27 dezembro 2011

amadores













Drifters by Patrick Watson on Grooveshark








Vou falar de amor. Em um minuto ou dois. Tudo depende da velocidade do beijo, do medo, da ríspida indiferença em disfarce. Tudo depende da mordida em bela fruta, seus dentes, minha boca, a tensão. Fala-me ao ouvido. Gorjeia o pássaro sombrio homem em minha fala de mulher. Treme ao ouvir meu canto, rasga meu recato, aflora meus espaços e, em breve, tudo mais será nós dois.





― Como se escreve uma carta de amor?

― Toda carta se inicia pela data.

― Não gosto de datas.

― Você não gosta de nada.

― Gosto de falar baixo, gosto de gente perversa e de ver, diluídos ao sol, imensos cubos de gelo.

― Como quer começar?

― Que tal dizer um Olá?

― Olá? Isso não se diz em carta de amor?

― E o que se diz em carta de amor?

― Não sei. Menos olá. E a carta é sua. Escreva. O amor é seu.

― Vou começar pela data.

(Dezembro, mês cara de pau, vem atropelando o tempo...)

― Muito metafórico isso, não?

― É. Meu amor é burro. Ele nunca vai entender.

― Vai. Tenta de novo.

― Dezembro. Sinto vontade.

― Bom.

― Gato.

― Gato? Quem, neste mundo, gostaria de ser chamado de gato?

― Que tal felino? Que tal Meu Querido Thunder Cat?

(Risada. Risada. Risada)

― Escreve. Vou ditar.

― Dita.

― Meu bem...

― Meu bem? Meu amor não é meu bem. Meu amor é outra coisa.

― E o que é então?

― Meu amor é tudo (exceto aqueles cartõezinhos com aquele casal de bonecos pelados). Meu amor não é brincadeira. Está mais para bandidagem. Ele me fere, volta, me esnoba, eu entro em revolta, a gente morre de ciúme e briga feio. Um dia a gente ainda cai na cama. Dragão engolindo dragão.

― Vai. Escreve isso tudo que você me falou.

― Já era. Não consigo repetir. Perdeu o sentido após ser dito.

― Você é louca.

― Sou.

― A carta. Escreve.

― P.

― P?

― É a inicial.

― Mas o nome não começa com G?

― Não. G é coisa do mês passado. Agora é P de pavio, de prego, de palavra. P de pirata. P de pato.

― Como se pode amar assim tão rápido em tão pouco tempo?

― Um mês não é pouco tempo. São trinta dias, divididos em horas, minutos, segundos, outras bocas e outros olhos.

― Você é louca.

― Sou.

― Então inicia com p (de porra). E o que mais vai escrever?

 (Pausa para o pensamento vagar mais)

― Não sei.

― Já é tarde. Vou embora. Fica aí com essa merda de carta. Você é neurótica e metódica. Era só escrever um poema, uma citação... Qualquer coisa. Já que você ama tanto e todo mundo, não faria diferença.

― Faria.

― Faria?

― Fica mais um pouco.

― Não posso. Amanhã acordo cedo.

― Então vai. Mas leva a carta.

― O quê?

― Eu já disse tudo mesmo.

― Não entendi.

― Eu te falei que meu amor era burro.


Corado o rosto de surpresa e, contentes entre dentes, se beijaram no quarto andar. Descobriram que palavra fica em segundo plano. Amor é carta em branco. De toda cor, espécie e tamanho. Acordaram lado a lado no dia seguinte. Cúmplices. Pedintes. Similares medindo pesos e quantidades. Passaram seis meses juntos. Fizeram muitos planos. E depois terminaram o que era romance. Um mudou de prédio para não olhar mais na cara. O outro encontrou amor novo em folha. Hoje mal se esbarram. Mas passaram a trocar cartas. Datadas, cheias de palavras e, de amores, silenciosamente nostálgicas.










