14 dezembro 2012

carapuça










Lover's Spit by Broken Social Scene on Grooveshark






Tocou-me os lábios com a ponta da língua pensando que, de tal forma, estaria salvo de minha inapropriada vontade de domar cavalos. Beijou-me veloz e, por medo, partiu, multiplicando em centenas de vezes o sentimento que de mim aquele filho da puta nunca subtraiu.





Escrevo com raiva essa tal carta que nem aos correios servirá de entulho. E assumo extrema cólera. Não foi assim que aprendemos na escola? Não devemos guardar mágoas. Então, estou expondo todas, de uma só vez, em folha de papel. E depois vou publicar a coisa toda para que olhos vejam. Porque a gente adora saber que outros sentem o mesmo. Não tem graça sofrer sozinho. É preciso público, estandarte e muito jeito pra coisa. Eu sei sofrer. Mas não é de amor que sofro. É de abstinência. E de você. Eu nunca te amei. Engula. Eu até gostei daquele sexo-show-performático imitando filme. Sexo macrobiótico, hoje eu diria, com a boca amarga de mulher deixada em péssima hora e companhia. Porque eu estava por todos os lados e você sempre fingindo que me queria. Triste é a vida das criaturas marinhas que vivem presas aos padrões humanos. Entende? Não? Vide Cartilha Adulta. Porém, não a leia na presença das crianças com as quais você se deita, se camufla, veste fantasias e se envergonha.

29 novembro 2012

da vaidade dos gêneros










aos gatos
que, embora amanheçam,
permanecem pardos







quadrilátero colorido



Além da linha d'água. Metade voz de um homem – metade peça de teatro. Estarei plagiando ou apenas recriando fatos? Tantas questões anulam dúvidas, querida. Aprenda. Mas o que me incomoda é o estereótipo. O formato escolhido. O quadrilátero colorido das opiniões alheias. Estas que nos aprisionam (castrados, silenciados, oprimidos). E não se engane. Em nossas veias corre isto: Fita métrica e a boca cheia de espinhos.




o gato e a língua



Oswaldo sentia-se só. Decidiu, então, comprar um cachorro, um novo estofado, um par de sapatos e um belo gato. Após ter sua vida preenchida de algo, Oswaldo sentiu-se sufocado, vendeu tudo o que tinha e agora vive de observar os pássaros.




estereótipo



Sou estereótipo. Nasci da boca de alguns e cresci das conversas de tantos. Fui criado para servir de exemplo. Sempre me deformo. Sou ajustado quando calendários mudam e se transforma o mundo. Não tenho língua ou pátria. Falo tudo que por mim transpassa. Herdeiro de muito e nada, aceito o que me é injusto. Calço sapatos quaisquer quando vozes me ordenam pés. Minhas roupas são cerzidas a contento da vaidade dos gêneros. Meus olhos enxergam somente o objeto proposto. Não por mim. Mas pelo outro. Minha boca é de formato único para servir de modelo ao que dizem a meu respeito. Meu corpo inteiro é de momento e, ao passar dos anos, serei sempre outro e este que sou ao mesmo tempo. Aceito o fardo: eu nunca serei eu-verdadeiro.




aos loucos



Todos os loucos deliram. Alguns até falam sozinhos. Há loucos que dirigem seus automóveis (bêbados ou sóbrios). Outros escrevem e mentem e enganam. E há também loucos que deliram lúcidos (estes são os mais perigosos). Comem pães fatiados, trabalham dia e noite, vivem do vinho ao luxo e pagam seus impostos acreditando que estão verdadeiramente sendo justos.




infante maturada



Quando criança eu tinha pavor da máquina de lavar. Aquele imenso buraco parecia me engolir a cada giro no vácuo de seus escuros mecanismos de lavagem. Rio de mim ao pensar que eu sentia medo de um mero eletrodoméstico do qual sempre faço uso. As idades transformam coisas ao passo que avançam. Hoje estou mais contida, menos exuberante e não faço dramas. Sinto apenas medo de tudo e de todos e de alguns rastros de lembrança.












10 novembro 2012

insone esfomeada









Abro o livro e calo meu verbo. Ele se vira na cama. Cobre o corpo como se fosse inverno enquanto o calendário anuncia primavera. Olhe! Uma borboleta pousou em meu braço. Ele diz com a voz embargada que não barganha: Durma! E apague a luminária. Não obedeço. Continuo lendo e sigo com os olhos que precisam ver o voo da pequena borboleta que ainda é criança. Sinto a ânsia de me atrever. Inclino a cabeça para observar seu corpo. Ele dorme. Ergo as cobertas porque preciso descobrir o que elas escondem. Estou cautelosa e rítmica e percebo que o corpo adormecido reconhece minha presença. Insone esfomeada. Eu me altero. Preciso sentir em minha boca o arpão que atravessa peixes. Eu o coloco entre as mãos. O homem suspira em um sono que é leve (seu corpo está desperto). Estou despida e não me distraio. Ouço tiros a duas quadras. Mas a cena está fechada entre nós dois que desejamos iguais. Ele está em meus lábios. Pulsa e se ergue. Engulo o cerne em cheio. Sento ao seu lado e abre os olhos o anjo que é perverso sorrindo e dizendo que conhece meus ataques. Sentimos a mesma fome ou será diferente em cada um? Não quero interrogar. Ouvimos mais tiros. Em um segundo ou dois a madrugada se torna o silêncio de nossa respiração e logo ele está dentro de mim: afoito, translúcido, único. E já não há mais sono. Ele me coloca sobre seu corpo e agora me desfaço em movimentos que não são lentos e que são tão velozes. O arpão está lançado aos peixes. Eu me abro feito livro, asas, janelas de casas. Sou a mulher descansada e trêmula e não nos importamos com mais nada. Sou abraçada, permaneço calada e a luminária que não está apagada nos faz pensar que talvez estejamos em Paris.










30 outubro 2012

o peso da inexistência










Tão bela borboleta. Suas asas coloridas, seu voo leve ao redor das flores. Talvez seja melhor não vê-la para não sentir na língua esse amargor de inveja. Com apenas um toque de minha mão esquerda e está morta a criatura. No chão. Finjo não ter culpa alguma. Era apenas uma borboleta. Há milhares delas. Não estão extintas. Mas, e se eu continuar desejando aniquilar a beleza que estes seres representam, serei forte o bastante para suportar o peso da inexistência?


(e não renunciaras à cobiça)








Formigas tentam assaltar o pote de açúcar. Com um leve sopro elas debandam. Elas fogem. Covardes. Desobedientes são as formigas. E eu também sou. Desobedeci à regra crucial: distanciamento. Passei a cercar seu campo, sabendo horários, nomes de pessoas, eu sabia até a roupa que você vestia. Insanidade constante em dias de domingo que são os mais longos da semana. E essa saudade? Como faço para alterar seu ritmo e desacelerar seu passo? Alterada está minha veia dramática. Como isso foi me acontecer? Eu, que sempre me defendi tão bem dos ataques aéreos, terrestres, submarinos, hoje sou isto: Catedrática na arte de fazer ameaça em guerra sem bandos. Uma formiga retorna ao pote de açúcar e me observa. Mas como posso saber se a formiga realmente me olha? Enlouqueci. Não continuarei com as perseguições. Optei pela arte da gravura. Cobrirei de fotos um cômodo da casa (imagens suas, jardins, lugares e nossas viagens). Estou tentando esquecer. Mas, para isto, preciso antes enfrentar-me. Saquear-me. Maltratar-me. Tomar um duplo de abuso com pedras de repetição. Todos os dias eu me lembro de nós. Frente ao espelho eu recordo seus atos. Você me olhava fixo para que eu não me desviasse. Mas como eu poderia se estava tão presa ao que se movia dentro de mim? Cheguei a me sentir vulgar ao venerar suas vontades. Detalhes surgem como se eu ainda os estivesse vivendo. Talvez eu conseguisse exibir o que sinto em um território clássico de cama, beijo e puro teatro. E se eu o visitasse? Um café, por favor? Eu poderia fingir não sentir nada. Juro. Prometo. Decreto que não tenho medo de cair de joelhos e implorar por uma reprise de outros tempos. Eu queria apenas encher minha boca de você. Engolir milímetros de tudo que já fomos. Quando nos interrompemos? Por quê? E quem foi o primeiro a abortar o plano? Eu ainda não havia terminado. Para mim era como se tudo continuasse. Pare a cena no início do bombardeio gentil de conversa fiada. Eu nunca acreditei mesmo nas coisas que você falava. Eram mentiras francas, adestradas, camufladas e tão bem decoradas. E eu as adorava. Você mentia e eu pulsava à vontade de tudo: rasgar roupa rente à pele e arrepiar de vertigem as vértebras de minhas necessidades. Era como morrer e voltar mil vezes girando em torno de seu corpo tão absoluto, bruto, quase puro sangue o cavalo marinho de tantos mares em aberto. Uma mecha de cabelos em torno de meu dedo indicador. A pequena formiga saltou no açucareiro. Tento resgatar o inseto. Vasculho o pote de açúcar e não a encontro. Tudo é branco. Tão branco que chega a ser vazio. Outras formigas surgem. Estão marchando velozes em torno do açúcar que deixei cair em minha tentativa de resgate. O que você deixou para trás? O que eu ainda não vivi? Eu penso em tudo que ainda está por vir e provavelmente não irei viver porque a vida causou pane no romance. Que histeria a minha por tão absurda ninharia. Seu amor era regrado, dosado, e o meu era todo, inteiro, possessivo e sem disfarce. Só agora percebo: O meu amor era o ataque.









