapatilhas, altos, quebra galhos e pontiagudos saltos para trottoir. Depois a maquiagem. Pó de arroz, base, provocações, algo que esconda rugas, algo que aumente os cílios, algo que grite EU CONSIGO, algo mais que fale por mim. E jóias saltavam pelas galerias de sua imaginação furtiva pela excitação de ir a algum lugar com sua bagagem entupida de roupas e certezas. Tudo pronto. Mala sobre a cama. Táxi a espera no portão. Mas para onde devo ir? Percebeu que, ao arrumar a mala, tudo mais se concretizou. Fazer planos era o seu contentamento. Tudo mais era secundário. E desfez a mala, e despachou o táxi, e dormiu pelada descoberta de ilusão.












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08 junho 2011

bíblico






O pastor cuidava de suas ovelhas como quem cuida dos próprios filhos. Mandou fazer enorme cercado e, noite e dia, protegia as ovelhinhas dos olhares curiosos de quem vinha. Sentia orgulho de sua criação de ovelhas e ninguém no mundo poderia tê-las, comê-las ou de suas peles fazer cobertor. Era sempre a mesma agonia manter as criaturinhas no cercado, quietas, engordadas, solitárias em comunhão. O homem enchia os olhos de ver o que possuía em sua pobre lida de criador. Mas a fula vida passa e deixa rastro de deserto. Algumas ovelhas morreram meninas, outras fugiram sem direção e as que restaram não derramaram lágrima quando morreu o pastor. E desperta a história seu realismo. De nada vale esconder-se do risco. Aquele que economiza agasalho é o primeiro a morrer de frio.









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06 junho 2011

mutante






Vejo você como quem enxerga miragem caminhando árabe sem que perceba meu olhar. Minha alma, dúbia controvérsia, silencia em ardores de outros lírios e tanto deseja do amor o altar. Estou coberta de minúcias, meticulosa digna de inveja, ando ocupada demais tentando não sentir nada. E este orgulho miserável, excelente cão de raça, não me permite falar a verdade. Em conversas públicas perco-me a dizer que amor é trabalho, depilação desnecessária, gastos e poemas ultrapassados. Bilac de mau gosto desce rude em minha garganta. Meu riso se envaidece quando digo que amor é perda dos sentidos, falha grossa de caráter e traição de cunho etílico. E digo que não tenho tempo para isto. Que a estação me basta, que sentir me castra e nada mais quero comover. Mas acontece que amor não é feito de tempo. É mutante sentimento místico, sem escrúpulos, deus de mito, a revolta de todo ser. E desconserto meu teatro quando solitária me entrego às mãos e me acaricio como se fosse você a fazer mercado em meu corpo recatado de modernidade e figurado em liberdade ilusória. E clara é a tristeza polida de minha sensatez. Sozinha eu te quero aos berros. Carente eu te quero em doses. Esquecida eu te quero a morte, de minuto a minuto, com todo o afeto ao teu desgosto.








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03 junho 2011

jukebox





Há muitas formas de dizer a verdade.
Talvez a mais persuasiva seja a que tem a aparência de mentira.

(José Américo de Almeida)





Escrevo, logo insisto. Ou será o contrário? Muitos pensamentos passam por mim quando leio livros ou textos avulsos ou blogues escritos pelos mais variados tipos de escritores. Mas quem escreve blogue é escritor? Bastando-me da simples definição de que escritor é aquele que escreve, afirmo que sim. Independente do gênero literário.

O que vejo quando leio textos em sites voltados à produção literária é um tipo de caos organizado em que muitos escrevem, poucos conseguem continuar escrevendo e muitos fazem de seus sites verdadeiras competições para ver quem escreve mais. Li em algum lugar (não me recordo o autor da seguinte assertiva) que, na pressa de publicar algo e demonstrar que realmente tem habilidades dignas de um Dostoiévski, o escritor de um blogue lança diversos tipos de publicações (poemas, crônicas, contos, ensaios, letras de música entre outros) e logo se torna uma jukebox ― termo que me veio enquanto lia A Bagaceira, de José Américo de Almeida.

O escritor jukebox tende a escrever vários tipos de composições textuais: desde poesia a narrativas longas, narrativas curtas, romances, cartas, ensaios ou resenhas. Este tipo de escritor é aquele que toca o trombone e ainda consegue, milagrosamente, pilotar um avião. Tudo ao mesmo tempo.

