02 setembro 2012

maria-vai-com-as-outras











Don't Rain On My Parade by Bobby Darin on Grooveshark






Difícil é tentar algo diferente quando as pessoas já estão acostumadas a ver você sempre no mesmo caminho. Corto ou não o cabelo? Cancelo ou não o encontro das quartas para fazer aquele curso que tanto quero? Agrado a mim ou aos outros? Digo logo o que sinto ou vivo entupido com medo de me ser? Afirmo minha verdade ou sigo a do vizinho? Estamos sempre entre escolhas e, certamente, por convivermos com tantos amigos e familiares e pessoas quaisquer, tememos o confronto de nos ser dito na cara que aquilo que estamos tentando fazer não combina conosco. Isto nada tem a ver com você! Esta talvez seja a voz de alguém quando você disser que finalmente decidiu fazer algo que nunca fez. É muito comum entre as pessoas ficarem interrompendo umas às outras (principalmente se estivermos falando de amigos). Amigos são importantes. Eles nos fazem sentir mais felizes, mais alegres, eles nos entendem (quase sempre) e nos dizem a verdade quando acham que é necessário. Mas qual será a verdade? Aquela que os agrada ou aquela que nos paralisa? Vejo pessoas viverem suas vidas em prol do outro. E não falo de causas humanitárias. Tais pessoas não mudam de caminho porque serão criticadas. Não vestem roupas diferentes do costume porque causarão susto e amigos não suportam mudanças bruscas. É como se vivêssemos esperando do outro um sinal de alerta ou de permissão antes de um movimento diferente. Sou seu amigo, mas, por favor, se for mudar algo em você, me avise. Não quero imprevistos. E estou falando de amigos que, geralmente, são as pessoas nas quais mais confiamos. Imagine as outras. Aquelas com as quais lidamos, mas que não são tão íntimas a ponto de termos que justificar nossas decisões. Estas empacam todas as mulas do mundo se você permitir não se permitir. Vou me usar como cobaia para esclarecer tudo. Digamos que eu comece a escrever outro gênero. Meus amigos dirão que estou indo bem, mas que eu poderia voltar a escrever como antes. Porque era melhor, entende? Os não-amigos farão críticas construtivas em tom de desastre e dirão a verdade que os ouvidos não se acostumam a ouvir. Isto é ruim de ser lido. E logo estarei me repetindo na forma que sempre agradei. Nunca irei me renovar. Serei a árvore ressecada que se esqueceu de respeitar as estações e não mudou folhas e frutos e nada. Parece bobagem tudo isto. Mas não é. Quantos vivemos na forma exata que esperam de nós e não na forma que nos faça mais felizes? Somos muitos vivendo assim. Enganando nossas verdades mais íntimas para que possamos agradar o grupo do qual fazemos parte. Ninguém quer ficar sozinho e ainda ser criticado. Preferimos não mudar para termos fieis como se fôssemos uma igreja que não se permite outro dogma além do antigo que ainda coleciona seguidores. É uma forma de vaidade contrária. Não fazer para não perder. Não ser para não deixar de ser. Então vivemos congelados, rindo falso e sendo exatamente aquilo que esperam de nós. Permanecemos estáticos morrendo de medo e sendo sempre os mesmos. Até quando iremos nos negar a chance de mudança? Eu não tento responder porque também vivo em bando e os pássaros com os quais convivo também me cortam as asas e eu, por ser igual a eles, também os mutilo. É preciso um pouco mais de liberdade nas relações de todos os tipos para que haja mais espaço para o novo, e que talvez chegue a ser belo e digno de ser vivido. Porque a Maria que vai com as outras raramente vai consigo.

26 agosto 2012

literatura de facebook










Faz tempo, desde os idos dias de cursar Letras, que ouço em literatura disso e daquilo. De bolso, de viagem, de autoajuda, de tudo. E eu compro livro de todo tipo e tamanho. E leio todos os tipos de autores (Exceto Jorge Amado. Não me instiga a leitura de sua obra). Petulância dizer que não gosto de Jorge Amado? Petulância é dizer que o lê só por ler. Isto sim. Mas o assunto é outro. Já vivi ou ainda vivo a literatura de blog. Iniciada não se sabe quando e viva até hoje, embora trôpega e quase parando, ainda insiste esta literatura virtual ou digital (Mas virtual é tão não palpável. Não combina com literatura, embora esta também seja subjetiva). Há um ano ou mais outra literatura surgiu. A literatura de facebook. E ninguém precisa estabelecer isto como uma verdade para que ela exista. Todos os dias eu leio publicações variadas no mencionado site e digo: "Mas espera! Isto é um poema. Aquilo é prosa. Isto mais é literatura". Mas, como não há acadêmicos ao redor para julgar se é arte ou não, as publicações ficam largadas a um simples curtir que nada mais é do que "talvez eu tenha lido... eu li... que bonito!". Claro que ninguém precisa ficar comentando textos para que eles sejam literários. E há muitos escritores hoje em dia. Há pensadores. E também amadores que começam a caminhar. Leio o facebook e acredito que esta seja uma nova era de se reinventar. Críticas sempre existirão. Sejam negativas ou positivas. Ctrl-C + Ctrl-V também. Não vivemos mais os tempos dos folhetins ou reuniões de grupos literários que buscavam formar correntes de pensamento. Vivemos tempos de deuses enormes com seus umbigos salientes. Mas vivemos. E isto já é uma parte da história da literatura que está sendo redigida em javascript e muitas propriedades de página. Se isto nos será gratificante, o tempo virá e dirá de nós. Portanto, só nos resta escrever.