22 outubro 2012

monotemático









Se a gente não ama, se a gente não fode, que porra a gente veio fazer nesse mundo? Você tá vivendo uma fase tão boca suja. Não é boca suja. É consequência. Digamos que eu esteja inconsequente das coisas que me acontecem. Ele não tinha o direito de sair assim, depois de tudo que eu fiz. Mas o que você esperava? Uma despedida com banda marcial tocando, uma festa, o quê? Eu não esperava nada específico. Mas queria algo. Só não sei dizer o quê. Então não coloque a culpa no cara. Deixe o tempo cuidar de tudo. Tempo? Que tempo? Essa coisa que faz ponteiro de relógio criar rugas na pele. Conhece? Conheço sim o tempo. Não parece. Você fala como se fosse uma menina estúpida que só enxerga o tempo passado. Olhe mais o futuro. Já faz mais de um mês esse seu drama, Lu. Vem cá. Você anda lendo o quê? Por que pergunta isso? Porque você está parecendo um livro de autoajuda berrando no meu ouvido. Será que você pode ficar do meu lado ao menos dessa vez? Mas eu estou do seu lado. Tudo que digo é pra ajudar. Faz tempo que te vejo vivendo essa merda de relacionamento que não te alimenta. Como assim não me alimenta? Você tá chorando? Sim, estou. Eu choro às vezes. Cara, como você pode ficar chorando por coisas tão sem valor? Você só vive disso? Será que sua vida é só essa merda de querer sentir tudo e não olhar em volta? Sabe há quanto tempo eu tô chorando por causa dele? Não sei. E sinceramente não me importo. Eu não aguento mais. O que sei, de verdade, é que você vive atirando pra todo lado e dizendo que se sente carente. Você sempre trai, Lu. Não é traição. Já te expliquei. Só fiz certas coisas pra manter o clima. Você sabe que não gosto de monotonia, tédio... Eu já disse que não aguento uma boca só. Eu tenho essa porcaria de necessidade de ter sempre alguém mais. Tá vendo? Você é maluca. Se não aguenta uma boca só, deixe o cara ir. Deixe que ele viva essa merda de vida também. Você não tem o direito de pedir coisas que você não pode dar. Você não tem maturidade pra isso, Lu. Você entende? Eu entendo. Mas você não pode falar com tanta autoridade a respeito de algo que não conhece. Porque você nunca tem ninguém. Se não posso falar, por que me ligou? Por que vive me enchendo com essas suas histórias? Eu não ESTOU com ninguém porque quero estar só. É minha escolha. Tá bom. Pode parar com o papo autoajuda porque já tô melhor. Tomei uma porcaria de calmante. Tomou o quê? Já disse. Tomei calmante. Vou apagar e, por deus, não acordo mais. Engraçado isso, sabe? O que é engraçado? Nem em deus você acredita, e agora me vem com esse papo de suicídio. Não falei em suicídio. Não? Se entupindo toda de calmante? Coitadinha. E tem mais. Você queria que ele desse o fora. Você só não tinha coragem de dizer. Você não passa de uma menininha que tem medo de perder. Você é uma criança. Quer saber? Eu não vou ficar sozinha aqui. E não quero mais te ouvir com esse sermão. Eu vou sair. Eu quero alguém essa noite e vou sair por aí e andar até dar de cara. Pra onde você vai? Espera. Não desliga. Não sei. Mas vou. Desculpa te encher. Juro que não faço mais isso. Te amo. Fica bem. Espera. Lu. Não desliga. 

─ Ela vai sair e fazer merda. Eu conheço.

(Confuso, arfante, ele pega as chaves, a carteira e sai).

Que roupa? Que porcaria de roupa? Sou uma menina estúpida? Então farei muitas coisas estúpidas. Ela veste jeans. Fica andando de um lado a outro, zonza, sem saber o que fazer. Eu exagero em tudo. Eu erro em tudo. É tanto chute e murro em porta e parede que se cansa e se deixa cair, ali, no meio da sala. Luana adormece e só acorda com alguém batendo na porta: Abre, Lu. Abre a porta. Sei que você tá em casa. Ainda tonta e exausta de chorar por tudo e por nada, levanta, olho mágico, desnorteada, você? Chorando (mais que antes) ela diz "Me abraça porque tô mal". Porra, que medo de te ver fazendo merda com a tua vida. Eu preciso sair. Eu preciso de alguém. Você sabe. Porra, eu só queria que alguém entendesse. A voz, antes tão rouca ao telefone, agora ali, falando de perto, de forma terna, diz:

─ Eu sei que você precisa de alguém. E eu tô aqui.

Se olham (por alguns segundos) e mergulham em um beijo que os faz sentirem confusos, estranhos, iguais, simétricos em tantos sentidos. Imersos um no outro, sem drama, sem fala, se apressam à cena seguinte. A solidão desaparece dando lugar ao que sempre estivera nítido desde o princípio.





18 outubro 2012

pornográfico gentil











Extraordinary Machine by Fiona Apple on Grooveshark






Hoje fiz sexo. Gozei três vezes. Não. Duas. Aliás, gozei uma vez. Ou terá sido metade de uma gozada? Minhas pernas tremeram, revirei olhos, gemi muito, senti frio na barriga e um tipo de cócega lá embaixo. Tudo sintoma de orgasmo. Então, só posso ter gozado. Tudo bem. Não gozei. Mas pelo menos senti alguma coisa. Já posso dizer às minhas amigas que faço sexo e gozo. Meu Deus, que tipo de mulher me tornei? Vazia feito balão de festa e, ao mesmo tempo, preenchida para homem ver. Uma coisinha bem nutrida. Não era assim que me queriam? Pois bem, estou pronta! Depilei as pernas e o canto. Aliás, cantão. Depilei tudo. Arranque cada pelo deste corpo que nunca me pertenceu. Ordenei à moça da clínica estética que arrancasse tudo. Estou careca (de saber que depilação de nada vale se a armadura não estiver tilintando de tão nova). Por isso eu malho todos os dias da semana: bunda, peito, perna, tudo. E sinto dor nas costas (sempre). Eu não consigo mais me abaixar tanto para posar em tantas direções. Prática estranha é o sexo. Tanto nado para chegar ao nada. Não nego amar dar minhas trepadas. Posso dizer trepada ou será melhor foda? Trepada é tão feio. Pejorativo pornográfico. Mas, desde que resolveram transformar camisinha de vênus em preservativo, fazer amor saiu de moda. Eu digo que trepo. E muito bem. Rebolo, reflexiono, vulgarizo tudo, falo sacanagem, cato o homem da próxima e acabo com o meu. Marquei jantar com cliente. Adoro bancário (advogado, contador, desesperado, de todo jeito e cor). Eles fazem cálculo de tudo (falo dos bancários). Adoram calcular a vida. Arrumam cada palavrinha imbecil como se estivessem empilhando moedinhas. E calculam o gasto em contas e, no primeiro encontro, sempre pagam o jantar. Eu fico feito relógio que dá corda: falo tudo decoradinho. Eu agrado muito. Eu sei elogiar homens. Aprendi tudo na Cláudia. Sempre pensei que tais revistas mentissem naqueles testes. Mas não. É tudo verdade. Eu sempre considerei um monte de bobagens aqueles joguinhos de marcar x. Mas funciona. Vai ver os homens se tornaram fáceis de enganar. Ou talvez eles tenham aprendido a se deixarem enganar. Vai ver eu esteja me enganando. Talvez eu não saiba elogiar tão bem assim. Talvez eu precise malhar mais os glúteos. Talvez eu precise de um terapeuta. Eu não aguento mais fingir. Gozei nada. Talvez eu não seja toda esta amostra grátis de sexo libertino e pernas abertas que exibo em minha foto de perfil.

