30 agosto 2011

epígrafe ao sol









Usada
 Cartucho de arma automática
Mas o crime maior teria sido
Se eu me deixasse ser recarregada.






Ontem fez sol e decidi caminhar. Sair de casa, da casca, da gaveta com cheiro de roupa mofada. Dei cara às ruas. Trafegavam senhoras duas mulheres vestidas de forma adequada. Não as conheço e não as cumprimentei. Penso: conhecerão as mulheres o peso da indiferença? Porque eu realmente me importei com elas. Mas passei. Como passa o ferro em roupa amassada. Deslizei pela avenida porque apenas me importava o caminhar e não o que me assaltava a atenção naquele instante. Casas e carros quebravam a metafísica de meus sentidos. Tudo era físico, táctil, verdadeiramente prático. Não há poesia quando as ruas nos são conhecidas. Ou haverá. Andei mais adiante e este camuflado pleonasmo pesa no sangue ao escrever. Um motoqueiro rasgou o asfalto ao cair. Acudam o homem, alguém gritou. Mas ele mesmo disse que não precisava de ajuda. Levantou-se e, sorridente como o palhaço após graça que não faz rir, saiu ronronando em seu veículo. Moto é feito gato atrás do mato esperando o rato para deglutir. Deixei fluir meu pensamento e segui. Ainda pensando no homem caído lembrei-me de meus pecados. Faz tempo que não rezo. Fico tímida diante de deus. Vai que ele realmente existe: é flagrante no ato. Por isso não rezo. Prefiro pecar sem desculpas. Caminhando observei janelas de todo formato. Redondas, ovais, curvas, quadradas. Eu gosto de ver o que escondem as janelas: gente comendo, assistindo tevê, mãe dando banho em filho e amor. Há um tipo de amor autêntico dentro destes esconderijos. O amor que não se estampa. É vívido. Está no prato comido e na água que desce pelo corpo. Este amor não é visível a olho nu. É preciso estar cego para ver. Deixei o amor passar. Atravessei a rua correndo feito menina buscando sonho. Um grupo de gente passa ao lado e homem assobia um gostosa fora do ritmo. Quando eles irão parar com isto? Homens não mudam, zero novidade, algumas obras nunca chegam ao fim e, de meia em meia hora, o 203 passa por aqui. Digo que não espero ônibus. Não espero nada. Mas esta mentira é lavada. Há sempre uma espera na culatra. Desvio de uma bicicleta, dois cães passeiam como se fossem amigos, o sorveteiro anuncia novo sabor e a padaria exala minha vontade. O pão da tarde será servido. Chego à padaria distinta, de chapéu e sapatilhas. Cumprimento as senhoras que encontrei minutos atrás, sento-me ao balcão, peço café e pão, e, por mais estúpidas que tenham sido a caminhada e minhas observações, estou completa. Por um momento estou sendo quem sou. Mulher de faca e queijo na mão. Sinto a felicidade de quem aos poucos perde o medo de tocar com os pés o chão.














Image by Lexi

23 agosto 2011

coito interrompido






não é o meu país
é uma sombra que pende
concreta
do meu nariz
em linha reta
não é minha cidade
é um sistema que invento
me transforma
e que acrescento
à minha idade
nem é o nosso amor
é a memória que suja
a história
que enferruja
o que passou
não é você
nem sou mais eu
adeus meu bem
(adeus adeus)