23 dezembro 2011

o diário de anton













Try A Little Tenderness by Otis Redding on Grooveshark







Não recebi cartões de Natal. Tampouco presentes. Mas estou feliz. O ano foi bom. Embora eu tenha perdido dois amores, me sinto completa. Um deles morreu de infarto e, o outro, eu mesma matei. Com minhas próprias mãos. Otávio era gentil e leal. Um homem sui generis. Tínhamos um relacionamento perfeito. Ele estava sempre a minha disposição. Costumávamos caminhar todas as manhãs, mesmo antes do café, cheios de fome, nós caminhávamos. E conversávamos a respeito de tudo. Desde assuntos familiares as nossas horas de cama, mesa e montar a fêmea do rebanho. Eu o amava de verdade. Mas ele morreu. Certo dia ele não apareceu para o nosso passeio e liguei para sua casa. Como ele não atendia, decidi passar por lá e ver o que havia de errado. Bati três vezes e ninguém respondeu. Apenas o cachorro latia e grunhia a minha presença. Uma senhora, vizinha de Otávio, percebeu meu ar de preocupação e chamou seu filho para pular o muro e certificar-se de que Otávio não estava em casa. Mas o carro estava na garagem. Mas a casa estava trancada por dentro. Mas o corpo estava imóvel na cama. Foi então que chamamos o corpo de bombeiros, polícia e, logo, a casa estava cheia de gente estranha que não conhecia Otávio e eu, no canto, calada sem acreditar em nada, ouvia alguém ressoar o laudo: infarto. Chorei. Enterrei meu namorado e parti pra outra. Ou outro. Anton, escrito assim mesmo, era alemão. Homem culto, bonito e cheio de desembaraço. Fui arrebatada por ele desde que o vi pela primeira vez. No enterro de Otávio, ele chorava por seu amigo brasileiro. Senti tanta compaixão por ver aquele homem chorar que me encantei. É bonito ver homem chorar. Meu instinto materno berrava por aquele homem. Meu corpo queimava por ele. Anton veio me dar condolências. Ele sabia de meu relacionamento com Otávio. Aproveitou para me convidar para tomarmos um café (eu estava abatida, segundo Anton). Precisava respirar. Enterramos Otávio e saímos juntos. Bebemos e fumamos. E Anton fumava lindamente. Nunca vi um homem fumar de maneira tão perfeita. A fumaça dançava ao seu redor e ele falava e mais fumaça saia de suas narinas e eu me embriagava com a sua voz e eu o queria tanto. Quatro horas após o enterro de Otávio estávamos, Anton e eu, fazendo amor. O corpo do homem era uma verdadeira escultura. Tão belo vestido. Tão belo despido. Suas costas eram claras, assim como o resto de seu corpo, sua boca avermelhada e sua barba lhe davam ares de deus. Eu estava fazendo amor com deus. Era sempre assim. Anton não caminhava, não estava a minha disposição noite e dia e costumava desaparecer de vez em quando. Descobri que Anton mantinha família na Alemanha e outras mulheres por todas as cidades que havia passado. Descobri tudo lendo seu diário amarrotado de tantas vezes que ele escrevia a respeito de sua vida. Anton havia saído para comprar jornal e fiquei sozinha em seu apartamento. Vi o diário e não hesitei: eu li. A cólera me tomou o corpo inteiro. Ele me citou apenas uma vez em seu diário. Li um trecho em que ele dizia quase sentir amor por mim. Eu chorava ao ler isto. Ele quase me ama? Não consegui parar de ler. Cólera, ódio, desespero. Cai em pranto quando li uma página datada do dia do enterro de Otávio, em fortes palavras escritas por Anton, que sabia que me teria facilmente. Sublinhou-se ao dizer que mulher sem homem é sempre a mais faminta. E falava de outras mulheres. Falava e guardava fotos entre as páginas. Mulheres nuas, mulheres baixas, feias, lindas, velhas, moças. Anton não tinha limites. E, para todas as mulheres, um nome apelativo: Flor, Sueca Curvilínea, Deusa da Argentina e outros nomes. Mas um me fez sofrer profundamente. Havia uma mulher que ele costumava chamar de Amor Meu. Enlouqueci ao ler aquilo. Eram páginas inteiras devotas a esta mulher. Havia citações, poemas, fotos de meu Anton. Cólera, ciúme, eu o mataria. E, enquanto eu me tornava mais furiosa, Anton entrou em seu quarto sorrindo. Veio em minha direção e eu, sentindo-me traída, o apunhalei com uma tesoura. Enfiei a tesoura muitas vezes no corpo de Anton. Ele sangrou muito. Eu chorei. Ainda me deram o direito de ir a seu enterro. E agora estou na prisão. Ainda amo Anton. Mais que antes. E principalmente após ler o seu diário até o fim. Descobri a quem ele se referia quando escrevia Amor Meu. Ele se referia a mim. Havia fotos minhas nas páginas seguintes. Fotos tiradas enquanto eu dormia. Fotos de nossas mãos unidas na cama. E sempre que adormecia ele tirava fotos minhas. E também havia uma lista de planos. Anton iria me dizer de sua vida na Alemanha. De sua família. Ele iria me pedir em casamento e ficaríamos juntos. Eu li tudo após, tranquilamente, ligar para a polícia e dizer de meu crime. Sentei-me na cama e terminei de ler seu diário. Anton estava morto no chão banhado em sangue e eu não mais chorava. Eu sorria enquanto ele sangrava. Afinal de contas, Anton me amava.








