25 setembro 2011

mosaico de ocorridos








O dia acordou cedo. Café quente com leite e pão com manteiga. Cama feita com zelo. Penteia os cabelos ainda molhados do banho e assiste as primeiras notícias da manhã. A vida funciona mesmo quando muitos dormem. Pássaros no céu e algumas pessoas presentes na rua. Passa o entregador de jornal. Bom dia abissal de riso bem dormido e a hora passa. Lava roupa que o vento seca. Deixa ao sol o tapete empoeirado. Lava o carro o vizinho que também já está acordado. O vendedor de panelas e cadeiras de balanço lança seu grito para acordar os dorminhocos preguiçosos esquecidos das ordens. Uma moça contente vende pano de prato artesanal. Outro dia, moça. Semana que vem, talvez, eu compre um de seus trabalhos. Mosaico de ocorridos é o dia em seu começo. O trabalhador público caminha em direção ao ponto de ônibus e atesta em seu relógio o minuto exato de pegar a condução. A padaria ruge bromato. O homem vende milho cozido a preço de bananas. A condução do trabalhador chega a tempo. O milho cozido gera emprego. Um bêbado acorda esbaforido. Pensava estar dormindo em casa. Mas era na rua que estava o homem. Segue em paz. Salão de beleza abre as portas, meninada já está na escola, alguém chora por amor partido, o padre decora seu sermão e a beata faz bolo de laranja para alegrar a congregação. O dia acordou cedo e brilha intenso o sol. Mas algo falta ao dia que desperta. Pois é da natureza de todo homem sentir falta da matéria embalsamada do dia anterior.






Image by justindmiller

24 setembro 2011

autodesacato









Hoje vou falar de amor. Munida estou de proteção e da boa cartilha de palavras comedidas e propensas à falta de pudor. Mas não posso me dar ao trabalho de temperar ventos idos. Prefiro o nó da hora, de estar só em alguma companhia e trair minha vontade olhando fotos que não são minhas. Eu amei. Pretérito e não mendigo por um futuro. O café fora moído em grãos de esquecimento e requentado está o aroma de seu líquido. Preciso ser clara antes que a visibilidade de minhas palavras caia na hermética imperfeição do medo. Nunca em minha vida amei uma criatura de caminhos tão confusos. Aliás, nunca amei. Nunca, criatura. Admito ter sentido rubores em algumas ocasiões. Pronta estava em corpo e maquiagem para alguns outros que me afligiam. Porém, meu estado já havia sido tomado. Soldados e grandes tanques invadiram minhas ruas e havia um ditador de força absurda que tanto me tirou o equilíbrio. Mas de que serve equilíbrio quando a rede protetora há muito despencou? Uma vez em campo minado, preparada  eu estava para sua pesada artilharia. E assim ocorreu desde o início. Você me comia e eu comia você com as mãos. As mesmas que redigiram carta, compraram desgraças e perderam sentido e direção. Eu não me importava com mais nada. Era você, eu, janela fechada o dia inteiro e incenso queimando o juízo. E não me importavam passeios, idas e vindas, dia de amanhã e salário. Eu engoli o azar de viver da saliva de um amor. E nada era tranquilo. Deixei a tranquilidade esquecida em minha blindagem aberta, escancarada e rasgada por você. Não sei quantas vezes me despi para que você viesse ao mundo ressurgido em meu ventre. Fiz amor, ou era sexo, ou era pornografia o que ocorria todas as horas de todos os dias? Não me responda em sensatez. Havia também um grande altar de minha alma rezar. Mas o santo calou-se mudo, preso que estava ao mundo e encarcerado por seus milagres todos vãos. Eu fiz o que faria qualquer meretriz ou atriz ou qualquer palavra que o diga. Atraí minha imagem ao autodesacato. E, de sua tirania, todo orgasmo me valia. Eu sangrava estanque querendo sempre você dentro de minha garganta, invertendo pernas, corrompendo meu corpo a todo seu amor. Mas é preciso o fim para que tudo mais se faça em sentido. Você se tornou tirano deposto. Agora fala em deus e vai para cama dizendo amém. Suporto a sede que se encerra. Mas detesto toda atitude de misericórdia e projetos honestos e ruidosamente minúsculos. Prefiro o espelho a me desejar a viver de bom gosto e da boa atitude dos comuns. Por isso não amo mais o homem que agora respira infâncias e recorre a velhas ferrovias para sentir-se completo. Não tivemos filho, nem casa, nem promessa vigiada por papel. Mas tivemos tudo o que tantos buscam: amor, ódio e sorrisos em espasmos de contemplação. E eu amei você, você me amou, o mundo continua girando, amores ocorrem a cada centavo e finda em sarcasmo o que antes era imenso, ingênuo e nosso o aroma dos dias de orgia destilados. E quase nada nos restou. Apenas a parede, o estalido da partida e uma falsa rima que poeta algum desenhou.