O número que você ligou encontra-se desligado ou fora da área de serviço. Deus é bom. Assim não caio na cilada de acreditar em abracadabra. Mas parece um imã. Há um magnetismo em tudo que causa perigo. O telefone está em minhas mãos. O número não sai da cabeça. Vou tentar de novo. Coragem, digo pensando, porque não há pecado algum em ligar. Não quero telefonar para pedir nada. Só quero saber se está tudo bem. Simples. Mas por que sinto vontade de querer saber se está tudo bem? De que me vale? Espanto pensamento racional autoajuda. Tenho coisas a fazer e não vou perder tempo. Preciso trabalhar e há tempos prometi visitar aquele amigo que agora não me faz diferença alguma. Porque nada faz diferença. Só a ligação e a vontade esquelética de perguntar coisa que não faz sentido é que faz diferença. Ligo de novo. Caixa postal? É um complô. Ou motim. Talvez seja deus finalmente me ajudando. Mas eu não quero acreditar em deus. Não agora. Preciso me concentrar. Decoro palavras. Expressões fabricadas para não aparentar o que realmente quero. Mais uma vez. As teclas são tão miúdas para tanta vontade. Um avião passa rasante e faz barulho. Decido não ligar. Deixa o avião passar. E também o ônibus. Deixe que tudo passe. Vou tomar um café antes de ligar de novo. Preciso deixar bem clara minha intenção. Não quero saber de sua vida inteira. Farei apenas uma pergunta como se faz com gente amiga. Uma pergunta despreocupada. Largada. Não posso me perder no flagra da vontade que não passa. Mas você sabe: acaso estivesse aqui (de novo) nada seria como antes. Mudei. Você, provavelmente, também mudou. O gosto deve ser outro. O olhar, o modo de tocar as mãos, e, talvez, nem seja mais o que eu queria que fosse. E nada mais vai bater. Nem conversa, nem beijo, nem malabarismo. Nada será igual. Mas ainda quero ligar. Ouvir a voz distante, perceber um tom estranho quando atender ou talvez um sinal de surpresa. Talvez uma prova de que ainda há sentido. Mas não posso me enganar. O café desceu correndo com pressa porque tenho vontade de fazer logo isso. Ligar de vez e dizer somente o necessário. Como se faz em ônibus: fale somente o necessário. E, sendo desta forma tão econômica, não haverá nada demais. Apenas dois amigos conversando, trocando palavras de bom trato e a sede será camuflada por uma simples preocupação. Decorei o que vou dizer: Olá. Tudo bem? Ou devo dizer um cantante como vai você? Vergonha na cara brota incisiva. Não posso mais esperar por este momento que já morre adiado. Estou por um fio de meu maior ato suicida. Dizer amor ao escuro é uma sensação terrível. E não há mais amor. Vou dizer exatamente isto. Quer saber? Estou ligando para dizer que não ligo. Era apenas uma vontade incômoda de saber se você está bem. Mas, na verdade, não me importo. E escuta bem porque não vou me gastar à vida inteira aqui, ao telefone. Ligo somente para dizer que, embora você pense que ainda sinto algo, não sinto. Esta é a verdade. Eu comando minhas vontades e saiba que controlo o que sinto e já não sinto nada. Que fique claro. Só liguei para dizer que, embora ainda me doa passar dia solitário, lembrar de você de segundo a segundo, procurar você em outras pessoas, saber que sua boca fala outra língua, assim como todo o resto de seu corpo, não me importo mais. A dor se tornou tão comum que passou a ser discreta. Vou ligar e você terá de aguentar minha verdade. Que morra, que se dane, que se acabe. Que me importa saber se você está bem? Ligo. Número por número. Decisão tomada, mãos apoiando o rosto, ônibus que passa e, de novo, a mensagem que salva: O número que você ligou encontra-se desligado ou fora da área de serviço. Coito interrompido. Bruta sensação de trem não partido.