21 dezembro 2011

sexo por telefone?















Só Se For A Dois by Cazuza on Grooveshark








Meu nome é Gabriela. E todos me chamam de Gabriela. Eu nunca quis ser chamada de Gabi. Moro sozinha, no centro da cidade, bem pertinho do Mercado Central. Estudo Ciências Sociais, trabalho 8 horas por dia e tenho 28 anos. Posso dizer que sou feliz porque, até hoje, nada de tão grave me ocorreu. Duas ou três mortes na família não são suficientes para fazer de alguém uma pessoa infeliz. Sou feliz. Mas tenho momentos de não estar feliz. Assim como todo mundo. Não pago minhas contas em dia, ligo para meus pais esporadicamente, frequento festas quando tenho vontade e também quando não estou nem aí. Como pode ver sou normal. Ou quase. Porque não faço o que muitos fazem e se dão por satisfeitos. Percebi meu problema há dois dias: NÃO SEI FAZER SEXO PELO TELEFONE. Simplesmente não consigo. Não sei o que tenho de errado. Dei o número do meu telefone para um cara que conheci. Gostei dele e dei meu número. Ele passou a me ligar sempre. Quase todo dia. E, já na segunda ligação, começou a gemer. Pensei que ele estivesse bêbado. Mas não. Ele estava excitado. Como assim excitado? Sem toque, nem nada? Mas ele estava. Ou disse que estava. E começou a gemer e a dizer que me queria ("com a voz terna, cheia de malícia"). Te quero, quero você pra mim, estou tocando você, abre bem as pernas, agora estou chupando você. Meu Deus que perdoe porque não consegui seguir o ritmo. Fiquei deitada em minha cama tentando imaginar aquele cara me beijando, me tocando, me tudo. Tentei me sentir como ele estava se sentindo. O cara estava gemendo e se acabando fazendo coisa que menino de 16 anos faz trancadinho no banheiro pra não morrer de vontade. Fiquei toda torta fingindo estar excitada. Vai, faz assim, me beija, bem molhada. Só de pensar entro em paranoia. Porque o cara estava a mil por hora e eu me senti uma mula cansada de correr. O cara perguntou por que eu ficava em silêncio enquanto ele me dizia todas aquelas coisas. Eu calei ainda mais. "Você é recatada, sabia? Cheia de medo, de frescura, cheia de pudor. Você é frígida!". Gente, isso me feriu. Não muito. Mas feriu. O cara meteu a cara em assunto sagrado: SEXO. Eu gosto de sexo. Faço sexo. Conjugo sexo. Mas não quis me explicar. Afinal de contas, só nos conhecíamos por telefone e eu não sabia bem o que dizer. O cara estava ali, todo se gemendo, dizendo que estava sentindo meu corpo na ponta dos dedos, e eu, nada. Fiquei calada. Por isso o cara deduziu que eu sou frígida. Mas ele sequer me conhecia. Por isso eu preciso dizer que, por telefone, meu caro, só cobrança, só fala de mãe, só conversa de amigo. Marco até encontro, dou vexame dizendo que não estou, dou risada. Mas sexo, trocar saliva por saliva, beijar na ponta da língua, só faço ao vivo. Se amor e sexo estão para as pessoas assim como o piso está para os pés, digo a você que não sou cheia de pudor, nem recatada, nem porra nenhuma dessa sua imaginação fértil de me ver na sua frente sem ao menos saber quem eu sou. Na verdade, meu caro, sou da antiga escola que acredita que "amar de verdade só se for a dois". Sexo por telefone não excita. É saída de emergência para gente que tem medo, que se acha feia, ou vive em segunda pele outro tipo de vida. Eu vivo o dia. E, além do mais, não quero provar meu anti-recato, meu despudor, minha vagina em webcam. Na verdade, meu caro, percebo agora que o frígido aqui é você.