14 outubro 2012

posta-restante










Certa vez me perguntaram:

Mas você escreve aquelas coisas tristes feito a Clarice Lispector?

Nunca calei a boca com tanta força de vontade. 
Na maioria das vezes falo e me defendo e faço guerra. 
Mas, neste dia, sorri e sai e fim de papo.








Futuros amantes by Chico Buarque on Grooveshark








Esperar é um verbo impaciente. Transitivo ambivalente. Fora de minhas gestações. Acordei de sobressalto. Eram quase cinco da manhã. Esquentei leite e preparei café. Ainda era muito cedo para ouvir música. Eu não queria ouvir som algum além dos leves passos de meus chinelos azuis. Acendi um cigarro para pensar. Esta é a desculpa. Nunca digo fumar por vício. Eu fumo para pensar. E pensar me custará muito caro. Com os anos irei saber. Abri a porta e tudo estava em silêncio nas ruas. Ouvi apenas o tilintar da corrente da bicicleta do guarda noturno. Pensei em molhar as plantas e talvez me sentir mais competente por acordar cedo e fazer algo em benefício do outro. Que fosse pela planta, pelo meio ambiente, mas nada que fosse apenas por mim. Pude sentir o egoísmo de minhas palavras da noite passada. O egoísmo de fugir da realidade cogitando culpa no outro quando não há culpado algum. O vaso trincou, o amor acabou e ele me olhou nos olhos (bem abertos) e disse que iria embora. Eu jamais pensei que ele chegaria a fazer algo tão corajoso. Me largar representava um ato de bravura, porque, com esta minha cabeça de achar que sou a única, não reparo que há melhores atrativos no mundo. Sou única em nada. E este gosto de se saber não única pode levar alguém à loucura. Por isso acordei tão cedo. Sozinha na cama de casal coberta com lençol bordado. Para quê tanto teatro nesta vida se tudo é apenas isto: dia, tarde, noite e muitas rupturas? Lembrei-me da conversa que tive com uma amiga. Ela está triste. Está sozinha há tanto tempo que não sabe mais se consegue dividir um cômodo nem que seja com um amigo. Ela me disse sentir falta de amor. E também falamos a respeito da ausência de homens que queiram se relacionar. Não há homens, ela me disse. Estamos perdidas em meio a tantos gays em nossos ciclos sociais. Se ao menos as proporções fossem iguais. Mas há tantas mulheres em busca de alguém. Sorrimos exagerando a respeito dos gays e não há como não parecer homofóbica ao dizer que todo mundo resolveu sair do armário. Ainda não entendo este termo: sair do armário. Mas entendo a sensação de estar em um mundo em que tudo é satisfação sexual e mais nada. Será que é só isto mesmo? Aperto o cigarro entre os dedos e me lembro da imagem dele saindo pelo portão. Eu não me despedi. Não era fim de novela. Era vida séria e de verdade. Vida que dá calos nos pés. Ele foi embora, irá entrar em contato apenas por questões financeiras e papéis a preencher e eu agora tenho que lidar com a realidade: Não sou única. É um gosto amargo este. O cigarro está acabando e penso no fim de linha. O dia está mais claro e sinto a angústia de quem não possui mais do que aquele instante de vida. O ar de meus pulmões está sufocado por este tempo de partida. Eu não o amava mais. Há tempos. Mas faço drama porque preciso de um motivo, uma paixão, algum indício de que ainda existo. Decidi molhar as plantas. Nada mais poderia ser feito. Piso forte com meus chinelos azuis e dou água às plantas. Se depender de mim, o meio ambiente sairá ileso nesta caça de todos contra todos, pouco amor e todo sexo, e tantos armários escancaradamente abertos.

21 setembro 2012

cria mácula











Eu realmente gostaria de escrever um poema de amor. Talvez eu pudesse suprir minha necessidade de palavras amáveis, gentis, da mais bela forma versadas. Mas me ocorre a consciência. E esta criatura não me permite sonhar. Que dirá o delírio! É ela, a veracidade envenenada em conserva, alimentada por passados tempos falidos, pelas militâncias, pelas madrugadas ébrias, pelo sexo mal dito, pela maconha salivar na boca de tantos, pelos muros dos bairros antigos, pelas alcovas de estranhos, pelas mãos maternas e braços paternos, pela falta de educação e excesso de credos, pelo padre e a batina, a culpa e a cretinice aguda das gerações das quais teci meu rastro, é somente por causa desta cria mácula de meus infernos que padeço mais do que o homem que morre de fome em comércios. Pois não é somente o mal físico que nos mata. A consciência é o genocídio de todos os ideais mais tolos. Por isso não escrevo poema de amor para inflar meu peito de vaidades. Nada mais me arde a não ser o peso de enxergar tudo sob a ótica maior deste demônio destruidor de ingenuidades.










17 setembro 2012

sabotagem












É costume entre as pessoas colocarem coisas na calçada. Coisas sem uso, velhas, quebradas. Sempre haverá alguém que as queira ou que talvez precise delas. Acordei cedo e levei meu cachorro para passear. Não muito longe. Passeio curto de um lado ao outro da rua. Percebi que havia uma mulher cuja profissão é catar coisas no lixo (Desde garrafas a roupas velhas, latas e papel). E lá estava a mulher no meio do entulho. Ela e seu carrinho de carregar restos. Evitei olhar porque nunca estou pronta para sentir algo que me faça ainda mais humana. Fingi não perceber que a mulher estava vasculhando tudo, remexendo aqueles sacos de lixo cheios de comida passada e coisas muito sujas. É de ferir a consciência de qualquer um. De repente alguém perguntou à mulher: "A senhora quer levar essa cômoda velha?" Eu parei. Era realmente uma cômoda velha. Cinco gavetas e, segundo foi dito à senhora que catava lixo, estava cheia de cupins. Era uma cena de novela da vida real. Sem intervalos. A senhora disse que levaria a cômoda. Percebi o quanto ela ficou feliz ao saber que a cômoda seria dela. Inspecionou o objeto como se estivesse em uma loja a ponto de escolher seu bem mais precioso. Ao menos aquela mulher teria um dia melhor, pensei. E, quando eu caminhava de volta ao portão de casa, percebi que a mulher estava enchendo as gavetas com tudo o que ela havia achado no lixo. Roupas, garrafas e muitas latas. E também montes de papel. Mas não poderia esta mulher se contentar com a cômoda e deixar o resto para trás? Não. Ela precisava levar também o que havia de excesso. Parei para observar tudo. Me senti extremamente indiscreta. Mas eu precisava ver o fim da história. A senhora, após entulhar as gavetas da velha cômoda com muito lixo, pediu ajuda a um homem que passava e os dois ergueram a cômoda para colocar no carrinho. E, naquele esforço todo, a cômoda se partiu. Virou ruína. "Eu disse à senhora que a cômoda estava cheia de cupins e que não aguentaria peso", alguém falou. A senhora suspirou e disse algo que não entendi. Catou as garrafas e todo o lixo que caiu ao romper do móvel, colocou tudo em seu carrinho de sobras e saiu resmungando. Eu fiquei atônita. E perplexa. Me senti extremamente triste. Mas por que a mulher não levou somente a cômoda? Por que ela quis tudo? Por que estamos sempre querendo mais do que podemos carregar? Dei de ombros. A resposta me veio cerrada quando entrei em casa e me senti nauseada ao enfrentar a sala repleta de coisas desnecessárias.








09 setembro 2012

varal dos dias











Não tenho mais tempo para ser polida.