22 setembro 2011

extinto








Hoje é meu aniversário. No entanto, não comemoro. Há razões dentro de um homem que o levam mais ao infortúnio do que às parcas celebrações em vida. Entre os presentes, minha família e amigos. Organizaram um almoço a todo meu benefício. Estou sorrindo para um retrato que, assim como outros, não terá mais valor depois de passado o efeito do uísque. Ou talvez tenha. Poderei ver todos que estão ao meu lado nesta altura de meus dias. Meus irmãos (dois — um homem e uma mulher) estão felizes. Aparentam estar. A consciência deles ainda não fora afetada como a minha tem sido desde o dia em que me tornei adulto, adubo de obrigações. Estamos todos conversando, trocando absurdas risadas sobre acontecimentos passados. Minha irmã fala de sua vida e todos riem enquanto malta a cerveja na barriga dos beberrões. Seus filhos já estão crescidos o suficiente para não estarem aqui. Minha irmã, muito solenemente, disse que seus filhos mandaram-me beijos e que precisavam estudar para provas. Eu assenti e recebi os falsos beijos e pensei que, acaso estivesse na idade de meus sobrinhos, eu também não estaria em minha festa de aniversário. Por que alguém perderia tempo (que é precioso e preciso feito cálculo físico) participando de almoço em família onde somente o álcool pode facilitar um pouco mais a vida? Eu não perderia meu tempo comigo mesmo. No estado em que me encontro, naufragado beirando crises, eu não iria querer estar perto de mim. Desce o uísque mais forte agora que me contraio em um abraço solidário entre amigos. Amigos são prósperos inimigos porque adoram assistir nossas quedas. E ainda nos consolam dizendo que a idade matura o que a mente não pôde digerir em tempos de nova idade. Eu queria estar longe daqui. E não há um lugar específico. Poderia ser qualquer lugar que me trouxesse uma sensação que nunca tive de estar vivendo pleno de meus sentidos sem que esta falsa regalia de vida em família me assaltasse. Pessoas acreditam que ser feliz é isto: emprego, carro, contas pagas e uma boa discussão sobre política, economia e futebol. Eu não quero falar sobre felicidade. Meu emprego é uma mancha em minha existência. Todos os dias saio do trabalho mais pesado do que um rinoceronte carregando um búfalo. Entro em meu carro e me dirijo para casa onde encontro esposa e filhos adestrados em frente à tevê. Sou todo sorriso quando volto para casa. Não há mais o que fazer quando tudo mais já está acertado. O destino é eficaz quando o caso é vida de homem comum. Até um mendigo deve viver mais aventuras do que eu. A cada dia um lugar diferente para dormir. E não menciono mulheres. Não as quero. Um dia eu as tive em minhas mãos. Professoras, amigas, namoradas, putas. Todas eram o que eu precisava ter em dado momento. Hoje não largo meu uísque por uma mulher. Não quero seus conflitos aleijados e ultrapassados de mesmices cavalgando em cima de mim. Prefiro a minha mulher que já está castrada como um gato e vive ancorada e dispersa em suas preocupações. O que me dói é a consciência. Me ferem o peso desta mesa farta e meus filhos que ainda não cresceram o suficiente para se sentirem nauseados por todas as horas que permeiam dias corridos. Minha vida é uma baldeação de fatos irrisórios que me determinam cidadão vulgarmente conhecido como João. Este é meu nome. Poderia ser o seu. Poderia ser o de qualquer um. Afinal de contas, não passo de um homem sentado à mesa, tentando forçosamente me embriagar para conseguir digerir tudo isto. E, entre os presentes e passados, um dado estatístico: hoje é meu aniversário e a vida jocosamente me enfarta de cansaço. Outro retrato e a celebração chega ao fim.