16 dezembro 2011

solitários













Solitários quase sempre buscam companhia em bancos vazios, planejam amores nas sufocadas vozes em longos telefonemas fora de alcance e morrem nadando em mares de tantos peixes. Todo solitário é masoquista. Castigam sua dor fazendo reverência a reis depostos, inflam balões para festas que nunca serão convidados e invejam camas onde nunca irão desabar cansados do êxtase que não houve. Solitário é sempre vítima de abandono. Autoflagelado que chora egoísta por uma visita, uma mão que o contorne em traços, um abraço convulso de paixão. Solitário é sempre o cão banido de casa. Um espetáculo de pessoa que desmorona em autopiedade frente ao espelho, chora na quina do quarto e sorri quando amanhece e veste a máscara da espera por outro dia que começa e por alguém que talvez interrompa seu estado mórbido de sofrimento. Todo solitário é mais humano.










Image by Antonia

13 dezembro 2011

tarja preta










Que fique claro como o sol refletido em poça d’água: não tenho medo de tanta coisa assim. A não ser de barata, de gente afetada e de homem que me cumprimenta sem saber quem sou. Boa educação não me aquece. E seu corpo também não. Após nos esbaldarmos mendigos morrendo de sede, direi, enfim, o que desejo. Talvez um disco do Paul McCartney. Talvez eu queira terminar de dizer aquela frase. Ou talvez eu me permita ficar calada. Em boca fechada não entra nada. Nem língua, nem mosca, nem sobra de vontade requentada. Não suporto resto. Nem foto recortada que é para doer menos o que tanto ameaça. Já reparou que estamos sempre em temporada de caça? Queremos, caçamos, usamos, partimos e mais egoístas nos tornamos. Sequer respeitamos restos mortais. E ainda reclamamos de tudo dizendo que sofremos, que morremos, que somos vítimas, que poderíamos ser felizes. Mas como ser feliz? Quem nos diz? Como ser algo sem saber que é este o momento, que está acontecendo, que estamos conseguindo? Não há receita. Ou pista. Não estamos jogando Detetive na mesa da sala de jantar da casa de nossos pais. Coronel Mostarda deixou a biblioteca trancada. Não houve crime. Houve nada. Estamos em nossas próprias casas, valorizando pessoas sem graça, alimentando sonho comido de traça e forjando riso para dizer em voz alta o quanto é satisfatória a vida que levamos. Somos hipócritas? Somos humanos. E conheço gente que evita cocaína, mas se entope de tarja preta. Somos humanos e contraditórios. Loucos pela vitória cultuamos a derrota para que possamos chorar nossos minguados e adoramos fazer sofrer o próximo para que valha a pena nossa esmola. E sobre o que eu falava? Já não lembro. Minha boca fechada se abriu e agora beija a sua que reclama o tempo todo porque você está sempre faminto por excessos e me devora farto de barriga cheia.