(pedra)






Marés



Você está aí? Estou. Que alívio! Pensei que eu estivesse sozinho. Bateu solidão? Não. É drama. Que é diferente de solidão. Entendi. Vamos conversar? Vamos. Você começa. Mas eu não sei como começar. Não sabe? E como veio parar aqui? É a maré. Eu fui trazido pela maré. Sabe quando a gente se deixa levar? É isso. Eu me deixei levar. Se levar pelo quê? Pela maré. Eu já disse. Mas há vários tipos de marés. Qual delas trouxe você? Eu não sabia que havia tantas marés. Mas, já que preciso dizer uma, acho que foi a maré das dúvidas. Por nunca saber, fui levado. E como se sente? Ainda não sei ao certo. Mas isto já é quase saber, não? Não saber ao certo é saber alguma coisa. De onde você tirou isso? Da maré das conclusões. Você foi trazido por ela? Tenho quase certeza que não.





Off Line



Vivemos tempos tão modernos que logo irão mudar as inscrições em lápides e cemitérios. Ao invés de Aqui Jaz ou coisa semelhante, teremos Aqui Off Line Fulano. Partiu pra outra e deixou muita dívida no banco.





Esmalte



No domingo ela morreu. Na segunda cuidamos do funeral. Na terça fui à manicure remover o vermelho das unhas. Na quarta liguei para o hotel que havíamos reservado para nossa viagem à Cabo Frio. Na quinta cancelei as passagens. Na sexta cai num choro descompensado. No sábado evitei o mundo. E muitos dias se passaram e o luto me fez esquecer de alimentar o gato. Não paguei as contas. Não revidei afrontas. Somente no dia em que recebi pelo correio um cartão enviado por ela (um pouco antes de sua morte), percebi que não seria justo me deixar partir também. E, se eu continuasse a renunciar minha vida, sofrendo de forma tão vasta, eu a deixaria morrer duas vezes ou mais. Decidi viver novamente e não me senti como se a estivesse esquecendo. Eu estava apenas continuando do ponto de onde havíamos parado. E até hoje mantenho suas fotos afetuosamente trancafiadas em uma caixa de sapatos.













04 setembro 2012

hemisfério distante








Holocene by Bon Iver on Grooveshark







Há dias em que a melhor decisão é adiar. Tudo. Não se decide nada, não se faz nada, nem uma planta do lugar pode se mover. Ficar suspenso na certeza inerte de que tudo poderá se resolver amanhã. E certamente irá. O tempo não perdoa o que nasce propenso a acontecer. Então é preciso adiar a decisão que poderá mudar o rumo de coisas que podem esperar. É apenas um dia. Um momento. Um instante fotográfico que em algum tempo terá a sua vez na retina de nossos eventos. São apenas 24 horas de espera. Nada pode ser tão urgente que não possa esperar que se esteja pronto para o passo adiante. Há exceções. Sim. Há todas as exceções. Mas também há tempo para que se dissipem a dúvida, a angústia, a pressa de alcançar o outro lado da rua que, por questão geográfica de evidente escolha, encontra-se submersa em um hemisfério distante.

02 setembro 2012

maria-vai-com-as-outras











Don't Rain On My Parade by Bobby Darin on Grooveshark






Difícil é tentar algo diferente quando as pessoas já estão acostumadas a ver você sempre no mesmo caminho. Corto ou não o cabelo? Cancelo ou não o encontro das quartas para fazer aquele curso que tanto quero? Agrado a mim ou aos outros? Digo logo o que sinto ou vivo entupido com medo de me ser? Afirmo minha verdade ou sigo a do vizinho? Estamos sempre entre escolhas e, certamente, por convivermos com tantos amigos e familiares e pessoas quaisquer, tememos o confronto de nos ser dito na cara que aquilo que estamos tentando fazer não combina conosco. Isto nada tem a ver com você! Esta talvez seja a voz de alguém quando você disser que finalmente decidiu fazer algo que nunca fez. É muito comum entre as pessoas ficarem interrompendo umas às outras (principalmente se estivermos falando de amigos). Amigos são importantes. Eles nos fazem sentir mais felizes, mais alegres, eles nos entendem (quase sempre) e nos dizem a verdade quando acham que é necessário. Mas qual será a verdade? Aquela que os agrada ou aquela que nos paralisa? Vejo pessoas viverem suas vidas em prol do outro. E não falo de causas humanitárias. Tais pessoas não mudam de caminho porque serão criticadas. Não vestem roupas diferentes do costume porque causarão susto e amigos não suportam mudanças bruscas. É como se vivêssemos esperando do outro um sinal de alerta ou de permissão antes de um movimento diferente. Sou seu amigo, mas, por favor, se for mudar algo em você, me avise. Não quero imprevistos. E estou falando de amigos que, geralmente, são as pessoas nas quais mais confiamos. Imagine as outras. Aquelas com as quais lidamos, mas que não são tão íntimas a ponto de termos que justificar nossas decisões. Estas empacam todas as mulas do mundo se você permitir não se permitir. Vou me usar como cobaia para esclarecer tudo. Digamos que eu comece a escrever outro gênero. Meus amigos dirão que estou indo bem, mas que eu poderia voltar a escrever como antes. Porque era melhor, entende? Os não-amigos farão críticas construtivas em tom de desastre e dirão a verdade que os ouvidos não se acostumam a ouvir. Isto é ruim de ser lido. E logo estarei me repetindo na forma que sempre agradei. Nunca irei me renovar. Serei a árvore ressecada que se esqueceu de respeitar as estações e não mudou folhas e frutos e nada. Parece bobagem tudo isto. Mas não é. Quantos vivemos na forma exata que esperam de nós e não na forma que nos faça mais felizes? Somos muitos vivendo assim. Enganando nossas verdades mais íntimas para que possamos agradar o grupo do qual fazemos parte. Ninguém quer ficar sozinho e ainda ser criticado. Preferimos não mudar para termos fieis como se fôssemos uma igreja que não se permite outro dogma além do antigo que ainda coleciona seguidores. É uma forma de vaidade contrária. Não fazer para não perder. Não ser para não deixar de ser. Então vivemos congelados, rindo falso e sendo exatamente aquilo que esperam de nós. Permanecemos estáticos morrendo de medo e sendo sempre os mesmos. Até quando iremos nos negar a chance de mudança? Eu não tento responder porque também vivo em bando e os pássaros com os quais convivo também me cortam as asas e eu, por ser igual a eles, também os mutilo. É preciso um pouco mais de liberdade nas relações de todos os tipos para que haja mais espaço para o novo, e que talvez chegue a ser belo e digno de ser vivido. Porque a Maria que vai com as outras raramente vai consigo.

28 agosto 2012

esteja sóbrio quando me ligar












ou bêbado. Não me importo. Eu posso ouvir um bêbado alucinar-se por sua vida perdida. Porém será mais propício que esteja sóbrio. Porque não irei duvidar da voz que me cala a língua. Não pensarei ser loucura sua palavra dita em meu ouvido. Embora eu seja íntima da loucura e de seus propósitos, não me traga a falta de lucidez que em mim já é imensa. Esteja sóbrio ou ébrio (mas com alguma sensatez). Fale mal de seus vizinhos, de sua rua, de seu emprego. Fale mal da política. Reclame dos sapatos baratos que comprou ou dos calos que fazem doer seus pés ou de sua família que está sempre a pedir dinheiro emprestado ou de seus amigos sacanas que bancam honestidade e tropeçam em mentiras. Fale do amor de sua vida que decidiu ir embora por falta de diálogo, por falta de companheirismo, por falta de superficialidades que não importam à mente de um homem bêbado, talvez impotente, talvez imaturo, talvez estúpido. Quero ouvir sua voz de toda maneira. Mas é sempre adequado que esteja inteira sem a rouquidão inóspita de uma bebedeira, ausente da fala que trará ressacas de arrependimento. Sei como se sente aquele que busca ser ouvido em pleno desespero ou em um momento em que o mundo acaba no fundo de um copo vazio ou de uma garrafa amarelada sem líquido algum. Conte verdades (reais ou não), fale dos impostos, do preço dos alugueis, de sua última visita a um lugar que não conheço. Conte de suas mulheres, de seus homens (acaso existam), fale de suas humilhações, mas também não me poupe da elegância de falar da alegria, das borboletas submersas em vida que sugam plantas e voam ao redor de seu corpo quando se sente livre e descalço do peso de tudo. Conte histórias que não ouço de muitas bocas porque eu o postulei único em meu altar há tempos ocupado por um deserto de adorar ninguém.