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18 setembro 2011

devota feminina








Ele dorme. Após o ato, após trafegarmos por nossas ardentes formas e avenidas, ele adormece à luz do abajur. Capturo o momento tentando observá-lo de forma atenta. Não quero perder o momento de vê-lo entregue a minha cama, ressonando seu cansaço, vibrando em sonhos que jamais irei saber. Penso em acender um cigarro, sentar-me à janela e olhar o homem que dorme. Mas não posso me distanciar desta imagem. Amo a imagem que, à luz do abajur, me parece serena e ausente de conflitos. Observo o rosto. O formato. Sua cabeça descansa no travesseiro e eu me aproximo para sentir de perto todo o detalhe. Para que nada me escape, olho de perto. Nada pode me distrair deste agora. O rosto é retangular de pele alva aos claros dias. Seus olhos, embora cerrados, aparentam a febril leveza com que me adornam. E, mesmo em sua pouca idade, apresentam sulcos ao seu redor. São fundos e peculiarmente adultos em suas pálpebras os olhos. O nariz traz ares de europa ao que vejo. Reto, perfeito, decidido em suas narinas pequeninas de fazê-lo respirar. Nariz de escultura grega, eu diria. Não fossem tão mortas as esculturas eu diria que ele se assemelha a uma delas. Meu Apolo de musa única é o homem que adoro. A boca não é pequena. Por minhas vivências, digo ser esta a boca mais bela já beijada por mim que tantos beijei tempos afora. Os lábios se precipitam avermelhados. São carnudos e desejosos. São grandiosos os lábios do homem que possui o rosto que detenho em pensamentos diários e eróticos. Tanto me afeta este homem como a esbelta cruz da catedral afeta crentes em oração. Sequer parece humano agora que o vejo como entidade. A luz deixa ainda mais clara a pele e as maçãs do rosto são rosadas como as maçãs do rosto de uma criança em impulsos de vasta saúde. Lembro de seu sorriso quando desperto. É aberto, sereno e secreto a meu ver quando o observo. Uma de suas mãos repousa ao lado de seu rosto. Posso sentir o que há pouco fizeram ao meu corpo suas mãos. Nunca meu corpo fora tão investigado e harmoniosamente ferido de amor. Eu amo este homem de olhos fechados pelo sono que nasce do cansaço dos corpos unidos de horas antes? Decerto que sim. Eu o tenho lavrado em minhas palavras e ninguém neste mundo poderá dele saber como eu sei fazendo deste ser esculpido em minha desperta tentativa de capturá-lo como o fotógrafo captura ventanias a mover árvores na louca tentativa de capturar vida. Apolo me contamina de sono e me esvaio adormecida ao seu lado. Que ele saiba um dia que vaguei horas a verbalizar em mármore ou argila sua fisionomia e fiz deste homem a bela e viva escultura minha. Minha igreja, minha raça, minha devoção em obra prima.







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16 setembro 2011

fardo em benefício










Alérgica a removedor de pêlos, Catarina arranca um por um com uma pinça dourada herdada de sua avó. Amola a pinça de tempos em tempos para não perder a velharia deixada por um de seus ancestrais. Na verdade, Catarina pouco se importa com sua família. Visita-os apenas por conveniência e, para, em ocasião da morte de alguém, não ser esquecida em testamento. Ela faz o bem ao próximo. Mas sempre busca o próprio benefício. Ri de quem se diz bondoso sem intenção de beneficiar a si mesmo. Todos nós buscamos salvar nossa própria pele. E hoje é dia de atrair mais salvação. Arruma-se com cuidado. Catarina escolhe suas roupas de acordo com suas intenções. Hoje pretendo demonstrar que sou boa moça, respeito os mais velhos, durmo cedo e rezo ajoelhada pedindo por todos. Catarina é uma grande mulher revestida de mentira e vaidade. Mas isto não a fere. Não mais. Antes do incidente, Catarina costumava ser uma menina brilhante. Diziam seus familiares que Catarina seria uma boa esposa, prendada, ou talvez estudasse e talvez se tornasse um grande orgulho para seus pais. Ela mesma sabia disso. Sentia que havia nascido para carregar o fardo de ser mulher honrada. Ajudava sua mãe em casa, ensinava matemática ao irmão mais novo, dava o corpo ao seu padrinho, deixava que seus tios e tias lhe molestassem o juízo com suas conversas baseadas na bíblia e, ainda, corria a socorrer quem quer que fosse. Uma verdadeira santa era a menina. Mas o que teria acontecido para que tal divindade humana fosse corrompida? Poucos sabem e pousos hão de saber. Catarina apenas diz que, por graça divina, um dia, fora dormir cega e acordou de olhos abertos e viu o mundo como qualquer um precisa ver. Catarina arranca os pêlos com uma pinça, lava o rosto, veste suas roupas e vai à casa de seus pais fingindo nada entender.







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08 setembro 2011

ao rebanho dos bandeirantes









Augusto resolveu se mudar. Comprou barco, muitas varas de pescar, diversos anzóis, iscas para todos os apetites e trilhou seu novo caminho. Mas, por ironia de todo milagre, Augusto se viu iludido e, um belo dia, acordou e nada havia para pescar. É preciso que se saiba: deserto nunca será mar.