Image by Reggie Mace

12 dezembro 2011

abigail




 








Abigail me encontrou nos classificados. Eu já estava cansado de namorar meninas cheias de conversinhas e ideias implicantes de ciúme e asneiras que envolvem relacionamentos românticos. Decidi que teria ao meu lado uma mulher independente, dona de si, que pagasse suas próprias contas e que fizesse sexo oral sem que eu tivesse de implorar. Liguei para o jornal e pedi que colocassem a seguinte nota nos classificados:

Homem. 32 anos. Procuro mulher independente, gostosa, inteligente e boa de cama. Uma mulher que trabalhe por si mesma, que não reclame da barba mal feita, dos respingos de urina ao redor do vaso sanitário e que tenha coragem para viver relação sem cobrança ou discussão. Procuro mulher que esteja pronta para amar a dois.

O cara do jornal, do outro lado da linha, disse que minha nota precisaria de alguns cortes. Nada de gostosa. Nada de urina. Nem boa de cama. Paguei mais caro pela nota para que fosse publicada ipsis litteris. Recebi dezenas de telefonemas após a nota ser publicada. Noite e dia. Marquei encontros, tive várias conversas que terminaram somente em sexo comum (cheio de trivialidades e beijo sem gosto de novidade). Mas, enfim, entre todas que me ligaram, surgiu Abigail. Jovem, bonita, cabelo curtinho. Foda à primeira vista. Nos encontramos em um bistrô. Após o café, percebi que, finalmente havia encontrado a mulher certa para os meus fins. Levei Abigail para casa e trepamos de forma excelente. Foram muitos dias de amor e sexo da forma como eu esperava viver. Abigail e eu éramos o par perfeito. Ela trabalhava e eu não precisava lhe comprar presentes para provar o meu amor. Ela não reclamava. Ela sorria muito. Ela não me ligava a cada instante para saber se eu estava pensando nela. Eu a amei. Mas tudo acabou quando, um dia, Abigail chegou em casa bêbada às três da manhã. Eu não suportei vê-la embriagada, semi despida e cheia de riso na boca. Brigamos. Abigail ficou furiosa e partiu no dia seguinte. Senti saudade. Muita falta de Abigail. Um dia a encontrei para uma conversa de acerto de contas e perguntei por que ela havia respondido ao meu anúncio no jornal. Foi então que descobri. Abigail queria o mesmo que eu. Amor sem cobrança, sem drama, sem responsabilidades. Ela me beijou o rosto e foi embora. E eu suspirei profundo, tratei de viver meus dias e nunca mais coloquei anúncio em jornal algum.











Image by kimberliepee

08 dezembro 2011

irônica funerária











Lícia de Albuquerque Queiroga gostava muito de limpeza. A mulher estava sempre limpando a casa, espanando móveis, lustrando faqueiros e varrendo a calçada. Era noite e dia varrendo a calçada. De vestido florido e avental cobrindo o corpo, Lícia corria com a vassoura na mão e não deixava uma folha sequer em frente de sua casa. Dizem os vizinhos que ela vivia reclamando das folhas da árvore da casa ao lado. Porque a árvore infestava sua casa de folhas, de sujeira, de imundície. Lícia morreu faz dois meses. Visitei ontem seu túmulo no cemitério da Boa Sentença. E o mais engraçado de tudo é que ela fora enterrada sob um pé de graviola que suja seu jazigo inteiro.