Image by came

21 agosto 2011

o disciplinado aborígene








O homem de férias vai ao supermercado e, despreocupado por não ter afazeres, vaga em busca de cerveja para beber sem anseio, receio, sem maiores razões. E, para sua grande surpresa, encontrou, dentre os vários tipos de bebida vendidos em tal estabelecimento, uma de suas marcas favoritas de uísque americano. O homem não pensou duas vezes. Comprou a bebida, voltou para casa, buscou um copo e o preencheu com o líquido destilado. Seus planos estavam concretos: passaria suas férias a beber, receber amigos, sairia a passeio em sua bicicleta e assim tudo mais estaria completo. O homem e suas garrafas de uísque. Mas a cortina desta narrativa tende a romper-se e desmascara o que não era apenas um homem a beber uísque sentado em sua poltrona a observar pássaros da janela de seu apartamento. Trata-se de um ser solitário, que, por muitas vezes, arrisca sua vida tombando ébrio em corpos de mulheres que poderiam deixá-lo ou amá-lo ou ainda trazer o risco ao homem de ser traído. E isto ele não suportaria. O homem sentia-se contraído feto como se a vida ainda não tivesse dado início aos atos e saía em busca de sua forma primitiva de liberdade fazendo longos passeios em sua bicicleta. Era então que encontrava o ar puro em campos, observava javalis e admirava a natureza ausente da notória crueldade que vigia a vida urbana. Bêbado, ereto e ciclista. E retornava para casa sedento de algo mais e lidava com seus instintos se deixando esvair sozinho em orgasmos tão ocos quanto um copo vazio. Mas deixemos a narrativa estática sem detalhes que humanizem a simples figura de um homem que saiu de casa, comprou uísque, bebeu por dias, trilhou estradas, distraiu-se, e, por fim, percebeu que sua barba havia tomado conta de seu rosto fazendo o parecer um obstinado e disciplinado aborígene.






Image by carts

20 agosto 2011

novela no ar







A dona do mercadinho é crente fervorosa e adoradora de deus. Diz que novela é coisa do diabo, perniciosa, imoral. Mas não desgruda os olhos da tevê. Presumo, então, que o diabo está em alta. Ou sempre esteve. Não irei pesquisar na Bíblia. Tampouco preciso ler livros antigos ou livros que retratem o caráter psicológico do indivíduo para dizer que o famigerado diabo é quem dita as regras. É nítido. Adoramos assistir aos espetáculos que mais criticamos. Não assisto a novelas. Não por me considerar superior e dizer que novelas são produzidas para prender a população a um tipo de cegueira generalizada em que o cidadão não faz nada (não lava pratos, não cuida dos filhos, não pensa a respeito de questões sociais e não cuida de seu próprio umbigo). Jamais diria isso. O povo precisa de recreação em canal aberto. Por isso, as novelas. Mas já não existe futebol? Lembro-me bem: Sempre diziam que o povo precisava de algo para sorrir. O povo precisa de um motivo para continuar acreditando. Eu sempre ouvi isso em tempos de Copa do Mundo. Nunca entendi esta afirmação. Em minha opinião, futebol era apenas um jogo, assim como tantos outros. Mas, por questões culturais, percebi que o Brasil respira futebol. E novelas. Ontem (19 de agosto de 2011) presenciei uma das noites mais silenciosas desde a morte de Lady Diana. Ao menos aqui, na cidade onde moro. Nenhuma voz a raios de quilômetros. Novela no ar, meus amigos. Todos estavam vidrados na tela que o diabo, segundo a dona do mercadinho, tomou para si. E as grandes questões eram: Quem matou, quem traiu, quem roubou e quem irá se dar bem? Mas como você pode saber disso senão assiste a novelas? Simples. Eu tenho acesso à internet. E, em meio a discussões diversas, a novela das oito se tornou o grande assunto. Me senti como se sente um pato em banheira vazia. Solitária. Mas será que tenho problemas? Não entrarei neste assunto porque não quero falar de mim. Deixemos o meu umbigo quieto. Nossa sociedade brasileira, que vive ao nó dos padrões e bons costumes, adora uma sacanagem. Novela é sacanagem. Ficção baseada em fatos que ocorrem em muitas vidas. Senão em todas. Eu senti necessidade de saber do que se tratava todo aquele frenesi. Muita gente em silêncio é sinal de fumaça. É preciso dar atenção. Então eu soube que se tratava de assassinato, boas lições de moral (como um homem promíscuo que descobre ter câncer nas partes baixas e passa por uma séria análise de sua vida e suas atitudes, mulher traidora jogada na sarjeta e os bons sempre vencem). Breve resumo. E não quero nem saber o que o Senhor Gilberto Braga estava praticando. Deus me livre e guarde. Muitas pessoas adiaram suas baladas, mulheres economizaram suas maquiagens, senhoras respeitáveis esboçaram seus 'aqui se faz, aqui se paga' e outra novela termina. O Brasil pode sorrir porque a Rede Globo fez o povo feliz mais uma vez. Novela imita a vida? Acho que não. No passo em que estamos, novela é a própria vida. Há mortos, feridos, gente que beija na boca, meninas bonitas sensuais suffragettes e muito sexo que é pra dar água na boca e sonhar depois. Livro é chato, dizem muitas línguas. Ler pra quê? Novela é bom porque a história vem fácil. Então, na soma do que fora dito, não era somente a parte empobrecida da população que assistia ao último capítulo de mais uma vontade não vivida. Ricos de toda elite também deram boas risadas na noite de ontem. E o melhor de tudo: há reprise. Hoje terá silêncio de novo. E, em breve, Christiane Torloni e Lília Cabral estarão na casa de vocês. E O Astro reprisado dirá da sorte. E a pergunta permanece: Quem estará enganando quem?