Unison by Björk on Grooveshark






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26 agosto 2012

literatura de facebook










Faz tempo, desde os idos dias de cursar Letras, que ouço em literatura disso e daquilo. De bolso, de viagem, de autoajuda, de tudo. E eu compro livro de todo tipo e tamanho. E leio todos os tipos de autores (Exceto Jorge Amado. Não me instiga a leitura de sua obra). Petulância dizer que não gosto de Jorge Amado? Petulância é dizer que o lê só por ler. Isto sim. Mas o assunto é outro. Já vivi ou ainda vivo a literatura de blog. Iniciada não se sabe quando e viva até hoje, embora trôpega e quase parando, ainda insiste esta literatura virtual ou digital (Mas virtual é tão não palpável. Não combina com literatura, embora esta também seja subjetiva). Há um ano ou mais outra literatura surgiu. A literatura de facebook. E ninguém precisa estabelecer isto como uma verdade para que ela exista. Todos os dias eu leio publicações variadas no mencionado site e digo: "Mas espera! Isto é um poema. Aquilo é prosa. Isto mais é literatura". Mas, como não há acadêmicos ao redor para julgar se é arte ou não, as publicações ficam largadas a um simples curtir que nada mais é do que "talvez eu tenha lido... eu li... que bonito!". Claro que ninguém precisa ficar comentando textos para que eles sejam literários. E há muitos escritores hoje em dia. Há pensadores. E também amadores que começam a caminhar. Leio o facebook e acredito que esta seja uma nova era de se reinventar. Críticas sempre existirão. Sejam negativas ou positivas. Ctrl-C + Ctrl-V também. Não vivemos mais os tempos dos folhetins ou reuniões de grupos literários que buscavam formar correntes de pensamento. Vivemos tempos de deuses enormes com seus umbigos salientes. Mas vivemos. E isto já é uma parte da história da literatura que está sendo redigida em javascript e muitas propriedades de página. Se isto nos será gratificante, o tempo virá e dirá de nós. Portanto, só nos resta escrever.











20 agosto 2012

página prévia











Para escrever a respeito do mundo é preciso estar distante do mundo. Não há como vivenciar tudo e ainda tentar explicar. Adoro observar senhoras mendigas encaixotando seus restos no fim da tarde para saírem em busca de um lugar mais acolhedor para dormir. Decerto, se fosse eu uma das senhoras ou se com elas tivesse a chance de conviver, eu não me daria ao trabalho de escrever a respeito delas. Ou de mim. Porque estaria completo o meu desgaste e minha palavra não valeria mais do que os restos encaixotados. É preciso que haja espaço entre isto que chamo arte e aquilo que chamam vida. Eu só falo de amor porque não o tenho. Se acaso eu o tivesse e dele vivesse as vinte e quatro horas de um dia, eu estaria tão saciada da mordomia de um beijo que me calaria. É preciso um vagão que alongue o trem em cada precipício entre os trilhos. Tenho minha mãe ainda viva. Gosto de conversar com minha mãe. No entanto, nunca tive a vontade verdadeiramente honesta de escrever a respeito de sua vida. Haverá o dia em que eu talvez escreva a respeito de minha mãe partida. E não me prendo a explicar o que pretendo com estas palavras. Eu sou o corvo. A negra criatura que busca a carne dos sacrifícios. E apenas sou este corvo porque dele nada sei além da matéria que minha laia observante permite. Porque vivo distante, embora me aninhe entre vigas de pessoas e convivências. Eu nunca estou por completo nos cantos em que estou. Há partes ausentes. Elas me escapam mesmo que eu tente ferozmente prendê-las entre minhas unhas femininas. Não sou poeta de nada. Tampouco serei honrada por escrever enredos felizes. Estou em busca de um parto que me traga um ser vivo e inocente. Escrevo somente o que não posso viver dada minha limitada existência. Por isto leio livros que me contam fatos inéditos. E por isto mais me inquieto ao criar novas histórias. Nunca me satisfaço com o que realmente quero ou espero do que irei dizer. E muito embora minha alma possua a decadência próspera que me faz andar ao lado dos rejuntes sujos e empoeirados e das vísceras que poemas me contam, tenho em mim a leveza pura de uma virgem ornada e faminta a espera de seu único homem.









18 agosto 2012

noturna ambrosia











Daredevil by Fiona Apple on Grooveshark





eva urbana



Caminhões e seus arranques em Serras de Botucatu me roubaram a quietude de andar pelas ruas, de ser alaúde do sorriso aos pés. Homens, capitães, velhos padres em sermões. Todos eles me roubaram a inocência de estar no mundo e nada entender de nada com nada. E agora cresço violada. A criatura eva do paraíso castrada. E sofro inebriada a febre das eras passadas. E, desta vez, tenho um trato com o diabo que me carregue e, de rarefeito, nem de amor quero viver. Anuncio em voz velada: ao inferno todos vocês.





cardíaca impulsiva



Sou tímida. Ora disposta. Ora adormecida. Meu coração tem vida própria. Auto funcional a equilibrar-se em corda bamba. E torna-me cativa quando a mim registra e me faz desabar. Sou vítima de mim. Mulher legítima sem porte de defesa. Agulha fervorosa em imenso jardim. Propensa à queda. Disposta a vitória. O luto nunca me castiga. Tampouco amarga minha língua. Sou era de viver diversas rapsódias múltiplas e enfrento o rosto ao espelho e carrego apenas uma culpa:

Esta.





nota



Meus amigos todos julgam me conhecer.
Eu não sei de mim.
E quem é você?

15 agosto 2012

três











prematura



Há pessoas que morrem vivas. Não falo da morte física. Digo da morte absurda quando alguém se ausenta aos poucos, às vezes de forma abrupta, de nossos dias. Hora dessas lembrei-me de uma pessoa que me era tão importante e essencial quanto a palavra que escrevo. Era a criatura sem a qual nada mais me valia. Mas perdeu-se de mim. E não posso ser exata ao dizer o momento que percebi este desaparecimento. Esta morte prematura. Sei dizer apenas que nada mais há desta pessoa dentro de mim além da saudade fria de quem observa lápides.




nem gigantes nem formigas



Cultivo rosas porque nada mais tenho a cultivar. O tempo havia, mas passou. A rua desfilava gente, mas agora é atalho. Aviões cortavam nuvens pelo meio. Montes de nuvens espalhadas pelo céu de nossas casas. Havia tudo no mundo. Desde formigas a gigantes trajando ternos. Hoje, nada. Portanto eu cultivo rosas. E meu cultivo é o que existe e para sempre existirá. 




calendário mórbido



Alegra é o nome dela. Éramos íntimos. Hoje, distintos. Tão bela me parece ainda. Mas tão indiferente está Alegra que sutilmente cruza as pernas e sequer me olha. A esperança que carrego é a hora de minha vingança e por ela espero ao dobrar de esquinas. Alegra um dia terá o que merece. E eu poderei enfim sorrir. Esta é a alegria de quem sofre. A espera. O dia após o outro dia. O cálculo de um calendário mórbido que, ao invés de colher a soma desperta, se embriaga em contar as dívidas.










12 agosto 2012

receituário azul









Nunca tive pretensões de ser alguém.
Sempre me contentei comigo mesmo.