Hospedada em um prédio no Recreio, bairro gentil da cidade do Rio de Janeiro, penso em pessoas que não estão aqui e acredito que não estejam em lugar algum. Penso nas pessoas que apenas ocupam espaço físico e se portam caladas e tristes e iludidas vivendo de ontem e meses a vir. Não sei fazer planos a longo prazo. Acho que este é um de meus maiores defeitos. Eu não sei contar com rebanhos senão me forem dados os carneiros. Eu rimo demais. Talvez eu seja o tipo de pessoa que combina cinto com sapato. Tudo na mesma cor. Eu vou sabendo de mim aos poucos. Ontem, antes de dormir, ouvi o arrastar de mobília dos vizinhos do andar de cima e pensei: é como adiantar futuro. Porque posso ouvir os passos destes vizinhos sem que me seja cobrado grande esforço. Talvez um breve esticar de pescoço e nada mais. Já os vizinhos de baixo eu os considero como se fossem o passado. Não os escuto. Mas, se me ataca a curiosidade, para ouvir seus ruídos é preciso que eu fique em total silêncio, me deite no chão, cole bem os ouvidos no piso e, só assim, talvez eu os escute. Mas, como tentei elaborar em minhas divagações, vizinhos de baixo são o passado em minha insone percepção. Eles representam minhas atitudes gastas, meus atropelos e beijos em tempos outros. Não tenho medo do passado. Ele existe em meu olhar e em quase todas as orações que verbalizo. E penso: rebanhos passados não alimentam pastores. Perdoa-me se falo bobagem nesta breve narrativa. Acredito que todos nós temos o direito de fazer serenata para surdo ouvir e eu faço. E todo canto meu será canto do mundo. Estou a serviço de tudo. Seja passado, presente ou futuro. O medo não mais estanca o vinho de minhas taças.





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05 setembro 2011

hemisférios









Esse texto é meu. Meu porque escrevo e porque sigo as opiniões contrárias. O contrário é sempre o imaginário de meus trajetos. Não sei meu nome — ando de costas para o tempo e não uso resina. Não faço parte de relíquias. Não as tenho. Acordo com um pontapé do sol — mesquinho ou misericordioso — tentando enganar meu mau gosto e vivo feliz em minha fase lunar de não querer ser cartão-postal. Não sou. Não sofro recaídas. Não bebo das águas tônicas desses rios sem profundezas. Sou contrária. Uma mala sem cadeados e, revolta, guardo palavras soltas em minha boca. Falo como quero. Não tenho aquele comportamento primário de sentar ao chegar. Sopro e derrubo portas. Catástrofe prevista ou dedicatória em foto de artista. Sempre entro de mãos vazias — vagas, finas e minhas. Sou toda pronomes. Fui, em antigos dias, arremessada pelo vento que não anda por minha casa. Falo o que me faz bem. Ódio me faz bem. Incerteza transparente me alimenta. Anjos em miniatura e desfaleço limpa após ser desejada por mim mesma. Quero a mim mesma. Desejo dos velhos que esquecem remédios e sou branca. Irmã mais nova das idades. Sou o que venho a dizer e digo. Em todas as letras que me suportam. Grande ou pequenina, pobre ou injustiçada, recolhida e linfática, desfaleço na cama e durmo sem pena. Sem pena e sem roupas. Leio por distração e repito milagres. Sou satélite de céu único e aplauso em cena aberta. Sou o que quero ser. E meu texto é meu e olha para você que olha para mim e vê o quanto sou selvagem. Grave estoque de bondade. Sou pele e músculo com tendências hermafroditas. Sou rebelião fora e dentro e amo com pesar os textos que flagram meu pensamento. Texto que não pensa em meu revestir — pouca trégua para minhas lutas. Sou luta e criatura que vence a madrugada. Morro de dia e, à noite, vivo a continuar. Se há estrelas, admiro. Se elas somem, eu as crio. Não sei o motivo. Ando culpando até a ausência do sol. Essa nossa mania, nossa plangente busca por culpados, carrascos, sentimentos odiosos. Estou me libertando disso ou estarei me entregado ainda mais ao interrogatório? Porque se há um culpado, sou eu. Permanecem a lentidão e as fracas certezas. Culpada por viver tudo e digo mais: que me venha a gota d'água. Que me venha a dose exagerada dos excessos. Porque estou aberta e pertenço a todos os hemisférios. E vivo imensa à apoteose dos acontecimentos.







Image by Daniela Calumba