Image by Elisa Phillips

16 agosto 2011

ao silêncio alinhavado dos dias









― Costure os botões de minha camisa.

― Costuro. Que mais posso fazer senão costurar seus botões?

Pergunta sem resposta. Leonora esperou que Augusto respondesse. Mas nada saiu de sua boca. Ele deu as costas em um gesto semelhante à indiferença com a qual são tratados os mendigos em porta de igreja. Como se nada mais existisse. Leonora permaneceu na sala. Lançou um breve olhar pela janela, respirou fundo e sentou-se na poltrona de estampa florida exibindo seu ato de resignação. Em suas mãos, a camisa de Augusto. Em seu pensamento, vastas questões que a fariam pregar aqueles botões e distrair-se. Percebeu que todos os botões precisam ser costurados novamente. Augusto não poderia usar aquela camisa com tantos botões soltos. A mulher inspecionou o relógio para certificar-se do tempo que levaria para costurar tudo. Ao lado da poltrona, no chão, sua caixa de material para costura. Agulhas, alfinetes, linhas de cores variadas, dedais e poeira. Há tempos não costuro nada, pensou. Com agulha e linha prontas para o trabalho Leonora passou a costurar. Começou no colarinho da camisa. Lembrou-se da primeira vez que vira Augusto. Ele costumava sorrir. Lembrou-se de seus dentes e da cor de seus lábios. Lembrou-se da primeira vez em que Augusto lhe dirigira a palavra. Era outono e folhas tombavam das árvores. Era outono e Augusto desabou em mim. Era amor como se vê em telas de pintura. As mesmas que Leonora vira quando esteve na exposição itinerante que visitou sua cidade. Todos os quadros eram belos. Pensava mais a cada golpe da agulha em casas de botões antigos. Lembrou-se de quando era jovem e impecável. De suas pernas cheias de vida prontas para correr o mundo acaso Augusto quisesse. Lembrou-se das mãos unidas em festas durante a dança que tanto agradavam aos dois. Leonora pensava de forma tão veloz que suas mãos corriam no tecido da camisa como se tivessem pressa de concluir o desígnio exigido pelo homem. Ele me encantou sem que precisasse exibir riquezas. Augusto não possuía nada além de sua pequena casa e alguns livros antigos. Sempre trabalhou como professor. Eu lembro como se fosse ontem. Leonora pensava em voz alta. Augusto ensinava tão bem quanto relinchava sobre o corpo de Leonora na pequena cama onde dormiam. Augusto sempre teve talento. Suspirou Leonora. Gesto que fez com que trespassasse o dedo indicador com a agulha. Uma gota de sangue brotou de Leonora. Sangue que a fez lembrar-se do filho que perdera. Augusto não sofreu. Ele aceitou. Leonora passou dias sem comer e noites sem conseguir dormir. Filho gerado em tão pobre leito. Eu me lembro de Augusto ter dito: "Melhor assim. Não temos condição para filho algum". Alguns parentes a visitaram enquanto esteve acamada. Era inverno e o tempo esfriou a simples casa que habitavam. Tudo se tornou gélido. Até mesmo o alimento recém-preparado não causava mais calor. Tudo era frio. Tornaram-se distantes. Leonora não mais obedecia a Augusto. Augusto não mais olhava Leonora. Eles habitavam uma arena ausente de sentimentos. Foi então que surgiram homens na vida da mulher e mulheres na vida do homem. E fingiam não saber. Fingiam não querer saber. A cidade inteira sabia dos passeios de Augusto e das visitas que Leonora recebia. Ela não amava ninguém. Augusto sequer perguntava a respeito de seus dias. Eram estranhos em pequena moradia, comendo juntos a letargia diária e a estranheza do tempo. As lembranças faziam com que Leonora costurasse com força cada botão como se fosse uma forma de consertar a vida passada à bruta cegueira de aceitar aquilo que não mais era amor. E quando havia sido? Costurava a perguntar e, quanto mais tentava entender, sentia raiva por ter sido conivente ao perder a juventude ao lado de Augusto que se tornou murcho com o passar das estações. Quando nos perdemos? Perguntava a mulher. Quando passamos a aceitar nossa mentira como se fosse verdade? Por que não o deixei partir? Costurava ferozmente como quem sente pressa de chegar ao ponto final. Costurava os botões e cogitava a respeito do tempo passado e, por fim, Leonora terminou seu trabalho. Botões presos que não mais se perderiam. Respirou forte como quem se vinga por ainda poder fazer algo pelo homem que, ao seu lado, deixou-se envelhecer sem perceber que poderiam ter escolhido a liberdade. Quarenta anos vividos ao lado de Augusto. E logo mais ele chegaria e sentariam à mesa, comeriam fartos o jantar feito por Leonora, e, mais tarde, dormiriam juntos na cama que os aprisionou ao silêncio alinhavado dos dias.