Image by gzilbalodis

06 dezembro 2011

legítima











Os casais desesperados da Praça Pedro Américo parecem canibais. Percebo o quanto é flor o amor que sinto e sorrio ao pensar que amo mais que o tinto ardente em gargantas. E ríspido o vinho me amortece porque amar é abismo e, entre meus ofícios, está o maior: amar de sinal aberto e tomar café sem açúcar e amar todos e muitos, um de cada vez. Outrora traí. Meu homem de face escarlate não valia mais que um súbito ataque de euforia. E este me fez nascer de um inferno porque vi demônios e cavalos nas verdes colinas e doente era o amor. Traí e não padeço de arrependimento. Aprendi que todo crime cometido com êxito não traz lástimas e dizer que há perdão é desfazer a perfeita obra que me deixou o amor. E bebi devota de sentidos. Cavalguei e escrevi poemas. Grande amor de fazer tremer o canto da boca, eu o torno legítimo sempre que me largo e descansa minha língua em sua língua e nos devoramos. E os casais ainda se beijam. Em detritos da Praça Pedro Américo mulheres fazem escambo de seus corpos e eu sou a favor do zelo de tais mulheres porque alimentam seus homens e não deixam rastro de fome que os faça fustigar por outras esquinas. Amor é morte ou será que morro de amor e culpo minha própria sede? Afetada, fumo um cigarro. Traída, amo mais e, se me escapa das mãos o amor que tenho, sou voluntária e rastejo sem vergonha ou pudor porque é este o transtorno que causo. Eu amo sádica, intransigente, pornográfica e me rasgo e não me deixe viver doente salivando ao ver os casais da Praça Pedro Américo. Eu sou legítima culpada e dou de ombros aos que fingem não saber nada e aos que bebem em regras quando tudo é libertino. Amor é prova perfeita de diversas mortes quando se movem pele e músculos ao caos do mesmo ritmo.








Image by Tigress66

04 dezembro 2011

sobre cigarros e álcool











Fumar mata. Sei disso. Sempre que acendo um cigarro, penso: estou morrendo. Mas não estaremos todos morrendo? Mas a diferença está na forma como se morre. Sofrer de um câncer causado por cigarro deve ser um dos piores tipos de sofrimento. Ou ter um infarto. Ou doenças circulatórias. Dia desses fui comprar cigarros e vi, estampada no maço, uma foto de um bebê morto. E dizia: vítima do cigarro. Me assustei. A foto realmente me causou repugnância. E, mesmo assim, acendi o cigarro. E, enquanto eu fumava em uma área aberta de um shopping da cidade onde moro, pessoas me olhavam como se eu estivesse segurando uma bazuca. Ou como se eu estivesse fumando crack. Me senti pelada e criminosa. Não há coisa pior. Como eu posso estar fumando este cigarro sabendo que ele está me fazendo mal? Porque é vício. E todo vício é ruim. Todo vício tira nossa liberdade. A sociedade está armada contra o vício do cigarro. Concordo que campanhas de conscientização sejam feitas. Embora não existam mais tantos fumantes desavisados a respeito do mal que estão fazendo a si mesmos. Mas não fazem mal somente a si mesmos, muitos dizem. Fumantes fazem mal a todos que estão ao seu redor. Além de destruírem seus organismos com as milhares de substâncias tóxicas e cancerígenas, estão, também, impedindo que outros respirem ar puro. Mas que ar puro? Então criaram os fumódromos. E lá estavam os fumantes agrupados fumando e morrendo juntos. Cena mais que perfeita. E agora querem destruir de vez com os fumódromos. Quer fumar, amigo? Vá fumar dentro de seu banheiro sufocado por sua própria fumaça. Deixe a sociedade respirar saudavelmente em paz. Fumante, em nossos dias, é tão mal visto que chega a sentir vergonha por fumar. Então eu penso: preciso parar de fumar. Estou me matando, ficando cinza e meus pulmões devem estar destruídos. Concordo com toda verdade. Mas não suporto cegueira. Dizem que cigarro mata, fazem campanhas e mostram a atriz Luana Piovani, gravidinha e feliz, dizer em revista que largou o cigarro e a maconha (Mas era sua obrigação parar com as drogas, Luana. Seu filho não é obrigado a consumir a mesma droga que você). Acho muito bela esta conscientização. Mas e o álcool? Ninguém fala mais nisso? E os acidentes com vítimas fatais causadas por motoristas embriagados? Elas não entram nas estatísticas das vítimas do consumo excessivo de álcool? E as famílias que sofrem por causa do alcoolismo? O mal estar psicológico dessas pessoas também não entra nas estatísticas? E os cirróticos? E os diabéticos que adquiram essa doença devido ao alto consumo de álcool? E os adolescentes que bebem todos os dias escondidos de seus pais? Tudo isso não entra nas estatísticas? Estamos todos belos e contentes combatendo o cigarro. O governo e a sociedade querem, de vez, acabar com o consumo de cigarros. Façamos isso. Mas antes, mostremos também o mal que a bebida pode causar. Estampem nas garrafas ou latas de bebida fotos dos males que o consumo exagerado deste produto pode causar. Mostrem a verdade que existe por trás de cada gole. Conheço muitas pessoas que bebem. E bebem muito. Não estarão essas pessoas morrendo também? E matando? Por que não aproveitar e acabar com cigarro e álcool de uma só vez? Por que não fazer campanha que mostre os malefícios do consumo do álcool? Resposta simples: Cigarro mata aos poucos. E isso custa caro ao governo. Tratar um doente de câncer ou enfisema é bem mais caro do que enterrar dezenas de vítimas fatais assassinadas por motoristas bêbados. Ou seja, "vamos celebrar a estupidez humana", parar de fumar e encher a cara nos fins de semana. Sem dúvida será bem melhor. Pare de fumar. Afinal de contas, meu caro, fumar cheira muito mal e pode matar você. 