(Marcelo Rezende)





Sábado. Noite. Conversa comigo porque estou me sentindo um tanto só (com acento agudo na partitura inferior da pélvis). Só penso bobagens. E, para não mudar o rumo de minhas preocupações minúsculas, estou inadequadamente envolvida com alguém que poderia ser o tal, o escarlate, a letra agregada ao pescoço. A igreja católica só me tem feito favores. Desde o início. E a bíblia me ajuda a me entender. Eu faço exatamente aquilo que é considerado impróprio. Você também? Então somos iguais. Conte-me a respeito de sua vida. Café para dois. Iremos nos beijar agora ou depois? Mas por que nos beijaríamos? Sequer nos desejamos. Sequer nos sabemos. Eu sou viciada nisto de querer o que não quero. Você também? Está ficando cada vez mais difícil a vida quando percebo que não sou diferente de ninguém. Eu me sinto tão pijama e chinelo, tão feijão com arroz, tão domingo e macarronada. E olha que já mudei bastante. Mas vamos ao resumo da semana: cama, mesa, banho e mais banho que cama. Estou doméstica. Dona de casa bondosa com mendigos. Assisto a jornais e varro a sujeira da calçada para a casa do vizinho. Estou (novamente) tentando escrever um livro. Personagem feminina que sofre de nada e trabalha e compra roupas e sente inveja e raiva. Uma trama mal calculada fornicada em chic lit. Talvez eu acerte alguém em cheio. Mas também não sei se é este o meu objetivo. Eu não quero mais acertar. Nem errar. Eu só quero entender como algumas pessoas conseguem se sentir tão serenas. Pessoas serenas e calmas e de paz com o mundo. Enquanto a merda nos engole, eu observo o comportamento de toda esta gente. Se um dia eu me tornar serena e calma, saiba: receituário azul. Pois estarei completamente insana. Ou demente. Tentando controlar o corpo ao completo desequilíbrio da mente.








Every Single Night by Fiona Apple on Grooveshark

05 agosto 2012

desfragmentados











falsa lírica



Se não me faz companhia, tenha o requinte de não me fazer solidão. Estou farta de nascer sempre do mesmo lado de minha cama, de meu ventre, de meu assoalho gasto de estrela alguma. E, por alta voltagem, advirto desinibida: não me escreva em poesia. Não use metáforas, não cause alegorias, não castigue mais meus ouvidos com sua falsa lírica. Não me venha em vão.





bélica aversiva



Em francesa atitude declaro uma guerra lúcida e inevitável. Napoleão me arde os olhos de tanta ambição que me perpetua a carne, a alma, toda a razão. Entre votos de escárnio e honras de minha corrupção eu luto e marco o tempo em meu metálico e brutalizado relógio de brotar remendos e cirzo os rasgos nos trajes de meus solitários soldados violentos. Eles sorriem de mau agrado, ferem ao corte da palavra inoxidável e correm aos campos a exterminarem toda criatura cansativa e agradável (que lamenta, que chora, que cora) que se diz aos ventos para ser ouvida em multidão. E a luta percorre dias entre as perdidas plumas que vulgarizam luas e cavalgam os soldados de meus sentidos enquanto eu açoito faminta minhas unhas, meus planos, minha memória doente das vistas. E a promessa permanece intacta, pois há em mim a misericórdia mundana de desejar ainda e, sobretudo, conservar-me adequada, vulgar e humana.








29 julho 2012

pragas e revoltas








Tenho a impressão de que o domingo é feito para adiantar ou atrasar de vez as coisas. É um divisor de águas. Um marco de um tempo que nos reduz.


(Flora Conduta)









Eu tenho revoltas cerzidas nas costas porque me é mais perceptível o que tento esconder. E ando em bandos a impura convalescente de amor ferido, de orgulho e ainda sofro da ressaca de ontem, de tempos, séculos adiante. Eu não sei me podar. Sou planta carnívora que devora a própria semente, a flor, o espinho e perfuro em cadências minha estirpe e meu rancor. Tudo em mim me consome a libido e a pavor. E nada muito me sacia. Nem a língua nem a saliva. Quero o ódio inteiro dentro de meu corpo católico que ora por minha própria combustão. Lírica ao orgasmo eu recito nomes de homens que andam de mãos dadas com suas mãezinhas coitadinhas e solitárias que se tornam virgens. Sagrado seja o nome daquele que me faz rastejar por sexo. É por ele que acordo e durmo e nunca me deixo vista porque sou esta criatura apenas quando estou sozinha deflorando a florzinha criada em escola para mocinhas. Meu passado ainda me flagela entorpecida de memórias. E, acaso você faça parte de minha história, aleluia e glórias. Rogo em pragas que esta fome que me devora violenta se perpetue religiosa a devorar você.








23 julho 2012

relâmpago contraído







ao homem




Procuro deus em cada vão de mim. A desgovernada égua andante segue sem bandos e sem pecados e, acaso os tenha, perdoa-me antecipado. Minha forma de vida é inequívoca e insensata é a fome do querer. Arrependidas mendigam as meninas que me habitam e oram por compaixão. Serei a puta acavalada que sustenta homens ou apenas a simplória que contribui com impostos e aposto que deus virá porque ele existe e está digno de aplausos em cada página de jornal. Há paz onde há deus onde há fé onde nada mais há. Feliz em média estatura caminho entre homens e busco significado entre beijos. Deus está por vir. À porta, tapete e boas vindas. À mesa, vinho e regalias. Ao espírito, vaidade e sangria que estilhaça todas as faces que observo no espelho em que há deus, em que deus me falo, em que deus me cria. E insiste mais a vontade em crer do que a própria crença que simula meu respeito, meu afeto, meu condensado temor. E, ao encontrá-lo, na sala de estar, sujando o piso de casa com seus pés de andar, eu o reverencio pecaminosa em minha casta identidade feminina, nunca corrompida, e deus me serve de alívio ao postular que não tenho culpa da sede que sinto e tudo se deve ao fato de ser de hormônio meu suplício e que a vida me engula por completo e que tudo me venha em excesso porque há fé em meu ato de honrar palavras secretas que ressalvam noites solitárias de ir ao vasto mundo à caça. E algo me ensina que tudo mais que existe, por ordem matemática, não se curva à necessidade de uma prova física. Não é palpável o paladar da palavra, do andor e da desgraça. E ocorre em mim o mesmo que ocorre em ti. A densa vontade, a fome escarlate, a febre que arde. E, ao bruto ressurgir do que nunca é nascido, assombrado de amor em silenciada alma, rubro de tudo, saudoso de nada, enlaçado em revoltas desperta vingativo o deus que há em mim.