Isto é humanamente impossível.

Caso o seu objetivo seja o aperfeiçoamento em um tipo de gênero textual, é preciso foco para seguir escrevendo e não cair no abismo de falar a respeito de tudo e não conseguir dar um nó no cadarço. Há quem acredite em inclinação ou dom para se tornar escritor. Há quem acredite em exercício e prática. Eu prefiro acreditar que existam os dois. Talento e Prática. Você, como escritor, possui as ferramentas para escrever sua obra, porém, é preciso, antes de qualquer outro impulso, praticar e aperfeiçoar seu trabalho para, com a sorte que poucos alcançam, encontrar uma voz que seja original ou, ao menos, a sua voz (e não o ressoar de algum outro autor que já passou ou ainda está em alta na literatura de cada dia).

Dos escritores que leio e acolho como favoritos, observo em suas obras a busca por uma identidade literária que o faz singular entre tantos outros. Cortázar é um de meus escritores de cabeceira. Li alguns de seus livros e não acredito que ele tenha atirado em todas as direções para, finalmente, escrever sua obra. Cito também Virginia Woolf como uma escritora que se manteve em terra firme e construiu sua vasta narrativa baseada no fluxo de consciência. Nunca li um poema escrito por Virginia Woolf e não anseio por isto. Sua obra é completa e uma das mais respeitadas quando o assunto é Literatura Inglesa. Admiro também a obra de Sylvia Plath. Nitidamente confessional e autobiográfica, ela trava em seus poemas, eternos conflitos da mulher que vivia cercada por filhos, marido omisso e a memória de um pai alcoólatra. Nunca li um romance escrito por Sylvia e isto não a torna menor que outros escritores. Ela é poetisa. Ou poeta.

Eu, assumidamente escritora em fase de aprendizagem, me sinto pressionada quando muitos me dizem para seguir outros passos. Escreva poesia. Escreva textos cômicos. Escreva mais conflitos. No meio deste tiroteio de conselhos, observo algo escrito por mim, analiso, penso mil vezes, reescrevo, rasgo tudo ou publico. Acredito que o fato de um escritor não enveredar por todos os tipos de composições literárias não o faz estacionado no trabalho que tenta fazer contínuo. Admito que em minha pequena obra, ainda imatura em fase de crescimentos, há falhas, há acertos, mas, a despeito de tudo isso, há um caminho escolhido e por ele traçarei minhas histórias. Mas de algo tenho certeza. Eu não sou uma jukebox. E não pretendo ser.






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02 junho 2011

humanístico






Flores de toda idade é a infância e não há, em tão breve mundo, alguém que não se lembre ou se apegue e não queira novamente o vento de uma tarde que o tempo esconde. Pois a memória traz inquieta aos olhos que enxergam o passado de forma a fazer saudade de nós. Minha mãe a lavar roupas, tão atarefada franzindo o cenho e quase se esquecendo de ser bonita enquanto olhava distraída a brancura das vestes de suas crias. Varais atravessavam sua imagem e era de um olhar perdido que ela se portava e carros passavam em todas as avenidas e nós brincávamos no quintal de casa e as roupas cheiravam a sabão em pedra e minha mãe parecia máquina de afazeres enquanto manisfetava notícias nosso antigo rádio de pilha. E eu, desbravador de meu jardim, brincava com formigas. Procurava nomes, as humanizava, as colocava no caminho das hortaliças e fazia, das tais pequenas criaturas, inseparáveis amigas e, quando uma delas se desfazia em minhas mãos, de tão sensível corpo minhas meninas, eu chorava desconsolado e minha mãe deixava seu sono aberto de esquecer o dia e corria a me acudir. Aninhava seu menino em seu colo, em seu terno amor sem outro que a faça esquecida e eu me sentia salvo de minhas dores infantis. Por que chora? E eu que tinha meu enorme mundo em casa, protegido nos braços maternos, hoje sou filho da pressa, das vertigens, do calor e do asfalto que me enterra e vivo de minha tragédia. Alimento-me de trabalho, tenho filhos, mulher que de mim se distancia e, em passos falsos, piso em formigas que antes eram amigas e me faço de tolo sorrindo mesmo certo de que o mundo não saberá de minhas horas vazias de comer passado e entornar a vida.









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