Image by August Macke

12 agosto 2011

afeto minguante





Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada.

(Cazuza)




Ontem, depois que nos falamos, senti que não poderia dormir sem dizer que entendo sua dor. Falar de amor e insônia e ainda dar conselhos: meu regime lunar. E tudo me parece tão conversa de comadre. Mas preciso dizer que conheço a dor que machuca sem descanso. Parece até martelo em prego torto. Ficamos tão concentrados naquilo que nos fere que o mundo parece diluir por falta de sentido. E a gente fica naquela de olhar foto, reler rabisco escrito em guardanapo e lembrar das horas de um tempo que insiste. Perfeito seria sofrer um surto de amnésia. Porque esta dor chega a ser prepotente. Uma dor de nariz em pé. Uma mágoa que é nódoa e demora a largar de nós. Parece até que a dor nos faz ficar viciados em sofrer mais. É como se não houvesse saída. Daí partimos para o desespero: telefonemas no meio da noite, andar pelas ruas sentindo peso nas costas, não conseguir sorrir e, televisão, nem pensar. Tudo parece nos assombrar. Dor dilacera o ser. E amor completa. Há quem discorde. O amor que se perde é o amor exato para nossos dias? É uma pergunta que precisa de resposta. O que amamos? O outro ou a sensação de estar com o outro? O que nos faz felizes? A pessoa ou a sensação de possuir a pessoa? O que nos completa? O que realmente queremos? Já faz tempo que aprendi algo e, embora não consiga colocar em prática, não paro de repetir aqui, dentro de mim: A dor é necessária. Porém, isto não faz dela um acessório permanente em nossas vidas. É aprendizagem para outros voos. Ou quedas. E, se este amor partido não é recíproco, que não seja de forma alguma. Ninguém precisa viver de retalhos. Você não precisa viver de lua minguante quando há outras luas pelo mundo. Então está doendo? Mas é claro que dói. Somos humanos e não conseguimos ainda entender nossos complicados mecanismos de funcionamento. E, por sermos todo sentimento, não sabemos coordenar isto. Não sabemos racionalizar, fazer soma exata e calcular resultados. Mas eu preciso que me escute com atenção: Você vai chorar por dias. Noites inteiras. Talvez emagreça e queira, por desespero, de volta o amor que é minguante. Mas há um segredo nítido: Tudo irá passar. Quando você menos esperar, pronto, passou. E, muito provavelmente, virão outros amores, outras histórias e outro riso. É fato. O futuro vai trazer tudo. Mas não se comprometa em esperar na porta de casa. O futuro não é imediato. É tartaruga. Mas ele virá. E pode ser que venha no próximo mês, amanhã, ou depois que você chorar tanto até explodir rindo de sua própria cara. Porque a dor também perde o sentido. O mundo continua e você também. E o dia ensina em clara sinfonia: Há lutos necessários e despedidas que não podemos adiar. Perder não é sinônimo de desperdício. É caminho aberto para outro estágio, outro cenário, outra véspera de nova fome que alimento algum irá saciar. Afinal de contas, somos incuráveis. Viciados na arte de amar minguantes mesmo que luas inteiras de amor por nós se declarem. Mas há cura para todo mal. Amor acontece. De repente. Demorado. E quase sempre.