14 julho 2012

penélope









Há muito tempo tento lhe escrever. Aqui, sentado à janela, busco acumular palavras rabiscadas em papel e escrever-lhe uma carta. É difícil colocar meus pensamentos e vontades da forma que os desejo lhe dizer. Tudo me vem embaralhado como se minha vida acontecesse toda de uma só vez como um rio que carrega o mundo na cheia. Sei que irá me ler e pensar que continuo inexato e nada prático com as coisas. Talvez eu não tenha mudado mesmo. Mas há novidades, Penélope. Não moro mais no velho apartamento. Agora estou duas ruas acima do antigo prédio azul cobalto. Moro em um prédio mais moderno. Embora sejam apenas quatro cômodos, há espaço. Um banheiro antigo cheio de azulejos que não são mais fabricados. Você adoraria ver. Há também a cozinha que se une à sala e o quarto onde durmo religiosamente solitário. Decorei o lugar da forma como você decoraria se estivesse aqui. Finalmente arranjei uma mesa para minha máquina de escrever e uma estante para os livros. Está tudo organizado. Lembro-me de quando reclamava de minhas bagunças. Sim, eu realmente era muito desorganizado. Agora não sou mais. Há gavetas nas quais organizo papeladas, cartas, documentos, contas pagas. Há também um armário para guardar minhas roupas. É embutido. Veio junto com o apartamento. Não é muito grande, mas ainda há quatro gavetas e prateleiras vazias. Você sabe que não me preocupo muito com estas coisas pequenas de roupas e bobagens. Tenho apenas algumas camisas, um terno e três pares de sapatos que me servem muito bem. Nada tenho a reclamar de minha vida. Trabalho em um escritório de advocacia. Um amigo me ajudou a conseguir este emprego. Redijo documentos e até recebo bem por isto. Posso, com o dinheiro, passear por lugares que antes eu não ousaria. Lembra-se de quando fomos àquele restaurante da Avenida Sul? Você me olhava espantada ao perceber que do cardápio poderíamos apenas escolher entre um cesto de torradas e dois cafés. Passamos fome, Penélope. Eu sei o quanto você sofreu tendo vindo para cá viver com um escritor que acreditava que iria ganhar com a publicação de livros. Isto nunca aconteceu. Você trabalhava em casa de família enquanto eu escrevia ininterruptamente para jornais e revistas que nunca me aceitaram o trabalho. Eu sempre dizia que, um dia, tudo iria melhorar. Você acreditava em mim. Tão bela ao cair da noite, cansada das conduções e do trabalho, ainda fritava ovos para que comêssemos juntos nossas refeições dignas de nosso amor pobrinho. Não era assim? Hoje lembro de tudo e sinto-me culpado por não ter conseguido ir além de meus sonhos tolos. Me dói lembrar de minhas noites na boemia e de seu sofrimento ao me ver chegar em casa amarrotado de mulheres. Eu me arrependo tanto, Penélope. A idade me trouxe uma verdade imensa aos olhos: eu a perdi porque sempre pensei mais em mim ,e, talvez, meu amor fosse imaturo para seguir naquele tempo. Mas os dias ensinam, minha querida. Os dias ensinam. Não me envolvo mais em badernas comunistas, como você costumava chamar. Eu cansei da causa por entender que apenas interesses maliciosos a sustentavam. Hoje sou apolítico. E sou digno. Ninguém mais vira o rosto para mim nas ruas. As pessoas me cumprimentam. Sou um trabalhador e tenho um ofício. Ainda escrevo livros e os publico sem a grande ambição da vaidosa juventude. De saúde, estou bem. Embora tenha adquirido certos problemas respiratórios (o ópio, Penélope, ele me pegou). Mas me cuido. Tomo medicamentos e estou sob controle. Tanto que aqui está a prova. Em suas mãos. Só deus sabe quantas vezes ensaiei esta carta. E por tantos anos. Quantos? Cinco? Doze anos? Apenas dois? Tenho na memória a fotografia do dia em que você partiu. Sequer olhou-me nos olhos e aquilo me feriu porque me senti indigno de seu amor. Você chorava e eu estava atormentado de culpa. E assim tenho vivido durante sua ausência. Ainda há tempo, Penélope? Escrevo para saber se ainda temos tempo para mais uma visita àquele restaurante. Quero que olhe o cardápio e escolha o que quiser. Não precisamos mais nos poupar de viver. Não tenho mais a febre das ruas. Não tenho damas de companhia. Não traio sequer sua imagem de Nossa Senhora da Conceição. Eu fiz um altar para sua imagem. E eu oro todos os dias. Entrei em contato com sua irmã que mora na ilha e assim consegui seu endereço. Sua irmã não quis me falar de você. Eu respeitei a vontade dela. E hoje acordei com esta fome aglutinada de escrever para você e dizer que a quero novamente para que possamos viver o que a juventude de 10 anos atrás me cegou. Eu a quero comigo, Penélope. Eu quero você ao meu lado. Venha viver comigo, Penélope. Não se preocupe com trabalho. Eu tenho meus rendimentos agora. Porém, se acaso tiver seguido com a vida e tenha filhos e marido, desconsidere meu pedido. Pois, se estiver bem e feliz, é o maior sinal de que não a mereço. Mas, acaso esteja livre e ainda tenha por mim o mesmo sentimento, estou pronto, Penélope. Pronto como nunca estive. Sedento e sereno por você. Eu quero você ao meu lado para que as pessoas possam nos cumprimentar juntos, de mãos dadas e em paz com o nosso amor. Estarei esperando. Escreva-me ou simplesmente venha. Eu estou aqui.


Com amor,

Seu.


Semanas depois o remetente fora morto por bala perdida, seu apartamento entregue à família (mãe e dois irmãos) e, à chegada de Penélope à rodoviária, ninguém a esperava. Penélope decidiu ir ao apartamento, uma vizinha a comunicou do ocorrido e Penélope, toda chorosa, retornou a seus quatro filhos e a seu marido bêbado, desempregado e sifilítico.






08 julho 2012

papo clarice









Por que está tão calada? Silêncio. Só o motor do carro faz ruir o tempo. Não quer falar ou não quer responder? A boca se abre e diz:

─ Não seria a mesma coisa? Falar não é a mesma coisa que responder?

─ Nem sempre. Estou falando e nem por isso estou respondendo.

─ Está sim. Você está respondendo ao meu silêncio.

─ Lá vem você com seu papo clarice.

─ Não é papo clarice. É só minha forma de pensar.

─ É papo clarice sim. Parece que você engoliu a Lispector. Já te disse para dar um tempo nos livros dela. E no Sartre também. Vai acabar louca.

─ Acabar? Como é que pode uma pessoa acabar? É como se fosse filme? Livro? Rua sem saída?

─ Acabar é quando se chega ao fim da vida. Até o ponto que a pessoa é vista pela última vez. Um exemplo: Eu conheço um cara que estudou tanto que acabou maluco. Acabou porque, na última vez que o vi, ele estava andando pela rua cheio de pastas e papéis e falando sozinho. Então este é o fim do cara. Ele acabou assim.

─ Você não me convenceu com esta explicação. Pessoas não acabam.

─ Nem quando morrem?

─ Nem.

─ Então você acredita em vida após a morte? Não sabia que era kardecista.

─ Não sou kardecista. Não sou nada disso. Só acho que a morte não é o fim.

─ E o que vem depois da morte?

─ O velório. E depois o enterro. Funeral. Cremação.

─ Mas você está falando da matéria física. Isto nada tem a ver com alma e essência.

─ Não se acaba quando se morre.

─ Não? E o que acontece?

─ Depois do funeral e do tempo que se passa após a morte, a gente continua existindo através do que se diz ao nosso respeito.

─ Você realmente acha que depois que você morrer as pessoas vão ficar falando de você pra sempre?

─ Para sempre é outra coisa. Não faça confusão. Estou falando que ninguém acaba. Digo que a gente continua.

─ Você fumou um baseado hoje?

─ Não. Parei.

─ Desde quando?

─ Uma semana.

─ Está explicado então. É melhor voltar a fumar. Está ficando meio obtusa.

─ Obtusa? Como assim?

─ Sem explicação.

─ Mas estou cheia de explicações. Estou falando o tempo todo e explicando. Se você não me entende, é outra história.

─ Eu não entendo você?

─ Muitas vezes não.

─ Quando não?

─ Quando acordo e não quero conversar, por exemplo. Quando fico em silêncio pensando. Você sempre acha que o motivo é outro.

─ Não é bem assim. Eu só procuro conversar pra saber se você está bem. É assim que as pessoas são. Elas interagem pra saber se estão bem.

─ Só isso?

─ Só isso o quê?

─ Pessoas interagem somente para saber se estão bem? E quando estão mal?

─ Mas é isto que estou dizendo. Se pergunto a você por que está calada e tal você vai e fala e eu posso deduzir se você está bem ou mal.

─ Acha mesmo que pessoas podem ser caraterizadas por dedução?

─ Acho sim. Eu deduzo o que você sente por suas palavras.
─ Só por palavras? E meu silêncio? Não te diz nada?

─ Muitas vezes não.

─ Então quer que eu fale o tempo todo para saber como estou me sentindo? É isso? E na hora do sexo? Quer que eu fique dizendo tudo que estou sentindo?

─ Veja só como você complica tudo. Não é assim. Não é preciso falar o tempo todo. Mas eu preciso ouvir respostas. Teu silêncio nem sempre me responde.

─ O que meu silêncio te diz então?

─ Eu não sei. Você me atordoa. Entende?

Carro à esquerda. Rua afrente. Orla. Praia e sol.


─ Não entendo. Se o meu silêncio incomoda e também incomoda se eu falar sempre, não sei bem o que você quer. É você quem está causando confusão. Não vê? Se precisa sempre de uma resposta minha para saber se estou bem ou mal, então você não me conhece.

─ Conheço você sim.

─ Quanto?

─ Quanto o quê?

─ Quanto você me conhece?

─ O suficiente.

─ Suficiente para quê?

─ Para mandar você calar a boca porque já não suporto mais suas perguntas. É isso. Cale a boca. Volte ao seu limbo. Fique aí pensando enquanto eu lido com a praticidade e dirijo este carro e levo você à casa da praia.

─ Mas quem disse que quero ir à casa da praia?

─ E não quer?

─ Não.

─ Por que não me disse antes?

─ Porque você não me perguntou. Você apenas entrou no carro e dirigiu e se incomodou com meu silêncio e tomou suas decisões.

─ Você ficou maluca, sabia?

─ Maluca? Por ler Sartre ou por estar com você?

─ Não vou responder.

─ É. Acho então que eu acabei.

─ Como assim "acho que eu acabei"?

