09 janeiro 2012

monogamia e outras quinquilharias












Como prender em uma redoma uma planta carnívora e ainda esperar que ela sobreviva? Resposta sempre negativa. Nascemos, crescemos, reproduzimos (?) e fim. Esta é a nossa história. Talvez tenha sido assim um dia. Mas hoje, em nosso tempo, nos últimos mil anos ou mais, não vivemos desta forma. Nós queremos o prato cheio e sortido. E, mesmo que provemos todas as iguarias, nada irá nos saciar. Não nos contentamos mais com a sobra de um dia de trabalho e sexo comum 1 + 1 = 2 à luz de um abajur. João conheceu Maria, casaram-se, tiveram dois filhos, João descobriu a beleza da vizinha e Maria se apaixonou pela mulher da padaria. História confusa, não? Talvez seja confusa para uma criança. Mas não para nós, adultos, cheios de fome. Nós sabemos exatamente o que estamos fazendo. Será mesmo que sabemos? Todo mundo trai ou será fator isolado? Traição é algo que só acontece na casa ao lado? O que vejo e presencio e vivencio é uma fome de quem nunca teve na barriga um alimento sequer. É fome de amor, fome de companhia, fome de novidade, fome de alguém que nos diga coisinhas boas de ouvir, novas mãos pelo corpo porque as antigas estão calejadas e já perderam o efeito (Toda tabuada decorada se torna cansativa). O novo é sempre melhor. O outro é mais especial (e maior). E comida de casa não enche barriga. Infringir a lei é nossa atitude favorita. Pensei nisso ao ler uma publicação de uma amiga no facebook. Não pensei duas vezes: curti. É isso que fazemos nos dias de hoje para provarmos que aprovamos. A gente curte. Pensei em monogamia e lembrei de minha mãe chorando ao ler as cartas das amantes de meu pai. Uma mulher de meu tempo não choraria. Ela sairia à caça, ou pediria divórcio ou tentaria, no meio de muitas ameaças e brigas, conviver com a traição. Ninguém mais aguenta ser traído porque traição enche nossa boca de raiva e é preciso revidar. Ninguém mais suporta ficar em casa esperando o amor passar. Nós preferimos ir às ruas. Nunca vi tanta gente à caça quanto tenho visto nos últimos tempos. Eu saio (quase sempre) e vejo os olhos sedentos de todo mundo querendo comer todo mundo. Ontem estive em um bar de minha cidade e, embora avoada de bebida, percebi olhares e revides e disputa. É muita gente querendo gente. No meio de toda a confusão de vozes e música, pessoas se beijavam e depois beijavam outras pessoas e beijavam mais e se engoliam e, queira deus que tenham se comido, porque não há nada pior do que desejar e acabar de mãos vazias. Mas a questão que me faz penar em busca de uma resposta é: O que queremos de verdade? Queremos amor (que nada tem a ver com o sexo)? Queremos afeto (que nada tem a ver com amor)? Ou queremos provar que é de nossa natureza viver abocanhando uns aos outros porque a nossa liberdade nos permite? Que comportamento é este o nosso? Talvez seja tudo fruto da solidão. Talvez seja culpa da igreja católica. Talvez seja questão de tempo. Ou talvez seja pelo simples fato de sermos animais racionais, absurdamente emotivos e carnais, e nos sentimos quase sempre sozinhos mesmo em camas compartilhadas. Casamentos, divórcios e amores à parte, monogamia é questão de escolha: ou você cede e aceita caminhar a dois ou então parte pro mundo e come tudo com as mãos. Entre as duas alternativas, eu escolho a terceira: esta condição que faz de mim uma mulher que beija e acredita que uma noite de orgias não vai resolver nenhum de meus problemas. Porque o tesão passa. A febre um dia se acalma. Solidão sempre haverá mesmo que a gente se doe aos ventos. Eu apenas não quero chegar ao fim de meus dias com uma coleção de fotos de tempos remotos, de beijos falsos e sexo anestesiado de mentira. Sou mulher por outros séculos iludida. Amor de mão única não acontece somente na novela das sete. E, hora ou outra, cada um tem o amor que merece. Ou a solidão que de nós se alimenta e cresce.









Image by ARoulette