Image by pesare

11 agosto 2011

a métrica do tempo








O tempo está na cozinha berrando ao apito da panela de pressão. No fogão branco sem ferrugem, no retrato de estática paixão, no lençol comprado ontem, na padaria cujas portas lacram a fome ao fim do dia e no travesseiro abandonado às seis da manhã. O tempo está correndo no relógio da sala, no sino da catedral, no remendo de um pneu furado, na copa da árvore que esconde o sol com peneiras, no discreto silêncio das abelhas e na elegância dos mendigos que dormem ao longo do caminho das palmeiras. O tempo está contra o vento, na demora do ônibus, na escada rolante de um shopping repleto de gente, no imã de geladeira que elabora obrigação, na inveja, no corrupto momento do sono, na distância entre cidades, na política, na fraude, no palhaço que sorri em solidão, no diabético vício das línguas, no flácido receio após o beijo, no corte do lírio para presente e no milagre exigido em altar. O tempo está sob os sapatos, na poeira da rua limpa no capacho, na droga que não cura, no resultado de um exame e na incompreensível ilusão de quem sonha. Nas roupas estendidas, em malas feitas, em livros lidos pela metade, no quarto do filho, no quarto dos pais, na luminária de criado mudo, na obrigatória xícara de café ao falar de eventos, no tiro certeiro e na corda que arrebenta o barco e o liberta da âncora em dado momento. Em tudo está o tempo. No aviso de proibição, no sinal vermelho, na fama, na desculpa, na ausência e na gana de comer o que ainda ferve e queima a garganta do impaciente. O tempo não estanca e, irônico, paira sobre telhados fazendo de envelhecido o que sempre fora jovem à ilusória estética do espelho.