─ Fiquei maluca. Não é esta sua opinião.

─ Neste momento é.

─ Então é fim. Porque esta é a última vez que você vai me ver. Guarde bem a imagem. Em sua história, eu acabo maluca. Na minha, você continua. Pena não ter me conhecido melhor.

Desce do carro, mochila nas costas e some na estrada de paisagem amarelada em dia de sol nas encostas da praia.




30 junho 2012

o baú











Sentou-se em frente ao velho baú. Soprou a poeira que havia sobre o tampo de madeira envernizado. Tocou o móvel como se afagasse alguém que muito amava. E então o abriu. Sorriu ao ver o que continha o baú. Um abajur quebrado, duas máquinas fotográficas antigas, algumas agendas de anos passados ainda não escritas, papéis de todo tipo, cartas, um envelope contendo um exame de raio-x, uma boneca de porcelana, um porta-retratos sem foto e uma porção de outras coisinhas. Pesquisou a importância de cada uma delas. Tocando-as. Sentindo-as. Sorriu novamente porque percebeu que nada tinha grande importância. Eram apenas coisas que preenchiam um baú que precisava ser preenchido. Nada que tocava fazia diferença para seus dias de agora. Examinou as agendas, os papéis, as máquinas fotográficas... nada mais era importante. Questionou a necessidade de continuar guardando coisas e amontoando-as como se fossem relíquias. Como se fosse o tesouro de um baú pirata. Era preciso se desfazer de tudo e limpar o baú. Retirou cada item colocando-os no chão. Passou a limpar o antigo móvel. Usava uma flanela. Usava as próprias mãos para retirar teias de aranha. Sentiu-se limpa e coerente ao estar fazendo algo que realmente fazia diferença. Limpar o baú representava deixar para trás o passado de coisas que agora pareciam inúteis. Deixaria o baú vazio e limpo para que pudesse reiniciar o processo de armazenamento de memórias. Começaria de novo. Ao terminar sua tarefa pegou uma enorme caixa de papelão e começou a jogar cada item dentro da caixa. Não queria mais a boneca, o abajur, as agendas. Porque nada ali tinha importância. Estava cansada de guardar coisas sem importância. E, no vai e vem de sua arrumação, algo lhe caiu em mãos. Um cartão. Envelope lacrado. Datado de. Era bem antigo. Como pude ter me esquecido de abrir este cartão? Por que não o vi? Sentiu-se curiosa porque, enfim, havia encontrado algo inédito dentro do baú. Era enfim o tesouro que buscara. Rasgou o envelope com a mesma velocidade que uma criança se desfaz da embalagem de um presente. Sorriu novamente. O cartão era azul e havia nele alguns desenhos em relevo de nuvens e um sol muito dourado. Abriu o cartão. Havia palavras ali. Muitas palavras que nunca haviam sido lidas. Apenas a pessoa que escreveu este cartão leu estas palavras, ela pensou. Estou tocando um tesouro que apenas uma pessoa tocou. Estourou em riso sua boca e seus olhos liam cada palavra escrita no papel colorido. Ao terminar de ler o conteúdo do cartão, devolveu-o ao envelope e o depositou no fundo do baú vazio. Ela havia encontrado finalmente o início de uma vida que recomeçaria ali, ao libertar das memórias e ao construir de uma nova fronteira de linhas que costuram a vida. Quanto à caixa de coisas retiradas do baú, deixou-a na calçada. Alguém poderia ver alguma importância naquele passado que, para ela, chegara ao fim.










23 junho 2012

as mãos de bernardo












Olga, me dê sua mão. Eu ajudo você. Eu não tenho mais idade para isso, Bernardo. Faz muito tempo. Estou cansada. E já viemos de tão longe. Largue de se enxergar velha, Olga. Você está bem. Eu olho para você e vejo a mulher que sempre foi. Forte, decidida, minha fúria para enfrentar os dias. Pare com isso, Bernardo. Eu não sou mais aquela mulher. Eu mudei. Porque o tempo muda as coisas. Eu conheço o que vejo quando me olho no espelho. E vejo uma Olga diferente. Você sabe o quanto mudei. Não suporto mais as brisas fortes, os ventos, a força, a continuidade das coisas. Eu mal me suporto, Bernardo. Você está errada quando diz estar envelhecida, Olga. É apenas uma forma de se ver. Olhe bem suas mãos. Repare em suas unhas. Veja como estão belas assim como sempre estiveram belas suas vértebras, seus belos lábios, sua paz atormentada, Olga. Por que insiste em me levar a fazer coisas que não consigo, Bernardo? Eu não agüento mais o peso de tudo. E não quero que segure minhas mãos porque me sentirei ainda mais velha e desarraigada de minha juventude. Qualquer movimento, Bernardo, me cansa. E minhas pernas não suportam. Minha coluna não enverga mais ao ponto de me fazer mover meus músculos em tantas formas. Eu estou inadequada para isto, Bernardo. Inadequada, Olga? Você jamais estará assim. Ontem você conseguiu alcançar alturas que você dizia não poder mais. E isto não será tanto esforço para nós. Faremos os dois. Unidos. Como sempre estivemos. Quantos anos faz, Bernardo? Para que saber do tempo, Olga? Apenas olhe para mim, segure minhas mãos e eu levo você. Como se fosse uma dança. Um casal em danças. Olga, não chore. Você é tão forte. Vejo explodir dentro de você todas as forças necessárias para continuar vivendo. Pare de chorar esse lamento sem motivos, Olga. Olhe para mim. Isto. Dentro de meus olhos. Você está sorrindo, Olga. Você sorri porque sabe que estou certo. Vamos. Eu estou ao seu lado. Dê-me suas mãos.

E os dois octogenários atravessaram juntos a avenida em contramão.








01 junho 2012

doralice















Good People by Jack Johnson on Grooveshark










Muito lindo o carinha que peguei. E eu o levei pra minha casa, viu? Lindo de tudo. Ficou sentadinho na varanda ouvindo Jack Johnson enquanto enrolava cigarrinho pra fumar e ficar solto. Cheguei perto dele e ele foi logo me enroscando pela cintura. Arrepiei toda. E a gente fumou junto. Tão romântico fumar baseado com um carinha lindo perto da gente. Compartilhar saliva, vontade, fome... Aí rolou o clima da risada. Ele ria de mim e eu ria de tudo. Tão alegrinha. E satisfeita. Sentei no colo dele e vaguei à cavalinho. Trotando em cima do carinha que ria e cantarolava em inglês "para onde foram todas as pessoas boas?". Que frio na barriga, meu deus. Eu quase não conseguia acreditar que era eu ali, depois de tempos sozinha, em tão perfeita companhia, tão preenchida. O cara era lindo mesmo. E então veio beijo. Língua com língua e larga vertigem no céu da boca. Toda dormente eu me deixei levar. Vai, carinha, deixa eu te amar pro meu corpo ficar odara. Eu cantei, não pensei, não nada. A noite foi caindo pela madrugada e eu perdida no olhar do cara que eu havia trazido pra casa. Tiro a roupa, tira você também, tira tudo, eu não tenho pudor algum, eu não sei dizer, eu acho que conheço você de outro lugar, não? Amor pra sempre? Acredito sim. Acredito em tudo. E vai e vem e sobe e não desce mais senão ele explode. O carinha me olha no olho e outro baseado baseia o ato. Tão bom olhar você. Mais e mais dentro de mim e tão forte. De onde é o barato? Ninguém mais usa essa linguagem. Não? Agora é assim. Vocabulário novo eu aprendi. Vertigem na zona periférica. Você tem vergonha se eu disser isso? Eu não. Diz. Digo. E foi dizendo uma narrativa pornô-romântica de toda categoria. Outro baseado e um gosto estranho. Ligo pra nada. Sedenta que estou faço até biquinho. Estou gemendo muito alto? Fala. Estou? Nada. Relaxa. É só na manha. Assim. Quietinha. Silêncio e beijo. A noite inteirinha de beijo e tudo. Aliás, é desta forma que eu lembro da história. "E o resto?" pergunta o delegado da 24ª D. P. E o sangue? E o corpo? E quem disparou primeiro? Eu respondi nada. Fiquei calada. O carinha ainda zoava na minha cabeça como se fosse um sonho de gente que sonha acordada.