Image by serico

01 dezembro 2011

sob o vadio olhar dos cães












As Time Goes By by Billie Holiday on Grooveshark







Conheci uma mulher muito bonita. Creio que posso afirmar ter sido uma das mulheres mais belas que já vi. Pernas grossas, cabelos negros, olhos curiosos e cerejas tatuadas em seu pulso esquerdo. Eu estava sentado ao balcão. Ela ia e vinha buscar sua bebida. Sorriso aberto de boca avermelhada de batom. Deixou marca no copo após beber seu uísque. Diversas doses. Dançou como se celebrasse seu corpo e me olhava de um jeito que só mesmo o diabo enfrentaria deus. Eu ruborizei minha cara pela mulher. Eu, um homem já crescido, vencido por beleza sem nome. E ela dançava enguia em minha mira e todos a olhavam. Senti ciúme. Eu, que sequer a conhecia, já sentia ciúme. Um cara se aproximou e tocou o ombro da mulher. Ela me olhou como uma criança que pede permissão para brincar. Assenti com a cabeça e sorri. Ela dançou com o cara. Duas músicas. Enchi meus olhos ao vê-la se equilibrando em salto alto. Eu entregaria tudo por ela. Naquela noite, nesta vida, a todo tempo, tudo. Mais uísque e outra música. Eu já amava a mulher que me olhava serpente ébria dançando por todo o bar. Nos olhávamos com desejo. Era como se nos conhecêssemos. Já éramos cúmplices de um crime sem culpas. Senti que já era hora de fazer algo. Saber seu nome, ouvir sua voz, olhar nos olhos. Talvez tocar de leve o rosto. Talvez beijar-lhe a boca. Levantei e fui ao seu encontro. Ela sorriu enquanto eu caminhava em sua direção. E nos olhamos. Bem de perto. A luz fosca arroxeada do bar iluminou parte de seu rosto. Vi seu olhar. Toquei suas mãos, sua cintura, confrontei a musa eufórica. E veio a súbita vontade do beijo. Profundo do mais viril mistério. Mas hesitei. Ela me olhou compreendida. Sorrimos porque sabíamos do caminho que talvez viesse nos encontrar: paixão, medo, e todas as misérias que sufocam o que havíamos encontrado um no outro, ali, alados, de uísque loucos e embriagados. Me distanciei da mulher, paguei a conta e sai. Não olhei para trás. Estou certo de que ela também não olhou. Mas eu amei veloz a bela mulher por duas horas e alguns minutos. E já era tudo. Sei que outro dia vou dar de cara com mulheres mais belas em outros bares. E ela vai estar com outros caras. Melhor mesmo não termos fincado passo de apaixonados abobalhados desperdiçando o que vivemos. Agora somos eternos pelo adiado evento. Era tarde e as ruas estavam vazias. Voltei para casa inebriado sob o vadio olhar dos cães.








Image by Olivia