Image by Ally Stermer

07 agosto 2011

palavra de conserva







A busca pela palavra exata pode dar com os burros n’água. Exaustiva eu penso. A sensação é simples: uma sinfonia não muito organizada de todos os dias que vivi. E ainda vivo. Para a sorte de deus, ainda estou aqui, entre os viventes. Surge outro pensamento. Ecoa minha sede feito planador sobre a folha estacionada em mesa de carvalho. Agrupados estão o papel e o lápis. Como se fossem amantes eles me olham desejosos. Todos à espera. O relógio balbucia tempo, ganhos, perdas, necessidades. O homem que amola tesouras não veio. Choveu muito nos últimos dias e o homem que amola tesouras não veio. Pego o lápis. Como se diz em minha terra: "Um lápis comum para escrever". Grafite e borracha. Quero tudo manuscrito. Rufem os tambores porque estou a ponto de escrever uma carta. Inicio com o nome a que se destina. Penso que dizer o nome já é dizer tudo. Não escrevo mais a carta. No jornal falam de um sujeito perverso que arruinou crianças. Sinto falta de um tempo inocente que nunca iremos viver. Sempre alguém sentirá mais dor, comerá menos, sorrirá mais. Sinto falta do momento seguinte, da tocha nas mãos do atleta, do refrigerante sem pressa e do café exageradamente adoçado. Sinto falta de tantos atos. O papel ainda em branco sobre a mesa de carvalho e o dia é claro feito sorriso de dentista. O mundo está sério com suas apoteosas deslumbrantes. E o homem que amola tesouras não virá hoje. O que incide agora é a brutal ausência de rotina. Penso em ir à padaria, ouvir música, falar com estranhos. Penso em sexo, oração, viver muito, viver pouco. Viver em tom agudo e ser gigante em terra de formigas. Ou o contrário de tudo isto. Preciso organizar meu tempo livre. Ou aprisionar de vez meu tempo livre. Estou em busca de um sentimento platônico. Que seja charlatão. Em minha igreja todos os santos fazem milagres. E surge a primeira sílaba. Sem Sucesso. Nasce falha como bebês que não nascem. Rabisco rigorosamente o risco. É quase fatal escrever. Um crime de mão cheia. Ajusto o foco da lente. Multifocal é minha cegueira. Necessário é dizer. Dizer escrevendo como crianças ensaiando jogral. Uma sílaba adequada me traduz. O silêncio é a própria voz. Agonia sem pressa e o amolador de tesouras não traz o homem. Escrevo com tamanha força e meu excesso rasga a folha de papel sobre a mesa de carvalho. Escrevo à trágica. Medo de ser falho o ato escrito feito orgasmo fingido. Denso suicídio de não ser compreendido. O escrito sente medo de ser visto. Revisto a palavra como quem a vê pela primeira vez. Singela gritante na folha em branco. Uma palavra sozinha. Assim como uma mulher esperando um táxi. De bolsa em mãos. De garganta seca a palavra nasce. Um javali de imenso tamanho em zona de caça. Leio em voz alta: (...). A palavra diz nada. Apago com força o que havia escrito e o atrito da borracha contra o papel causa um enorme furo. Elevo a folha à altura dos olhos e, para a surpresa deste vulgar absurdo, eu vejo apenas o mundo, um jogo de cadeiras, plantas displicentes a favor do vento e nuvens cortando o céu cor de fim de tarde. Guardo o papel ciclope entre outros vários papéis e penso: chegou o tempo de começar outra vez. Outra folha, outra palavra, e constato: toda zona é cega. Será sempre segredo esta palavra lida, rasgada, fugidia. A fula da vida nunca se deixará ver. E platônica a palavra me vem turva de amor e plena em seu distanciamento. Toda palavra é arbítrio declarando emancipação.