09 janeiro 2012

monogamia e outras quinquilharias












Como prender em uma redoma uma planta carnívora e ainda esperar que ela sobreviva? Resposta sempre negativa. Nascemos, crescemos, reproduzimos (?) e fim. Esta é a nossa história. Talvez tenha sido assim um dia. Mas hoje, em nosso tempo, nos últimos mil anos ou mais, não vivemos desta forma. Nós queremos o prato cheio e sortido. E, mesmo que provemos todas as iguarias, nada irá nos saciar. Não nos contentamos mais com a sobra de um dia de trabalho e sexo comum 1 + 1 = 2 à luz de um abajur. João conheceu Maria, casaram-se, tiveram dois filhos, João descobriu a beleza da vizinha e Maria se apaixonou pela mulher da padaria. História confusa, não? Talvez seja confusa para uma criança. Mas não para nós, adultos, cheios de fome. Nós sabemos exatamente o que estamos fazendo. Será mesmo que sabemos? Todo mundo trai ou será fator isolado? Traição é algo que só acontece na casa ao lado? O que vejo e presencio e vivencio é uma fome de quem nunca teve na barriga um alimento sequer. É fome de amor, fome de companhia, fome de novidade, fome de alguém que nos diga coisinhas boas de ouvir, novas mãos pelo corpo porque as antigas estão calejadas e já perderam o efeito (Toda tabuada decorada se torna cansativa). O novo é sempre melhor. O outro é mais especial (e maior). E comida de casa não enche barriga. Infringir a lei é nossa atitude favorita. Pensei nisso ao ler uma publicação de uma amiga no facebook. Não pensei duas vezes: curti. É isso que fazemos nos dias de hoje para provarmos que aprovamos. A gente curte. Pensei em monogamia e lembrei de minha mãe chorando ao ler as cartas das amantes de meu pai. Uma mulher de meu tempo não choraria. Ela sairia à caça, ou pediria divórcio ou tentaria, no meio de muitas ameaças e brigas, conviver com a traição. Ninguém mais aguenta ser traído porque traição enche nossa boca de raiva e é preciso revidar. Ninguém mais suporta ficar em casa esperando o amor passar. Nós preferimos ir às ruas. Nunca vi tanta gente à caça quanto tenho visto nos últimos tempos. Eu saio (quase sempre) e vejo os olhos sedentos de todo mundo querendo comer todo mundo. Ontem estive em um bar de minha cidade e, embora avoada de bebida, percebi olhares e revides e disputa. É muita gente querendo gente. No meio de toda a confusão de vozes e música, pessoas se beijavam e depois beijavam outras pessoas e beijavam mais e se engoliam e, queira deus que tenham se comido, porque não há nada pior do que desejar e acabar de mãos vazias. Mas a questão que me faz penar em busca de uma resposta é: O que queremos de verdade? Queremos amor (que nada tem a ver com o sexo)? Queremos afeto (que nada tem a ver com amor)? Ou queremos provar que é de nossa natureza viver abocanhando uns aos outros porque a nossa liberdade nos permite? Que comportamento é este o nosso? Talvez seja tudo fruto da solidão. Talvez seja culpa da igreja católica. Talvez seja questão de tempo. Ou talvez seja pelo simples fato de sermos animais racionais, absurdamente emotivos e carnais, e nos sentimos quase sempre sozinhos mesmo em camas compartilhadas. Casamentos, divórcios e amores à parte, monogamia é questão de escolha: ou você cede e aceita caminhar a dois ou então parte pro mundo e come tudo com as mãos. Entre as duas alternativas, eu escolho a terceira: esta condição que faz de mim uma mulher que beija e acredita que uma noite de orgias não vai resolver nenhum de meus problemas. Porque o tesão passa. A febre um dia se acalma. Solidão sempre haverá mesmo que a gente se doe aos ventos. Eu apenas não quero chegar ao fim de meus dias com uma coleção de fotos de tempos remotos, de beijos falsos e sexo anestesiado de mentira. Sou mulher por outros séculos iludida. Amor de mão única não acontece somente na novela das sete. E, hora ou outra, cada um tem o amor que merece. Ou a solidão que de nós se alimenta e cresce.









Image by ARoulette