Image by amoxes

06 agosto 2011

duque de caxias, 402, centro








Enquanto tem gente que pensa em aparelhos telefônicos, penso em minhas sombrinhas que são modernas bailarinas e tomam Prozac. Minha preguiça acordou de mau humor e me mandou pastar. E já estou pastando nos verdes campos olhando o tempo e pensando em minhas sombrinhas. Ativamente passiva. Desnorteada não. Apenas pensativa. Já pela manhã, bem cedinho mesmo, pastei entre minhas plantas e vi dois pássaros no fio de alta tensão. Pensei de novo nas tais sombrinhas e, desta vez, meu pensamento efusivo colorido me trouxe a sensação de que ando cortando linhas da versão atemporal das coisas. Sinto muito, Tempo, mas a solidão invade o excesso de ser natureza e ainda sair para comprar pão. Vida simples? Não diria isso. Diria apenas que simplicidade é um trajeto curto através da cidade e ainda um disco antigo. E inventei de limpar armários. Os tais armários embutidos que parecem aprisionar nosso corpo à nossa casa e às memórias e já esqueci as sombrinhas. Embutida em meu apartamento na longa rua que segue em direção ao grande centro, decidi arrumar coisas. Porque elas precisam de mim ou eu preciso delas. Posso ser negligente, mas nunca com as minhas posses. E segui limpando cada canto escondido e as traças, que são tropas de elegantes soldados que não portam armas, tão singelas e tão ingênuas larvas, fugiram de mim e de minha incansável vontade de ficar só. Enfrentei as tropas. Flanela na mão e litro de querosene. Dizem que elas morrem assim. Uma tristeza tipicamente humana me veio à boca, mas eram as traças ou eu e minhas coisinhas. Lembrei logo daquele dito sobre ovos e omelete. É triste, mas devo ser firme. Limpar armários exige de mim uma firmeza intermitente. Aí me deparo com minhas histórias. Gosto de sofrer. Caixas cheias de coisas que não uso. Minha existência me trouxe tudo em demasia. Roupas, viagens, perfumes, fotografias e tudo o que me prende ainda aos embutidos. E agora me perco em fotografias. Pedindo perdão, dia de missa, batizado de sobrinhos, festas em que fiquei tão alta e minha embriaguez era um alarde. Alguém sempre me trazia pra casa e acabava embutido também. E outras fotografias. Liquidações, sorrisos, primeiros tempos, lógica em dia de domingo. E minha vida me encheu os olhos. Até então estava calma e até poderia deixar em paz as traças. Mas depois de rever minhas glórias, decidi acabar com todas. Uma a uma. Decerto que vivi e vivo meio engasgada, levando tapa na cara ou enchendo o embutido de remendos, mas sou feliz que nem reparo. Chega um dia em que a gente sente que é feliz ou abrasivo ou um candelabro antigo e de certo valor e é um tal de amor reflexivo que tudo recebe sentido. Até fotografias. E pensar que tudo começou em sombrinhas, traças e termina o dia e eu aqui, contando em pares, meus afetos e prefácios. 





Image by Thalweg

03 agosto 2011

amor de entusiasta







Escrevo poema feito estouro de manada
Meus poemas falam de amor e mais nada.





Gargalhadas entusiastas e eu no meio, querendo ser vergonha, querendo esmola e brota de minha cara amarela de mestiça esbranquiçada a tríplica sorte dos mendigos. Porque poderíamos morrer, de imediato, de asma, de querências. Mas não morremos. E somos felizes. Do contrário, acredite, já teríamos partido. E partir não tem graça. O bom é ficar. Fincar os pés e as memórias e enfrentar o tempo que é injusto, mas é pleno e já dizia que é infinito. Então nós temos tempo. Não este tempo quadrado do relógio. Falo do tempo do beijo, tempo das passeatas estudantis e da fumacinha engraçada que nos fazia rir. E você não riu. Problema seu porque eu me diverti e nem disse adeus e de que me adianta dizer adeus se ainda estou aqui, dentro da casa, aninhada em seus caminhos, parte da linha que envolve seus botões? E sou desarticulada e falo um monte de palavra e vou dar com a fé barata de quem rasteja. E você me deixou e não ouvi lamento. Lembro que voltou e eu achei bonita a vingança. Vamos abrir mão das mesmices. Vingança é a melhor coisa que existe e não o amor como dizia o poeta compositor. Melhor coisa é tripudiar, esticar meu corpo sobre o seu, deixar você comandar e fingir que sou a isca, quando, na verdade, você é a vítima. E ajo meu amor e arco a flecha em outra direção. E serei bem sincera. Vou amar você até morrer histérica tateando por sexo e faminta por sua confusão. E dizem que todos os homens são iguais. Duvido. Tenho o meu comigo. Longe de mim, mas dentro. Pontilhado desenho cubista que se arrisca a me abandonar. Deixa não, amor da minha vida. Segue comigo que eu sigo o sentido da malícia de meu riso de agora. Sou toda amor e desatino. Vivo às margens da antítese. E o amor existe distraído e cresce à voz dos sentidos. Um gigante estrondo de notas musicais. Amor que nasce, cresce, adormece, acorda e retorna e eu larguei a mania de acenar no cais. Hoje digo adeus ao telefone. Me consome, mas faço como de costume. Se há fogo, eu desmantelo tudo e deixo queimar. E a vingança de hoje é ver você me mastigar. Lento e belo caramujo perdido em algas de outro mar. 






Image by Karolina